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sexta-feira, 7 de junho de 2019

Os Dias de Gênesis (Final)



As evidências a favor da não-literalidade dos dias em Gênesis 1 foram apresentadas. Ainda assim, porém, precisamos lidar com certas objeções. Existem três objeções que normalmente são apresentadas: primeiro, apelam para Êxodo 20 para dizer que os dias tem que ser seis dias literais; segundo, se aponta a formula “tarde e manhã” para indicar que o texto está falando de dias literais; e terceiro, se diz que sempre que a palavra yom está sendo usada com um número ordinal ou cardinal, ele se refere a um dia literal. Vejamos primeiro o texto de Êxodo 20:

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.
Êxodo 20:8-11

Esse argumento não é tão forte quanto as pessoas que o usam acham. Em primeiro lugar, a palavra yom tem uma gama de sentidos literais, podendo ser traduzida por “dia”, período da luz do dia e longos tempos. Isso explica porque o autor escolheu a palavra yom e não outra, pois Gênesis 1 apresenta dias literais e não-literais, assim englobando ambos os sentidos e mantendo a estrutura poética do texto. Mas, em segundo lugar, a própria palavra shabbath, traduzida por “sábado”, não se restringe a um período de 24 horas. Em Levítico 25.3-4, a palavra shabbath é usada para se referir a um ano de descanso da terra.
Com a palavra yom e a palavra shabbath permitindo múltiplas durações, podemos apontar que o texto de Êxodo não diz absolutamente nada quanto à duração desses dias, mas fala apenas do padrão de seis em um. Como William Lane Craig bem colocou:

Os criacionistas literais vão dizer que isso [Êxodo 20] mostra que Gênesis 1 está, de fato, intencionado a se referir a uma semana literal de seis dias consecutivos de 24 horas. Mas eu acredito que isso seja pressionar a passagem demais. O que a passagem de Êxodo está nos mostrando é o padrão que é colocado em Gênesis 1 – o padrão de Deus trabalhando em seis dias criativos e então descansando no sétimo dia. Esse padrão é o mesmo que Israel deveria observar em sua semana de trabalho literal. Mas isso não quer dizer que, já que o padrão é o mesmo, então os períodos de duração descritos em Gênesis também têm, portanto, a exata mesma duração que nossos dias normais do calendário.[1]

Com referência ao quarto mandamento, Gleason Archer também diz:

De maneira nenhuma isso [Êxodo 20:8-11] demonstra que intervalos de 24 horas estavam envolvidos nos primeiros seis dias, assim como a celebração de oito dias da Festa dos Tabernáculos não prova que as peregrinações no deserto sob Moisés ocuparam apenas oito dias.[2]

Portanto, vemos que o texto de Êxodo 20.8-11 não serve como uma evidência forte a favor do Criacionismo de Terra Jovem. É um texto que apenas aponta o padrão de trabalho e descanso de Israel.
A formula “tarde e manhã” também não implica em uma interpretação literal dos dias. No Salmo 90, escrito por Moisés, utiliza as palavras “tarde” e “manhã” como metáforas para o fim e início de um longo período. Ao mesmo tempo, a palavra yom é apresentada no texto como uma referência a um “dia” de Deus, que equivale a “mil anos”:

SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração.
Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus.
Tu reduzes o homem à destruição; e dizes: Tornai-vos, filhos dos homens.
Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite.
Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce.
De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca.
Salmos 90:1-6

