domingo, 16 de agosto de 2020

Minha história pessoal e como conheci meu Deus

 

A maioria dos que acompanham o blog não me conhece pessoalmente. Por conta disso e por conta da minha necessidade recente de expressar o que penso sobre alguns problemas pessoais, vi a oportunidade (já que esse é meu blog pessoal) de escrever *um pouco* sobre minha vida pessoal. Pretendo compartilhar como são as relações da minha família, meus amigos e como conheci meu Deus.

Eu não nasci em uma família cristã. Quando digo “família cristã”, não me refiro àquele sentido de “culturalmente cristã”, que possui apenas os mesmos valores morais, ou ao brasileiro católico de nome tradicional. Minha família via importância ritualística nos sacramentos católicos e em participar da Missa, mas nem meu pai, nem minha mãe, nem meus irmãos entregaram a vida a Cristo e se preocuparam em ser mais santos. Por isso, digo que minha família não é cristã de fato, é apenas o brasileiro católico tradicional.

Minha família primária era composta por mim, meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho e meu irmão mais novo. Tínhamos um “tio postiço” que era como se fosse da família. Na verdade, em termos de intimidade emocional, eu era muito mais apegado a ele do que a muitos outros parentes. Poderíamos dizer que ele era um segundo pai pra mim. Além destes, eu tive uma irmã mais velha a qual não conheci. Ela faleceu com alguns meses de vida (ou talvez com pouco mais de 1 ano, não tenho certeza).

Nunca fui muito interessado em religião. Na verdade, em toda a minha infância e adolescência eu tive meio repulsa por religião e (ironicamente) por estudar. Reflexos do meu desgosto prévio nos estudos talvez tenham sido percebidos nos primeiros textos do blog, onde diversos erros de redação eram cometidos (erros de acentuação, concordância, etc.). Quanto à religião, eu achava os rituais da igreja católica um saco. Afinal, eu era uma criança, e não via nenhum sentido em ler textos, ajoelhar, levantar e comer a “bolachinha”, como eu chamava na época.

Nessa fase da infância, minha vida tinha suas peculiaridades. Meu irmão mais velho e eu saíamos bastante com meu tio. Meu irmão e eu éramos fissurados em Cavaleiros do Zodíaco, Shurato, Power Rangers, Jiraya, Jaspion, Black Kamen Rider e todos esses clássicos da TV Manchete. Até hoje eu gosto desse tipo de programa, mas meu irmão deixou de lado com o tempo. E, com certeza, esses programas constroem o caráter da criança bem melhor do que os desenhos infantis de hoje em dia. Minha primeira lembrança com meu irmão foi jogando Super Mario World em seu Super Nintendo.

Com 5 anos meu irmão mais novo nasceu. A partir daí, ele virou meu companheiro em várias atividades. Até hoje jogamos Tíbia, um MMORPG criado pela CipSoft juntos. Nos primeiros anos de sua vida ele não gostava muito de futebol, o que fazia com que passássemos mais tempo juntos enquanto os outros assistiam. Quando ficou um pouco mais velho ele passou a gostar e virou um torcedor do São Paulo. O único jogo que eu consegui assistir inteiro foi um jogo do Palmeiras, mas isso não é muito relevante.

Aos 9 ou 10 anos eu fiz a Primeira Comunhão depois de fazer o “curso” do Catecismo na escola. Para mim era só uma atividade que todo ser humano deveria fazer. Em sentido análogo, podemos dizer que era algo que eu via como atividade essencial, assim como muitos brasileiros acham que torcer para algum time de futebol é algo essencial. Basicamente, de modo mais explícito, fui obrigado a fazer. Como eu era criança, não achei que poderia me livrar disso, então aceitei. Aliás, a professora disse que ao final do “curso” nós iríamos simular o sacramento católico do casamento, e eu queria que meu nome fosse sorteado junto de uma menina que eu admirava. Mas, isso não aconteceu e ela “casou” com outro indivíduo.

Eu nunca fui um cara popular, pelo contrário. Na escola, meu tio era o diretor, meu pai o professor de educação física e minha mãe era a professora de informática. Por conta disso, a escola me dava uma liberdade zero. Bom, isso não me impediu de ser um dos caras mais palhaços da minha turma. Afinal, essa era uma das únicas coisas que me dava atenção positiva por algo que eu fazia na época. Minha família elogiava apenas meus desenhos, já que sempre gostei muito de desenhar.

Quando digo que recebia elogios apenas pelos meus desenhos da minha família, digo isso porque é a única coisa que me lembro que os agradava. Eu nunca recebi elogios por aparência ou qualquer outro ato, apenas por desenhar. Na escola, recebia elogios pelos desenhos também, mas chamava a atenção pelas “graças” que fazia. Afinal, se eu não recebia atenção positiva pela família, eu tinha que receber de fora. Nunca fui encorajado a fazer nada pela minha família.

Dentre meus pais e meu tio, o único que deixava mais explícito que acreditava em mim, pelo menos um pouco, era meu tio. Por conta disso, nunca consegui acreditar muito em mim. Aliado a isso vieram vários outros problemas que destruíam minha autoestima. Eu sempre fui mais gordo do que o normal, o que ocasionou em algum bullying na escola. Meus parentes de longe, para tentarem ser educados, me recebiam com frases como “nossa, como emagreceu!”, mas eu sabia que era mentira. Isso me levou a desconfiar de todo e qualquer elogio que eu recebi na vida. Para piorar, no começo da adolescência meu olho esquerdo deu uma “desviada” para o lado e fiquei estrábico. Imaginem como é ser adolescente com isso.

Mas, mesmo antes disso, eu já sofria com algumas ofensas por parte de colegas. Até hoje eu me lembro de uma menina que sentava na minha frente na sala de aula que, no meio da aula e sem motivo nenhum, virou pra trás e disse “Nossa, Felipe, como você é feio, hein?”. E depois tem gente que duvida da Depravação Total.

Minha confiança em mim mesmo e nos outros não foi algo que teve qualquer melhora por um bom tempo (talvez o que virá a seguir seja expor demais outras pessoas, mas eu não me importo muito e vou falar mesmo assim). Meu pai sempre mentiu muito e sempre teve fantasias muito fortes. Ele é daquele tipo que pensa “vou por coentro no macarrão e dizer que é salsinha, ninguém vai perceber”. Parece uma mentirinha a toa, não? Agora imagine mentiras desse tipo em absolutamente todos os aspectos da vida. Quando eu digo que ele também tinha fantasias muito fortes, eu digo isso porque ele interpreta o mundo de uma forma o torne o “herói injustiçado e perseguido”. Por conseguinte, ele sempre foi muito ciumento no relacionamento com minha mãe, mesmo depois do divórcio. Esse ciúme sempre gerou fantasias muito além do normal, como, por exemplo, dizer que ouviu nossa mãe no telefone e o cara do outro lado da linha perguntava se ela podia falar ou se meu pai estava presente.

Agora, com um pai que tem compulsão por mentir, houve duas consequências: (1) eu e meu irmão mais novo não conseguimos confiar nele; e (2) meu irmão mais velho vive em uma fantasia contando inverdades para o mundo inteiro. O pensamento é mais ou menos o seguinte: eu e meu irmão mais novo pensamos que, se mentir é errado e nosso pai mente bastante, então ele está sempre errado; por outro lado, meu irmão mais velho pensa que nosso pai sempre está certo, como ele sempre mente, então mentir não é errado.

