sábado, 25 de maio de 2019

As genealogias de Gênesis podem provar uma terra jovem?



Um dos argumentos mais populares a favor do Criacionismo de Terra Jovem, é o de que, se contarmos as genealogias de Gênesis 5 e 11, chegamos ao tempo de 2.000 anos. Somado ao fato de que a genealogia de Gên 11 termina com Abraão, e ele viveu em 2.000 a.C., os CTJ chegam à conclusão de que o mundo, agora, tem 6.000 anos.
Se você conhece meu blog e tem lido os últimos posts, já entendeu que esse é mais um exemplo de interpretação errada por causa de nosso ponto de vista ocidental do século XXI. De fato, esse é um dos problemas que temos em nossas interpretações bíblicas hoje em dia: tratar todos os textos como se estivessem falando a nós, e não a eles. Até mesmo um livro básico de hermenêutica nos alerta sobre isso. Gordon Fee e Douglas Stuart, por exemplo, nos dizem:

A razão por que não devemos começar com o aqui e atualmente é que o único controle apropriado para a hermenêutica se acha na intenção original do texto bíblico. [...] Queremos saber o que a Bíblia significa para nós – e isso é certo. No entanto, não podemos fazê-la significar o que nos agrada, e depois dar os “créditos” ao Espírito Santo. O Espírito Santo não pode contradizer a si mesmo; afinal, foi ele que inspirou a intenção original [...] um texto não pode significar o que nunca significou.[1]

Assim, a interpretação “simples” do texto pode estar completamente errada, pois, nós, como intérpretes do século XXI, achamos o texto tão “simples” que não nos damos o trabalho de investigar. Mas há de ser reconhecido que existe uma lacuna cultural enorme entre nós e os autores originais da Bíblia. Como o Rev. Augustus Nicodemus diz:

O mundo em que os escritores da Bíblia viveram já não existe. Está no passado distante, com suas características, cosmovisões, costumes, tradições e crenças. Embora a inspiração das Escrituras garanta que sua mensagem seja relevante para todas as épocas, devemos lembrar que esta comunicação foi registrada em determinada cultura, da qual preservou traços. Os interpretes da Bíblia devem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as verdades, para poder transpor a distância cultural.[2]

Portanto, a primeira pergunta que devemos fazer ao interpretar uma genealogia é: como “funcionavam” as genealogias no Antigo Oriente Médio? Não precisamos sair do próprio texto bíblico, pois ele já nos revela.
Considere, assim, a genealogia presente em Êxodo 6.16-20, que mostra as gerações posteriores de Levi. Nesse texto, quando chegamos a Moisés, só nos é dito quatro nomes: Levi, Coate, Anrão e Moisés. Porém, em 1 Crônicas 7.20-27, nós encontramos uma genealogia paralela à esta, que começa com o irmão de Levi, Efraim, e termina no mesmo período de Moisés, com Josué. O ponto chave é que, se compararmos essas genealogias, vemos uma grande lacuna entre Anrão e Moisés, pois, enquanto a genealogia de Êxodo conta com apenas quatro nomes, a de 1 Crônicas possui onze:

Êxodo 6:16-20
1 Crônicas 7:20-27
Levi
José
Coate
Efraim
Anrão
Berias

Refa

Resefe

Telá

Taã

Ladã

Amiúde

Elisama

Num
Arão e Moisés
Josué

Isso era extremamente comum nos tempos bíblicos. Podemos ver diversas genealogias resumidas em todo o Antigo Testamento. Considere, como exemplo também, a genealogia de 1 Crônicas 6.3-15 e a de Esdras 7.1-5:

1 Crônicas 6:3-15
Esdras 7:1-5
Arão
Arão
Eleazar
Eleazar
Finéias
Finéias
Abisua
Abisua
Buqui
Buqui
Uzi
Uzi
Zeraías
Zeraquias
Meraiote
Meraiote
Amarias

Aitube

Zadoque

Aimaás

Azarias

Joanã

Azarias (2)
Azarias (2)
Amarias
Amarias
Aitube
Aitube
Zadoque
Zadoque
Salum
Salum
Hilquias
Hilquias
Azarias (3)
Azarias (3)
Seraías
Seraías

