sábado, 20 de junho de 2015

A Existência de Deus #16 - O Argumento da Consciência


O que é a mente? O que é a consciência? O que é o "eu"? Será que somos apenas rearranjos de partículas, similares a rochas e a cadeiras? Ou será que temos algo a mais do que essas coisas? Teria algo em nós que nos da a vida e nos faz pensar, raciocinar e ser livres?

O Argumento da Consciência


Premissa 1 – Se estados mentais não-físicos existirem, então há uma explicação para sua existência; sendo ou uma explicação pessoal ou uma explicação cientifica.

Quando dizemos estados mentais não físicos, queremos dizer algo imaterial que vem de uma mente independente do cérebro. Ou simplesmente consciência.
Consciência é aquilo que você esta ciente quando esta em introspecção (observando seu interior).
Explicação pessoal, significa algo que requer uma pessoa para explicar, ou um agente que age para o efeito. Já a causa cientifica, é algo explicado por leis da natureza ou condições iniciais.

Premissa 2 – Estados mentais não-físicos existem.

Essa premissa é inegável. Obviamente, estados mentais não físicos existem. Imagine por exemplo, um elefante rosa. Agora, se partirmos seu cérebro em dois, acharemos o elefante rosa ali?
J. P. Moreland diz:

“... eu sei que minha consciência não é um fenômeno físico porque existem coisas que são verdades para minha consciência que não são verdade para nenhum objeto físico. [...] Alguns de meus pensamentos tem o atributo de serem verdadeiros. Tragicamente, alguns tem o atributo de serem falsos. [...] Porem, nenhum de meus estados cerebrais é verdadeiro ou falso. Nenhum cientista pode olhar para o estado de meu cérebro e dizer ‘oh, olhe esse estado particular do cerebro é verdade e esse outro é falso.” [J. P. Moreland, “The Evidence from Counciousness”, em Lee Strobel, “The Case for a Creator”, p. 258]

Premissa 3 – A explicação para a existência desses estados mentais não é uma explicação cientifica.

Se esses estados mentais existem independente do cérebro, sendo não físicos, então eles não podem ser explicados por leis da física. Agora, deixe-me dar alguns argumentos para a separação mente-cerebro:
Primeiro, seus pensamentos continuam os mesmos, mesmo que seu cérebro mude por completo. A cada quinze anos, as moléculas que estão em constante fluxo do seu corpo mudam completamente, incluindo as do seu cérebro. Agora, se você é seu cérebro, como você pode se lembrar de algo com mais de quinze anos?
Segundo, enquanto seus pensamentos são subjetivos, seu cérebro não é. Mesmo se algum cientista conseguir mapear seu cérebro por completo, ele não vai conseguir saber seus pensamentos íntimos. No maximo, descobrir onde certos pensamentos se correlacionam com o cérebro, causando alguma sensação física.
Terceiro, você pode direcionar seu pensamento intencionalmente para algo. Nenhum objeto físico tem a capacidade de intencionalmente direcionar o pensamento para ou sobre algo. Eu posso pensar sobre meu irmão, ou sobre minhas aulas. Mas nenhum objeto físico pode fazer o mesmo.
Quarto, existem boas evidencias de correlação entre cérebro e mente, e mente e cérebro. Quando você esta ansioso, isso afeta a química do seu cérebro. Quando você esta solitário, isso afeta a química do seu cérebro. Você sente a emoção, mas seu cérebro apenas os efeitos. Isso também é evidente no chamado Efeito Placebo, onde nosso estado mental afeta diretamente nosso corpo. Como Mario Beauregard e Denyse O’Leary disseram:

“Normalmente o placebo ajuda uma porcentagem de pacientes [...] talvez e 35 a 45%. Então, nas décadas recentes, se o efeito de uma droga é estatisticamente significante, o que significa que é apenas 5% melhor do que o placebo, ela pode ser licenciada para uso. [...] Claro, o efeito placebo ‘não faz sentido’ se você assumir que a mente não existe ou que é inútil” [Mario Beauregard e Denyse O’Leary , “The Spiritual Brain”, p. 141]

