segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Deus das Lacunas


Então tem a frase “O Deus das Lacunas”. Em qualquer longa discussão sobre “Ciência e Religião”, essa frase deve eventualmente ser dita por um dos membros do grupo, ou pelo cético (com um tom triunfante como se estivesse finalmente usando sua arma mais poderosa) ou por um articulado e educado defensor de uma fé moderna, mostrando sua habilidade sofisticada de se elevar acima de superstições primitivas: “Mas isso é o Deus das Lacunas!” eles dizem em resposta a um ato Divino proposto, “Nós não podemos acreditar nisso!”

No debate entre Carrol e St. Craig [nota: o autor original chama todos os cristãos por “St.”], ambos os participantes tiveram seus cinco segundos obrigatórios de ódio sobre essa ideia. Craig:

“Isso não é fazer algum tipo de afirmação tola de que a cosmologia contemporânea prova a existência de Deus. Não há raciocínio Deus das lacunas aqui. Na verdade, eu estou dizendo que a cosmologia contemporânea nos da evidencia significativa em suporte a premissas em um argumento filosófico para conclusões com significância teológica.”

Carroll:

“É certamente um verdadeiro problema que nós não sabemos porque o universo inicialmente tinha baixa entropia e entropia sempre tem aumentado. Esse é um bom desafio para a cosmologia. Imaginar que cosmólogos não podem responder a essa pergunta sem invocar Deus é o clássico deus das lacunas. Eu sei que Dr. Craig disse que não é isso que ele esta fazendo mas ele fez isso.”

É difícil lutar contra um slogan usado com tanta freqüência e com tanta convicção, especialmente quando por alguma razão perversa pessoas educadas e inteligentes de ambos os lados insistem em atacar o espantalho [nota: falácia do espantalho é cometida quando a pessoa ignora a posição real da outra pessoa e ataca ma versão mais exagerada ou má representada de tal posição*]. Mas deve ser notado, que se os detratores de uma ideia pudessem simplesmente derrota-la por nomeá-la com uma frase que soa como tonta, nós não seriamos capazes de acreditar na teoria do “Big Bang” também.
Carrol cita o filosofo David Lewis dizendo:

“Eu não sei como refutar o olhar de um incrédulo”

Essas referencias ao Deus das Lacunas funcionam como um olhar de um incrédulo, não como um argumento real. (Os olhares incrédulos que Lewis recebeu eram por causa de sua crença em realismo modal, todo mundo logicamente possível é igualmente real. Talvez esses olhares incrédulos apenas significavam que idéias que flagrantemente violavam o senso comum deveriam ser atribuídas com uma pequena probabilidade?)
De qualquer forma, se o Deus das Lacunas é uma falácia, é uma bem estranha. Não esta em nenhum livro sobre falácias lógicas, e só é levantado em contexto teológico. Parece como se alguém dissesse que inferência para a melhor explicação é uma falácia. Deixe-me colocar algumas verdades aqui, e fazer a seguinte afirmação:

Sempre que nós acreditamos em alguma coisa racionalmente, nós fazemos porque há algum tipo de “lacuna” em nosso entendimento de como o universo funciona, que é cheio de postulações da existência dessa coisa.

Em outras palavras, todos os argumentos validos de que algo existe são baseados em raciocínio do tipo Das Lacunas. É assim que o raciocínio (cientifico ou qualquer outro) funciona.
Isso não significa, é claro, que todas as lacunas são melhor explicadas por postular uma intervenção divina especifica. Claro que não. Admitidamente, Monoteístas acreditam no seguinte:

Todos os fenômenos que acontecem na Natureza o fazem porque Deus sustêm o mundo, então (pelo menos indiretamente) causando tudo.

