O que é a mente? O que é a consciência? O que é o "eu"? Será que somos apenas rearranjos de partículas, similares a rochas e a cadeiras? Ou será que temos algo a mais do que essas coisas? Teria algo em nós que nos da a vida e nos faz pensar, raciocinar e ser livres?
O Argumento da Consciência
Premissa 1 – Se estados mentais não-físicos existirem, então há uma
explicação para sua existência; sendo ou uma explicação pessoal ou uma
explicação cientifica.
Quando dizemos estados mentais
não físicos, queremos dizer algo imaterial que vem de uma mente independente do
cérebro. Ou simplesmente consciência.
Consciência é aquilo que você
esta ciente quando esta em introspecção (observando seu interior).
Explicação pessoal, significa algo
que requer uma pessoa para explicar, ou um agente que age para o efeito. Já a
causa cientifica, é algo explicado por leis da natureza ou condições iniciais.
Premissa 2 – Estados mentais não-físicos existem.
Essa premissa é inegável.
Obviamente, estados mentais não físicos existem. Imagine por exemplo, um
elefante rosa. Agora, se partirmos seu cérebro em dois, acharemos o elefante
rosa ali?
J. P. Moreland diz:
“... eu sei
que minha consciência não é um fenômeno físico porque existem coisas que são
verdades para minha consciência que não são verdade para nenhum objeto físico.
[...] Alguns de meus pensamentos tem o atributo de serem verdadeiros.
Tragicamente, alguns tem o atributo de serem falsos. [...] Porem, nenhum de
meus estados cerebrais é verdadeiro ou falso. Nenhum cientista pode olhar para
o estado de meu cérebro e dizer ‘oh, olhe esse estado particular do cerebro é verdade
e esse outro é falso.” [J. P.
Moreland, “The Evidence from Counciousness”, em Lee Strobel, “The Case for a
Creator”, p. 258]
Premissa 3 – A explicação para a existência desses estados mentais não
é uma explicação cientifica.
Se esses estados mentais existem
independente do cérebro, sendo não físicos, então eles não podem ser explicados
por leis da física. Agora, deixe-me dar alguns argumentos para a separação
mente-cerebro:
Primeiro, seus pensamentos
continuam os mesmos, mesmo que seu cérebro mude por completo. A cada quinze
anos, as moléculas que estão em constante fluxo do seu corpo mudam
completamente, incluindo as do seu cérebro. Agora, se você é seu cérebro, como
você pode se lembrar de algo com mais de quinze anos?
Segundo, enquanto seus pensamentos
são subjetivos, seu cérebro não é. Mesmo se algum cientista conseguir mapear
seu cérebro por completo, ele não vai conseguir saber seus pensamentos íntimos.
No maximo, descobrir onde certos pensamentos se correlacionam com o cérebro,
causando alguma sensação física.
Terceiro, você pode direcionar
seu pensamento intencionalmente para algo. Nenhum objeto físico tem a
capacidade de intencionalmente direcionar o pensamento para ou sobre algo. Eu
posso pensar sobre meu irmão, ou sobre minhas aulas. Mas nenhum objeto físico
pode fazer o mesmo.
