sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A Imaculada Concepção de Maria?


A doutrina da Concepção (ou Conceição) Imaculada de Maria diz que desde o primeiro momento da concepção de Maria, ela foi preservada do pecado original. De acordo com o Catolicismo Romano, Maria foi concebida sem pecado, era cheia de graça, pois Jesus, nosso Salvador, deveria ser concebido sem pecado.
Antes de começar, esse texto não tem o intuito de ofender a ninguém. É de fato um incomodo quando católicos dizem que Maria esta em igualdade com Cristo na questão de pecados, ou que nós deveríamos crer nisso pois "foi a crença de toda a igreja por dois mil anos" e etc. Se você for um buscador da verdade sincero, você vai ler material com argumentação oposta à sua.

A Imaculada Conceição de Maria?


Problemas filosóficos


Se Maria foi concebida sem pecado para que Cristo fosse concebido sem pecado, isso nos levaria a concluir que a mãe de Maria também teria que ter sido concebida sem pecado, para que Maria fosse concebida sem pecado. E então, isso levaria a crer que a avó de Maria foi concebida sem pecado, para que a mãe de Maria fosse concebida sem pecado, para que Maria fosse concebida sem pecado. Mas isso levaria a crer que a bisavó... até Eva.
Claramente, isso é absurdo. Como Tomás de Aquino notou:

Que honra nós deveríamos crer em atribui à Maria esta honra que deve haver em sua concepção [...] que foi anterior ao seu nascimento? Porque sem essa concepção, nem o seu nascimento deveria ser honrado. Então, diríamos dos outros, de acordo com o seu raciocínio, que deveríamos manter que deveremos possuir festividades em honra dos pais dela. Essa é a lógica. Então, seria necessário honrar os avós dela, e os bisavós dela e não haveria fim. Haveriam festividades sem numero na terra e ela seria convertida em um paraíso. (Citado por Walter Martin em The Virgin Mary | Protestant vs Catholic | Walter Martin vs Mitch Pacwa, https://www.youtube.com/watch?v=QV36Vv2crQc (23:50))


Um argumento que pode aparecer é: "Bom, você realmente crê que Deus ficou no ventre de uma pecadora?" Bom, sim! Ele ficou em um mundo de pecadores. Sendo Deus, Ele não iria se corromper no ventre de uma pecadora.
Uma outra resposta poderia ser a de que não creem que a mãe de Maria precisava ser sem pecado, pois ela mesma foi "protegida" no ventre de sua mãe, que tinha pecado. Mas isso só acaba com a própria argumentação católica. Se Maria podia ser preservada no ventre de sua mãe, então por que não o Senhor do universo? Poderíamos também usar de argumentos psicológicos como, "você acha mesmo que a mãe do Salvador ficou no ventre de uma pecadora?" para reverter o argumento.

Os Pais da Igreja, os Papas e a História


Tertuliano, em 215 d.C., disse:

Apenas Deus não possui pecado. O único homem que não possui pecado é Cristo; pois Cristo também é Deus. (The Soul 41:3)

Eusébio, no terceiro século, disse:

Ninguém está isento da mancha do pecado original, nem mesmo a mãe do Redentor do mundo. Só Jesus achou-se isento da lei do pecado, mesmo tendo nascido de uma mulher sujeita ao pecado. (Teófilo Gay, Dlcclonârlo de Controversia, Junta Bautista de Publicaciones, Buenos Aires, p. 423)

Clemente de Alexandria disse:

O Verbo, Jesus Cristo, apenas Ele, foi nascido sem pecado.

Agostinho disse:

Ele, Cristo, apenas ele foi feito homem, mas mantendo-se Deus nunca teve qualquer pecado nem teve da carne do pecado. Apesar d’Ele ter recebido a carne do pecado de Sua mãe.

Maria, filha de Adão, morreu por causa do pecado; e a carne do Senhor, nascida de Maria, morreu para apagar o pecado. (Santo Agostinho, Enarr. em Salmos 34:3. Rev. Ricardo Federico Littledate, Razones Sencillas contra los Errares Y Ias Innovaciones dei Romanismo, p. 16.)

