quinta-feira, 16 de maio de 2019

Bereshit V.S. Criacionismo de Terra Jovem



Uma das discussões contemporâneas a respeito de Gênesis 1 tem como alvo o primeiro versículo do livro: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. O que se discute com respeito a esse texto? Há duas perspectivas principais: uma que diz que é a criação do universo que ocorreu há um tempo indeterminado, e outra que diz que é como um título do capítulo. No meu livro eu defendo a primeira interpretação. Porém, há bons motivos para se interpretar do segundo modo também. Antes de entrar nessa discussão, vamos ensinar um pouco de hebraico básico. O foco é entender como funcionam as preposições e o artigo definido.
Existem algumas preposições no hebraico, mas há uma que é relevante para a nossa discussão é a preposição בְּ (Be), que significa “em”. Outra informação que devemos considerar é a dos artigos definidos. Em geral, se usa o artigo הַ (Ha). Quando a preposição בְּ possui artigo definido, não se escreve הַבְ (HaBe), mas se coloca בַּ, que é basicamente a letra בּ (bet) com a vogal chamada patah. Ou seja, בְּ + הַ =  בַּ. Quando não existe artigo definido e se coloca בְּ ligado a uma palavra, deve-se entender que a tradução seria “em um”, enquanto que quando há o בַּ deve-se traduzir por “no” (“em” + “o”).
Por que isso é relevante para nossa discussão sobre Gênesis 1:1? Bom, veja a primeira palavra de Gênesis: בְּרֵאשִׁ֖ית (Bereshit). Repare que a preposição בְּ da palavra não possui o artigo definido. Desse modo, a tradução literal não é “no princípio”, mas sim “em um princípio”.[1]
Outro fato importante sobre a palavra bereshit é que ela não designa um ponto inicial, mas sim um período de início. Exemplos disso podem ser vistos em Jeremias 28:1 e Gênesis 10:10. Os eventos de Jeremias 28:1 acontecem quatro anos após o início do reinado de Zedequias. Em Gênesis 10:10, “princípio” se refere a um tempo necessário para construir ou comandar quatro cidades, que é chamado de “princípio” de reinado de Ninrode. John Sailhamer diz: “Já que a palavra Hebraica traduzida para ‘princípio’ se refere a um período de tempo indefinido, nós não podemos saber por certo quando Deus criou o mundo ou quanto tempo Ele levou para criá-lo”.[2] Sailhamer continua dizendo que se Moisés quisesse dizer que Deus havia criado o universo de modo instantâneo, ele teria usado uma palavra que realmente significasse isso, como rishonah ou techillah. Essas palavras poderiam ser traduzidas como “ponto inicial”, de modo que Gênesis 1:1 seria traduzido como “A primeira coisa que Deus fez foi criar o universo”.[3]
O que, então, podemos concluir? Que a melhor tradução para Gênesis 1:1 é: “Em um período inicial, Deus criou os céus e a terra”. Esse não foi o princípio do universo, mas sim um princípio em que Deus trabalhou na criação, onde a terra já existia “sem forma e vazia”. Assim, devemos concluir que “um período inicial” se refere aos seis dias posteriores.
Evidência adicional para essa conclusão está no fato de que Gênesis 1:1 diz que Deus “criou os céus e a terra” e Gênesis 2:1 diz que ele “terminou os céus e a terra”. Ora, a obra finalizada é justamente o que Deus criou. Se em Gênesis 2:1-3 “céus e terra” se referem a todo o período da criação, então também podemos tirar essa conclusão com relação a 1:1. John Walton diz: “Gênesis 2:3 volta para esse tema [da criação] em seu resumo, indicando o término das atividades bara através do período de sete dias”.[4]
Alguns podem objetar dizendo que o versículo 2 começa com a conjunção וְ (vav), trazendo a ideia de que o verso 2 é uma sequência do verso 1. Assim, 1:1 deve ser uma atividade, seguida da descrição em 1:2. Contudo, tal conclusão ignora o fato de que a conjunção vav quando precede um substantivo, ao invés de um verbo, pode indicar uma pausa, não uma sequência. É por isso que a Bíblia de Jerusalém não traduz para “e a terra era sem forma...” e sim para “Ora, a terra era sem forma...”.
De fato, entender o relato dessa forma está mais de acordo com a forma como os relatos do Antigo Oriente Médio eram organizados. Primeiro, uma clausula dependente, seguida de uma circunstancial, que é, por fim, seguida do ato principal.[5] Observe que é exatamente assim que o “segundo relato” de Gênesis 2 é organizado:


Gênesis 1
Gênesis 2
Clausula dependente
No princípio Deus criou os céus e a terra. (1:1)
Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus (2:4)
Clausula circunstancial
Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. (1:2)
ainda não tinha brotado nenhum arbusto no campo, e nenhuma planta havia germinado, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e também não havia homem para cultivar o solo.
Todavia brotava água da terra e irrigava toda a superfície do solo. (2:5-6)
Ato principal
Disse Deus: "Haja luz", e houve luz. (1:3)
Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente. (2:7)

Repare como a clausula circunstancial toma um lugar semelhante ao de textos que colocamos entre parênteses no português, simplesmente explicando qual era o estado da terra naquele momento.
Ora, quais as implicações para isso na nossa interpretação do texto bíblico? Se esses argumentos estiverem corretos, então Gênesis 1:1 não fala da criação do universo, mas sim do período de 6 dias, nos quais Deus bara os céus e a terra, após obter a informação de pano de fundo de que a terra era sem forma (improdutiva) e vazia.
Assim, em qualquer uma das duas grandes intepretações de Gênesis 1:1-2 que você adotar (que 1:1 ocorreu em um período de tempo muito antes de 1:2, ou que 1:1 resume todas as atividades de 1:3-31) o Criacionismo de Terra Jovem se mostrará uma interpretação exegeticamente patética e gramaticalmente incorreta. Na interpretação aqui apresentada, a narrativa de Gênesis 1 já começa com a terra criada, o que, portanto, nos leva a concluir que Gênesis não tem absolutamente nada a nos dizer com respeito à idade da criação.


[1] Agradeço ao professor William L. Lane pelo comentário de Gênesis 1 de Claus Westermann.
[2] John Sailhamer, Genesis unbound: A provocative new look at the creation account, Multnomah Books, ePub 2011, Parágrafo 2.64
[3] Ibid., Parágrafo 2.192
[4] WALTON, John. The lost world of genesis one: ancient cosmology and the origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2009, p. 45.
[5] Ben S. Why Biblical Scholars Don't Take the Creation Museum Seriously, 2018, 7:00, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=8h33TyJkzwQ&t; acesso 15/05/2019

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Quem são Beemote e Leviatã?


Beemote e Leviatã. Seriam eles dinossauros? Colocar criaturas que viveram milhões de anos no passado em conjunto com as pessoas da Bíblia parece ser mais uma tentativa de encaixar nossa ciência moderna no texto, coisa que os Criacionistas de Terra Jovem amam fazer. Contudo, um estudo (mesmo que mínimo) do contexto em que o Antigo Testamento foi escrito revela quem realmente são essas criaturas. Para avaliar o que eram essas criaturas, devemos ir ao contexto em que o texto foi escrito, e tentar entender como os leitores daquela época viam tais criaturas.
Primeiro, vejamos nosso amigo Beemote:

Contemplas agora o beemote, que eu fiz contigo, que come a erva como o boi.
Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.
Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos das suas coxas estão entretecidos.
Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro.
Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada.
Em verdade os montes lhe produzem pastos, onde todos os animais do campo folgam.
Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo das canas e da lama.
As árvores sombrias o cobrem, com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.
Eis que um rio transborda, e ele não se apressa, confiando ainda que o Jordão se levante até à sua boca.
Podê-lo-iam porventura caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz? (Jó 40:15-24)