Quarto, existem boas evidencias
de correlação entre cérebro e mente, e mente e cérebro. Quando você esta
ansioso, isso afeta a química do seu cérebro. Quando você esta solitário, isso
afeta a química do seu cérebro. Você sente a emoção, mas seu cérebro apenas os
efeitos. Isso também é evidente no chamado Efeito Placebo, onde nosso estado
mental afeta diretamente nosso corpo. Como Mario Beauregard e Denyse O’Leary
disseram:
“Normalmente o
placebo ajuda uma porcentagem de pacientes [...] talvez e 35 a 45%. Então, nas décadas
recentes, se o efeito de uma droga é estatisticamente significante, o que
significa que é apenas 5% melhor do que o placebo, ela pode ser licenciada para
uso. [...] Claro, o efeito placebo ‘não faz sentido’ se você assumir que a
mente não existe ou que é inútil” [Mario Beauregard e Denyse O’Leary , “The
Spiritual Brain”, p. 141]
Em 2006 um estudo foi publicado
mostrando que nossa experiência subjetiva de interagir com o rosto de outras
pessoas modifica os neurons de percepção facial no cérebro do receptor. Então,
nossas experiências mudam a química do cérebro. [Nancy Kanwisher e Galit Yovel, “The fusiform face
area: a cortical region specialized for the perception of faces”]
Pessoas são capazes de mudar seus
circuitos neurais, e vários estudos confirmam isso. Como Merzenich e deCharms
colocaram:
“Isso nos
deixa com o fato fisiológico claro [...] a cada momento nós escolhemos e esculpimos
como nossas mentes mutáveis vão funcionar, nós escolhemos quem nós seremos no próximo
momento em um sentido muito real, e essas escolhas nos deixam ao relevo em
forma física em nossos eus materiais.” [Merzenich e deCharms citados por Jeffrey Schwartz, “The Mind and the
Brain”, p. 339]
Uma objeção a isso é, “por que o
mesmo não pode ser feito com estimulo passivo externo?” Porem, Jeffrey Schwartz
responde isso mostrando estudos que dizem que o estimulo externo não tem o
mesmo efeito que uma “força interna” agindo. Ele diz:
“... quando
estímulos idênticos àqueles que induzem mudanças plásticas em um cérebro com
atenção são na verdade feitos em um cérebro sem atenção, não há indução da
plasticidade cortical. Atenção, em outras palavras, deve ser paga.” [Idem, p.
338]
Alguns podem responder: “Ok, mas
e quanto a danos cerebrais que mudam a consciência, personalidade, e outras
coisas?” Porem, isso é fácil de responder. O dualista argumenta que a relação
da mente e do corpo é a de como um musico e seu instrumento: Se o instrumento
for danificado, então o musico não consegue tocá-lo corretamente.
Quinto, propriedades mentais são
auto-apresentáveis. Propriedades mentais, como o sentimento de tristeza,
experiência de cor vermelha e pensar que o numero três é um numero impar, são
propriedades que se apresentam diretamente, são atributos psicológicos.
Sexto, o chamado argumento do conhecimento. Suponha que
um cientista surdo consiga se tornar o maior especialista em neurologia da
audição do mundo. Ele pode conhecer e descrever tudo relacionado a audição em
aspectos físicos. Porem, a experiência do que é ser um ser humano que ouve
ainda esta faltando. Como Howard Robinson colocou:
“A noção de
ter alguma coisa como um objeto de experiência não é, prima facie, uma noção física,
não figura em nenhuma ciência física. Ter alguma coisa como um objeto de
experiência é o mesmo que a sensação subjetiva ou o aquilo que é como a
experiência.” [Howard Robinson, “Matter and sense”, p. 7]
Nossas experiências (sabores,
cores, pensamentos, etc.) são reais, e seus estados subjetivos provem de
natureza subjetiva. O que não é algo de material físico.
Agora, algumas objeções podem ser
consideradas. Primeiro, não poderia nossa mente ser algo que emerge do cérebro?
Bom, se esse é o caso, então nós não podemos confiar que qualquer coisa que
venha da mente seja racional ou verdade. Afinal, tudo não passa de algo que
merge de uma massa de matéria com química não guiada. Pense nisso: Você
confiaria na impressão vinda de um computador programado por forças aleatórias
e leis não racionais?
Com isso em mente, podemos ver
outro problema. Se a mente emerge da matéria, isso significa que não temos
livre arbítrio. Isso porque, se minha consciência vem do cérebro, então eu sou
meu cérebro. Mas, meu cérebro é dominado por leis da natureza que manipulam
todas as reações químicas.
Agora, isso é um grande problema
para o fisicalista. Pois mesmo ele estando feliz em admitir o determinismo, o
determinismo foi demonstrado como auto refutável. Como H. P. Owen argumentou:
“O
determinismo é autodesmentível. Se os meus processos mentais são totalmente
determinados, eu sou totalmente determinado a aceitar ou a rejeitar o
determinismo. Mas, se a única razão para eu acreditar ou não acreditar em X é o
fato de eu ser causalmente determinado a acreditar nele, eu não tenho nenhum
fundamento para afirmar que o meu julgamento seja verdadeiro ou falso.” [H. P.