O texto fala de como Deus transcende tempo e nós somos limitados por ele. Mas mostra que, linguisticamente, não existe restrição a dizer que “tarde” e “manhã” indicam o fim e o início de um longo período.
Há mais uma coisa que deve ser dita com relação a esse argumento: o sétimo dia não possui “tarde e manhã”. Junto ao fato de que o Salmo 95 diz que o descanso de Deus não acabou (95.11), podemos concluir que o sétimo dia não acabou na semana de criação. Ademais, em Hebreus 3-4 nós temos esse texto citado, onde o autor diz que Deus instituiu um novo dia, chamado Hoje (4.7), o qual é um período de tempo indeterminado (3.13). Assim, concluímos que: ou o sétimo dia continua até hoje, ou esse “hoje” é um novo dia, no qual estamos, que teve início com a obra de Cristo. Independentemente disso, temos uma evidência de que os dias de Gênesis não são literais a partir do Novo Testamento.
A última objeção é, de fato, a mais fraca. A alegação de que a palavra yom com um número sempre indica um período de 24 horas é falsa, pois não existe nenhuma regra gramatical no hebraico que exija isso. De fato, existem textos que usam yom com um numeral e não significa um período de 24 horas (ex.: Oséias 6.2; Zacarias 14.7). Essa “regra” foi simplesmente inventada por Criacionistas de Terra Jovem apenas para dar suporte à sua interpretação falha.[3]
Concluímos essa série de três posts sobre os dias de Gênesis com uma recapitulação. O primeiro dia provavelmente é literal; o segundo dia não da pra saber; o terceiro com toda certeza não é; o quarto dia talvez não seja; o quinto dia não há como saber; e o sexto com toda certeza também não é. Confuso? Nem tanto. Deus não quis revelar a duração de todos os dias de criação, mas nos mostrou que foi ele que criou, deu ordem e função a todas as coisas. Vimos, por fim, que os argumentos a favor da literalidade dos dias são, de fato, fracos, e exigem que adicionemos muitas coisas que não estão no texto bíblico (ex.: Deus acelerando o processo no terceiro dia; Adão com superpoderes, etc.). Assim, estamos justificados em dizer que os dias de Gênesis não são todos literais, e que a crença em uma terra antiga não está impedida pela narrativa de criação. O cristão pode se sentir confortável em crer que Deus criou um mundo antigo, com milhões ou bilhões de anos, pois a Palavra não especifica nenhuma idade para o mundo.


[1] Reasonable Faith, Excursus on Creation of Life and Biological Diversity (Part 3): A Critique of the Literal Interpretation, 2019, disponível em https://www.reasonablefaith.org/podcasts/defenders-podcast-series-3/excursus-on-creation-of-life-and-biological-diversity/excursus-on-creation-of-life-and-biological-diversity-part-3/; acesso 06/06/2019
[2] Apud. Hugh Ross, A Matter of Days: resolving a Creation Controversy, 2ª Ed., Colorado Springs, CO: NavPress, 2015, p. 97. Edição ePub
[3] Norman Geisler, Enciclopédia de apologética: Repostas aos críticos da fé cristã, Vida, 2002, p. 371

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Os Dias de Gênesis (Parte 2)



Baseado no que vimos até aqui, percebemos que a questão não é “qual é a tradução correta da palavra yom?” A questão que enfrentamos é se a palavra “dia” é literal ou não. Certamente a tradução correta é “dia”, e o uso da formula “tarde e manhã” parece indicar isso. Porém, até mesmo essa formula não restringe os dias períodos de 24 horas.[1] Agora devemos avaliar o que nos é dito no quarto dia:

E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra,
E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
Gênesis 1:14-19