Mas porque o Beemote não pode ser um dinossauro? Bom, há diversas razões para isso: em primeiro lugar, o único argumento fornecido é da “cauda que se move como um cedro”. Como o cedro é uma árvore enorme, então a cauda só pode ser de um dinossauro. Certo? Errado. Note dois problemas aqui: (1) não é uma descrição da aparência da cauda, mas sim do movimento da cauda; (2) não existe esse tipo de cedro no Oriente Médio, mas existe um outro tipo de cedro que se move facilmente com o vento[1]. O segundo problema é que o Beemote cabe debaixo de uma árvore (21-22), coisa que uma criatura como o Sauropode (a qual os Criacionistas de Terra Jovem amam dizer que é o Beemote) não pode fazer, por ter cerca de 25 metros de altura.
Um terceiro problema vem com a palavra hebraica בְ֭הֵמוֹת behemot que tem sua origem na palavra בְּהֵמָה behemah, que significa “gado”. Os dinossauros não eram animais de gado e, na verdade, tinham uma estrutura mais de répteis. Assim, a comparação entre o Beemote e um dinossauro não funciona.
Um quarto problema que pode ser apontado, vem da estrutura do texto. Note o que é dito:

Eis que a sua força está nos seus lombos,
e o seu poder nos músculos do seu ventre.
Quando quer, move a sua cauda como cedro;
os nervos das suas coxas estão entretecidos.
Os seus ossos são como tubos de bronze;
a sua ossada é como barras de ferro.
Jó 40:16-18

A estrutura desse texto é chamada de paralelismo, onde a sentença sublinhada está em paralelo com a sentença em itálico que a precede, e as cores correspondem ao seu paralelo na sentença seguinte. Note que “sua força” é paralela ao “seu poder”, “seus lombos” aos “músculos do seu ventre”, “seus ossos” à “sua ossada”, e “tubos de bronze” às “barras de ferro”. Agora, por que a “sua cauda” é paralela aos “nervos das suas coxas” e “cedro” à “entretecidos”? Porque provavelmente o cedro a que se refere é um tipo de Cedro do Líbano, onde os galhos entrelaçados se movem facilmente com o vento. Essa “cauda” está em paralelo com os “nervos”, que se referem aos testículos do animal (a Vulgata traduz para “testiculorum”). Assim, o foco aqui é na capacidade reprodutora desse animal, onde, dada a estrutura de paralelismo poético do texto, vemos que “cauda” não é literal.[2]
Quem é, então, o Beemote? Não é atoa que esse ente com um boi (40:15). O Beemote aqui provavelmente é um grande boi, comum nos textos sagrados do Antigo Oriente Médio. O estudioso John Day diz que, assim como em Jó

os textos Ugaríticos mencionam duas vezes uma criatura mítica parecida com um boi junto do Leviatã, conhecido como Arsh, ou Atik, o bezerro de El (KTU2 1.3.III.40-44; 1.6.VI.51-53), e isso deve, com certeza ser a grande fonte da figura do Beemote. Além disso, na segunda alusão Ugarítica, Arsh é representado como estando no mar, assim como o Beemote está em um rio em Jó 40:23.[3]

O Beemote, assim, é uma criatura sobrenatural, um “monstro do caos”, que representa a fertilidade, o gado e o mundo animal como um todo. Ele representa tudo isso. O fato do Leviatã, nos outros textos religiosos, também vir acompanhado de uma criatura do gado, serve de forte evidência para essa conclusão.
Mas falando em Leviatã, como devemos enxergar ele? Um dinossauro ou um crocodilo? Se você leu até aqui com atenção, notará que o Leviatã está na mesma categoria do Beemote, mas como representante do caos dos mares. A Bíblia fala do Leviatã em diversos textos:

Característica
Texto Bíblico
Várias cabeças
Salmos 74:14
Serpente
Isaías 27:1
Dragão
Isaías 27:1
Orgulhoso
Jó 41:15, 34