Owen, “Christian theism”, p. 118]
Alem disso, essa idéia seria
absurda. Quer dizer, se eu sou meu cérebro, então se eu cortar meu cérebro pela
metade eu me tornarei “meio eu”? Mais ainda, quando olhamos objetos a nossa
volta, eles refletem luz que vem diretamente em varias partes do nosso globo
ocular. Depois, são interpretadas pelo nosso cérebro. Se eu fosse meu cérebro,
então eu seria varias partes dele, com percepções diferentes de cada onda. Esse
é o problema da percepção unificada. Uma parte do cérebro guarda as informações
das cores do objeto, enquanto outra parte guarda as informações da forma do
objeto. Porem, não há parte nenhuma no cérebro que unifica esses dois.
Em 2013, um estudo foi publicado
mostrando que o sistema visual do cérebro havia sido completamente mapeado, e
que não havia lugar nele responsável por unificar percepções. Isso quer dizer,
não que não foi encontrado ainda, mas que o sistema foi completamente mapeado e
não foi encontrado. O estudo diz:
“Agora existem
evidencias comportamentais e biológicas esmagadoras e que o cérebro não contem
representação de área completa, alta resolução, ou instável da cena visual,
mesmo que isso seja o que nós experimentemos subjetivamente (Martinez-Conde et
al., 2008). A estrutura do sistema visual primata foi mapeada em detalhe (Kaas
e Collins, 2003) e não existe área que poderia codificar essa informação detalhada.
A experiência subjetiva é portanto inconsistente com o circuito neural.” [The Neural Binding
Problem(s), p. 5]
Outra objeção que pode ser feita
é a de que “no futuro a ciência construir robôs completamente conscientes”, e
isso nos diria que a consciência é algo físico. Porem, ter inteligência
artificial é bem diferente de ter inteligência. Um computador não tem um
“eu”. J. P. Moreland responde a isso com
uma analogia: Suponha que construam um morcego robô. Podemos estudar ele
completamente e saber todo o seu mecanismo, de forma que saibamos tudo o que
ele fará. Agora, com relação a um morcego real, mesmo que soubéssemos tudo
sobre ele, ainda não teríamos a sua experiência do que é ser m morcego. O ser,
o ouvir, o sentir como um morcego.
Em sétimo lugar, se apenas a
matéria existisse, então nós seriamos capazes de pegar toda a matéria do corpo
humano e criar vida. Como Norman Geisler e Frank Turek colocaram:
“Certamente
existe na vida alguma coisa além do material. Que materialista pode explicar
por que um corpo está vivo e o outro está morto? Ambos contêm os mesmos
elementos químicos. Por que um corpo está vivo num minuto e morre no minuto
seguinte? Que combinação de materiais pode ser responsável pela consciência?”
[Norman Geisler e Frank Turek, “Não tenho fé suficiente para ser ateu”, p. 96]
Também existem estudos
científicos que confirmam esse estado de consciência fora do corpo. Por
exemplo, estímulos elétricos em pacientes epiléticos causavam movimento nos
braços e nas pernas, e o paciente pensava “existir fora do corpo”. Wilder
Panfield diz:
“Não tem lugar
no córtex cerebral onde estímulos elétricos causem o paciente a crer ou a
decidir.” [Wilder Panfield, “The Mystery of the Mind”, pp. 77-78]
Roger Sperry e seu time de
cientistas também estudaram o lado esquerdo e direito do cérebro. Eles
descobriram que a mente tem um poder causal independente do cérebro. Havia um
atraso entre o choque elétrico na pele, a chegada o córtex cerebral e a
percepção de auto-consciencia da pessoa. Laurence Wood diz:
“Muitos
cientistas do cérebro tem sido obrigados a postular a existência de uma mente
imaterial, mesmo que eles não tenham uma crença em vida pós-morte.” [“Recent Brain Research and the
Mind-Body Dilemma”, The Asbury Theological Journal, vol. 41, n. 1 (1986)]
Há também o problema da percepção
unificada. Uma parte do cérebro guarda as informações das cores do objeto,
enquanto outra parte guarda as informações da forma do objeto. Porem, não há
parte nenhuma no cérebro que unifica esses dois.