Desde pequeno, meu irmão mais velho tem uma “pira” de dizer que é mexicano. Ele diz coisas como “soy mexicano en mi corazon”. Parecia apenas uma fase boba quando era uma criança, mas isso permanece até hoje. Mesmo com mais de 30 anos, meu irmão vive essa fantasia. Apesar de ser um gênio em geopolítica e relações internacionais (ele tem uma pós em jornalismo internacional e escreveu um TCC de 1044 páginas!), ele mente descaradamente sobre sua nacionalidade. Diz que nasceu em Monterey e que já trabalhou em vários lugares como colunista ou historiador. Também mente sobre seus estudos e tudo mais. Por ter um ciclo social majoritariamente virtual, as pessoas acreditam em tudo que ele diz. Nos últimos 6 ou 7 anos ele tem gostado muito do Irã, o que o levou a aprender Farsi. Ele tem uma grande habilidade em aprender línguas (e nem é pentecostal). Apesar de tudo isso, por não ter desenvolvido nenhuma confiança em si mesmo, ele não teve coragem de encarar a vida adulta e vive nessa fantasia de “mexicano”, debatendo na internet diversos tópicos de geopolítica.

Pelo lado da minha mãe, apesar de termos passado boa parte da infância juntos jogando videogame e fazendo lição de casa juntos, não há muito mais que isso em nossa relação. Em ambos os casos – do lado do meu pai e do lado de minha mãe – eu nunca ouvi um encorajamento, um pedido de desculpas sincero ou um “eu te amo” que não fosse apenas por convenção momentânea. Além disso, os dois lados esperavam que aprendêssemos coisas “no automático”. Poucas coisas sobre a vida adulta nos foram ensinadas por eles. Na verdade, eu mesmo aprendi a lidar com contas e a cozinhar totalmente sozinho.

Três episódios me marcaram muito na infância: o primeiro foi, em vista do bullying da escola, eu falar pros meus pais que estava sofrendo pela vida estar difícil e meu pai rir e dizer “o que é difícil? Ser gordo?”; o segundo foi quando eu pedi ajuda com o dever de casa e meu pai falou com tom irônico “ain, o filhinho quer ajuda com a liçãozinha?” enquanto socava minha televisão; e, por fim, eu dizendo que sentia que ninguém gostava de mim e meus pais dando risada disso.

(Edit: isso não é dizer que meu pai nunca fez nada bom ou não tentou aproximação.  Eu mesmo, após minha conversão tentei me aproximar e ajudá-lo com algumas coisas. Entretanto, seu orgulho e amor por sua imagem sempre estiveram acima de sua vontade de ter uma relação familiar.) 

Em vista disso, você já deve imaginar que a intimidade familiar é inexistente: meus pais não sabem sobre minha vida pessoal, sobre meus amigos, primeira namorada, desejos, planos para o futuro, medos, anseios etc. Não existe nada – absolutamente nada – de intimidade familiar nessa casa. A impressão que dá é que o pensamento sempre foi “dei a vida e pago contar, portanto, sou pai e mando nessa joça”. Um pensamento extremamente primitivo e, na melhor das hipóteses, burro. Esse tipo de pensamento e essas atitudes foram o que fizeram com que eu perdesse muito do respeito pelo meu pai. Apesar disso, ainda o via como meu pai. Por bastante tempo fui mais “próximo” dele do que de minha mãe, pois eu acreditei em algumas de suas mentiras por bastante tempo.

Bom, aos 13 anos eu tive meu primeiro contato com um cristão genuíno: Valter, o Taxista (sim, vou me referir a ele dessa forma). Eu e meu irmão voltávamos quase todos os dias pra casa com o Valter, o Taxista, e ele nos contava as mais variadas histórias de sua vida. Certo dia, ele nos contou sobre sua conversão e sua fé evangélica. Eu fiquei fascinado naquilo por um tempo, pois ninguém em toda a minha vida havia me falado sobre a fé cristã daquela forma. Pouco tempo depois, me lembro de imaginar a minha pessoa conversando com Deus (obviamente, um senhor barbudo) e apertando as mãos dele, como se estivéssemos fazendo um tipo de acordo. Mesmo assim, toquei minha vida normal, mas me lembro de ter sentido uma paz e uma alegria muito marcantes naquele dia.

Valter, o Taxista, continuou sempre nos levando pra casa, até que, no final de 2004, o colégio em que eu estudava fechou. No ano seguinte, fui estudar em um colégio católico, mas tive que mudar de escola no final do ano por conta de notas baixas. Nesse ano eu acabei me tornando meio popular nas duas escolas em que estudei, pois eu comecei a fazer imitações de pessoas famosas, principalmente pela influência que o Pânico na TV tinha. Meus pais não gostavam muito dessas imitações, apenas diziam que eu “parecia louco”. Mas, meus colegas gostavam e, a essa altura do campeonato, isso me importava mais.

Nesse período eu deixei meu cabelo crescer bastante. As pessoas me olhavam e perguntavam se eu era metaleiro. Isso, é claro, teve uma reação dos meus pais. Meu pai mentia continuamente para que eu cortasse o cabelo. Dizia coisas como “olha, eu fui em *tal lugar*, mostrei uma foto sua e me ofereceram 10.000 reais pelo seu cabelo!”, ou “eu ouvi aquelas senhorinhas ali atrás conversando e elas estavam dizendo que não sabiam se você era homem ou mulher!”. Como eu ainda tinha certa confiança em meu pai, na época eu acreditei nisso.

Apesar de acreditar em Deus, minha cosmovisão de adolescência era mais deísta. Mas isso era algo que mudaria eventualmente. No final do Ensino Médio, cortei meu cabelo, o qual foi jogado no lixo por não valer nada. Também fui “obrigado” a prestar vestibular para cursar Design Gráfico, simplesmente por “saber desenhar”. Bom, quem já fez Design sabe que “saber desenhar” não é nem uma condição necessária e nem suficiente para se fazer o curso. Essa foi minha primeira graduação. Não fiz estágio, a faculdade que estudei inventou uma matéria que substituía o estágio para quem não tivesse feito durante o curso. Mesmo assim, uma empresa me chamou para uma entrevista pra estágio. Por não ter a mínima confiança em mim mesmo, eu faltei à entrevista, achando que não era bom para aquilo. Eu gostava um pouco de Design, mas não me motivei a estudar o bastante por achar que não adiantaria muito. Por isso, tentei convencer a mim mesmo e à minha família que não tinha gostado do curso. É claro, isso é só uma manobra evasiva, algo que havia aprendido com meu pai.

No último ano do curso, comecei a cursar teatro profissionalizante. Eu gostava de atuar e queria ser um dublador. Na verdade, depois eu acabei cursando dublagem, mas ainda não consegui me motivar a continuar nesse caminho. Mas isso não vem ao caso agora. Ao final de 2009 eu conheci uma garota no falecido Orkut. Por 2 anos, compartilhamos muito de nossas experiências de vida. Era a única pessoa que parecia ver algo útil em mim e que fazia eu me sentir importante para algo. Como uma amiga próxima, foi a primeira vez que alguém disse “eu te amo” e eu achei ser sincero. Claramente, isso criou uma certa dependência emocional de minha parte, o que ocasionou em uma tristeza profunda em mim por conta do que aconteceu no final. Ela começou a namorar um baixista, e o cara, por ciúme, a impediu de falar comigo e ela concordou.