Santo Ambrósio disse:

Jesus foi o único a quem os laços do pecado não venceram; nenhuma criatura concebida pelo contato do homem e da mulher foi isenta do pecado original; só foi isento Aquele que foi concebido sem esse contato e de uma virgem, por obra do Espírito Santo. (Dlcclonârlo de Controversia, p. 423)

Santo Anselmo disse:

Mesmo sendo Imaculada a Conceição de Cristo, não obstante a mesma virgem, da qual ele nasceu, foi concebida na Iniquidade e nasceu com o pecado original, porque ela pecou em Adão, assim como por ele todos pecaram. (Walter M. Abbott, S.J.: The Documenta of Vaticano II – Guild Press)

Boaventura disse:

Todos os santos que fizeram menção deste assunto com uma só voz asseveraram que a bendita virgem foi concebida em pecado original.

Pedro Lombardi disse:

Mas essa é a pergunta, em que relato e de onde é que Maria foi concebida sem o pecado original? Nós dizemos que isso era impossível.

Melchior Cannas:

O dogma que ensina que a Virgem abençoada era livre do pecado original não foi entregue em nenhuma parte das Escrituras Sagradas!

Santo Antonino disse:

Se as Escrituras forem devidamente consideradas, e os dizeres dos antigos e modernos doutores que foram devotos da gloriosa Virgem – é pleno da palavra deles que ela foi concebida em pecado. 

Até mesmo alguns Papas rejeitaram esse dogma. De acordo com historiador e teólogo Philip Schaff, sete Papas diferentes ensinaram doutrinas contrárias ao dogma da concepção imaculada. Esses eram Leão I, Gregório I, Inocêncio III, Galásio I, Inocêncio V, João XXII, Clemente VI. (Philip Schaff, Creeds of Christendom, 1:123)
O Papa Leão I disse:

Portanto, entre os filhos dos homens, apenas o Senhor Jesus foi nascido inocente, porque apenas ele foi concebido sem a polução da concupiscência carnal. (Walter Burghardt em Juniper B Carol, Mariology, 1:146) 

Papa Inocêncio III, em 1216 d.C. disse:

Ela (Eva) foi produzida sem pecado, mas ela produziu o pecado, ela (Maria) foi produzida no pecado, mas produziu sem pecado. (De festo Assump., sermão 2)

Papa Gelásio I disse:

Pertence apenas ao cordeiro imaculado a ausência de pecado. (Gellasii papae dicta, vol. 4, col 1241, Paris, 1671)

Ironicamente, Gelásio I, no final do quinto século condenou a primeira referencia a assunção de Maria como sendo herética. (Wiiliam Webster, "Did I Really Leave the Holy Catholic Church?", em John Armstrong, Roman Catholicism, p.294)
Ludwig Ott, apologista católico admite que “Nenhum dos Pais Gregos ou Latinos explicitamente ensinou a Concepção Imaculada de Maria. [...] os Pais Gregos (Origenes, Basilio, João Crisostomo, Cirilo de Alexandria) ensinaram que Maria sofreu de culpa pessoal, como ambição e vaidade.” (Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma, p. 201, 203)
O historiador J. N. D. Kelly também listou outros que admitiram imperfeições em Maria, como Irineu, Tertuliano e Santo Hilario. (J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines, p. 493, 496)
Mas ainda há bem mais. De acordo com S. Lewis Johnson:

Anselmo acreditava que Maria havia nascido com o pecado original. Bernardo de Claraval contendia que ela foi concebida com o pecado original, mas purificada antes do nascimento. Tomas de Aquino e os Dominicanos criam nessa visão, mas Duns Scotus popularizou a visão de que Maria foi concebida sem o pecado original, e sua visão eventualmente prevaleceu, apesar do Papa Sisto VI em 1485 e o Concilio de Trento em 1546 terem deixado esse assunto como não-resolvido. (S. Lewis Johnson, “Mary, the Saints, and Sacerdotalism”, em John Armstrong, Roman Catholicism: Evangelical Protestants Analyze What Divides and Unites Us, p. 121)

Apologista católico citado acima, Ludwig Ott, explica a origem do dogma:

No inicio do décimo segundo século, o monge Britânico Eadmer, um pupilo de Santo Anselmo de Canterbury, e Osbert de Clare, defenderam a Concepção (passiva) Imaculada de Maria, quer dizer, sua concepção livre do pecado original. Eadmer escreveu o primeiro monógrafo sobre esse assunto. Por outro lado, São Bernardo de Claraval, na ocasião da instituição da Festival das Luzes (em torno de 1140), alertou que essa era uma inovação sem fundamento, e ensinou que Maria foi santificada apenas depois da concepção, quer dizer, quando ela já estava no ventre (Ep. 174). Sob a influencia de São Bernardo, os principais teólogos dos décimo segundo e décimo terceiro séculos (Pedro Lombarde, Santo Alexandre de Hales, São Boaventura, São Alberto o Grande, São Tomas de Aquino; S. th III 27, 2), rejeitaram a doutrina da Concepção Imaculada.  (Fundamentals of Catholic Dogma, p. 201)

Schaff explica como São Bernardo negou essas festividades “como uma falsa honra à Virgem real, que ela não precisava, e como uma inovação não-autorizada, que era a mãe da temeridade, a irmã da superstição, e a mãe da leviandade. Ele urgiu contra isso que não foi sancionado pela Igreja Romana. Ele rejeitou a opinião da Imaculada Conceição de Maria como contraria à tradição e derrogatória à dignidade de Cristo, o único ser sem pecado, e perguntou aos Canons de Lyons uma questão pertinente, ‘Onde eles descobriram tal fato escondido? Com a mesma base que eles apontam festivais para a concepção dos pais, avós, e bisavós de Maria, e assim por diante, sem fim.’ Isso não diminui, mas na verdade aumenta o peso de seu protesto, que ele mesmo era um entusiasta elogiador de Maria, e um crente no seu nascimento sem pecado. Ele colocava ela nesse respeito em par com Jeremias e João Batista. (Schaff, ibid, 1:121-122)
Mas sempre existirá aquele argumento "Apenas a Igreja fundada por Jesus pode interpretar os escritos da Igreja..." o que, é claro, é raciocinio circular. 

Refutação de argumentos bíblicos


Existem pelo menos três textos que sempre são usados por católicos para tentar sustentar essa doutrina: Gênesis 3:15; Lucas 1:28 e 1:42.

Gênesis 3:15


E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.
Gênesis 3:15

Existem dois argumentos feitos por católicos na história: Primeiro, dizem que o texto diz que Maria ferirá a cabeça da serpente. Esse argumento falha, por alguns motivos. Primeiro, quando se faz hermenêutica de um texto, deve-se avaliar o contexto. Todo o contexto é sobre Eva, e a fala de Deus é dirigida para Eva. Jerônimo, na Vulgata, sua tradução da Bíblia para o Latin, traduziu a palavra esta para ela. Porém, apesar dessa ser uma tradução valida, ela não esta de acordo com o entendimento judaico sobre essa profecia messiânica. É verdade que a palavra hebraica הוּא [hu] pode ser traduzida tanto por ele quanto por ela. Mas a Septuaginta traduziu essa palavra por αὐτος [autos] que esta no masculino. Além disso, de acordo com os estudiosos de hebraico Francis Brown, S. R. Driver e Charles Briggs, a melhor tradução para hu em Gênesis 3:15 é ele. (The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon Coded with Strong’s Concordance Numbers, p. 215)
Até mesmo a enciclopédia católica admite:

A tradução “ela” da Vulgata é interpretativa; ela originou-se depois do quarto século, e não pode ser defendida criticamente. O conquistador da semente da mulher, que deveria esmagar a cabeça da serpente, é Cristo. (Charles George Hermann, The Catholic Encyclopedia, Vol. 7, p. 675)

Uma outra interpretação católica é a de que, como a semente pisará a cabeça da serpente, então a mulher que terá essa semente deve ser a mulher referida no texto. Como a semente é Jesus, então a mulher deve ser Maria.
Esse argumento parece estar concentrado em sentidos muito vagos das palavras. A palavra hebraica para semente é זָ֫רַע [zera] que não significa, necessariamente, o filho ou filha de uma mulher. Ela pode se referir a algo de gerações, como um descendente. Esse é o caso em varias passagens, como em 2 Samuel 22:

Ele é a torre das salvações do seu rei, e usa de benignidade com o seu ungido, com Davi, e com a sua descendência [zera] para sempre.
2 Samuel 22:51

Já que o contexto imediato de Gênesis 3:15 implica que a mulher seja Eva, e a palavra zera não implica necessariamente um filho, fica evidente que seria um descendente de Eva que esmagaria a cabeça da serpente.
Em todo caso, vamos assumir que, por algum motivo do além, essa passagem fale de Maria. Onde, como e por que ela implicaria que Maria foi concebida sem pecado? Não da nem ao menos pra começar a pensar nisso com o texto em mãos.