Aqui temos um dos grandes desafios ao se interpretar Gênesis 1, e isso se deve a uma série de fatores. Em primeiro lugar, se formos ler como um relato estritamente literal, então temos que dizer que a lua é um luminar, ou seja, ela emite luz. Em segundo lugar, se interpretarmos também que o sol, a lua e as estrelas foram criadas nesse dia, com a própria função de marcar os dias, como pode ter havido três dias antes deste? E em terceiro lugar, a função do sol e da lua é a de separar a luz e as trevas, mas no primeiro dia nos é dito que o próprio Deus fez essa separação. Como, então, solucionar esses problemas?
O primeiro problema é facilmente resolvido ao entender duas coisas: primeiro, como dito antes, nem tudo nesses três primeiros capítulos deve ser lido de modo literal; segundo, temos que entendermos que, no Antigo Oriente Médio, “luz” não era algo físico[2].
O segundo problema só é um problema de verdade se descartarmos a ideia de que há uma proposta funcional nesse texto. Deus claramente está dando a função ao sol e à lua de marcar dias, estações e anos. Assim, devemos entender que o texto está nos dizendo apenas isso: o sol, a lua e as estrelas já existiam, mas agora eles possuam função de marcar os dias, as estações (relacionadas às festividades judaicas) e anos.
Há dois indicativos de que isso está acontecendo no texto, além do que está óbvio para nós: primeiro, o texto começa com “haja”, uma palavra que aparece nos dias um e dois para indicar que algo irá aparecer e logo depois lhe será dada uma função (1.3, 6). Segundo, a palavra hebraica traduzida por “fez” em 1.16 pode facilmente ser traduzida por “preparou” e ainda ser uma tradução literal[3]. A tradução para “preparou” está mais de acordo com o contexto e com o que o autor quer transmitir nele: Deus está preparando o mundo para que ele seja produtivo.
Talvez exista um fator nesse texto que indique a sua não-literalidade. Mas para mostrar isso, devemos ir ao dia 1: “E disse Deus: Haja luz; e houve luz”. A importância desse texto está nas palavras hebraicas utilizadas e na ordem em que elas são utilizadas. Em hebraico, nós lemos יְהִ֣י א֑וֹר וַֽיְהִי־ אֽוֹר (yehî ‘or wayhî ‘or). É importante perceber que Deus ordena que apareça o período de 12 horas da luz do dia e depois dessas 12 horas ele diz que houve luz (wayhî ‘or). Essa palavra hebraica wayhî indica uma mudança de referencial de tempo. Note que essa palavra começa com a conjunção vav, que indica uma continuidade na história. Porém, a palavra wayhî parece indicar uma sequência com um novo referencial de tempo (isso ocorre, por exemplo, em Jó 1.6; 13; 2.1; 1 Samuel 14.1; Gênesis 26.1; Rute 1.1).[4] Assim, se nós tempos um novo referencial de tempo, e se quando ela é usada após um comando ela indica que o comando foi finalizado, o que podemos dizer do seguinte texto do quarto dia:

E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi [wayhî ken].
Gênesis 1:14,15

O uso da palavra wayhî após Deus dar a função do sol e da lua marcarem os dias, tempos determinados e anos parece indicar que antes do quarto dia acabar, tudo isso foi realizado. Portanto, há um bom argumento aqui para a não-literalidade do quarto dia, fazendo dele um período muito mais longo do que o de 24 horas.
Por fim, o terceiro problema parece ser o mais difícil, se nós nos propusermos a ficar apenas com as ideias que o texto mostra. A sugestão de que Deus fazia a função de separar dia e noite até aqui parece ser forçar algo que o texto não diz. Ao mesmo tempo, dizer que o próprio Deus era a luz, pois em João ele é chamado de luz do mundo parece não entender o sentido de “luz” em João. Ainda mais, outros propõem que Deus era a luz, pois em Apocalipse diz que ele será a nossa fonte de luz. Entretanto, Gênesis não faz essa ligação, e não parece correto fazer essa ligação entre “novos céus e nova terra” e os nossos “céus e terra”.[5]
Já que esse problema não diz respeito diretamente à literalidade dos dias de Gênesis, podemos ir ao quinto dia, onde aparecem os animais marinhos:

E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.
E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra.
E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
Gênesis 1:20-23

O relato do quinto dia pode ser entendido como um período de 24 horas ou não. Nada no texto parece fazer preferência a uma interpretação ou outra. Entretanto, há algumas coisas importantes a serem percebidas aqui: primeiro, o texto começa com Deus dando uma função às águas de produzir os répteis de alma vivente. No versículo seguinte, porém, o texto diz que Deus os criou. Há, aqui, portanto, uma contradição? Não, não há, mas nossas mentes ocidentais do século XXI tentam a impor conceitos no texto que não estão lá. A palavra hebraica bara, que é traduzida por “criar” não significa “criar a partir do nada” e também não significa, necessariamente, criação material.[6] Assim, podemos entender que o quinto dia também possui uma orientação de criação funcional.
O sexto dia é um dos mais importantes para a nossa análise:

E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.
E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
Gênesis 1:24-31