Depois disso, uma enorme carga emocional negativa caiu sobre mim (essa linguagem parece meio esotérica, mas foi o melhor que consegui agora). Fiquei cerca de 6 meses sem vontade de viver e com muito ódio. Pouca coisa me motivava a continuar vivo e a sorrir. Me lembro de ficar irritado com Deus. Irritado, mas não descrente. Fazia todo tipo de coisa para provocar Deus e mostrar minha indignação: ouvia músicas que ofendiam a Deus e pensava coisas perversas sobre ele. Pensei em várias formas de cometer suicídio, mas nunca puis nenhuma em prática. Como você deve imaginar, minha família não sabe de nada disso. A única pessoa que percebeu minha tristeza foi meu tio, que me ofereceu ajuda psicológica, mas não cheguei a me tratar na época.

Apesar de ter tentado chamar a atenção de Deus por métodos, digamos, negativos, eu também tentei por métodos positivos. Um de meus primos sempre compartilhava no Twitter os tweets da página Leia a Bíblia e, em um desses tweets, a página citou Tiago 4.8 (“Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós”). Por conta disso, segui a página no Facebook e no Twitter e baixei o app Bíblia do YouVersion no meu primitivo iPhone 3gs para tentar “me achegar a Deus”. Nesse app, comecei o plano de leitura diário de 1 ano de leitura da Bíblia e toda noite antes de dormir eu lia a Bíblia (admito que pulei as genealogias e leis detalhadas... certo, eu acho que pulei o Salmo 119 também). Esse movimento de “chamar a atenção de forma positiva” não veio por mim mesmo. Na época eu havia conhecido dois amigos pelo Orkut que eram cristãos. Um deles era moderador de uma comunidade do Nintendo Wii comigo.

Pouco tempo depois meu irmão mais novo, por conta de problemas talvez similares, se tornou ateu. No começo, era um desses ateus toddynho de internet com argumentos “piores que ônibus lotado”. Mas, como eu não tinha treino nenhum em apologética (afinal, nem sabia o que era isso), os argumentos expostos por eles e por seus amigos me pareciam convincentes. Nesse tempo, me tornei agnóstico, mas também pensei em ver o que o outro lado pensava.

Certo dia, a página Leia a Bíblia compartilhou um vídeo do filósofo William Lane Craig, destruindo, demolindo, aniquilando os argumentos do ateu Peter Atkins em um debate. Após esse momento, comecei a devorar os vídeos do Craig: vi seus debates com Atkins, Christopher Hitchens, Sam Harris e outros. É impossível alguém intelectualmente honesto assistir a esses debates e achar que o Craig perdeu.

Bom, você deve saber que, depois disso, eu aceitei que o cristianismo era a verdade absoluta sobre a realidade e me preparei para “estar sempre preparado a responder a qualquer um que pedisse a razão de minha esperança”. Mas, assistindo um dos debates do Craig, uma das coisas que ele disse ao final me chamou a atenção. Craig é um servo fiel de Cristo, e disse ao final de um de seus debates:

Existe o perigo de os argumentos a favor da existência de Deus distraírem a atenção das pessoas com relação ao próprio Deus. Se você busca a Deus com sinceridade, ele se mostrará evidente para você. A Bíblia afirma: "Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros" (Tiago 4.8). Não devemos focalizar toda nossa atenção nas provas a ponto de não ouvirmos a voz de Deus falando conosco. Para quem estiver disposto a ouvir, Deus se tornará uma realidade viva e imediata.

Conhecer a obra de Craig não só foi o método usado pelo Espírito Santo para me convencer do cristianismo, como também foi algo que mudou muito minha vida. Comecei a me interessar por filosofia e teologia, mesmo tendo passado a vida inteira detestando estudar e repudiando a vida religiosa. Então, após ler a Bíblia inteirinha, eu comecei a me preocupar em ir a alguma igreja. Aquele meu amigo cristão que era moderador no Orkut comigo me enviou um site chamado “Encontre uma igreja”. Bom, o site só tem igreja adventista. Consequentemente, eu fui à mais próxima de casa, sem conhecer sua doutrina. Antes disso eu ia em uma igreja católica aqui perto de casa de vez em quando.

Com pouca pesquisa, vi que Ellen White estava muito relacionada, historicamente, com a ascensão do criacionismo de terra jovem nos séculos XIX e XX, algo que eu não concordava, pois já havia ouvido os comentários de Craig sobre isso. Nunca acreditei em Ellen White, pois, se pensava que se ela tinha errado sobre o criacionismo, em que mais não poderia ter errado, não é mesmo? Mais tarde, vi que ela havia errado também sobre a data em que a igreja supostamente teria abandonado o sábado e começado a guardar o domingo. Na época, um bom amigo meu me indicou um livro de apologética adventista, que apresentava argumentos até “ok” para a defesa das doutrinas adventistas. Nesse ano eu também tive alguns problemas musculares que me causavam uma dor constante. Após ir em vários médicos, um deles me aconselhou a fazer fisioterapia e pilátes.

Bom, por ser meio cético e não crer em Ellen White, tive uma certa pressão na igreja. Algumas experiências marcantes foram: (1) o porteiro perguntando se o pastor havia aprovado os livros que eu estava lendo; (2) uma senhora pedindo oração por um amigo dela que era pastor batista por ele ter “descoberto o sábado”; e (3) um debate sobre criacionismo que participei com o Michelson Borges, no qual fui impedido de falar depois de refutar o primeiro argumento dele contra o Big Bang com a desculpa de que o debate tinha “pouco tempo”.

No começo de 2015, comecei a pensar em sair da igreja por conta das discordâncias de crenças. Meus estudos de teologia me mostravam que, apesar de haver um número grande de cristãos sinceros naquela igreja, suas doutrinas não poderiam vir da Bíblia. Decidi sair da igreja quando o pastor, um grande amigo meu, tentou me ensinar que Jesus e o Arcanjo Miguel eram a mesma pessoa. Na semana seguinte, no dia 8 de abril de 2015, enquanto eu ia para a fisioterapia, pensava pra qual igreja eu iria. No caminho, passei por uma igreja presbiteriana e pesquisei na internet sobre ela. Encontrei o site e o email da igreja e marquei uma conversa com o pastor. Depois da conversa, no dia seguinte, fui na reunião de jovens e fiquei por lá. Desde o dia 11 de abril de 2015 estou naquela igreja.

Bom, ao final daquele ano comecei a fazer terapia com uma psicóloga que frequentava essa igreja, mas que eu não a conhecia. Descobri como lidar com minhas fantasias, neuras, melhorei em partes minha autoestima e descobri diversas coisas sobre mim mesmo que aconselhamento bíblico sozinho nenhum faria eu descobrir. Aprendi diversas técnicas para controle de pensamentos e aprendi a interpretar melhor as pessoas. Consequentemente, aprendi bem a praticar a autoterapia (Eis a vantagem de se ter uma psicóloga honesta).

Em 2016 comecei o curso de filosofia. Mas, a partir daqui, não tem muito o que falar. Em 2019 comecei a teologia. Também não há muito o que falar. Talvez minha aproximação com meu orientador, seja algo interessante de se mencionar. Ele me ensinou, melhor do que ninguém, o valor da filosofia para a apologética. A apologética pela apologética não vai muito longe. Ela só serve pra respostas rápidas e confortantes (é o que aconteceu com Norman Geisler e, infelizmente, acontece com muitos apologistas). Foi o que eu disse no último texto.