Em 2006 um estudo foi publicado mostrando que nossa experiência subjetiva de interagir com o rosto de outras pessoas modifica os neurons de percepção facial no cérebro do receptor. Então, nossas experiências mudam a química do cérebro. [Nancy Kanwisher e Galit Yovel, “The fusiform face area: a cortical region specialized for the perception of faces”]
Pessoas são capazes de mudar seus circuitos neurais, e vários estudos confirmam isso. Como Merzenich e deCharms colocaram:

“Isso nos deixa com o fato fisiológico claro [...] a cada momento nós escolhemos e esculpimos como nossas mentes mutáveis vão funcionar, nós escolhemos quem nós seremos no próximo momento em um sentido muito real, e essas escolhas nos deixam ao relevo em forma física em nossos eus materiais.” [Merzenich e deCharms citados por Jeffrey Schwartz, “The Mind and the Brain”, p. 339]

Uma objeção a isso é, “por que o mesmo não pode ser feito com estimulo passivo externo?” Porem, Jeffrey Schwartz responde isso mostrando estudos que dizem que o estimulo externo não tem o mesmo efeito que uma “força interna” agindo. Ele diz:

“... quando estímulos idênticos àqueles que induzem mudanças plásticas em um cérebro com atenção são na verdade feitos em um cérebro sem atenção, não há indução da plasticidade cortical. Atenção, em outras palavras, deve ser paga.” [Idem, p. 338]

Alguns podem responder: “Ok, mas e quanto a danos cerebrais que mudam a consciência, personalidade, e outras coisas?” Porem, isso é fácil de responder. O dualista argumenta que a relação da mente e do corpo é a de como um musico e seu instrumento: Se o instrumento for danificado, então o musico não consegue tocá-lo corretamente.
Quinto, propriedades mentais são auto-apresentáveis. Propriedades mentais, como o sentimento de tristeza, experiência de cor vermelha e pensar que o numero três é um numero impar, são propriedades que se apresentam diretamente, são atributos psicológicos.
Sexto, o chamado argumento do conhecimento. Suponha que um cientista surdo consiga se tornar o maior especialista em neurologia da audição do mundo. Ele pode conhecer e descrever tudo relacionado a audição em aspectos físicos. Porem, a experiência do que é ser um ser humano que ouve ainda esta faltando. Como Howard Robinson colocou:

“A noção de ter alguma coisa como um objeto de experiência não é, prima facie, uma noção física, não figura em nenhuma ciência física. Ter alguma coisa como um objeto de experiência é o mesmo que a sensação subjetiva ou o aquilo que é como a experiência.” [Howard Robinson, “Matter and sense”, p. 7]

Nossas experiências (sabores, cores, pensamentos, etc.) são reais, e seus estados subjetivos provem de natureza subjetiva. O que não é algo de material físico.
Agora, algumas objeções podem ser consideradas. Primeiro, não poderia nossa mente ser algo que emerge do cérebro? Bom, se esse é o caso, então nós não podemos confiar que qualquer coisa que venha da mente seja racional ou verdade. Afinal, tudo não passa de algo que merge de uma massa de matéria com química não guiada. Pense nisso: Você confiaria na impressão vinda de um computador programado por forças aleatórias e leis não racionais?
Com isso em mente, podemos ver outro problema. Se a mente emerge da matéria, isso significa que não temos livre arbítrio. Isso porque, se minha consciência vem do cérebro, então eu sou meu cérebro. Mas, meu cérebro é dominado por leis da natureza que manipulam todas as reações químicas.
Agora, isso é um grande problema para o fisicalista. Pois mesmo ele estando feliz em admitir o determinismo, o determinismo foi demonstrado como auto refutável. Como H. P. Owen argumentou:

“O determinismo é autodesmentível. Se os meus processos mentais são totalmente determinados, eu sou totalmente determinado a aceitar ou a rejeitar o determinismo. Mas, se a única razão para eu acreditar ou não acreditar em X é o fato de eu ser causalmente determinado a acreditar nele, eu não tenho nenhum fundamento para afirmar que o meu julgamento seja verdadeiro ou falso.” [H. P. Owen, “Christian theism”, p. 118]

