sábado, 5 de novembro de 2016

Seria a fé bíblica uma fé cega?


Seria a fé bíblica uma fé cega? Será mesmo que a Bíblia nos ensina a crer cegamente naquilo que ela ensina? A resposta rápida é: Não. Mas pra respondermos de forma mais aprofundada, alguns textos devem ser considerados. Esses textos são João 20:29 e Hebreus 11:1, que dizem:

Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.
João 20:29

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.
Hebreus 11:1

Esses textos são usados tanto por ateus quanto por crentes-mornos-nãoJulgueis para argumentar contra o uso da apologética cristã, e dizer que a fé, na verdade, é cega. Porém, uma exegese apropriada desses textos demonstra que eles não passam nem perto de ensinar isso.

Seria a Fé Bíblica uma Fé Cega?


João 20:29 – Os da fé cega que se dão bem?


O versículo isolado pode até mesmo dar essa idéia. Porém, ele em seu contexto original nos da a interpretação correta do texto. Note que Jesus da a razão para Tomé crer. Tomé ainda assim é um cristão salvo pela graça. Mas sua fé não é cega. Na verdade, ele se nega a isso.
Tal acontecimento ocorre no Evangelho de João. Isso nos da uma pista importante de que Jesus não comandou a fé cega. João escreveu seu evangelho com um propósito apologético para combater antigas idéias anti-cristãs que já estavam permeando no meio cristão. John MacArthur explica:

O Evangelho de João é o segundo (cf. Lc 1.1-4) que contém uma afirmação precisa sobre o propósito do autos (20.30-31). Ele declara: “Estes... foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.31). Os propósitos primários, portanto, são dois: evangelístico e apologético. Reforça o propósito evangelístico o fato de que a palavra “crer” ocorre aproximadamente cem vezes no Evangelho (os sinóticos a empregam menos da metade das vezes). João compôs o seu evangelho para fornecer razões para a fé salvadora de seus leitores e, consequentemente, assegurá-los de que receberiam o dom divino da vida eterna (1.12).
O propósito apologético está estreitamente ligado ao propósito evangelístico. João escreveu para convencer seus leitores da verdadeira identidade de Jesus, ou seja, Deus-Homem encarnado, cujas naturezas divinas e humanas estavam perfeitamente unidas em uma pessoa, que era o profetizado Cristo (“Messias”) e Salvador do mundo. (p. ex., 1.41; 3.16; 4.25-26; 8.58). Ele organizou todo o Evangelho em torno de oito “sinais”ou provas que reforçam a verdadeira identidade de Jesus, conduzindo à fé. A primeira metade de sua obra centra-se em torno de sete sinais milagrosos escolhidos para revelar a pessoa de Cristo e gerar fé: 1) a transformação da água em vinho (2.1-11); 2) a cura do filho oficial do re um oficial do rei (4.46-56); 3) a cura de um paralítico (5.1-18); 4) a alimentação de uma multidão (6.1-15); 5) Jesus andando sobre o mar (6.16-21); 6) a cura de um cego de nascença (9.1-41); e 7) a ressurreição de Lázaro (11.1-57). O oitavo sinal é a pesca milagrosa (21.6-11) depois da ressurreição de Jesus. [1]

João foi o autor que mais narrou a metodologia evidencialista de Jesus. Ele constantemente narrava Jesus como alguém que apresentava milagres como razões para crerem nele. Veja esses exemplos:

Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras. – João 14:11

Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis.
Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele. - João 10:37,38

Agora, vejamos como no próprio contexto imediato da passagem em questão, João narra a metodologia evidencialista de Jesus:

Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.
E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco.
Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.
E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!
Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.
Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.
João 20:25-31

O ex-detetive e apologista J. Warner Wallace comenta:

No final, o Apostolo João escreveu mais sobre o método evidêncial de Jesus do que qualquer outro escritos dos Evangelhos. De acordo com João, Jesus repetidamente oferecia evidência de Seus milagres para verificarem sua identidade e dizia a seus observadores que essa evidência era suficiente [...]  João frequentemente descreve Jesus como alguém que oferece evidência de seus poderes miraculosos para demonstrar Sua Deidade. De fato, a passagem descrevendo a dúvida de Tomé também é uma afirmação de uma fé evidêncial, se for lida completamente. [...] Bem aventurados são aqueles que não viram e creram, portanto muitos outros sinais também foram realizador por Jesus na presença dos discípulos? Você vê a contradição aqui? Por que Jesus iria continuar providenciar evidência se aqueles que crêem sem evidência são supostamente os bem aventurados? [2]

Ele vai adiante e explica que, na verdade, Jesus esta falando daqueles que não verão com base no seu próprio testemunho ocular dos eventos, mas sim nos registrados. Isso fica evidente na oração de Jesus em João 17:

E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.
João 17:20,21

Hebreus 11:1 – Fé naquilo que não se vê = crença sem evidência?