Em Isaías 27, lemos: “Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar” (Isaías 27:1).
 Esse texto é paralelo ao texto Ugarítico, que diz: “Quando tu castigou a Litanu, a serpente veloz, aniquilaste a serpente tortuosa, o dominante que possui sete cabeças” (KTU 1.5:I:2)[4]
As sete cabeças de “litanu” estão em paralelo com o Salmo 74:Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto” (Salmos 74:14). John Day coloca da seguinte forma:

No Antigo Testamento, o dragão é, algumas vezes, chamado de Leviatã, e ele também é dito como um ser com mais de uma cabeça (Sl 74.14), e também é chamado de tannîn ‘dragão’, descrito como a ‘serpente tortuosa’ (Is 27.1). Nos textos Ugaríticos, nós lemos algo similar, falando de um dragão (tnn) de sete cabeças chamado ltn [...] (KTU2 1.5.i.1-3)[5]

Em outros textos, no próprio livro de Jó, Leviatã aparece com outros nomes, como Yam e Raabe:

Sou eu o mar [yam], ou o monstro das profundezas [tannin], para que me ponhas sob guarda? (Jó 7:12)
Deus não refreia a sua ira; até o séquito de Raabe encolheu-se diante dos seus pés. (Jó 9:13)
Com seu poder agitou violentamente o mar; com sua sabedoria despedaçou Raabe. Com seu sopro os céus ficaram límpidos; sua mão feriu a serpente arisca. (Jó 26:12,13)

No texto Ugarítico, após chamar Litanu de Tirano, nos lemos também:

Certamente eu destruí Yam, amado de El, certamente eu coloquei um fim no Rio, o poderoso deus.
Certamente eu levantei o Dragão [tannin] de duas chamas
Eu destruí a Serpente tortuosa, o Tirano com sete cabeças. (KTU 1.3:III:38-46)[6]

Leviatã é o dragão de várias cabeças, que no Antigo Oriente Médio era conhecido por ser a personificação do caos do mar. Assim, Leviatã, Yam, Litanu, Raabe e tannin, são essa mesma criatura do caos. Vejamos o Salmo 74, onde Leviatã aparece, e qual o seu papel:

Mas tu, ó Deus, és o meu rei desde a antiguidade; trazes salvação sobre a terra.
Tu dividiste o mar pelo teu poder; quebraste as cabeças das serpentes das águas.
Esmagaste as cabeças do Leviatã e o deste por comida às criaturas do deserto.
Tu abriste fontes e regatos; secaste rios perenes.
O dia é teu, e tua também é a noite; estabeleceste o sol e a lua.
Determinaste todas as fronteiras da terra; fizeste o verão e o inverno. (Salmos 74:12-17)

No Salmo 74, nos é dito a Deus: “dividiste o mar” (74:13), “quebrantaste as cabeças das serpentes das águas” (74:13) e de Leviatã (74:14), que foi dado como “comida às criaturas do deserto” (74:14). Deus criou as “fontes e regatos” e secou os rios perenes (74:15). Essa batalha de Deus contra as “águas” é encontrada em diversas passagens da Bíblia, e nesse salmo, temos uma linguagem paralela à de Gênesis 1.[7] Michael Heiser coloca da seguinte forma:

O salmo possui um número de alusões a Gênesis 1. No capítulo original da criação, Deus também “dividiu as águas” (Gn 1:6-7). Praticamente toda a linguagem dos versos do Salmo 74:16-17 pode ser encontrada em Gênesis 1 (Gn 1:4-5, 9-10, 14-18).
Confuso? Um Israelita antigo não iria ter problemas decifrando a mensagem no Salmo 74 e reconheceria que ela está ligando a travessia do êxodo à criação – e então liga ambos os eventos à derrota de um monstro marinho conhecido como Leviatã.[8]

Assim, o Salmo 74 e outras passagens bíblicas nos mostram que o mar, como um exemplo da desordem e caos no mundo, é algo que os Israelitas entendiam estar sob o domínio de Deus. Até mesmo o mais poderoso ser que é responsável pela desordem do mundo não é páreo para Deus (Jó 41). Heiser enfatiza que:

O salmo 74 descreve a criação também – como a vitória de Yahweh sob as forças do caos primitivo. Yahweh trouxe o mundo à ordem, fazendo dele habitável à humanidade, ou, podemos dizer, seu povo. O ato de criação descrito no Salmo 74 era teologicamente crucial para estabelecer a superioridade de Yahweh acima de todos os outros deuses. Baal não era o rei dos deuses, como a história Usarítica proclamou – Yahweh era.
O Faraó também não era, ou qualquer um dos deuses Egípcios. Ao ligar o evento do êxodo – o domar das águas caóticas de modo que o povo de Yahweh pudesse passas sem ser tocado – com a história de criação, os autores bíblicos estavam colocando uma mensagem simples e potente. Yahweh é o rei de todos os deuses. Ele é o senhor da criação – não o Faraó, que, na teologia Egípcia, era o responsável por manter a ordem da criação. O mesmo Deus que criou e que mantém a criação, também a coloca a seu serviço quando precisa.
Não é atoa que em Êxodo 15:11, Moisés, do outro lado das águas, pergunta: Quem é como tu dentre os deuses, Yahweh?[9]

No Salmo 104 também temos Deus como criador do Leviatã e vitorioso na batalha contra as águas, algo que também é paralelo à Gênesis 1[10]:

Salmo 104

Gênesis 1
1-4
Criação dos céus e da terra
1-5
5-9
Repreensão das águas
6-10
10-13
Águas colocadas para uso benéfico
6-10
14-18
Criação da vegetação
11-12
19-23
Criação dos luminares
14-18
24-26
Criação das criaturas marinhas (Leviatã incluso)
20-22
27-30
Criação das criaturas viventes
24-31


Talvez você esteja perguntando: colocar Leviatã e Beemote como seres sobrenaturais, presentes em textos mitológicos de outros povos, não coloca em cheque a autoridade da Bíblia, dizendo que ela também pode ser um mito?
Bom, em primeiro lugar, ninguém está dizendo que Leviatã e Beemote são seres mitológicos no sentido de serem falsos ou metáforas. Leviatã é a aquele que representa o caos dos mares, e Beemote o caos no reino animal. Ambos são tão reais quanto os mares e os animais. Contudo, não são dinossauros, mas sim criaturas sobrenaturais.
Em segundo lugar, devemos entender a Bíblia em seu contexto histórico. Se a Bíblia relata outras criaturas sobrenaturais (anjos, querubins, serafins, satanás, etc.) por que, a partir de toda essa evidência, não entendemos Beemote e Leviatã como outras criaturas sobrenaturais?  Não devemos impor nossa ciência moderna e dizer que são dinossauros que conviveram com humanos (no melhor estilo Flintstones). Ao invés disso, o contexto do Antigo Oriente Médio (contexto em que os autores da Bíblia viveram) deve ser nosso pano de fundo. Dizer que temos nesses textos dinossauros que conviveram como humanos é, não só uma violação da ciência, mas uma completa deturpação do texto bíblico e um desrespeito ao conhecimento dos autores hebreus. Como cristãos, temos que abraçar mais a cosmovisão sobrenatural da Bíblia ao invés de tentar ver tudo como natural.




[1] WisdomByTheSpirit. The Behemoth - This is NOT a Dinosaur, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=wWVdViTylaQ; acesso 30/04/2019
[2] Ben S. Why Behemoth isn't a Dinosaur, 2017, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=AxGARM5cYKY; acesso 30/04/2019
[3] DAY, John. Yahweh and the gods and goddesses of canaan, Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000, p. 103-104
[4] Ben S. Why Leviathan isn't a Dinosaur, 2018, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=CMf1OKxT390; acesso 01/05/2019
[5] DAY, John. Yahweh and the gods and goddesses of canaan, p. 99
[6] Ben S. Why Leviathan isn't a Dinosaur, 2018, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=CMf1OKxT390; acesso 01/05/2019
[7] HEISER, Michael. The unseen realm: recovering the supernatural worldview of the Bible, Bellingham, WA: Lexham Press, 2015, p. 157. Edição ePub
[8] Ibid.
[9] Ibid. p. 158
[10] DAY, John. Yahweh and the gods and goddesses of canaan, p. 101