Lucas 1:28


E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres.
Lucas 1:28

A Vulgata e versões católicas em geral trazem a palavra agraciada como cheia e graça:

Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.
Lucas 1:28

As palavras em grego para “cheio de graça” são πλήρης χάριτος [plérés ksaritos]. Elas não aparecem no texto de Lucas 1:28. Elas aparecem em João 1:14, para se referir a Jesus, e em Atos 6:8, para se referir a Estêvão.

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.
João 1:14

Estêvão, cheio de graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo.
Atos 6:8

Claramente Jesus não possuía pecado e foi dito como “cheio de graça”. Mas Estevão não era sem pecado. Sabemos pelo contexto (v. 3 e 5) que ele era “cheio de graça” por estar “cheio do Espírito e de sabedoria”.
Em Lucas 1:28, a palavra é κεχαριτωμένη [kexaritomena], que significa “altamente favorecida”. A tradução “cheia de graça” vem da Vulgata, que traduz por ave gratia plena. O que é uma tradução incorreta. Até mesmo a Catholic New Ametican Bible traduz como favored one [“favorecida”].
Em todo caso, de novo, se admitirmos o “cheia de graça”, ainda assim não implica que Maria foi concebida sem pecado.
Apologistas católicos argumentam que como a palavra grega kexaritomena esta no pretérito perfeito, isso implica que Maria já era cheia de graça desde sua concepção. Porém, apesar do termo grego kexaritomena estar no pretérito perfeito, isso não significa que ela era sem pecado desde sua concepção. Como Eric Svendsen diz:

O pretérito perfeito fala apenas do estado atual do sujeito sem a referencia de quanto tempo o sujeito esteve nesse estado, ou vai estar nesse estado. (Eric Svendsen, Who is my Mother? : The Role and Status of the Mother of Jesus in the New Testament and Roman Catholicism, p. 129)

De fato, a mesma palavra é usada na Septuaginta no apócrifo Eclesiástico, que esta presente na Bíblia Católica:

Não vês que a palavra é melhor do que um rico donativo? O homem caridoso [kexaritomeno] une as duas coisas.
Eclesiástico 18:17

Devemos concluir que o homem referido é sem pecado desde sua concepção?
James Akin, escritor católico, admite:

Esse é um termo grego [kecharitomene] que você poderia usar na mesma formação gramatical para qualquer outro que não seja concebido imaculadamente e a sentença ainda faria sentido. (Citado por James White em Alpha and Omega Ministries, Jimmy Akin: The Immaculate Conception has to be Read into Luke 1:28, http://www.aomin.org/aoblog/index.php/2011/05/09/jimmy-akin-the-immaculate-conception-has-to-be-read-into-luke-128/)  

De fato, o contexto implica que ela foi favorecida por causa do que ela recebeu naquele momento. Quer dizer, o privilégio de carregar o Filho de Deus em seu ventre. Isso fica mais explicito nos versos seguintes:

Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus.
E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus.
Lucas 1:30-31

Lucas 1:42


E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.
Lucas 1:42

Apenas por que Maria é dita como “bendita”, ela, portanto, é sem pecado. Isso segundo a exegese católica. Podemos dizer que esse argumento, assim como os outros, é bem forçado.
A palavra grega para “bendita” é εὐλογέω [eulogeó], que significa “abençoada”. Por mais óbvio que possa ser, não há ligação entre ser abençoado e ser sem pecado. A Bíblia fala de outros abençoados por Deus (Efésios 1:3; Hebreus 6:14) e isso não implica que essas pessoas não possuíam pecado.
Pode ser argumentado que essa passagem possui um paralelismo entre a “bendita Maria” e “bendito o seu Fruto”. Desse modo, a benção de Maria deveria ser a mesma de seu Fruto (Jesus). Porém, esse paralelismo esta presente porque Isabel esta cantando uma canção poética, não porque um é abençoado da mesma forma que o outro. Como William Hendriksen colocou:

A estrutura paralelística dessas linhas, tão característica da poesia Hebraica e Aramaica, a forma balanceada e o conteúdo das clausulas bem organizadas, por exemplo:

Bendito é...
E bendito é...
E bendito é...