Enfim, essa é uma parte da minha vida e o meu processo de conversão. Falo “processo”, porque não teve um momento único lindo e maravilhoso onde eu me ajoelhei e senti arrepios e falei “Senhor eu me entrego a ti e bla bla bla”. Isso não aconteceria comigo, e Deus sabe disso. Por isso, ele escolheu esse método mais longo e sou grato a ele por isso. Grato por todos os “avais epistêmicos” que ele me deu na vida de que eu poderia confiar nele. Deus me convenceu dos meus pecados e mudou minha vida. Foi através do reconhecimento do sacrifício único de Cristo que fui salvo. Salvo pela graça, mediante a fé. Não uma fé cega. Fé cega é “fingir saber algo que não sabe”. Mas, Cristo de tornou uma “realidade imediata” a qual eu “ando lado a lado” desde então. É, a única âncora segura da vida. O resto, como pôde ver, pode ser decepcionante. Mas, como diz Inês Brasil: “Graças a Deus porque Deus existe”. E foi assim, crianças, que eu conheci o meu Deus.

Se me permitem dar conselhos finais:

- Nunca minta para seus filhos (esquece Papai Noel)

- Diga a eles e a seus amigos que acredita neles. Isso não é pecado.

- Não tenha medo de ser quem você é (não, isso não é ser contra o “negue-se a si mesmo” que Jesus disse).

- Seja o “taxista” que leva alguém até Cristo. Não precisa ligar o taxímetro - A viagem já foi paga.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Uma pausa na apologética e conselhos aos novos apologistas.


Você deve ter notado que não há nenhum texto novo no blog e que alguns (muitos) textos antigos sumiram. O texto a seguir explicará parcialmente o porquê disso ter acontecido e logo em seguida irei para um conselho aos novos apologistas.
No último ano eu dei uma pausa nos posts porque, embora eu tivesse conhecimento para ser repassado, estava cansado de escrever apenas para um blog. Por mais que tenha seu valor o ensino passado por meio de blog posts, eu estava cansado (e ainda estou). Mas esse não é o ponto principal. Ano passado foi o ano em que eu mais estudei filosofia na vida: mais do que em qualquer ano do meu curso de filosofia. Digo isso sem medo de errar na precisão.
No ano passado eu comecei um projeto de pesquisa sobre Tomás de Aquino e os árabes da Idade Média (falsafa e kalam), e quais são as divergências e convergências dos pensamentos desses últimos com as ideias de Tomás. Claro, tal tarefa me levou de volta a Aristóteles, mas eu fui ainda além e comecei com Platão. Nesse último ano, eu percebi algo em mim que não iria aprender nunca se ficasse apenas na apologética: o valor da filosofia para superar a própria apologética.
Nesse ponto, não quero que entendam mal, por isso serei mais preciso no que quero dizer. Em 2013, quando comecei a estudar apologética por meio do trabalho do filósofo William Lane Craig, eu fiquei fascinado. É claro que, como doutor em filosofia, a apologética do Craig envolvia muitos aspectos profundamente filosóficos. Logo em seguida fui para Norman Geisler e continuei seguindo os estudos em apologética. Mas aqui está o ponto principal: eu estudava apenas os contemporâneos e acabava conhecendo um certo nível de filosofia por tabela.
Craig é profundamente filosófico. Por mais que ele tenha uma formação em teologia, é nítido que sua metodologia é primariamente filosófica. E ele é um grande filósofo. Na verdade, eu teria que ser muito autocentrado e/ou ignorante para olhar pra toda obra do Craig e dizer que ele não é um bom filósofo. Entretanto, ficar “preso” na obra apologética dele (e nele mesmo) é uma barreira para o crescimento.
Assim como os pressuposicionalistas ficam presos em Cornelius Van Til e Herman Dooyeweerd, muitos apologistas atuais ficam presos em nomes como Craig, Geisler, Ravi Zacarias e outros (ouso dizer, sem medo de errar, que Craig deixa Van Til no chinelo). E, embora exista um conteúdo muito bom nesses autores, é preciso ir além deles. E o apologista só vai além quando começar a estudar filosofia de verdade, fora da “bolha apologética”.
A “bolha apologética” é quando você lê Não tenho fé suficiente para ser ateu e, como meu amigo Gilberto ex-Cristão Contemporâneo gosta de dizer, acha que Geisler refutou Kant, Hume e todos os desafios modernos à fé cristã. É também quando o pressuposicionalista acha que pode resolver qualquer problema perguntando “de acordo com que padrão?” para o ateu. Usarei isso como exemplo para demonstrar porque estão errados. Imagine o diálogo:
Pessoa A: “Cristãos são imorais.”
Pressuposicionalista: “De acordo com que padrão você julga que eles são imorais?”
Pessoa A: “De acordo com formas platônicas existentes além do espaço-tempo que fundamentam os meus julgamentos morais.”
E agora? É realmente perguntar de acordo com qual padrão? Existem respostas para a alternativa da Pessoa A? Claro que existem. Mas você tem que ir além disso. Outro exemplo (continuando com o pressuposicionalismo por causa do ranço) é a questão do Uno e do Múltiplo. “Apenas a Trindade fornece uma resposta ao problema do Uno e do Múltiplo!” – Sério? Platão, Aristóteles e outros nunca buscaram solucionar o problema?
Por conta dessas limitações que a bolha apologética implica que senti que era necessário fazer uma pausa na apologética e estudar mais de filosofia. A filosofia é uma arma essencial para qualquer sistema apologético, mas você vai ficar extremamente preso se ficar apenas em Craig, Geisler e Van Til. Eles não respondem a tudo e nem tiveram a pretensão de fazê-lo. Na verdade, nem a Bíblia responde a tudo, gostando ou não disso. E quando eu falo de estudar filosofia, não é decorar o antes e depois da linha do desespero do Francis Schaffer, entender um pouco de Dooyeweerd e achar que está manjando dos paranauê tudo.
O que a pausa na apologética contribuiu para a minha apologética? Eu adquiri mais conhecimento sobre Platão, Aristóteles, Al-Kindi, Al-Ghazali, Avicena, Averróis e Tomás de Aquino que jamais pensei que iria adquirir. E todos estes citados têm algo útil para a apologética cristã. Ademais, vi que Craig, apesar de ter ressurgido com o argumento kalam não é o único defensor dele hoje. Existem filósofos que vão muito mais além do que ele. Filósofos como Andrew Loke, Joshua Rasmussen e Robert Koons são defensores de versões mais atualizadas do argumento kalam. Em suas versões, boa parte das objeções tradicionais são inúteis (objeções baseadas em teorias do tempo, por exemplo).
Outra coisa que percebi é que neo-ateísmo é o movimento mais burro que a internet já viu. Mas isso não significa que não existam bons filósofos ateus. Neo-ateísmo, como aquele predominante na mente de todos os comentários de ateus deste blog, é uma piada intelectual. (Pelo amor de Deus: um dos memes dos neo-ateus diz que Jesus mandou levar pessoas à sua frente e matá-las. Eu apontei em um texto que isso era dito por uma personagem em uma parábola e o indivíduo vem me dizer que eu “inventei a desculpa de que era uma parábola”, quando a própria Bíblia diz: “E Jesus lhes propôs uma parábola”)
Mas quando falamos de ateus sérios (e, aqui, não me refiro a Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris, Stephen Hawking e Lawrence Krauss) vemos um desafio muito maior. Não que eles tenham refutado o cristianismo, longe disso. Mas podemos dizer, de forma análoga, que, enquanto você refuta todos esses neo-ateus citados acima lendo Em Guarda, para responder em pé de igualdade os ateus sérios você tem que começar com no mínimo Filosofia e cosmovisão cristã.
Eu não escrevi esse texto com muito ânimo, até porque eu nem queria postar nada. Mas achei preciso para dar um conselho ao leitor: estude. Estude filosofia além da apologética; estude história além da defesa da ressurreição de Jesus; estude crítica textual além de Sean McDowell; estude teologia além dos apologistas contra-seitas brasileiros (que são bem meia boca); e pelo amor de tudo que há de mais sagrado, estude ciência e exegese além de Adauto Lourenço. Lembre-se:
- Geisler tem seu valor, mas é apenas uma porta de entrada.
- Craig é excelente, mas estudar filosofia o ajudará a superar desafios maiores.
- Perguntar apenas “de acordo com qual padrão?” é preguiça intelectual.
- Existem ateus inteligentes, mas atualmente na internet  você não encontrará muitos.
- O mundo acadêmico precisa de mais intelectuais cristãos. Venha!
Ah! Os textos que foram retirados não voltarão por um tempo. Eu os retirei porque: (a) achei que estavam bem mal escritos; (b) eu não concordava tanto com alguns, e (c) eu fiquei mais criterioso com ABNT e essas normas chatas.
Que Deus os abençoe,