domingo, 21 de abril de 2019

Uma fé que não é vã


Através dos séculos, o ser humano tentou encontrar um fundamento para a realidade que ao mesmo tempo em que acabasse com seu anseio também interpretasse o mundo de modo adequado. Friedrich Nietzsche, o filósofo do século XIX que ficou famoso por sua icônica frase, “Deus está morto” acreditava que o homem, vendo-se em um mar de caos e devir começou a criar interpretações de mundo para conseguir suportar esse caos. Para o homem primitivo, essas interpretações tinham a pretensão de serem verdades, mas, no fim, eram apenas mentiras para o conforto do homem.[1]
Uma coisa, contudo, é inegável: o anseio do homem para resistir ao caos do mundo é real. Nietzsche estava correto com isso. Os hebreus respondiam a esse anseio falando sobre como Deus havia colocado a eternidade no coração do homem (Ec. 3.11). Mas a conclusão de Nietzsche de que as ditas “verdades” são meras perspectivas criadas para suportar o devir do mundo não parece estar correta. Afinal, se isso for “verdade”, não seria essa própria ideia uma mera interpretação também? E mais, não é o suficiente chamar uma ideia de falsa apenas apontando uma possível origem para ela, pois isso seria um exemplo de falácia genética.
O apóstolo Paulo, anteriormente conhecido como um dos maiores perseguidores de cristãos da história, disse, após sua conversão, que se Jesus Cristo de fato não ressuscitou dos mortos, então nossa fé é vã (1 Co 15.17). O termo grego mataios tem um sentido de algo que é fútil, falso, sem propósito. É um adjetivo derivado da palavra máten, que significa algo sem fundamento. Em outras palavras, se Jesus não ressuscitou dos mortos factualmente, então a fé cristã não possui fundamento algum. Não é possível ser cristão e dizer que a ressurreição foi apenas um artigo de fé cega originado de um sentimento dos primeiros cristãos. De fato, tal ideia seria incoerente, dado o pano de fundo judaico dos autores do Novo Testamento.
É fato que não haveria conversão alguma entre os primeiros cristãos se eles simplesmente dissessem que Jesus estava presente em seus corações, e isso lhes bastava. Judeus, como Paulo e Tiago, não tinham qualquer motivo para ter um “Jesus no coração”. Paulo perseguia cristãos, e Tiago não acreditava em seu irmão (Jo 7.5; Mc 3.21-35). Esses dois detalhes passam pelo critério de historicidade do constrangimento, pois seria constrangedor inventar que um dos principais líderes do Cristianismo foi um perseguidor daqueles que buscava aconselhar. Suas cartas não seriam dignas de crédito. Além disso, também seria embaraçoso colocar que o irmão do Messias era um incrédulo. Esse é um dos argumentos para demonstrar que as aparições de Jesus realmente ocorreram após a sua morte, servindo de evidência para a crença de Paulo, Tiago e outros discípulos, que estariam desanimados e sem esperança ao ver seu Messias morrendo. O crítico cético do Novo Testamento Hans Grass admite que “a conversão de Tiago é uma das provas mais certas das aparições de Jesus Cristo.” [2]
Essas aparições não são relatadas apenas na Bíblia. Mas os relatos das aparições de Jesus é apontado por Flávio Joséfo, um historiador judeu do primeiro século. Joséfo nos fiz que: “aqueles que haviam sido seus discípulos não deixaram de segui-lo. Eles relataram que ele lhes havia aparecido três dias depois da crucificação e que ele estava vivo”. Para Joséfo, um judeu que não foi convertido ao Cristianismo, a admissão de que pessoas acreditavam ter visto o Cristo ressurreto é algo embaraçoso, principalmente pelo fato dele ser um “inimigo” do Cristianismo.[3]
A ideia de uma ressurreição “espiritual” ou algo motivacional que fez com que os discípulos fossem até a morte não faz sentido no que para a própria perspectiva cultural da época. Dizer que a ressurreição de Jesus foi algo que aconteceu apenas no coração deles é um anacronismo, pois esse conceito não existia na época. Além disso, não convenceria ninguém, já que a tumba foi encontrada vazia. O historiador N. T. Wright, ao final de sua obra de mil páginas a respeito da historicidade da ressurreição de Jesus concluiu que a tumba vazia e as aparições pós-morte de Jesus estão “no mesmo tipo de categoria que a morte de Augusto em 14 d.C. ou a queda de Jerusalém em 70 d.C., isto é, no de uma probabilidade histórica tão alta que é praticamente certa.”[4]
A evidência para a tumba vazia é bem forte. Em primeiro lugar, seria impossível convencer as pessoas que o Messias morto havia ressuscitado se o corpo ainda estivesse lá. Além disso, o fato de mulheres serem as primeiras testemunhas da narrativa torna o fato em mais provável, pois mulheres não eram dignas de crédito para serem testemunhas na época. Se a história fosse inventada, eles teriam colocado os discípulos de grande nome como descobridores da tumba vazia. Por fim, a Inscrição de Nazaré, que é um decreto Imperial de 41 d.C., nos dá evidência de que algumas pessoas da época acreditavam que a tumba havia sido saqueada:

Decreto de César: É meu prazer que tumbas e sepulturas permaneçam perpetuamente imperturbadas por aqueles que as construíram para o culto aos seus ancestrais, aos filhos ou aos membros de sua casa. Se, porém, qualquer um fizer acusação de que outro as destruiu ou que, de alguma maneira, tenha extraído o sepultado, ou o tenha maliciosamente transferido para outro lugar com o objetivo de fazer-lhe mal, ou que tenha substituído o selo por um outro, contra este ordeno que seja constituído um tribunal, tanto com relação aos deuses, como em relação ao culto aos mortais. Pois é muito mais obrigatório honrar os sepultados. Que seja absolutamente proibido a qualquer um perturbá-los. Em caso de violação, desejo que o ofensor seja sentenciado à pena capital ou considerado culpado de violação de sepulcro.

Note que a punição para o saqueamento de uma tumba é a morte. O que é muito além do que os romanos fariam em caso de um roubo. Não haveria motivo algum para o decreto imperial sobre a tumba roubada, se os Judeus estivessem em Roma pregando a ressurreição e a tumba estivesse com o corpo. Mas como então o corpo sumiu? Não podem ter sido os Romanos, pois eles nem ligariam pra isso. Os Judeus muito menos, pois queriam que Jesus fosse esquecido.
Mas e os Cristãos? É improvável, já que eles estavam envergonhados e sem esperança, após ver seu líder morto vergonhosamente. De fato, como Judeus, eles acreditavam que aquele que fosse morte por crucificação estava sob a maldição de Deus (Dt 21.22-23). Além disso, não faria sentido eles roubarem o corpo e depois espalharem a mentira da ressurreição inventada por eles mesmos e estarem dispostos a morrer por isso.
N. T. Wright explica que a crucificação do Messias era, por si só, uma aniquilação da esperança no Messias por parte dos discípulos: “A crucificação de Jesus, entendida do ponto de vista de qualquer observador, simpático a ele ou não, deve ter parecido como a completa destruição de quaisquer pretensões ou possibilidades messiânicas que ele ou seus seguidores possam ter dado a entender.”[5]
Por esses fatos, uma ressurreição meramente motivacional ou espiritual não faz sentido. Também não pode ser dito por parte do cristão que essa é apenas “sua interpretação” do mundo. Para Paulo não era esse o caso. Como diz o estudioso liberal John Dominic Crossan, “Para Paulo [...] a ressurreição corpórea é a única maneira em que a contínua presença de Jesus pode ser expressa”.[6]
O historiador ateu Gerd Ludemann também concorda que “nós não temos razão nenhuma para colocar a interpretação simbólica da ressurreição de Jesus no contexto da crença dos primeiros Cristãos na ressurreição”.[7]
A perseguição e morte dos apóstolos é relatada por Clemente[8], Tácito[9], Flávio Joséfo[10], Inácio, Irineu, Tertuliano e Policarpo, além de diversos apócrifos antigos.[11] E, com isso, uma dúvida inevitável aparece: por que os primeiros cristãos morreriam por uma mentira? O fato simples é que a ressurreição de Cristo não é apenas mais uma interpretação de mundo, baseada em um desejo desesperado do coração humano. O Filho de Deus encarnou, viveu como homem e amou. Por esse amor, ele satisfez a ira do Deus Pai, pagando pelo desejo humano de se afastar de Deus e viver como deus. Na história da redenção, nós vemos algo quase paradoxal: o fato de que podemos ter esperança no futuro com Deus, ao mesmo tempo em que o homem, ansiando por esse futuro, não quer aquele que é o responsável por ele.
O homem, achando-se deus, criou diversas interpretações de mundo para tentar satisfazer o anseio por um conforto no caos do mundo, sem saber que o único que pode satisfazer esse anseio é o verdadeiro Deus que criou o homem. Esse é o pecado fundamental do homem. E o Deus que criou o homem que pensou que havia criado Deus pagou por ele. Por isso, Cristo o convida, de braços abertos, a voltar a Deus.