Esse é um texto mais simples. Vejamos ele novamente:

Ora, a fé [grego: pistis] é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. - Hebreus 11:1

A palavra grega para fé é pistis. O dicionário de Grego de Strong traz o seguinte:

Palavra original: πίστις, εως, ἡ
Ela é: Substantivo, feminino
Transliteração: pistis
Pronuncia: (pis’-tis)
Definição curta: fé, crença, confiança
Definição: fé, crença, confiar, confiança, fidelidade

Notamos que a palavra grega tem um significado mais relacionado à confiança em Deus. De fato, o contexto de Hebreus 11 implica que essa seja a melhor interpretação para o texto em questão. Como Neil Shenvi colocou:

Como na interpretação de qualquer documento, o contexto é crucial. Um único verso na Bíblia não deve ser lido isoladamente, mais do que uma única sentença em uma novela ou um parágrafo em um contrato. A definição de fé em Hebreus 11:1 é seguida por uma lista de um capítulo inteiro de indivíduos que, de acordo com o autor, exemplificaram a fé. Mas numerosos personagens no subsequente ‘hall da fé’ de Heb. 11 mostram fé que não pode significar ‘crença sem evidência’.
Por exemplo, Abraão é mencionado como um modelo de fé no verso 8 porque ele “obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber em herança”. Mas, em Gen. 12, somos ditos que Abraão foi porque Deus falou com ele diretamente e o comandou a ir. No v. 27, nós somos ditos que “Foi pela fé que [Moisés] deixou o Egito”. Mas a narrativa em Êxodo 7-12 mostra que Moisés falou diretamente com Deus e também viu Deus operando numerosos milagres, incluindo dez pragas devastadoras. [...] Eu poderia colocar muitos outros exemplos desse capítulo, mas o ponto é claro: ‘fé’ não pode significar ‘crença sem evidência’ porque ela é repetidamente usada para descrever a confiança que indivíduos tiveram em Deus depois de ouvi-lo falar com eles ou depois de vê-lo realizar milagres. [3]

J. Warner Wallace diz:

Essa confiança naquilo que “não se vê” não é injustificado. As promessas de Deus são fundamentadas naquilo que Deus já realizou. Em outras palavras, o autor de Hebreus esta pedindo aos seus leitores que confiem o que não pode ser (ou ainda não foi) visto, na base do que pode ser (ou foi) visto.
Para tornar isso claro, o escritor de Hebreus oferece uma lista curta de crentes históricos que confiaram nas promessas de Deus para o futuro baseados no que Deus já havia feito no passado: Noé, Abraão, Sara, Isaque, Jacó e José são descritos como crentes que “morreram na fé, sem terem recebido as promessas” (verso 13). As promessas de Deus ainda não havia “sido vistas”. Com isso, esses crentes creram firmemente nas promessas que Deus fez baseando-se no que eles já haviam visto. [4]

Conclusão


Não, a fé cristã bíblica não precisa ser cega. A Bíblia ordena que os Cristãos dêem razões para sua fé:

Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder [pros apologian = para defender] a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês. - 1 Pedro 3:15

... senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos.
Judas 1:3

Então, sim, o cristão pode e deve estudar a defesa da fé. A fé cega, na verdade, apenas da uma imagem ruim ao Cristianismo, e deve ser evitada.
Hebreus 11 esta falando na confiança em Deus para as promessas do futuro, baseando-se nas razões que Ele ja havia dado. E João 20 esta falando sobre aqueles que crerão sem literalmente ser testemunha ocular dos eventos. Além disso, seria difícil João estar indo onde uma fé evidencialista sendo o apostolo que mais utilizou o método evidencialista. 

Fontes


[1] - MACARTHUR, John. Bíblia de estudo MacArthur. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010. p. 1377
[2] - COLD-CASE CHRISTIANITY. Did Jesus commend faith that is blind?. Disponível em: http://coldcasechristianity.com/2016/did-jesus-commend-faith-that-is-blind/ Acesso em: 04 nov. 2016.
[3] - NEIL SHENVI - APOLOGETICS. How does the bible define 'faith'?. Disponível em: http://www.shenvi.org/Essays/BiblicalFaith.htm Acesso em: 04 nov. 2016.
[4] - COLD-CASE CHRISTIANITY. Biblical “faith”: trusting what can’t be seen on the basis of what can. Disponível em: http://coldcasechristianity.com/2014/biblical-faith-trusting-what-cant-be-seen-on-the-basis-of-what-can/. Acesso em: 04 nov. 2016.

Um comentário:

  1. A fé é divina e providencial. A filosofia é humana e vão.

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