Felipe S. Forti.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Os Dias de Gênesis (Final)



As evidências a favor da não-literalidade dos dias em Gênesis 1 foram apresentadas. Ainda assim, porém, precisamos lidar com certas objeções. Existem três objeções que normalmente são apresentadas: primeiro, apelam para Êxodo 20 para dizer que os dias tem que ser seis dias literais; segundo, se aponta a formula “tarde e manhã” para indicar que o texto está falando de dias literais; e terceiro, se diz que sempre que a palavra yom está sendo usada com um número ordinal ou cardinal, ele se refere a um dia literal. Vejamos primeiro o texto de Êxodo 20:

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.
Êxodo 20:8-11

Esse argumento não é tão forte quanto as pessoas que o usam acham. Em primeiro lugar, a palavra yom tem uma gama de sentidos literais, podendo ser traduzida por “dia”, período da luz do dia e longos tempos. Isso explica porque o autor escolheu a palavra yom e não outra, pois Gênesis 1 apresenta dias literais e não-literais, assim englobando ambos os sentidos e mantendo a estrutura poética do texto. Mas, em segundo lugar, a própria palavra shabbath, traduzida por “sábado”, não se restringe a um período de 24 horas. Em Levítico 25.3-4, a palavra shabbath é usada para se referir a um ano de descanso da terra.
Com a palavra yom e a palavra shabbath permitindo múltiplas durações, podemos apontar que o texto de Êxodo não diz absolutamente nada quanto à duração desses dias, mas fala apenas do padrão de seis em um. Como William Lane Craig bem colocou:

Os criacionistas literais vão dizer que isso [Êxodo 20] mostra que Gênesis 1 está, de fato, intencionado a se referir a uma semana literal de seis dias consecutivos de 24 horas. Mas eu acredito que isso seja pressionar a passagem demais. O que a passagem de Êxodo está nos mostrando é o padrão que é colocado em Gênesis 1 – o padrão de Deus trabalhando em seis dias criativos e então descansando no sétimo dia. Esse padrão é o mesmo que Israel deveria observar em sua semana de trabalho literal. Mas isso não quer dizer que, já que o padrão é o mesmo, então os períodos de duração descritos em Gênesis também têm, portanto, a exata mesma duração que nossos dias normais do calendário.[1]

Com referência ao quarto mandamento, Gleason Archer também diz:

De maneira nenhuma isso [Êxodo 20:8-11] demonstra que intervalos de 24 horas estavam envolvidos nos primeiros seis dias, assim como a celebração de oito dias da Festa dos Tabernáculos não prova que as peregrinações no deserto sob Moisés ocuparam apenas oito dias.[2]

Portanto, vemos que o texto de Êxodo 20.8-11 não serve como uma evidência forte a favor do Criacionismo de Terra Jovem. É um texto que apenas aponta o padrão de trabalho e descanso de Israel.
A formula “tarde e manhã” também não implica em uma interpretação literal dos dias. No Salmo 90, escrito por Moisés, utiliza as palavras “tarde” e “manhã” como metáforas para o fim e início de um longo período. Ao mesmo tempo, a palavra yom é apresentada no texto como uma referência a um “dia” de Deus, que equivale a “mil anos”:

SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração.
Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus.
Tu reduzes o homem à destruição; e dizes: Tornai-vos, filhos dos homens.
Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite.
Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce.
De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca.
Salmos 90:1-6

O texto fala de como Deus transcende tempo e nós somos limitados por ele. Mas mostra que, linguisticamente, não existe restrição a dizer que “tarde” e “manhã” indicam o fim e o início de um longo período.
Há mais uma coisa que deve ser dita com relação a esse argumento: o sétimo dia não possui “tarde e manhã”. Junto ao fato de que o Salmo 95 diz que o descanso de Deus não acabou (95.11), podemos concluir que o sétimo dia não acabou na semana de criação. Ademais, em Hebreus 3-4 nós temos esse texto citado, onde o autor diz que Deus instituiu um novo dia, chamado Hoje (4.7), o qual é um período de tempo indeterminado (3.13). Assim, concluímos que: ou o sétimo dia continua até hoje, ou esse “hoje” é um novo dia, no qual estamos, que teve início com a obra de Cristo. Independentemente disso, temos uma evidência de que os dias de Gênesis não são literais a partir do Novo Testamento.
A última objeção é, de fato, a mais fraca. A alegação de que a palavra yom com um número sempre indica um período de 24 horas é falsa, pois não existe nenhuma regra gramatical no hebraico que exija isso. De fato, existem textos que usam yom com um numeral e não significa um período de 24 horas (ex.: Oséias 6.2; Zacarias 14.7). Essa “regra” foi simplesmente inventada por Criacionistas de Terra Jovem apenas para dar suporte à sua interpretação falha.[3]
Concluímos essa série de três posts sobre os dias de Gênesis com uma recapitulação. O primeiro dia provavelmente é literal; o segundo dia não da pra saber; o terceiro com toda certeza não é; o quarto dia talvez não seja; o quinto dia não há como saber; e o sexto com toda certeza também não é. Confuso? Nem tanto. Deus não quis revelar a duração de todos os dias de criação, mas nos mostrou que foi ele que criou, deu ordem e função a todas as coisas. Vimos, por fim, que os argumentos a favor da literalidade dos dias são, de fato, fracos, e exigem que adicionemos muitas coisas que não estão no texto bíblico (ex.: Deus acelerando o processo no terceiro dia; Adão com superpoderes, etc.). Assim, estamos justificados em dizer que os dias de Gênesis não são todos literais, e que a crença em uma terra antiga não está impedida pela narrativa de criação. O cristão pode se sentir confortável em crer que Deus criou um mundo antigo, com milhões ou bilhões de anos, pois a Palavra não especifica nenhuma idade para o mundo.