No final, nós vemos que Jesus de Nazaré é o cumprimento histórico dos mais genuínos ideais e anseios humanos, os quais são encontrados através das religiões, dos contos de fadas, dos épicos e das lendas do mundo. [...] Em Cristo, Deus aperfeiçoa e preenche as maiores esperanças e aspirações supremas em todas as culturas, filosofias e religiões.[12]

Por isso, a fé cristã encontra-se longe de uma fé vã. A fé cristã apoia-se em fatos. Não há fideísmo. O Cristo que fala ao meu coração, fala à minha razão também. Ele preenche os anseios do mundo, em todas as áreas, por uma escolha. É um Deus que poderia se manter longe, mas, por amor, se revelou. Cristo não é uma interpretação, Ele é o Deus encarnado, que revelou o que o mundo é para uma humanidade perdida e sem direção.



[1] CILENTO, Angela Zamora. “A metafísica de artista enquanto concepção estética do mundo”, Revista Primus Vitam, São Paulo, Nº 4, 2012, p. 1
[2] Apud. CRAIG, William Lane. Apologética Contemporânea: a veracidade da fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 363
[3] Joséfo não foi um inimigo no sentido de se opor ao Cristianismo. Mas ele, como judeu, não era apoiador da fé cristã. Por isso, esse fato teria todos os motivos para ser omitido por ele.
[4] WRIGHT, N. T. A Ressurreição do Filho de Deus, São Paulo: Paulus, 2013, p. 975
[5] Ibid., p. 769
[6] Apud, LICONA, Michael;  HABERMAS, Gary. The Case for the Ressurrection of Jesus, Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2004, Locais do Kindle 1660-1661. Edição Kindle
[7] Citado em Inspiring Philosophy, 6. The Resurrection of Jesus (Spiritual Resurrection?), 2016, 15:11, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=rffmrioFnBY acesso 21/04/2019
[8] 1 Clemente 6:1
[9] Sean McDowell, The Fate of the apostles: Examining the Martyrdom Accounts of the Closest
Followers of Jesus, Londres: Routledge, 2016, p. 104
[10] Antiguidades 20:197:203
[11] Sean McDowell, The Fate of the apostles: Examining the Martyrdom Accounts of the Closest
Followers of Jesus, Londres: Routledge, 2016.
[12] COPAN, Paul. True for You, But Not for Me. Grand Rapids, MI: Baker Publishing Group, p. 118. Edição do Kindle.