O filosofo da biologia e ateísta,
Michael Ruse diz:
“Por que
deveria um monte de átomos ter a capacidade de pensar? Por que eu deveria,
mesmo enquanto escrevo, ser capaz de refletir no que estou fazendo e por que
você deveria, enquanto le, ser capaz de considerar meus pontos, concordando ou
discordando, com prazer ou dor, decidindo me refutar ou decidindo que eu não
valho o esforço? Ninguém, certamente nem o Darwinista como tal, parecem ter
qualquer resposta a isso. [...] O ponto é que não existe resposta cientifica.”
[Michael Ruse, “Can a Darwinian be a Christian?”, p. 73]
Conclusão – Portanto, a explicação para a existência de estados mentais
é pessoal.
Uma objeção comum a esse
argumento é o chamado problema da interação. Como uma alma poderia interagir
com eventos do corpo e vice-versa? Porem, essa objeção pressupõe que só por não
sabermos como essa interação acontece, então ela não acontece. O que é incorrer
de petição de principio. Se temos evidencias de que essa interação acontece,
então não precisamos necessariamente explicar como ela acontece. William Lane
Craig e J. P. Moreland colocaram mais um ponto:
“Freqüentemente
sabemos que uma coisa causa outra sem ter qualquer idéia de como a causalidade
acontece, mesmo quando os dois itens são diferentes. [...] Um campo magnético
pode mover um prego, a gravidade pode agir sobre um planeta distante milhões de
quilômetros, os prótons exercem uma força repulsiva um sobre o outro, etc.
Nesses exemplos, sabemos que uma coisa pode causalmente interagir com a outra,
embora não façamos idéia de como a interação ocorre. Alem disso, em cada caso
citado, a causa parece ter uma natureza diferente do efeito: forças e campos
versus entidades solidas, ou tipo-particulas, espacialmente situadas.” [William
Lane Crair e J. P. Moreland, “Filosofia e Cosmovisão Cristã”, p. 305]
Alem disso, um Idealista poderia
dizer que o que existe é a mente, e que o cérebro é um produto da observação da
mente.
Outra objeção que esperamos é “a
evolução explica?” Afinal, somos seres físicos produtos de processos
inteiramente físicos operando sobre a matéria inteiramente física. Porem, esse
é outro argumento que incorre de petição de principio. Veja como esse argumento
funciona: (1) Se os seres humanos forem apenas um resultado de processos
naturalistas e evolutivos, então o fisicalismo esta correto, (2) Os seres
humanos são apenas resultado de processos naturalistas e evolutivos, (3)
Portanto, o fisicalismo esta correto.
O dualista poderia contra
argumentar assim: (1) Se os seres humanos forem apenas o resultado de processos
naturalistas e evolutivos, então o fisicalismo esta correto, (2) Mas o
fisicalismo não esta correto, (3) Portanto, não é o caso dos seres humanos
serem apenas o resultado de processos naturalistas e evolutivos.
Uma ultima objeção, é a que o
dualismo viola o principio da Navalha de Ockham. De acordo com esse principio,
não devemos multiplicar causas alem da necessidade. Então, porque assumir uma
mente não física quando deve haver alguma explicação material mais simples?
Porem, de novo, essa objeção incorre de petição de principio, pois pressupõe
que causas materiais sejam o bastante pra explicar o fenômeno. Em cada um dos
casos mostrados, vimos que a matéria não é suficiente para explicar o fenômeno.
Agora, se os estados mentais não
são físicos e não existe explicação cientifica, então a explicação deve ser
pessoal. Se a explicação é pessoal, então existe uma consciência que esta alem
do corpo e consegue criar esses estados mentais. Essa consciência, esse “eu”, é
o que chamamos de alma. E, se uma alma existe, então a explicação alem de
pessoal é Teísta e, portanto, Deus existe.

Então quando um neurocientista afirma que mente e cérebro são as mesmas coisas esse estaria sendo desonesto? Pergunto isso porque assisti um Roda Viva com a neurocientista Suzana Herculano que me deixou intrigada.
ResponderExcluir