Alem disso, essa idéia seria absurda. Quer dizer, se eu sou meu cérebro, então se eu cortar meu cérebro pela metade eu me tornarei “meio eu”? Mais ainda, quando olhamos objetos a nossa volta, eles refletem luz que vem diretamente em varias partes do nosso globo ocular. Depois, são interpretadas pelo nosso cérebro. Se eu fosse meu cérebro, então eu seria varias partes dele, com percepções diferentes de cada onda. Esse é o problema da percepção unificada. Uma parte do cérebro guarda as informações das cores do objeto, enquanto outra parte guarda as informações da forma do objeto. Porem, não há parte nenhuma no cérebro que unifica esses dois.
Em 2013, um estudo foi publicado mostrando que o sistema visual do cérebro havia sido completamente mapeado, e que não havia lugar nele responsável por unificar percepções. Isso quer dizer, não que não foi encontrado ainda, mas que o sistema foi completamente mapeado e não foi encontrado. O estudo diz:

“Agora existem evidencias comportamentais e biológicas esmagadoras e que o cérebro não contem representação de área completa, alta resolução, ou instável da cena visual, mesmo que isso seja o que nós experimentemos subjetivamente (Martinez-Conde et al., 2008). A estrutura do sistema visual primata foi mapeada em detalhe (Kaas e Collins, 2003) e não existe área que poderia codificar essa informação detalhada. A experiência subjetiva é portanto inconsistente com o circuito neural.” [The Neural Binding Problem(s), p. 5]

Outra objeção que pode ser feita é a de que “no futuro a ciência construir robôs completamente conscientes”, e isso nos diria que a consciência é algo físico. Porem, ter inteligência artificial é bem diferente de ter inteligência. Um computador não tem um “eu”.  J. P. Moreland responde a isso com uma analogia: Suponha que construam um morcego robô. Podemos estudar ele completamente e saber todo o seu mecanismo, de forma que saibamos tudo o que ele fará. Agora, com relação a um morcego real, mesmo que soubéssemos tudo sobre ele, ainda não teríamos a sua experiência do que é ser m morcego. O ser, o ouvir, o sentir como um morcego.
Em sétimo lugar, se apenas a matéria existisse, então nós seriamos capazes de pegar toda a matéria do corpo humano e criar vida. Como Norman Geisler e Frank Turek colocaram:

“Certamente existe na vida alguma coisa além do material. Que materialista pode explicar por que um corpo está vivo e o outro está morto? Ambos contêm os mesmos elementos químicos. Por que um corpo está vivo num minuto e morre no minuto seguinte? Que combinação de materiais pode ser responsável pela consciência?” [Norman Geisler e Frank Turek, “Não tenho fé suficiente para ser ateu”, p. 96]

Também existem estudos científicos que confirmam esse estado de consciência fora do corpo. Por exemplo, estímulos elétricos em pacientes epiléticos causavam movimento nos braços e nas pernas, e o paciente pensava “existir fora do corpo”. Wilder Panfield diz:

“Não tem lugar no córtex cerebral onde estímulos elétricos causem o paciente a crer ou a decidir.” [Wilder Panfield, “The Mystery of the Mind”, pp. 77-78]

Roger Sperry e seu time de cientistas também estudaram o lado esquerdo e direito do cérebro. Eles descobriram que a mente tem um poder causal independente do cérebro. Havia um atraso entre o choque elétrico na pele, a chegada o córtex cerebral e a percepção de auto-consciencia da pessoa. Laurence Wood diz:

“Muitos cientistas do cérebro tem sido obrigados a postular a existência de uma mente imaterial, mesmo que eles não tenham uma crença em vida pós-morte.” [“Recent Brain Research and the Mind-Body Dilemma”, The Asbury Theological Journal, vol. 41, n. 1 (1986)]