Marcam eles como sendo de fato um poema; ou se preferir, uma canção, a canção de Isabel. “Canção” aqui significa composição metafórica. (William Hendriksen, An Exposition of the Gospel of Luke, New Testament Commentary, p. 95)

Cristo também parece não apoiar a veneração do ventre que o carregou:

E aconteceu que, dizendo ele estas coisas, uma mulher dentre a multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste.
Mas ele disse: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.
Lucas 11:27,28

A palavra grega para “antes”, é μενοῦνγε [menunge] que tem a ideia de oposição ao que é dito. Uma tradução mais literal seria “pelo contrário!” Desse modo, ele parece estar, como disse Svendsen, “rejeitando o louvor da mulher à Maria” (Svendsen, ibid, p. 156). Se a interpretação católica fosse viável, deveríamos pelo menos esperar que Jesus reforce a ideia da mulher. 

Refutação Bíblica


Daqui, podemos ir para os textos que mostram que Maria era uma pecadora como todo mundo. O primeiro esta no próprio contexto dos anteriores:

Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador;
Lucas 1:46,47

Note a admissão de Maria de sua necessidade de um Salvador. Só precisa de Salvador quem tem pecados. Católicos vão responder dizendo que a pecaminosidade dela foi encoberta pelo sacrifício futuro de Cristo na Cruz. Porém, o teólogo e professor de história da Igreja, James White responde:

Maria fala de Deus como seu Salvador. Deveríamos realmente imaginar que ela disse essas palavras com um entendimento de um dogma que não seria definido pelos próximos 1,800 anos ou mais? Ela teria de ter um entendimento pessoal de sua própria impecaminosidade experiencial e uma aplicação de preferencia dos méritos de Cristo para ela dizer essas palavras da mesma forma que os teólogos Católicos Romanos gostariam que nós as entendêssemos. Dado que é obvio que ela não entendia completamente a obra de seu Filho na Cruz, como ela poderia ver ela mesma de tal forma? (James White,  Mary – Another Redeemer?, kindle pos. 1842)

O próximo texto que podemos ver esta no capítulo seguinte, que diz:

E quando o viram, maravilharam-se, e disse-lhe sua mãe: Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos.
E ele lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?
Lucas 2:48,49

O texto indica Maria como se estivesse repreendendo Jesus, como uma boa mãe faz quando seu filho... bem, esta “perdido” em uma cidade. Estudioso Católico Raymond Brown admite que “a reclamação de Maria no v. 48 parece ser uma repreensão a Jesus.” (Raymond Brown, Mary in the New Testament, p. 160).
Hendriksen explica a enfase na repreensão de Maria:

A exclamação de Maria começa com a palavra Filho ou Criança. Não é tão não-natural, quando conectado com ocasiões emocionais profundas, que uma mãe, mesmo hoje em dia, se dirige ao seu filho exclamando “Criança!” mesmo que esse filho ou filha tenham chegado à idade de 12 ou mesmo 20.
A palavras, “Por que fizeste isso para conosco?” etc., revelam um tom de surpresa, repreensão¸ e angustia. Estava Maria se esquecendo, por um momento, o que Gabriel disse a ela sobre essa criança? Se ela tivesse refletido nas palavras de Lucas 1:30-35, teria ela ficado tão surpresa e [...] quase indignada? (Hendriksen, ibid, p. 185)

Por que isso é importante? Porque repreender a Deus é um pecado:

Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos;
Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.
Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse.
Judas 1:14-16

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?
Romanos 9:20

Esses textos demonstram que murmurar contra Deus, ou responder contra Deus são pecados. Do mesmo modo, a repreensão de Maria deve ser tomada como pecado.
Um outro pecado cometido por Maria, foi o de chamar Jesus de “fora de si”:

Então Jesus entrou numa casa, e novamente reuniu-se ali uma multidão, de modo que ele e os seus discípulos não conseguiam nem comer.
Quando seus familiares ouviram falar disso, saíram para apoderar-se dele, pois diziam: "Ele está fora de si".
Marcos 3:20,21