O texto de Gênesis 2.4-25 temos uma recapitulação do que ocorreu no sexto dia de Gênesis 1. Esse texto é um grande problema para os que interpretam os dias como literais. Até mesmo John Walton, que interpreta os dias como literais, diz: “Dizer que os eventos em Gênesis 2 poderiam todos ocorrer em um dia de 24 horas (entre eles, nomear todos os animais, o que aparentemente foi concluído porque nenhum ajudador foi encontrado) é forçar credulidade”.[7]
Gênesis 2 começa com um texto circunstancial de uma região específica, onde Deus plantou o jardim do Éden. Após isso, Deus formou o homem pó da terra, e o levou para o jardim. Depois de colocar o homem no jardim, Deus levou a ele todo o animal do campo, ave e gado (2.19-20). Não tendo encontrado uma ajudadora, Deus lhe fez uma a partir de um de seus lados (2.21).
Todos esses eventos não poderiam ter ocorrido em 24 horas. Em primeiro lugar, o texto diz que Deus plantou o jardim, algo que levaria muito mais do que 24 horas. Não há indícios, também, de que Deus tenha acelerado o processo. Em segundo lugar, Adão teve de nomear milhares de animais, sendo assim impossível uma tarefa impossível para ser concluída em 24 horas. Não há indícios no texto de que Adão tivesse superpoderes ou superinteligência, e muito menos de que havia menos animais naquela época. Alguns tentam responder que Adão nomeou as famílias de animais, e não os animais de cada família. Entretanto, isso contradiz o próprio mandato cultural de Adão ter de dominar os animais, já que o ato de nomear, no Antigo Oriente Médio, indicava seu controle ou poder sobre o que foi nomeado[8].
O sexto dia, portanto, não pode, de modo nenhum, ser um dia literal de 24 horas. Assim, toda a narrativa dos Criacionistas de Terra Jovem torna-se invalidada pela própria evidência interna do texto bíblico. Gleason Archer conclui: “Com base na evidência interna, é convicção do presente escritor que yôm em Gênesis 1 não foi empregado pelo autor hebreu com a intenção de descrever um dia literal de 24 horas”.[9]

Continua...



[1] No salmo de Moisés (Salmo 90) as palavras “tarde” e “manhã” são usadas junto da palavra “dia” para mostrar que um dia de Deus é equivalente a um longo período.
[2] WALTON, John. The lost world of Adam and Eve: genesis 2-3 and the human origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2015, p. 32. Edição ePub
[3] Ibid. p. 26
[4] WHITEFIELD, Rodney. The word “vayhiy” in genesis chapter one support for an old Earth, 2013, pp. 2-10, disponível em http://www.creationingenesis.com/Vayhiy_in_Genesis_Chapter_One.pdf; acesso 03/06/2019
[5] Essas duas últimas propostas podem ser lidas em: GotQuestions. How could there be light on the first day of Creation if the sun was not created until the fourth day?, disponível em https://www.gotquestions.org/light-first-sun-fourth.html; acesso 05/06/2019
[6] WALTON, John. The lost world of genesis one: ancient cosmology and the origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2009, pp. 36-43
[7] WALTON, John. The lost world of Adam and Eve: genesis 2-3 and the human origins debate, Downers Grove: InterVarsity Press, 2015, p. 55. Edição ePub; Walton argumenta que Gênesis 2 é uma sequência de Gênesis 1, não uma recapitulação. Esse tema será retomado em outro texto.
[8] Peet Van Dyk, Challenges in the Search for an Ecotheology. Old Testament Essays, 2009. 22. p. 191, disponível em http://www.scielo.org.za/pdf/ote/v22n1/10.pdf; acesso 04/06/2019
[9] Gleason Archer, Panorama do Antigo Testamento, 2ª Ed., São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 215

sábado, 25 de maio de 2019

As genealogias de Gênesis podem provar uma terra jovem?



Um dos argumentos mais populares a favor do Criacionismo de Terra Jovem, é o de que, se contarmos as genealogias de Gênesis 5 e 11, chegamos ao tempo de 2.000 anos. Somado ao fato de que a genealogia de Gên 11 termina com Abraão, e ele viveu em 2.000 a.C., os CTJ chegam à conclusão de que o mundo, agora, tem 6.000 anos.
Se você conhece meu blog e tem lido os últimos posts, já entendeu que esse é mais um exemplo de interpretação errada por causa de nosso ponto de vista ocidental do século XXI. De fato, esse é um dos problemas que temos em nossas interpretações bíblicas hoje em dia: tratar todos os textos como se estivessem falando a nós, e não a eles. Até mesmo um livro básico de hermenêutica nos alerta sobre isso. Gordon Fee e Douglas Stuart, por exemplo, nos dizem:

A razão por que não devemos começar com o aqui e atualmente é que o único controle apropriado para a hermenêutica se acha na intenção original do texto bíblico. [...] Queremos saber o que a Bíblia significa para nós – e isso é certo. No entanto, não podemos fazê-la significar o que nos agrada, e depois dar os “créditos” ao Espírito Santo. O Espírito Santo não pode contradizer a si mesmo; afinal, foi ele que inspirou a intenção original [...] um texto não pode significar o que nunca significou.[1]

Assim, a interpretação “simples” do texto pode estar completamente errada, pois, nós, como intérpretes do século XXI, achamos o texto tão “simples” que não nos damos o trabalho de investigar. Mas há de ser reconhecido que existe uma lacuna cultural enorme entre nós e os autores originais da Bíblia. Como o Rev. Augustus Nicodemus diz:

O mundo em que os escritores da Bíblia viveram já não existe. Está no passado distante, com suas características, cosmovisões, costumes, tradições e crenças. Embora a inspiração das Escrituras garanta que sua mensagem seja relevante para todas as épocas, devemos lembrar que esta comunicação foi registrada em determinada cultura, da qual preservou traços. Os interpretes da Bíblia devem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as verdades, para poder transpor a distância cultural.[2]

Portanto, a primeira pergunta que devemos fazer ao interpretar uma genealogia é: como “funcionavam” as genealogias no Antigo Oriente Médio? Não precisamos sair do próprio texto bíblico, pois ele já nos revela.
Considere, assim, a genealogia presente em Êxodo 6.16-20, que mostra as gerações posteriores de Levi. Nesse texto, quando chegamos a Moisés, só nos é dito quatro nomes: Levi, Coate, Anrão e Moisés. Porém, em 1 Crônicas 7.20-27, nós encontramos uma genealogia paralela à esta, que começa com o irmão de Levi, Efraim, e termina no mesmo período de Moisés, com Josué. O ponto chave é que, se compararmos essas genealogias, vemos uma grande lacuna entre Anrão e Moisés, pois, enquanto a genealogia de Êxodo conta com apenas quatro nomes, a de 1 Crônicas possui onze:

Êxodo 6:16-20
1 Crônicas 7:20-27
Levi
José
Coate
Efraim
Anrão
Berias

Refa

Resefe

Telá

Taã

Ladã

Amiúde

Elisama

Num
Arão e Moisés
Josué

Isso era extremamente comum nos tempos bíblicos. Podemos ver diversas genealogias resumidas em todo o Antigo Testamento. Considere, como exemplo também, a genealogia de 1 Crônicas 6.3-15 e a de Esdras 7.1-5:

1 Crônicas 6:3-15
Esdras 7:1-5
Arão
Arão
Eleazar
Eleazar
Finéias
Finéias
Abisua
Abisua
Buqui
Buqui
Uzi
Uzi
Zeraías
Zeraquias
Meraiote
Meraiote
Amarias

Aitube

Zadoque

Aimaás

Azarias

Joanã

Azarias (2)
Azarias (2)
Amarias
Amarias
Aitube
Aitube
Zadoque
Zadoque
Salum
Salum
Hilquias
Hilquias
Azarias (3)
Azarias (3)
Seraías
Seraías

Agora, é importante notar também a presença de palavras hebraicas que, apesar de serem traduzidas as vezes por “pai” e “filho”, podem significar “ancestral” e “descendente”. Esse é o caso das palavras av e ben, que muitas vezes possuem esse significado. Assim, devemos concluir que os autores bíblicos não têm a intenção de falar de uma geração direta de pai para filho, pois as genealogias muitas vezes possuem lacunas, sendo o importante mencionar nomes grandes para o autor.
Mas o que podemos dizer das genealogias de Gênesis? Elas não possuem uma formula diferente? Afinal, podemos ver claramente a presença da idade das pessoas quando geraram seus filhos. Enquanto nas outras genealogias nós temos “X gerou Y”, em Gênesis nós temos “quando X tinha Z anos, gerou Y”. Ora, a leitura “simples” não nos diz que podemos contar e chegar ao total de anos do mundo, ou pelo menos da humanidade?
A resposta clara é que não. A genealogia mais parecida com as de Gênesis encontra-se no texto já mencionado de Êxodo 6: “E Anrão tomou por mulher a Joquebede, sua tia, e ela deu-lhe [yalad] Arão e Moisés: e os anos da vida de Anrão foram cento e trinta e sete anos” (Êx 6.20)
A presença da palavra hebraica yalad é importante, pois essa é exatamente a mesma palavra que é usada nas genealogias de Gênesis. Como vimos, de Anrão até Arão e Moisés existe uma grande lacuna, que fica evidente quando esta genealogia é comparada com a de 1 Crônicas 7. Ora, se existe uma lacuna, então o texto de Êxodo deve ser interpretado como: “Anrão tomou por mulher Joquebede, e ela gerou um ancestral de Arão e Moisés”. Isso não é uma adição ao texto, mas sim o que a lógica da genealogia nos leva a concluir.
Assim, as genealogias de Gênesis podem muito bem ser interpretadas do seguinte modo, seguindo para o restante do texto:

E viveu Maalaleel sessenta e cinco anos, e gerou um ancestral de Jerede.
E viveu Maalaleel, depois que gerou um ancestral de Jerede, oitocentos e trinta anos, e gerou filhos e filhas.
E foram todos os dias de Maalaleel oitocentos e noventa e cinco anos, e morreu.
Gênesis 5:15-17

Assim, o ônus da prova cai sobre o Criacionista de Terra Jovem, em tentar provar que essas genealogias são diretas de pai para filho. K. A. Kitchen, um estudioso do Antigo Testamento, diz que: “as genealogias do Antigo Oriente Médio normalmente eram seletivas, não contínuas [...] A continuidade das genealogias [na Bíblia] deve ser provada, não pressuposta.”[3]
Se esse é o caso, portanto, torna-se impossível calcular a idade do mundo usando as genealogias de Gênesis. Afinal, essa não é nem ao menos o propósito do autor. Como sabemos? Ora, geralmente quando o autor bíblico quer que os números da narrativa digam um total, ele mesmo as soma. Por exemplo, em Números 1:46 há o número total de cada tribo de Israel. Em Gênesis 46:27, há o número total de filhos e netos de Jacó, que é 70. A ausência de um número total no final dessas genealogias em Gênesis 5 e 11 indica que os números não foram colocados ali para serem somados de forma direta.[4]
Isso fica claro também quando vemos o final da genealogia em Gênesis 11. Em Gênesis 11:26, lemos que Terá gerou Abraão com 70 anos. Logo depois, em Gênesis 11:32, nos é dito que Terá morreu com 205 anos. Porém, depois da morte de Terá, Abraão saiu de Harã (Atos 7:4), e o texto nos diz que ele tinha 75 anos (Gênesis 12:4). Se Terá morreu com 205 anos e depois disso Abraão tinha 75 anos, então Abraão nasceu quando Terá tinha no mínimo 130 anos. Isso indica que o ano em que os filhos foram gerados não precisa, necessariamente, ser exatamente o ano em que todos os filhos foram gerados, o que dificulta para quem utiliza esses dados para calcular a idade da criação. Podemos aplicar esse mesmo princípio a outros nomes nas genealogias. Por exemplo, quando diz que Jarede gerou Enoque com 172 anos, pode ser interpretado como se essa idade Jarece começou a ter filhos, e Enoque, podendo ter sido gerado anos depois, é listado por ser o mais importante dos seus filhos.[5]
Mas como nós podemos saber que realmente há lacunas nas genealogias de Gênesis? Há outra que pode ser comparada que indique isso? Sim! Compare as genealogias de Gênesis com a presente em Lucas 3:
Gênesis 5 e 11
Lucas 3
Adão
Adão
Sete
Sete
Enos
Enos
Cainã
Cainã
Maalaleel
Maalaleel
Jerede
Jarede
Enoque
Enoque
Matusalém
Matusalém
Lameque
Lameque
Noé
Noé
Sem
Sem
Arfaxade
Arfaxade

Cainã (2)
Selá
Selá
Éber
Eber
Pelegue
Pelegue (Fáleque)
Reú
Reú (Ragaú)
Serugue
Seruque
Naor
Naor (Nacor)
Terá
Terá
Abraão
Abraão