Há também o problema da percepção unificada. Uma parte do cérebro guarda as informações das cores do objeto, enquanto outra parte guarda as informações da forma do objeto. Porem, não há parte nenhuma no cérebro que unifica esses dois.
O filosofo da biologia e ateísta, Michael Ruse diz:

“Por que deveria um monte de átomos ter a capacidade de pensar? Por que eu deveria, mesmo enquanto escrevo, ser capaz de refletir no que estou fazendo e por que você deveria, enquanto le, ser capaz de considerar meus pontos, concordando ou discordando, com prazer ou dor, decidindo me refutar ou decidindo que eu não valho o esforço? Ninguém, certamente nem o Darwinista como tal, parecem ter qualquer resposta a isso. [...] O ponto é que não existe resposta cientifica.” [Michael Ruse, “Can a Darwinian be a Christian?”, p. 73]

Conclusão – Portanto, a explicação para a existência de estados mentais é pessoal.

Uma objeção comum a esse argumento é o chamado problema da interação. Como uma alma poderia interagir com eventos do corpo e vice-versa? Porem, essa objeção pressupõe que só por não sabermos como essa interação acontece, então ela não acontece. O que é incorrer de petição de principio. Se temos evidencias de que essa interação acontece, então não precisamos necessariamente explicar como ela acontece. William Lane Craig e J. P. Moreland colocaram mais um ponto:

“Freqüentemente sabemos que uma coisa causa outra sem ter qualquer idéia de como a causalidade acontece, mesmo quando os dois itens são diferentes. [...] Um campo magnético pode mover um prego, a gravidade pode agir sobre um planeta distante milhões de quilômetros, os prótons exercem uma força repulsiva um sobre o outro, etc. Nesses exemplos, sabemos que uma coisa pode causalmente interagir com a outra, embora não façamos idéia de como a interação ocorre. Alem disso, em cada caso citado, a causa parece ter uma natureza diferente do efeito: forças e campos versus entidades solidas, ou tipo-particulas, espacialmente situadas.” [William Lane Crair e J. P. Moreland, “Filosofia e Cosmovisão Cristã”, p. 305]

Alem disso, um Idealista poderia dizer que o que existe é a mente, e que o cérebro é um produto da observação da mente.
Outra objeção que esperamos é “a evolução explica?” Afinal, somos seres físicos produtos de processos inteiramente físicos operando sobre a matéria inteiramente física. Porem, esse é outro argumento que incorre de petição de principio. Veja como esse argumento funciona: (1) Se os seres humanos forem apenas um resultado de processos naturalistas e evolutivos, então o fisicalismo esta correto, (2) Os seres humanos são apenas resultado de processos naturalistas e evolutivos, (3) Portanto, o fisicalismo esta correto.
O dualista poderia contra argumentar assim: (1) Se os seres humanos forem apenas o resultado de processos naturalistas e evolutivos, então o fisicalismo esta correto, (2) Mas o fisicalismo não esta correto, (3) Portanto, não é o caso dos seres humanos serem apenas o resultado de processos naturalistas e evolutivos.
Uma ultima objeção, é a que o dualismo viola o principio da Navalha de Ockham. De acordo com esse principio, não devemos multiplicar causas alem da necessidade. Então, porque assumir uma mente não física quando deve haver alguma explicação material mais simples? Porem, de novo, essa objeção incorre de petição de principio, pois pressupõe que causas materiais sejam o bastante pra explicar o fenômeno. Em cada um dos casos mostrados, vimos que a matéria não é suficiente para explicar o fenômeno.
Agora, se os estados mentais não são físicos e não existe explicação cientifica, então a explicação deve ser pessoal. Se a explicação é pessoal, então existe uma consciência que esta alem do corpo e consegue criar esses estados mentais. Essa consciência, esse “eu”, é o que chamamos de alma. E, se uma alma existe, então a explicação alem de pessoal é Teísta e, portanto, Deus existe.

Um comentário:

  1. Então quando um neurocientista afirma que mente e cérebro são as mesmas coisas esse estaria sendo desonesto? Pergunto isso porque assisti um Roda Viva com a neurocientista Suzana Herculano que me deixou intrigada.

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