Sabemos que Maria estava entre esses familiares, pois o contexto diz isso:

Então chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. Ficando do lado de fora, mandaram alguém chamá-lo.
Havia muita gente assentada ao seu redor; e lhe disseram: "Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram".
"Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? ", perguntou ele.
Marcos 3:31-33

Mesmo que o texto não implique que Maria acreditava que Jesus estava fora de si, ela seguiu o que ocorria a sua volta. Como William L. Lane colocou:

Sua presença com os irmãos de Jesus no Cap. 3:31, porém, indicam que a fé dela era insuficiente para resistir a determinação de seus filhos de conter Jesus e levá-lo para casa. (William L. Lane, The Gospel According to Mark: The English Text With Introduction, Exposition and Notes, p. 139)

A pecaminosidade de Maria também esta colocada nas cartas de Paulo. Paulo falou da natureza pecaminosa do ser humano no livro de Romanos:

Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.
Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;
Romanos 3:23-25

Pode ser respondido que existem claras exceções ao “todos” de Paulo. Adão e Eva nasceram sem pecado, e Jesus obviamente não possui pecado. Desse modo, não é absurdo pensar que Maria não seja uma exceção à regra.
Porém, tais menções os relatos da inpecaminosidade de Adão e Eva, inicialmente, assim como o de Cristo, são mencionados na Bíblia, enquanto a de Maria não esta em parte alguma. De fato, o próprio texto do versículo 23 diz que Cristo é a solução para o problema do pecado.
Sabemos também que Paulo esta se referindo a todos os seres humanos, e não a “humanidade em geral”, porque ele diz:

Como está escrito :Não há um justo, nem um sequer.
Romanos 3:10

Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.
Romanos 3:20

Em “todos pecaram”, a palavra grega para “pecaram” é hemarton que é uma forma aoristo que resume tudo. De acordo com Douglas Môo, esse aoristo esta “juntando todos os pecados das pessoas no passado em um único ‘momento’” (The Epistle to the Romans, New International Commentary on the New Testament, p. 226 n. 32) Desse modo, o texto não pode estar falando do pecado original e nossa participação nisso, mas sim dos pecados individuais. Dessa forma, mesmo se Maria estivesse isenta do pecado original, o texto ainda iria se referir a ela.
O Apostolo Paulo ainda diz:

Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.
Romanos 5:12

A palavra grega para “mundo” é κόσμον [kosmon] que significa mundo, de modo a se referir a todos os habitantes. E pra “homens” é ἀνθρώπους [anthropos] que “homem”. Claramente, Paulo esta dizendo que todos os seres humanos do mundo pecaram.
Paulo também diz:

Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem.
Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.
1 Coríntios 15:21,22

Todos tem o pecado original, exceto Cristo.

Conclusão


Nem filosofia, nem tradição, nem as Escrituras dão suporte para a crença de que Maria foi concebida sem pecado. De fato, os textos bíblicos usados pelos católicos não levam a nenhuma possível conclusão sobre uma imaculada concepção. Além disso, existem razões para crer que a Bíblia descreve Maria como uma pecadora que precisava de um Salvador.
Tal crença também foi bem disputada entre os Pais da Igreja e outros grandes nomes da história da Igreja. Tomás de Aquino demonstrou o absurdo de tal dogma, e outros demonstraram crença oposta a essa doutrina. Você pode listar uma série de pessoas na história que foram a favor. Mas o fato é que essa não foi "uma crença unânime por dois mil anos.”

Fontes


WHITE, James, Mary - Another Redeemer?, Bethany House Publishers, 1998.

GEISLER, Norman, RHODES, Ron, Resposta às Seitas: Um manual popular sobre as interpretações equivocadas das seitas, CPAD, 2000

Bíblia Apologética com Apócrifos, Instituto Cristão de Pesquisas, 3ª ed. 2015

CARM: Christian Apologetics Research Ministries, Roman Catholicism, https://www.carm.org/roman-catholicism

Reformed Apologetics, The Bible does not teach Mary's Immaculate Conception, http://www.reformedapologeticsministries.com/2014/03/the-bible-does-not-teach-marys.html

CACP: Centro Apologético Cristão de Pesquisas, O dogma da Imaculada Conceição de Maria, http://www.cacp.org.br/o-dogma-da-imaculada-conceicao-de-maria/ 

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