[1] Reasonable Faith, Excursus on Creation of Life and Biological Diversity (Part 3): A Critique of the Literal Interpretation, 2019, disponível em https://www.reasonablefaith.org/podcasts/defenders-podcast-series-3/excursus-on-creation-of-life-and-biological-diversity/excursus-on-creation-of-life-and-biological-diversity-part-3/; acesso 06/06/2019
[2] Apud. Hugh Ross, A Matter of Days: resolving a Creation Controversy, 2ª Ed., Colorado Springs, CO: NavPress, 2015, p. 97. Edição ePub
[3] Norman Geisler, Enciclopédia de apologética: Repostas aos críticos da fé cristã, Vida, 2002, p. 371

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Os Dias de Gênesis (Parte 2)



Baseado no que vimos até aqui, percebemos que a questão não é “qual é a tradução correta da palavra yom?” A questão que enfrentamos é se a palavra “dia” é literal ou não. Certamente a tradução correta é “dia”, e o uso da formula “tarde e manhã” parece indicar isso. Porém, até mesmo essa formula não restringe os dias períodos de 24 horas.[1] Agora devemos avaliar o que nos é dito no quarto dia:

E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra,
E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
Gênesis 1:14-19

Aqui temos um dos grandes desafios ao se interpretar Gênesis 1, e isso se deve a uma série de fatores. Em primeiro lugar, se formos ler como um relato estritamente literal, então temos que dizer que a lua é um luminar, ou seja, ela emite luz. Em segundo lugar, se interpretarmos também que o sol, a lua e as estrelas foram criadas nesse dia, com a própria função de marcar os dias, como pode ter havido três dias antes deste? E em terceiro lugar, a função do sol e da lua é a de separar a luz e as trevas, mas no primeiro dia nos é dito que o próprio Deus fez essa separação. Como, então, solucionar esses problemas?
O primeiro problema é facilmente resolvido ao entender duas coisas: primeiro, como dito antes, nem tudo nesses três primeiros capítulos deve ser lido de modo literal; segundo, temos que entendermos que, no Antigo Oriente Médio, “luz” não era algo físico[2].
O segundo problema só é um problema de verdade se descartarmos a ideia de que há uma proposta funcional nesse texto. Deus claramente está dando a função ao sol e à lua de marcar dias, estações e anos. Assim, devemos entender que o texto está nos dizendo apenas isso: o sol, a lua e as estrelas já existiam, mas agora eles possuam função de marcar os dias, as estações (relacionadas às festividades judaicas) e anos.
Há dois indicativos de que isso está acontecendo no texto, além do que está óbvio para nós: primeiro, o texto começa com “haja”, uma palavra que aparece nos dias um e dois para indicar que algo irá aparecer e logo depois lhe será dada uma função (1.3, 6). Segundo, a palavra hebraica traduzida por “fez” em 1.16 pode facilmente ser traduzida por “preparou” e ainda ser uma tradução literal[3]. A tradução para “preparou” está mais de acordo com o contexto e com o que o autor quer transmitir nele: Deus está preparando o mundo para que ele seja produtivo.
Talvez exista um fator nesse texto que indique a sua não-literalidade. Mas para mostrar isso, devemos ir ao dia 1: “E disse Deus: Haja luz; e houve luz”. A importância desse texto está nas palavras hebraicas utilizadas e na ordem em que elas são utilizadas. Em hebraico, nós lemos יְהִ֣י א֑וֹר וַֽיְהִי־ אֽוֹר (yehî ‘or wayhî ‘or). É importante perceber que Deus ordena que apareça o período de 12 horas da luz do dia e depois dessas 12 horas ele diz que houve luz (wayhî ‘or). Essa palavra hebraica wayhî indica uma mudança de referencial de tempo. Note que essa palavra começa com a conjunção vav, que indica uma continuidade na história. Porém, a palavra wayhî parece indicar uma sequência com um novo referencial de tempo (isso ocorre, por exemplo, em Jó 1.6; 13; 2.1; 1 Samuel 14.1; Gênesis 26.1; Rute 1.1).[4] Assim, se nós tempos um novo referencial de tempo, e se quando ela é usada após um comando ela indica que o comando foi finalizado, o que podemos dizer do seguinte texto do quarto dia:

E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi [wayhî ken].
Gênesis 1:14,15

O uso da palavra wayhî após Deus dar a função do sol e da lua marcarem os dias, tempos determinados e anos parece indicar que antes do quarto dia acabar, tudo isso foi realizado. Portanto, há um bom argumento aqui para a não-literalidade do quarto dia, fazendo dele um período muito mais longo do que o de 24 horas.
Por fim, o terceiro problema parece ser o mais difícil, se nós nos propusermos a ficar apenas com as ideias que o texto mostra. A sugestão de que Deus fazia a função de separar dia e noite até aqui parece ser forçar algo que o texto não diz. Ao mesmo tempo, dizer que o próprio Deus era a luz, pois em João ele é chamado de luz do mundo parece não entender o sentido de “luz” em João. Ainda mais, outros propõem que Deus era a luz, pois em Apocalipse diz que ele será a nossa fonte de luz. Entretanto, Gênesis não faz essa ligação, e não parece correto fazer essa ligação entre “novos céus e nova terra” e os nossos “céus e terra”.[5]
Já que esse problema não diz respeito diretamente à literalidade dos dias de Gênesis, podemos ir ao quinto dia, onde aparecem os animais marinhos:

E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.
E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra.
E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
Gênesis 1:20-23

O relato do quinto dia pode ser entendido como um período de 24 horas ou não. Nada no texto parece fazer preferência a uma interpretação ou outra. Entretanto, há algumas coisas importantes a serem percebidas aqui: primeiro, o texto começa com Deus dando uma função às águas de produzir os répteis de alma vivente. No versículo seguinte, porém, o texto diz que Deus os criou. Há, aqui, portanto, uma contradição? Não, não há, mas nossas mentes ocidentais do século XXI tentam a impor conceitos no texto que não estão lá. A palavra hebraica bara, que é traduzida por “criar” não significa “criar a partir do nada” e também não significa, necessariamente, criação material.[6] Assim, podemos entender que o quinto dia também possui uma orientação de criação funcional.
O sexto dia é um dos mais importantes para a nossa análise:

E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.
E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
Gênesis 1:24-31

O texto de Gênesis 2.4-25 temos uma recapitulação do que ocorreu no sexto dia de Gênesis 1. Esse texto é um grande problema para os que interpretam os dias como literais. Até mesmo John Walton, que interpreta os dias como literais, diz: “Dizer que os eventos em Gênesis 2 poderiam todos ocorrer em um dia de 24 horas (entre eles, nomear todos os animais, o que aparentemente foi concluído porque nenhum ajudador foi encontrado) é forçar credulidade”.[7]
Gênesis 2 começa com um texto circunstancial de uma região específica, onde Deus plantou o jardim do Éden. Após isso, Deus formou o homem pó da terra, e o levou para o jardim. Depois de colocar o homem no jardim, Deus levou a ele todo o animal do campo, ave e gado (2.19-20). Não tendo encontrado uma ajudadora, Deus lhe fez uma a partir de um de seus lados (2.21).
Todos esses eventos não poderiam ter ocorrido em 24 horas. Em primeiro lugar, o texto diz que Deus plantou o jardim, algo que levaria muito mais do que 24 horas. Não há indícios, também, de que Deus tenha acelerado o processo. Em segundo lugar, Adão teve de nomear milhares de animais, sendo assim impossível uma tarefa impossível para ser concluída em 24 horas. Não há indícios no texto de que Adão tivesse superpoderes ou superinteligência, e muito menos de que havia menos animais naquela época. Alguns tentam responder que Adão nomeou as famílias de animais, e não os animais de cada família. Entretanto, isso contradiz o próprio mandato cultural de Adão ter de dominar os animais, já que o ato de nomear, no Antigo Oriente Médio, indicava seu controle ou poder sobre o que foi nomeado[8].
O sexto dia, portanto, não pode, de modo nenhum, ser um dia literal de 24 horas. Assim, toda a narrativa dos Criacionistas de Terra Jovem torna-se invalidada pela própria evidência interna do texto bíblico. Gleason Archer conclui: “Com base na evidência interna, é convicção do presente escritor que yôm em Gênesis 1 não foi empregado pelo autor hebreu com a intenção de descrever um dia literal de 24 horas”.[9]

Continua...