Mas isso dificilmente implica que todos os fenômenos são igualmente boa evidencia da existência de Deus.
Em todo meu conhecimento, nenhum apologista Cristão fez o seguinte argumento: 1) Ciência não pode explicar supercondutividade de alta temperatura [um fenômeno intrigante em física condensada], 2) portanto um designer inteligente causou isso, 3) portanto Deus existe. A razão é que obviamente nesse caso deveria existir em principio uma explicação cientifica ordinária para esse fenômeno. Supercondutores envolvem complicadas, estranhas físicas e não há particularmente nenhuma boa razão para ficar surpreso de que nós não entendemos eles completamente ainda.
(Quando um teorista do Design Inteligente como St. Behe argumenta que 1) há um fenômeno na Natureza como o flagelo bacteriano que pode plausivelmente não ter evoluído naturalmente porque eles tem complexidade irredutível, 2) portanto eles tem que ter sido criados por um designer inteligente, ele não esta cometendo nenhum tipo de falácia lógica, menos ainda o Deus das Lacunas. O problema com esse tipo de argumento é que biólogos tem mostrado que sua premissa (1) é falsa, mas é um tipo de argumento perfeitamente bom, se as premissas fossem realmente verdades.) [Nota: O autor é um Teista Evolucionista]
Em outros casos, como o da baixa entropia no inicio do Universo, ou o ajuste fino das constantes da Natureza para permitir vida, ou porque algumas formas de vida têm experiências conscientes, ou por que assassinar é errado, ou que importa o por que há matéria no Universo, pelo menos não é completamente obvio que existirá uma explicação natural do tipo cientifico usual. Há uma razão do porque filósofos teístas (não sendo totalmente estúpido) travam nesses tipos de “grandes” ou “fundamentais” questões ao invés de questões sobre supercondutividade.
Na verdade esse é exatamente o mesmo motivo do por que muitos filósofos ateus vão negar que esse tipo de perguntas são significativas e que alguém tem o direito de esperar uma resposta. (Carroll fez isso no debate, a respeito da questão do porque o universo veio a existir. Assumindo para a bem do argumento que ele veio, ele argumentou que isso não é o tipo de coisa que precisa de uma explicação.) Alguém pode imaginar físicas hipotéticas as quais são em algum sentido um sistema completo de equações, e ainda falhar em responder algumas ou todas essas perguntas. Nesse caso, o Naturalista vai (por causa de sua convicção de que a Ciência é o único caminho supremo para a verdade) negar que essas perguntas são significativas, enquanto a pessoa que se sente incapaz de engolir isso vai ter para si mesmo um argumento para a existência de Deus.
Outra, Naturalistas mais otimistas podem esperar que “um dia a Ciência vai explicar isso”. Já que informação sobre o que a Ciência vai fazer no futuro infelizmente não pode ser obtida, esse tipo tipicamente apela para aquelas histórias que eu mencionei em meu ultimo post [post do autor original]. Para reformular isso mais uma vez (note que eu não estou acusando o Carrol de fazer esse tipo de argumento; como eu disse eu estou usando o debate como um ponto de partida para falar sobre problemas maiores):

“Nossos ancestrais supersticiosos pensavam que quase todos os fenômenos naturais – o nascer do sol, o crescimento das colheitas, etc. eram atribuídos a numerosos seres sobrenaturais. Ciência invalidou quase todas essas idéias, mas claro que a Ciência não esta completa ainda. Os defensores religiosos modernos, portanto, apesar de sua motivação original para sua crença ter acabado, usam esses buracos em nosso entendimento para manter lugar para atividade divina. Se a evolução ou a cosmologia do Big Bang ou alguma coisa deixam espaço para a atividade de Deus, esses tipos religiosos argumentam, então nós temos algum papel para a Religião. Mas enquanto a Ciência continua a descobrir mais e mais, as lacunas ficam menores e menores, e eventualmente essas afirmações vão desaparecer também. Se segurar nesse tipo de Religião é inútil.”

Esse tipo de raciocínio (que é bem comum, embora eu o tenha colocado com minhas próprias palavras) tende a deslizar imperceptivelmente de politeístas pagãos populares (que pensavam que havia divindade para todos os maiores e menores fenômenos) aos Hebreus monoteístas (que resistiram essa ideia vendo-a como supersticiosa e errada).
Era perfeitamente obvio para qualquer filosofo pagão ou Cristão primitivo que a Natureza procede de acordo com leis ordenadas, e processos naturais. A Ciência moderna pode levar credito por unificar a descrição de vários fenômenos em enquadramentos matemáticos comuns, mas agir como se a existência de ordem na Natureza fosse uma descoberta moderna é um absurdo. É verdade que esse fato esta em tensão considerável com certas formas de Animismo ou Politeísmo Natural. Mas certamente quase todo monoteísta vivo nos dois últimos séculos, vai admitir que Deus causa a maioria das coisas que acontecem, não através de caprichos mas por operação de certos processos naturais, que podem ser entendidos em certa medida pela razão humana.
Nesse sentido, Naturalismo e Monoteísmo tem compartilhado (com muito sucesso) uma herança comum. Ambos implicam que o mundo material não pode ser entendido como divino, e que portanto é apto a estudo e observação impessoal. Agir como se os frutos dessa pressuposição comum compartilhada fosse algum tipo de falsificação de uma dessas duas posições é completamente injusto.
Então, todo mundo deveria parar de usar a frase, Deus das Lacunas. Alem de ser confuso e condescendente, e na verdade não uma falácia lógica, é quase sempre indicada à presença de um espantalho oponente. Muito poucas pessoas religiosas acreditam que Deus existe apenas para preencher a lacuna em nosso entendimento da Ciência. Vamos argumentar contra a verdadeira posição na mesa.


Traduzido de: Aron Wall, "Undivided Looking – God of the Gaps"


*Exemplo de falacia do espantalho :
  
“Senador Jones diz que nós não deveríamos fundar o programa de ataque submarino. Eu discordo completamente. Eu não consigo entender o porque dele querer nos deixar sem defesa assim.”

“Bill e Jill estão argumentando sobre limpar o armário:
Jill: Nós deveríamos limpar os armários. Eles estão ficando uma bagunça
Bill: Por que, nós compramos esses armários ano passado. Nós temos que limpa-los todos os dias?
Jill: Eu nunca disse nada sobre limpa-los todos os dias. Você só quer manter todo o seu lixo para sempre, o que é ridículo.”


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