Agora, é importante notar também a presença de palavras hebraicas que, apesar de serem traduzidas as vezes por “pai” e “filho”, podem significar “ancestral” e “descendente”. Esse é o caso das palavras av e ben, que muitas vezes possuem esse significado. Assim, devemos concluir que os autores bíblicos não têm a intenção de falar de uma geração direta de pai para filho, pois as genealogias muitas vezes possuem lacunas, sendo o importante mencionar nomes grandes para o autor.
Mas o que podemos dizer das genealogias de Gênesis? Elas não possuem uma formula diferente? Afinal, podemos ver claramente a presença da idade das pessoas quando geraram seus filhos. Enquanto nas outras genealogias nós temos “X gerou Y”, em Gênesis nós temos “quando X tinha Z anos, gerou Y”. Ora, a leitura “simples” não nos diz que podemos contar e chegar ao total de anos do mundo, ou pelo menos da humanidade?
A resposta clara é que não. A genealogia mais parecida com as de Gênesis encontra-se no texto já mencionado de Êxodo 6: “E Anrão tomou por mulher a Joquebede, sua tia, e ela deu-lhe [yalad] Arão e Moisés: e os anos da vida de Anrão foram cento e trinta e sete anos” (Êx 6.20)
A presença da palavra hebraica yalad é importante, pois essa é exatamente a mesma palavra que é usada nas genealogias de Gênesis. Como vimos, de Anrão até Arão e Moisés existe uma grande lacuna, que fica evidente quando esta genealogia é comparada com a de 1 Crônicas 7. Ora, se existe uma lacuna, então o texto de Êxodo deve ser interpretado como: “Anrão tomou por mulher Joquebede, e ela gerou um ancestral de Arão e Moisés”. Isso não é uma adição ao texto, mas sim o que a lógica da genealogia nos leva a concluir.
Assim, as genealogias de Gênesis podem muito bem ser interpretadas do seguinte modo, seguindo para o restante do texto:

E viveu Maalaleel sessenta e cinco anos, e gerou um ancestral de Jerede.
E viveu Maalaleel, depois que gerou um ancestral de Jerede, oitocentos e trinta anos, e gerou filhos e filhas.
E foram todos os dias de Maalaleel oitocentos e noventa e cinco anos, e morreu.
Gênesis 5:15-17

Assim, o ônus da prova cai sobre o Criacionista de Terra Jovem, em tentar provar que essas genealogias são diretas de pai para filho. K. A. Kitchen, um estudioso do Antigo Testamento, diz que: “as genealogias do Antigo Oriente Médio normalmente eram seletivas, não contínuas [...] A continuidade das genealogias [na Bíblia] deve ser provada, não pressuposta.”[3]
Se esse é o caso, portanto, torna-se impossível calcular a idade do mundo usando as genealogias de Gênesis. Afinal, essa não é nem ao menos o propósito do autor. Como sabemos? Ora, geralmente quando o autor bíblico quer que os números da narrativa digam um total, ele mesmo as soma. Por exemplo, em Números 1:46 há o número total de cada tribo de Israel. Em Gênesis 46:27, há o número total de filhos e netos de Jacó, que é 70. A ausência de um número total no final dessas genealogias em Gênesis 5 e 11 indica que os números não foram colocados ali para serem somados de forma direta.[4]
Isso fica claro também quando vemos o final da genealogia em Gênesis 11. Em Gênesis 11:26, lemos que Terá gerou Abraão com 70 anos. Logo depois, em Gênesis 11:32, nos é dito que Terá morreu com 205 anos. Porém, depois da morte de Terá, Abraão saiu de Harã (Atos 7:4), e o texto nos diz que ele tinha 75 anos (Gênesis 12:4). Se Terá morreu com 205 anos e depois disso Abraão tinha 75 anos, então Abraão nasceu quando Terá tinha no mínimo 130 anos. Isso indica que o ano em que os filhos foram gerados não precisa, necessariamente, ser exatamente o ano em que todos os filhos foram gerados, o que dificulta para quem utiliza esses dados para calcular a idade da criação. Podemos aplicar esse mesmo princípio a outros nomes nas genealogias. Por exemplo, quando diz que Jarede gerou Enoque com 172 anos, pode ser interpretado como se essa idade Jarece começou a ter filhos, e Enoque, podendo ter sido gerado anos depois, é listado por ser o mais importante dos seus filhos.[5]
Mas como nós podemos saber que realmente há lacunas nas genealogias de Gênesis? Há outra que pode ser comparada que indique isso? Sim! Compare as genealogias de Gênesis com a presente em Lucas 3:
Gênesis 5 e 11
Lucas 3
Adão
Adão
Sete
Sete
Enos
Enos
Cainã
Cainã
Maalaleel
Maalaleel
Jerede
Jarede
Enoque
Enoque
Matusalém
Matusalém
Lameque
Lameque
Noé
Noé
Sem
Sem
Arfaxade
Arfaxade