Perceba que em Gênesis há um nome a menos. Em Lucas, temos a presença de um segundo Cainã, filho de Arfaxade, pai de Selá (Lc 3.36). Mas, em Gênesis, lemos que Arfaxade gerou [yalad] Selá (Gn 11.12).
Alguns Criacionistas de Terra Jovem argumentam que esse Cainã pode ter sido o erro de um copista, já que existem duas cópias de Lucas nas quais ele não aparece. Contudo, ele ainda está na maioria das cópias de Lucas, e também é provável que os escritores das cópias onde ele está ausente queriam conformar o texto ao de Gênesis.[6]
Também é argumentado que os copistas estavam familiarizados com a Septuaginta e, como as cópias mais tardias da Septuaginta apresentam esse segundo Cainã, então os copistas de Lucas, por estarem familiarizados com a Septuaginta, acrescentaram ele à sua genealogia. Entretanto, é ainda mais provável que os copistas da Septuaginta tenham acrescentado o segundo Cainã para conformar o texto ao de Lucas. John Millam dá algumas razões do porque essa alternativa é mais provável:

Essa conclusão é baseada na observação de que as mudanças na Septuaginta parecem ser muito grandes para terem sido acidentais. Primeiro, quando o segundo Cainã aparece nesses manuscritos tardios, ele aparece em três locais – Gênesis 11:12 e em duas genealogias relacionadas, Gênesis 10:24 e 1 Crônicas 1:24. Segundo, a inserção em Gênesis 11:12 envolve mais do que apenas um nome (como no caso de Lucas 3), e sim duas sentenças completas. As idades em que ele se tornou pai e a idade em que morreu foram adicionadas de modo que segue o padrão dos outros. Terceiro, durante o período da igreja primitiva, a Septuaginta foi amplamente mantida por cristãos que se sentiriam tentados em mudar a genealogia de Lucas. Dados todos esses fatores, nós podemos racionalmente eliminar a ideia de que o Cainã extra em Lucas veio da Septuaginta.[7]

É bem possível que o segundo Cainã seja legitimo. Como vimos, nas genealogias bíblicas, quando uma genealogia está resumida ela segue um padrão de 10 nomes ou algum múltiplo de 7. Em Lucas, encontramos 21 nomes de Adão até Abraão, 14 nomes de Abraão até Davi, 21 nomes de Davi até o exílio, e 21 nomes do exílio até Jesus. Considerando que há 21 nomes entre Adão e Abraão em Lucas, e apenas 20 nomes em Gênesis, é possível que esse o segundo Cainã seja legitimo e foi contado para formar um múltiplo de 7. Dado o nosso conhecimento de genealogias bíblicas, é provável que ainda mais nomes tenham sido omitidos em Gênesis.
Concluímos, portanto, que o uso das genealogias de Gênesis por parte dos Criacionistas de Terra Jovem para provar uma idade do mundo é apenas mais uma parte do anacronismo e exegese ruim por parte deles. Sem considerar o contexto histórico e o texto original, os Criacionistas de Terra Jovem não são capazes de perceber a riqueza “escondida” na cultura dos hebreus. Infelizmente, essa tendência de ir para a “leitura simples” do texto não afeta apenas sua exegese das genealogias. Afeta sua exegese da Bíblia em geral e, pior, afeta toda a sua cosmovisão cristã, de modo que eles representam a Bíblia de maneira errada ao mundo. É justamente por isso, portanto, que um apologeta cristão deve combater o Criacionismo de Terra Jovem.[8]




[1] FEE, Gordon D; STUART, Douglas. Entendes o que lês?: um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica, 3ª Ed., São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 38, 39
[2] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação, 3ª Ed., São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 24
[3] Apud. Hugh Henry, Daniel Dyke, God of the gaps: Gaps in Biblical Genealogies Make it Impossible to Calculate the Date of Creation, 2ª Ed., Mars Hill Center, 2016, Locais do Kindle 751-753, Edição do Kindle
[4] John Millam, The Genesis Genealogies, 2010, p. 11
[5] Essa parte do texto foi retirada de FORTI, Felipe. A gênese em gênesis: solucionando a controvérsia das eras, 2ª Ed., São Paulo: Ed. do Autor, 2019, p. 137.
[6] John Millam, The Genesis Genealogies, 2010, p. 14
[7] Ibid. p. 15
[8] Mais razões para se entender que as genealogias de Gênesis possuem lacunas (assim como a refutação de mais objeções) foram apresentadas no livro FORTI, Felipe. A gênese em gênesis: solucionando a controvérsia das eras, 2ª Ed., São Paulo: Ed. do Autor, 2019, pp. 121-149.