[1] No salmo de Moisés (Salmo 90) as palavras “tarde” e “manhã” são usadas junto da palavra “dia” para mostrar que um dia de Deus é equivalente a um longo período.
[2] WALTON, John. The lost world of Adam and Eve: genesis 2-3 and the human origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2015, p. 32. Edição ePub
[3] Ibid. p. 26
[4] WHITEFIELD, Rodney. The word “vayhiy” in genesis chapter one support for an old Earth, 2013, pp. 2-10, disponível em http://www.creationingenesis.com/Vayhiy_in_Genesis_Chapter_One.pdf; acesso 03/06/2019
[5] Essas duas últimas propostas podem ser lidas em: GotQuestions. How could there be light on the first day of Creation if the sun was not created until the fourth day?, disponível em https://www.gotquestions.org/light-first-sun-fourth.html; acesso 05/06/2019
[6] WALTON, John. The lost world of genesis one: ancient cosmology and the origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2009, pp. 36-43
[7] WALTON, John. The lost world of Adam and Eve: genesis 2-3 and the human origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2015, p. 55. Edição ePub; Walton argumenta que Gênesis 2 é uma sequência de Gênesis 1, não uma recapitulação. Esse tema será retomado em outro texto.
[8] Peet Van Dyk, Challenges in the Search for an Ecotheology. Old Testament Essays, 2009. 22. p. 191, disponível em http://www.scielo.org.za/pdf/ote/v22n1/10.pdf; acesso 04/06/2019
[9] Gleason Archer, Panorama do Antigo Testamento, 2ª Ed., São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 215

terça-feira, 4 de junho de 2019

Os Dias de Gênesis (Parte 1)



Central para a questão da idade do mundo está no que diz respeito à duração dos dias de Gênesis 1. Ora, o texto de Gênesis 1:1-2 nos mostra duas possibilidades: (1) 1:1 ocorreu em um tempo indeterminado antes da terra estar improdutiva[1]; e (2) 1:1 é um título que resume o que acontecerá em 1:3-31[2]. Independente disso, 1:2 segue dizendo apenas um pano de fundo do que aconteceria em 1:3-31. A terra, que era sem forma e vazia, agora está ficando produtiva e pronta para ser preenchida.
Esse pano de fundo nos traz as palavras tohu e bohu, que são traduzidas por “sem forma” e “vazia”. John Walton fez uma análise do sentido da palavra tohu, e em todas as 32 vezes em que ela é usada nas Escrituras, ela nunca tem o sentido de descrever a forma material de algo (veja:1 Samuel 12:21; Jó 6:18; 12:24; 26:7; Isaías 24:10; 49:4).[3] Walton diz:

Os contextos em que essas palavras ocorrem e as frases usadas em paralelo sugerem que, ao contrário [de uma descrição material], a palavra descreve aquilo que não é funcional, que não tem propósito e geralmente não é produtivo em termos humanos. Aplicando-a como um termo descritivo a substantivos que representam áreas geográficas, nações, cidades, pessoas ou ídolos, todos sugerem a mesma conclusão. Uma palavra que tivesse relação com a forma material não serviria bem nesses contextos.[4]

Assim, uma avaliação dos dias de Gênesis 1 deve começar em 1:3, não em 1:1. Afinal, cada dia começa com “E disse Deus...”, e a primeira vez em que essa frase ocorre é em 1:3. Antes disso, contudo, é preciso tirar três empecilhos que as táticas de medo dos Criacionistas de Terra Jovem colocam na cabeça de seus seguidores:
Primeiro, se formos interpretar os dias de Gênesis como não-literais, isso não significa que vamos alegorizar ou ler como metáfora toda a Bíblia, a crucificação, a ressurreição, etc. Quem diz que isso acontecerá está cometendo a falácia do declive escorregadio, ou seja, não é porque se crê em A que logo se escorregará e crerá em Z. Você pode perceber que isso é apenas uma tática para por medo quando nota que essa acusação não ocorre com, por exemplo, pessoas que tornam o milênio de Apocalipse em metafórico. Ninguém escuta: “Puxa! Você é amilenista! Cuidado, vai metaforizar a ressurreição em breve!”
Segundo, interpretar os dias de Gênesis como metafóricos não é uma novidade criada para acomodar a ciência moderna ao texto bíblico. Nós vemos um padrão interessante de interpretação de “dias” como 1.000 anos nos escritos judaicos apócrifos e comentários. Em 1 Enoque 93, temos uma sessão chamada de “Apocalipse das Semanas”. Essa sessão descreve o plano de Deus desde a criação até a nova criação em dez “semanas”, sendo cada semana um período de tempo irregular. Alguns judeus também tinham uma visão específica sobre o Shabbat como o fim de seis milênios, onde o Shabbat seria um descanso eterno. O Mishnah Tamid diz: “No Shabbat eles vão dizer (Salmo 92), ‘Um Salmo, uma Canção para o dia de sábado.’ (Salmo 93) [A última canção] é um salmo para o futuro, para o dia que será completamente Shabbat por toda a eternidade” (7:4).
Em 2 Enoque 33, a semana da criação é descrita como um período de 7.000 anos, sendo seguido por um “oitavo dia” de tempo indeterminado: “E designei o oitavo dia, como sendo o primeiro dia criado após a minha obra, e os sete primeiros como sendo ciclos de sete mil, e no início dos oito mil, estipulei um tempo incontável, infinito, não medido por anos, meses, semanas, dias ou horas” (2 Enoque 33:1).
No início do segundo século temos a Epistola de Pseudo-Barnabé. Nela, o autor diz que os seis dias de Gênesis são seis mil anos e quando Cristo vier reinará por mil anos, que é o sétimo dia. Depois disso, começará a nova criação com o oitavo dia (Pseudo-Barnabé 15).[5]
Além desses, diversos pais da Igreja, como Agostinho, Origenes, Justino Mártir, Irineu e Clemente já entendiam que esses dias não eram literais.[6] Foi com o advento de Ellen White, quando geólogos amadores começaram a criar o que chamam de “geologia do dilúvio” baseando-se nas “visões” dela, que o Criacionismo de Terra Jovem começou a se espalhar como “interpretação padrão” nas igrejas.
Por fim, precisamos entender que, apesar de Gênesis 1-3 estar contando uma história que de fato ocorreu, diversos elementos da narrativa mostram uma estrutura poética, repleta de metáforas. Por exemplo, há uma clara estrutura de paralelismo no texto, com frases repetidas:
“E disse Deus...”
“Que haja... e houve...”
“E assim foi”
“E viu que era bom”
“E houve tarde e houve manhã”
Nessa narrativa, existem elementos que claramente não são literais. Por exemplo, chamar a lua de “luzeiro menor”, quando a lua não emite luz. Ou, mais pra frente, quando é dito que homem e mulher se tornam uma só carne (não sei se te disseram, mas quando se faz o ato do coito, não se torna um siamês com a pessoa).
Com essas barreiras completamente derrubadas, podemos partir para uma exegese dos textos referentes aos dias da semana de criação. Vejamos, então, o primeiro dia:

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
Gênesis 1:3-5

Ora, no primeiro dia, Deus não criou nada material. “Mas nem a luz?!”, isso, nem a luz. Note que a “luz” que aparece em 1:3 é chamada depois de “dia”. Ou seja, quando Deus diz “que haja luz”, ele está fazendo o período de claro de um dia e lhe dando a função de ser as 12 primeiras horas do dia. As “trevas”, que vão chamadas de “noite” depois, não foram criadas nesse primeiro dia, pois elas já existiam em 1:2.
Quanto ao primeiro dia, portanto, vemos que Deus fez apenas a luz aparecer para ter a função de dia. Não é o caso de a luz não existir antes, mas dela agora ter uma função. A frase “que haja luz” pode ser interpretada simplesmente como “que haja dia”, já que é assim que o próprio Deus chama a luz.
Mas você deve estar se perguntando: “Bom, dia com noite dá 24 horas! Portanto, os dias são literais!”. É verdade que o primeiro dia pode ser um dia literal. Contudo, ele mesmo é finalizado de uma forma diferente dos outros dias. É o único dia que possui um número cardinal com a palavra yom. O hebraico traz echad yom, que deve ser traduzido por “dia um”, não por “primeiro dia” (que seria rishom yom).
No segundo dia, temos a separação das águas:

E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.
E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.
E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
Gênesis 1:6-8

Um fato interessante do segundo dia é que, além de ele também não ter nenhum ato de criação (Deus simplesmente separou águas e chamou o firmamento/expansão de Céus), ele é o único dia que não é chamado de “bom”. Isso se deve à crença do Antigo Oriente Médio de que águas representavam o caos do mundo.
Claramente, os eventos desse dia podem se encaixar em 24 horas. Isso não implica que necessariamente seja o caso, mas é uma possibilidade.
No terceiro dia, contudo, as coisas ficam mais interessantes:

E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi.
E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom.
E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi.
E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.
Gênesis 1:9-13

O que nos interessa aqui é a segunda atividade de Deus no dia. Ele, novamente, não criou nada, mas fez a terra aparecer e deu a ela uma função: a de produzir vegetação. Você pode se perguntar: “Ok, mas isso não pode acontecer em um período de 24 horas?” E a resposta é: Não. Perceba que não é Deus que traz a vegetação à existência, ele simplesmente dá essa função à terra, e o texto diz que a própria terra produziu a vegetação, com sementes.
Apesar de John Walton crer que os dias de Gênesis são literais e que apenas há uma criação funcional, sua tese parece dar suporte à tese de que os dias não são literais. Ora, em resposta ao argumento de que a própria terra produziu algo, os Criacionistas de Terra Jovem tentam acomodar o texto à sua interpretação dizendo que Deus acelerou o processo. Não apenas o texto não diz nada sobre esse possível speed up, como também contradiz o próprio proposito do texto. Como John Walton diz: “De uma perspectiva funcional, o solo, a água e o princípio de portar sementes são todos muito relacionados como algo essencial para a produção de comida”.[7]
Assim, como no terceiro dia Deus claramente da a função para a terra e o texto diz que a terra cumpriu sua função, fica nítido que o texto implica que o terceiro dia não é literal. De fato, algo maior aponta para essa conclusão, quando vemos que todos os três primeiros dias são apenas dias de estabelecer funções: “No primeiro dia, Deus criou a base para o tempo; no segundo dia, a base para o clima; e no terceiro dia, a base para a comida. Essas três grandes funções – tempo, clima e comida – são o fundamento da vida”.[8]
Esse é um ponto forte na tese de Walton que fortalece a não-literalidade do terceiro dia. A vegetação aparece e ela mesma cumpre a sua função. William Lane Craig diz:

Todos nós sabemos quanto tempo leva, por exemplo, para uma macieira crescer até se tornar uma árvore madura com frutas, que florescerá e dará maçãs. Se o autor estivesse pensando aqui em um dia de 24 horas, ele teria que imaginar algo que se parecesse com fotografia de lapso de tempo, onde você teria o aparecimento de uma semente, e as pequenas plantas aparecem do solo, e de repente elas crescem em uma árvore, aparecem então as flores, e as frutas brotam da árvore. Eu simplesmente não consigo me convencer de que isso é o que o autor antigo de Gênesis está imaginando.[9]

Uma outra possível objeção, é dizer que está se negando o uniformitarianismo, que é uma teoria científica que diz que a natureza se comportava no passado como se comporta no presente. Assim, negando esse princípio, se afirma que a vegetação podia crescer mais rápido naquele tempo. Essa resposta é apenas uma tentativa ad hoc para salvar uma interpretação falida. E, se nós concedêssemos validade a ela pelo bem do argumento, poderíamos também dizer que os dias naquele tempo eram mais longos.
Concluímos, portanto, que o terceiro dia claramente não é um período de 24 horas, e o próprio texto indica isso. O primeiro dia provavelmente teve 24 horas e era literal, o segundo não há como saber, mas o terceiro certamente não era. Dado o fato de que Deus estava dando função à terra de produzir a vegetação, é pouco provável que ele iria acelerar o processo de produção.

Continua...



[1] Essa é a posição que eu defendo em A gênese em gênesis: solucionando a controvérsia das eras, 2ª Ed., São Paulo: Ed. do Autor, 2019.
[2] Veja: Olhar Unificado, Bereshit v.s. criacionismo de terra jovem, disponível em https://olharunificado.blogspot.com/2019/05/bereshit-vs-criacionismo-de-terra-jovem.html; acesso 29/05/2019
[3] WALTON, John. The lost world of genesis one: ancient cosmology and the origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2009, p. 47-48.
[4] Ibid. p. 48
[5] O texto referente a essas citações também se encontra em A gênese em gênesis, p. 43
[6] Veja: Bruce L. Gordon, Scandal of the Evangelical Mind: A Biblical and Scientific Critique of Young- Earth Creationism, disponível em http://researcherslinks.com/current issues/Scandal-of-the-Evangelical-Mind-A-Biblical-and-Scientific-Critique-of-Young-Earth-Creationism/9/5/43; acesso 14/04/2018
[7] WALTON, John. The lost world of genesis one: ancient cosmology and the origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2009, p. 58
[8] Ibid.
[9] Reasonable Faith. Excursus on Creation of Life and Biological Diversity (Part 3): A Critique of the Literal Interpretation, disponível em https://www.reasonablefaith.org/podcasts/defenders-podcast-series-3/excursus-on-creation-of-life-and-biological-diversity/excursus-on-creation-of-life-and-biological-diversity-part-3/; acesso 31/05/2019