Cainã (2)
Selá
Selá
Éber
Eber
Pelegue
Pelegue (Fáleque)
Reú
Reú (Ragaú)
Serugue
Seruque
Naor
Naor (Nacor)
Terá
Terá
Abraão
Abraão

Perceba que em Gênesis há um nome a menos. Em Lucas, temos a presença de um segundo Cainã, filho de Arfaxade, pai de Selá (Lc 3.36). Mas, em Gênesis, lemos que Arfaxade gerou [yalad] Selá (Gn 11.12).
Alguns Criacionistas de Terra Jovem argumentam que esse Cainã pode ter sido o erro de um copista, já que existem duas cópias de Lucas nas quais ele não aparece. Contudo, ele ainda está na maioria das cópias de Lucas, e também é provável que os escritores das cópias onde ele está ausente queriam conformar o texto ao de Gênesis.[6]
Também é argumentado que os copistas estavam familiarizados com a Septuaginta e, como as cópias mais tardias da Septuaginta apresentam esse segundo Cainã, então os copistas de Lucas, por estarem familiarizados com a Septuaginta, acrescentaram ele à sua genealogia. Entretanto, é ainda mais provável que os copistas da Septuaginta tenham acrescentado o segundo Cainã para conformar o texto ao de Lucas. John Millam dá algumas razões do porque essa alternativa é mais provável:

Essa conclusão é baseada na observação de que as mudanças na Septuaginta parecem ser muito grandes para terem sido acidentais. Primeiro, quando o segundo Cainã aparece nesses manuscritos tardios, ele aparece em três locais – Gênesis 11:12 e em duas genealogias relacionadas, Gênesis 10:24 e 1 Crônicas 1:24. Segundo, a inserção em Gênesis 11:12 envolve mais do que apenas um nome (como no caso de Lucas 3), e sim duas sentenças completas. As idades em que ele se tornou pai e a idade em que morreu foram adicionadas de modo que segue o padrão dos outros. Terceiro, durante o período da igreja primitiva, a Septuaginta foi amplamente mantida por cristãos que se sentiriam tentados em mudar a genealogia de Lucas. Dados todos esses fatores, nós podemos racionalmente eliminar a ideia de que o Cainã extra em Lucas veio da Septuaginta.[7]

É bem possível que o segundo Cainã seja legitimo. Como vimos, nas genealogias bíblicas, quando uma genealogia está resumida ela segue um padrão de 10 nomes ou algum múltiplo de 7. Em Lucas, encontramos 21 nomes de Adão até Abraão, 14 nomes de Abraão até Davi, 21 nomes de Davi até o exílio, e 21 nomes do exílio até Jesus. Considerando que há 21 nomes entre Adão e Abraão em Lucas, e apenas 20 nomes em Gênesis, é possível que esse o segundo Cainã seja legitimo e foi contado para formar um múltiplo de 7. Dado o nosso conhecimento de genealogias bíblicas, é provável que ainda mais nomes tenham sido omitidos em Gênesis.
Concluímos, portanto, que o uso das genealogias de Gênesis por parte dos Criacionistas de Terra Jovem para provar uma idade do mundo é apenas mais uma parte do anacronismo e exegese ruim por parte deles. Sem considerar o contexto histórico e o texto original, os Criacionistas de Terra Jovem não são capazes de perceber a riqueza “escondida” na cultura dos hebreus. Infelizmente, essa tendência de ir para a “leitura simples” do texto não afeta apenas sua exegese das genealogias. Afeta sua exegese da Bíblia em geral e, pior, afeta toda a sua cosmovisão cristã, de modo que eles representam a Bíblia de maneira errada ao mundo. É justamente por isso, portanto, que um apologeta cristão deve combater o Criacionismo de Terra Jovem.[8]




[1] FEE, Gordon D; STUART, Douglas. Entendes o que lês?: um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica, 3ª Ed., São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 38, 39
[2] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação, 3ª Ed., São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 24
[3] Apud. Hugh Henry, Daniel Dyke, God of the gaps: Gaps in Biblical Genealogies Make it Impossible to Calculate the Date of Creation, 2ª Ed., Mars Hill Center, 2016, Locais do Kindle 751-753, Edição do Kindle
[4] John Millam, The Genesis Genealogies, 2010, p. 11
[5] Essa parte do texto foi retirada de FORTI, Felipe. A gênese em gênesis: solucionando a controvérsia das eras, 2ª Ed., São Paulo: Ed. do Autor, 2019, p. 137.
[6] John Millam, The Genesis Genealogies, 2010, p. 14
[7] Ibid. p. 15
[8] Mais razões para se entender que as genealogias de Gênesis possuem lacunas (assim como a refutação de mais objeções) foram apresentadas no livro FORTI, Felipe. A gênese em gênesis: solucionando a controvérsia das eras, 2ª Ed., São Paulo: Ed. do Autor, 2019, pp. 121-149.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Bereshit V.S. Criacionismo de Terra Jovem



Uma das discussões contemporâneas a respeito de Gênesis 1 tem como alvo o primeiro versículo do livro: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. O que se discute com respeito a esse texto? Há duas perspectivas principais: uma que diz que é a criação do universo que ocorreu há um tempo indeterminado, e outra que diz que é como um título do capítulo. No meu livro eu defendo a primeira interpretação. Porém, há bons motivos para se interpretar do segundo modo também. Antes de entrar nessa discussão, vamos ensinar um pouco de hebraico básico. O foco é entender como funcionam as preposições e o artigo definido.
Existem algumas preposições no hebraico, mas há uma que é relevante para a nossa discussão é a preposição בְּ (Be), que significa “em”. Outra informação que devemos considerar é a dos artigos definidos. Em geral, se usa o artigo הַ (Ha). Quando a preposição בְּ possui artigo definido, não se escreve הַבְ (HaBe), mas se coloca בַּ, que é basicamente a letra בּ (bet) com a vogal chamada patah. Ou seja, בְּ + הַ =  בַּ. Quando não existe artigo definido e se coloca בְּ ligado a uma palavra, deve-se entender que a tradução seria “em um”, enquanto que quando há o בַּ deve-se traduzir por “no” (“em” + “o”).
Por que isso é relevante para nossa discussão sobre Gênesis 1:1? Bom, veja a primeira palavra de Gênesis: בְּרֵאשִׁ֖ית (Bereshit). Repare que a preposição בְּ da palavra não possui o artigo definido. Desse modo, a tradução literal não é “no princípio”, mas sim “em um princípio”.[1]
Outro fato importante sobre a palavra bereshit é que ela não designa um ponto inicial, mas sim um período de início. Exemplos disso podem ser vistos em Jeremias 28:1 e Gênesis 10:10. Os eventos de Jeremias 28:1 acontecem quatro anos após o início do reinado de Zedequias. Em Gênesis 10:10, “princípio” se refere a um tempo necessário para construir ou comandar quatro cidades, que é chamado de “princípio” de reinado de Ninrode. John Sailhamer diz: “Já que a palavra Hebraica traduzida para ‘princípio’ se refere a um período de tempo indefinido, nós não podemos saber por certo quando Deus criou o mundo ou quanto tempo Ele levou para criá-lo”.[2] Sailhamer continua dizendo que se Moisés quisesse dizer que Deus havia criado o universo de modo instantâneo, ele teria usado uma palavra que realmente significasse isso, como rishonah ou techillah. Essas palavras poderiam ser traduzidas como “ponto inicial”, de modo que Gênesis 1:1 seria traduzido como “A primeira coisa que Deus fez foi criar o universo”.[3]
O que, então, podemos concluir? Que a melhor tradução para Gênesis 1:1 é: “Em um período inicial, Deus criou os céus e a terra”. Esse não foi o princípio do universo, mas sim um princípio em que Deus trabalhou na criação, onde a terra já existia “sem forma e vazia”. Assim, devemos concluir que “um período inicial” se refere aos seis dias posteriores.
Evidência adicional para essa conclusão está no fato de que Gênesis 1:1 diz que Deus “criou os céus e a terra” e Gênesis 2:1 diz que ele “terminou os céus e a terra”. Ora, a obra finalizada é justamente o que Deus criou. Se em Gênesis 2:1-3 “céus e terra” se referem a todo o período da criação, então também podemos tirar essa conclusão com relação a 1:1. John Walton diz: “Gênesis 2:3 volta para esse tema [da criação] em seu resumo, indicando o término das atividades bara através do período de sete dias”.[4]
Alguns podem objetar dizendo que o versículo 2 começa com a conjunção וְ (vav), trazendo a ideia de que o verso 2 é uma sequência do verso 1. Assim, 1:1 deve ser uma atividade, seguida da descrição em 1:2. Contudo, tal conclusão ignora o fato de que a conjunção vav quando precede um substantivo, ao invés de um verbo, pode indicar uma pausa, não uma sequência. É por isso que a Bíblia de Jerusalém não traduz para “e a terra era sem forma...” e sim para “Ora, a terra era sem forma...”.
De fato, entender o relato dessa forma está mais de acordo com a forma como os relatos do Antigo Oriente Médio eram organizados. Primeiro, uma clausula dependente, seguida de uma circunstancial, que é, por fim, seguida do ato principal.[5] Observe que é exatamente assim que o “segundo relato” de Gênesis 2 é organizado:


Gênesis 1
Gênesis 2
Clausula dependente
No princípio Deus criou os céus e a terra. (1:1)
Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus (2:4)
Clausula circunstancial
Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. (1:2)
ainda não tinha brotado nenhum arbusto no campo, e nenhuma planta havia germinado, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e também não havia homem para cultivar o solo.
Todavia brotava água da terra e irrigava toda a superfície do solo. (2:5-6)
Ato principal
Disse Deus: "Haja luz", e houve luz. (1:3)
Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente. (2:7)

Repare como a clausula circunstancial toma um lugar semelhante ao de textos que colocamos entre parênteses no português, simplesmente explicando qual era o estado da terra naquele momento.
Ora, quais as implicações para isso na nossa interpretação do texto bíblico? Se esses argumentos estiverem corretos, então Gênesis 1:1 não fala da criação do universo, mas sim do período de 6 dias, nos quais Deus bara os céus e a terra, após obter a informação de pano de fundo de que a terra era sem forma (improdutiva) e vazia.
Assim, em qualquer uma das duas grandes intepretações de Gênesis 1:1-2 que você adotar (que 1:1 ocorreu em um período de tempo muito antes de 1:2, ou que 1:1 resume todas as atividades de 1:3-31) o Criacionismo de Terra Jovem se mostrará uma interpretação exegeticamente patética e gramaticalmente incorreta. Na interpretação aqui apresentada, a narrativa de Gênesis 1 já começa com a terra criada, o que, portanto, nos leva a concluir que Gênesis não tem absolutamente nada a nos dizer com respeito à idade da criação.


[1] Agradeço ao professor William L. Lane pelo comentário de Gênesis 1 de Claus Westermann.
[2] John Sailhamer, Genesis unbound: A provocative new look at the creation account, Multnomah Books, ePub 2011, Parágrafo 2.64
[3] Ibid., Parágrafo 2.192
[4] WALTON, John. The lost world of genesis one: ancient cosmology and the origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2009, p. 45.
[5] Ben S. Why Biblical Scholars Don't Take the Creation Museum Seriously, 2018, 7:00, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=8h33TyJkzwQ&t; acesso 15/05/2019

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Quem são Beemote e Leviatã?



Beemote e Leviatã. Seriam eles dinossauros? Colocar criaturas que viveram milhões de anos no passado em conjunto com as pessoas da Bíblia parece ser mais uma tentativa de encaixar nossa ciência moderna no texto, coisa que os Criacionistas de Terra Jovem amam fazer. Contudo, um estudo (mesmo que mínimo) do contexto em que o Antigo Testamento foi escrito revela quem realmente são essas criaturas. Para avaliar o que eram essas criaturas, devemos ir ao contexto em que o texto foi escrito, e tentar entender como os leitores daquela época viam tais criaturas.
Primeiro, vejamos nosso amigo Beemote:

Contemplas agora o beemote, que eu fiz contigo, que come a erva como o boi.
Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.
Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos das suas coxas estão entretecidos.
Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro.
Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada.
Em verdade os montes lhe produzem pastos, onde todos os animais do campo folgam.
Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo das canas e da lama.
As árvores sombrias o cobrem, com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.
Eis que um rio transborda, e ele não se apressa, confiando ainda que o Jordão se levante até à sua boca.
Podê-lo-iam porventura caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz? (Jó 40:15-24)

Mas porque o Beemote não pode ser um dinossauro? Bom, há diversas razões para isso: em primeiro lugar, o único argumento fornecido é da “cauda que se move como um cedro”. Como o cedro é uma árvore enorme, então a cauda só pode ser de um dinossauro. Certo? Errado. Note dois problemas aqui: (1) não é uma descrição da aparência da cauda, mas sim do movimento da cauda; (2) não existe esse tipo de cedro no Oriente Próximo, mas existe um outro tipo de cedro que se move facilmente com o vento[1]. O segundo problema é que o Beemote cabe debaixo de uma árvore (21-22), coisa que uma criatura como o Sauropode (a qual os Criacionistas de Terra Jovem amam dizer que é o Beemote) não pode fazer, por ter cerca de 25 metros de altura.
Um terceiro problema vem com a palavra hebraica בְ֭הֵמוֹת behemot que tem sua origem na palavra בְּהֵמָה behemah, que significa “gado”. Os dinossauros não eram animais de gado e, na verdade, tinham uma estrutura mais de répteis. Assim, a comparação entre o Beemote e um dinossauro não funciona.
Um quarto problema que pode ser apontado, vem da estrutura do texto. Note o que é dito:

Eis que a sua força está nos seus lombos,
e o seu poder nos músculos do seu ventre.
Quando quer, move a sua cauda como cedro;
os nervos das suas coxas estão entretecidos.
Os seus ossos são como tubos de bronze;
a sua ossada é como barras de ferro.
Jó 40:16-18

A estrutura desse texto é chamada de paralelismo, onde a sentença sublinhada está em paralelo com a sentença em itálico que a precede, e as cores correspondem ao seu paralelo na sentença seguinte. Note que “sua força” é paralela ao “seu poder”, “seus lombos” aos “músculos do seu ventre”, “seus ossos” à “sua ossada”, e “tubos de bronze” às “barras de ferro”. Agora, por que a “sua cauda” é paralela aos “nervos das suas coxas” e “cedro” à “entretecidos”? Porque provavelmente o cedro a que se refere é um tipo de Cedro do Líbano, onde os galhos entrelaçados se movem facilmente com o vento. Essa “cauda” está em paralelo com os “nervos”, que se referem aos testículos do animal (a Vulgata traduz para “testiculorum”). Assim, o foco aqui é na capacidade reprodutora desse animal, onde, dada a estrutura de paralelismo poético do texto, vemos que “cauda” não é literal.[2]
Quem é, então, o Beemote? Não é atoa que esse ente com um boi (40:15). O Beemote aqui provavelmente é um grande boi, comum nos textos sagrados do Antigo Oriente Médio. O estudioso John Day diz que, assim como em Jó

os textos Ugaríticos mencionam duas vezes uma criatura mítica parecida com um boi junto do Leviatã, conhecido como Arsh, ou Atik, o bezerro de El (KTU2 1.3.III.40-44; 1.6.VI.51-53), e isso deve, com certeza ser a grande fonte da figura do Beemote. Além disso, na segunda alusão Ugarítica, Arsh é representado como estando no mar, assim como o Beemote está em um rio em Jó 40:23.[3]

O Beemote, assim, é uma criatura sobrenatural, um “monstro do caos”, que representa a fertilidade, o gado e o mundo animal como um todo. Ele representa tudo isso. O fato do Leviatã, nos outros textos religiosos, também vir acompanhado de uma criatura do gado, serve de forte evidência para essa conclusão.
Mas falando em Leviatã, como devemos enxergar ele? Um dinossauro ou um crocodilo? Se você leu até aqui com atenção, notará que o Leviatã está na mesma categoria do Beemote, mas como representante do caos dos mares. A Bíblia fala do Leviatã em diversos textos:

Característica
Texto Bíblico
Várias cabeças
Salmos 74:14
Serpente
Isaías 27:1
Dragão
Isaías 27:1
Orgulhoso
Jó 41:15, 34

Em Isaías 27, lemos: “Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar” (Isaías 27:1).
 Esse texto é paralelo ao texto Ugarítico, que diz: “Quando tu castigou a Litanu, a serpente veloz, aniquilaste a serpente tortuosa, o dominante que possui sete cabeças” (KTU 1.5:I:2)[4]
As sete cabeças de “litanu” estão em paralelo com o Salmo 74: “Fizeste em pedaços as cabeças do leviatã, e o deste por mantimento aos habitantes do deserto” (Salmos 74:14). John Day coloca da seguinte forma:

No Antigo Testamento, o dragão é, algumas vezes, chamado de Leviatã, e ele também é dito como um ser com mais de uma cabeça (Sl 74.14), e também é chamado de tannîn ‘dragão’, descrito como a ‘serpente tortuosa’ (Is 27.1). Nos textos Ugaríticos, nós lemos algo similar, falando de um dragão (tnn) de sete cabeças chamado ltn [...] (KTU2 1.5.i.1-3)[5]

Em outros textos, no próprio livro de Jó, Leviatã aparece com outros nomes, como Yam e Raabe:

Sou eu o mar [yam], ou o monstro das profundezas [tannin], para que me ponhas sob guarda? (Jó 7:12)
Deus não refreia a sua ira; até o séquito de Raabe encolheu-se diante dos seus pés. (Jó 9:13)
Com seu poder agitou violentamente o mar; com sua sabedoria despedaçou Raabe. Com seu sopro os céus ficaram límpidos; sua mão feriu a serpente arisca. (Jó 26:12,13)

No texto Ugarítico, após chamar Litanu de Tirano, nos lemos também:

Certamente eu destruí Yam, amado de El, certamente eu coloquei um fim no Rio, o poderoso deus.
Certamente eu levantei o Dragão [tannin] de duas chamas
Eu destruí a Serpente tortuosa, o Tirano com sete cabeças. (KTU 1.3:III:38-46)[6]

Leviatã é o dragão de várias cabeças, que no Antigo Oriente Médio era conhecido por ser a personificação do caos do mar. Assim, Leviatã, Yam, Litanu, Raabe e tannin, são essa mesma criatura do caos. Vejamos o Salmo 74, onde Leviatã aparece, e qual o seu papel:

Mas tu, ó Deus, és o meu rei desde a antiguidade; trazes salvação sobre a terra.
Tu dividiste o mar pelo teu poder; quebraste as cabeças das serpentes das águas.
Esmagaste as cabeças do Leviatã e o deste por comida às criaturas do deserto.
Tu abriste fontes e regatos; secaste rios perenes.
O dia é teu, e tua também é a noite; estabeleceste o sol e a lua.
Determinaste todas as fronteiras da terra; fizeste o verão e o inverno. (Salmos 74:12-17)

No Salmo 74, nos é dito a Deus: “dividiste o mar” (74:13), “quebrantaste as cabeças das serpentes das águas” (74:13) e de Leviatã (74:14), que foi dado como “comida às criaturas do deserto” (74:14). Deus criou as “fontes e regatos” e secou os rios perenes (74:15). Essa batalha de Deus contra as “águas” é encontrada em diversas passagens da Bíblia, e nesse salmo, temos uma linguagem paralela à de Gênesis 1.[7] Michael Heiser coloca da seguinte forma:

O salmo possui um número de alusões a Gênesis 1. No capítulo original da criação, Deus também “dividiu as águas” (Gn 1:6-7). Praticamente toda a linguagem dos versos do Salmo 74:16-17 pode ser encontrada em Gênesis 1 (Gn 1:4-5, 9-10, 14-18).
Confuso? Um Israelita antigo não iria ter problemas decifrando a mensagem no Salmo 74 e reconheceria que ela está ligando a travessia do êxodo à criação – e então liga ambos os eventos à derrota de um monstro marinho conhecido como Leviatã.[8]

Assim, o Salmo 74 e outras passagens bíblicas nos mostram que o mar, como um exemplo da desordem e caos no mundo, é algo que os Israelitas entendiam estar sob o domínio de Deus. Até mesmo o mais poderoso ser que é responsável pela desordem do mundo não é páreo para Deus (Jó 41). Heiser enfatiza que:

O salmo 74 descreve a criação também – como a vitória de Yahweh sob as forças do caos primitivo. Yahweh trouxe o mundo à ordem, fazendo dele habitável à humanidade, ou, podemos dizer, seu povo. O ato de criação descrito no Salmo 74 era teologicamente crucial para estabelecer a superioridade de Yahweh acima de todos os outros deuses. Baal não era o rei dos deuses, como a história Usarítica proclamou – Yahweh era.
O Faraó também não era, ou qualquer um dos deuses Egípcios. Ao ligar o evento do êxodo – o domar das águas caóticas de modo que o povo de Yahweh pudesse passas sem ser tocado – com a história de criação, os autores bíblicos estavam colocando uma mensagem simples e potente. Yahweh é o rei de todos os deuses. Ele é o senhor da criação – não o Faraó, que, na teologia Egípcia, era o responsável por manter a ordem da criação. O mesmo Deus que criou e que mantém a criação, também a coloca a seu serviço quando precisa.
Não é atoa que em Êxodo 15:11, Moisés, do outro lado das águas, pergunta: Quem é como tu dentre os deuses, Yahweh?[9]

No Salmo 104 também temos Deus como criador do Leviatã e vitorioso na batalha contra as águas, algo que também é paralelo à Gênesis 1[10]:

Salmo 104

Gênesis 1
1-4
Criação dos céus e da terra
1-5
5-9
Repreensão das águas
6-10
10-13
Águas colocadas para uso benéfico
6-10
14-18
Criação da vegetação
11-12
19-23
Criação dos luminares
14-18
24-26
Criação das criaturas marinhas (Leviatã incluso)
20-22
27-30
Criação das criaturas viventes
24-31


Talvez você esteja perguntando: colocar Leviatã e Beemote como seres sobrenaturais, presentes em textos mitológicos de outros povos, não coloca em cheque a autoridade da Bíblia, dizendo que ela também pode ser um mito?
Bom, em primeiro lugar, ninguém está dizendo que Leviatã e Beemote são seres mitológicos no sentido de serem falsos ou metáforas. Leviatã é a aquele que representa o caos dos mares, e Beemote o caos no reino animal. Ambos são tão reais quanto os mares e os animais. Contudo, não são dinossauros, mas sim criaturas sobrenaturais.
Em segundo lugar, devemos entender a Bíblia em seu contexto histórico. Se a Bíblia relata outras criaturas sobrenaturais (anjos, querubins, serafins, satanás, etc.) por que, a partir de toda essa evidência, não entendemos Beemote e Leviatã como outras criaturas sobrenaturais?  Não devemos impor nossa ciência moderna e dizer que são dinossauros que conviveram com humanos (no melhor estilo Flintstones). Ao invés disso, o contexto do Antigo Oriente Médio (contexto em que os autores da Bíblia viveram) deve ser nosso pano de fundo. Dizer que temos nesses textos dinossauros que conviveram como humanos é, não só uma violação da ciência, mas uma completa deturpação do texto bíblico e um desrespeito ao conhecimento dos autores hebreus. Como cristãos, temos que abraçar mais a cosmovisão sobrenatural da Bíblia ao invés de tentar ver tudo como natural.




[1] WisdomByTheSpirit. The Behemoth - This is NOT a Dinosaur, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=wWVdViTylaQ; acesso 30/04/2019
[2] Ben S. Why Behemoth isn't a Dinosaur, 2017, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=AxGARM5cYKY; acesso 30/04/2019
[3] DAY, John. Yahweh and the gods and goddesses of canaan, Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000, p. 103-104
[4] Ben S. Why Leviathan isn't a Dinosaur, 2018, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=CMf1OKxT390; acesso 01/05/2019
[5] DAY, John. Yahweh and the gods and goddesses of canaan, p. 99
[6] Ben S. Why Leviathan isn't a Dinosaur, 2018, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=CMf1OKxT390; acesso 01/05/2019
[7] HEISER, Michael. The unseen realm: recovering the supernatural worldview of the Bible, Bellingham, WA: Lexham Press, 2015, p. 157. Edição ePub
[8] Ibid.
[9] Ibid. p. 158
[10] DAY, John. Yahweh and the gods and goddesses of canaan, p. 101