domingo, 24 de dezembro de 2017

Neste Natal, Sakamoto ainda não sabe quem foi Jesus


Sakamoto é um “influenciador digital” que acha que entende das coisas e quer comentar. Neste texto, Sakamoto tenta passar uma imagem de Jesus que não condiz com nenhuma teologia séria ou qualquer estudo do Jesus histórico.
Mas o que podemos dizer do texto dele? Vamos avaliar ponto por ponto e ver porque Sakamoto está errado.


Neste Natal, Sakamoto ainda não sabe quem foi Jesus

De acordo com Sakamoto:

Jesus seria mulher e negra, talvez transexual, caso nascesse nos dias de hoje. E o mundo a mataria em nome de Deus.
Quando defendi isso neste espaço pela primeira vez, há alguns anos, quase apanhei na rua (expressão que deixou de ser figurativa neste Brasil em que a intolerância saiu do armário e pode ser eleita presidente) por pessoas que estão tão dentro de suas caixinhas que não conseguem perceber a beleza de sua própria fé.
Considerando que Jesus foi transgressor em sua época, se ele voltasse à Terra seria tudo aquilo que é considerado inferior, marginal, blasfêmico ou de segunda classe. Ou você acha que ele viria coberto de ouro e moraria nos Jardins ou na Barra da Tijuca?

Bom, não. Todo o texto de Sakamoto pressupõe (assim como nós cremos) que Jesus tenha tido a possibilidade de escolher como ele nasceria. Então partirei do mesmo pressuposto.
Se Jesus quisesse nascer como “tudo aquilo que é considerado inferior, marginal, blasfêmico ou de segunda classe” e isso (por algum motivo) significasse que ele teria que nascer como mulher ou transexual, então porque ele não o fez antes? Pense na sociedade em que Jesus nasceu: A mulher simplesmente era vista como extremamente inferior. Assim como dizem os documentos históricos, a mulher era vista ainda mais inferior no Judaísmo.  Flávio Joséfo, no primeiro século escreveu:

“Mas não deixe o testemunho de mulheres ser admitido, por causa da leviandade e ousadia de seu sexo” (Antiguidades, 4.8.15)

O Talmude também diz:

“Qualquer evidência que uma mulher [der] não é valida.” (Talmude, Rosh Hashana 1.8c)

Rabbi Eleazar também:

“Que as palavras da Lei sejam queimadas antes de serem dadas a uma mulher”

Puxa! Então eu acho que se Jesus tem motivos para nascer como mulher hoje, ele deveria ter tido naquela época também. Certo?
Eu honestamente duvido que ele iria escolher nascer como transexual. Isso porque ele era extremamente fiel à Lei de Deus. Não se deixa cair nessas de “Jesus não falou nada sobre o assunto.” Ele falou:

Entretanto, no princípio da criação Deus ‘os fez homem e mulher’. ‘Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua esposa, e os dois se tornarão uma só carne’. Dessa forma, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, não o separe o ser humano!” (Marcos 10:6-9)

O contexto dessa passagem fala de casamento e divórcio. Jesus citou o texto de Gênesis com o propósito de enfatizar que Deus criou o casamento heterossexual monogâmico para durar para sempre. Apenas nessas relações ambos se tornam uma só carne.
Jesus não foi um “transgressor”. Ele simplesmente fazia a vontade de Deus e as pessoas não gostavam disso. Assim como não gostam hoje.
Também acho bom enfatizar que Sakamoto parte de uma falsa dicotomia. Ele enfatiza que Jesus nasceria como alguém de “segunda classe”, e que a única outra opção é nascer “nos Jardins ou na Barra da Tijuca.” Por que não há outras opções? Por que não algo entre um e outro? Sakamoto não explica. Ele parte do pressuposto errado que Jesus era um “revolucionário pobre”. O que não foi. Ele apenas falou da vontade de Deus. Seriam pessoas como Sakamoto que o crucificariam de novo.
Mas vamos adiante. Mais adiante Sakamoto diz:

Além disso, a quantidade de ataques e de censuras judiciais sofridos pela peça de teatro ''O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu'', que coloca no papel do messias na pele de uma mulher transexual, é paradigmático deste tempo. Ler as sentenças que proibiram a exibição da montagem, aliás, é didático. Em uma delas, o magistrado escreveu: ''De fato, não se olvide da crença religiosa em nosso Estado, que tem JESUS CRISTO como o filho de DEUS, e em se permitindo uma peça em que este HOMEM SAGRADO seja encenado como um travesti, a toda evidência, caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas''. Os destaques em letras maiúsculas são do próprio magistrado.  Ofensa? ''Vestir'' Jesus como uma travesti, identidade estigmatizada e marginalizada, é uma mensagem de amor e tolerância.

O consenso entre os estudiosos do Jesus histórico é o de que ele mesmo acreditava ser Deus. Como coloca o teólogo alemão Horst Georg Pohlmann:

Hoje existe praticamente um consenso [...] de que Jesus entrou em cena com autoridade jamais vista, a saber, a autoridade de Deus, afirmando ter autoridade para se colocar no lugar de Deus, falar a nós e nos trazer a salvação [...] Em relação a Jesus, existem apenas dois comportamentos possíveis: acreditar que Deus nos encontra nele ou prega-lo na cruz como blasfemo. Não existe uma terceira opção. (Abiss der Dogmatik, p. 230.)

Mas, como Sakamoto trata essas questões como um pós-moderno, para ele questões religiosas são “subjetivas” e “meras crenças”. Não é assim que a realidade funciona. E eu desafio Sakamoto a pesquisar o Jesus histórico tanto do lado de conservadores cristãos como do lado dos céticos e continuar com essa opinião.
A divindade de Cristo não é uma questão que foi se desenvolvendo com o tempo. Todos os evangelhos e as tradições antigas envolvendo Jesus o tratam com exaltação. Mesmo fora da Bíblia, entre o fim do primeiro século e começo do segundo, Inácio de Antioquia escreveu: “Pois nosso Deus Jesus Cristo é mais visível agora que ele está com o Pai.” (Carta aos Romanos, 3.3)
No final desse parágrafo, ele fala de "tolerância." O que é a “tolerância”, Sakamoto? Tolerância é defender o direito de alguém expressar algo ao passo em que discorda dessa pessoa. Em outras palavras, o conceito de “tolerância” pressupõe que a visão tolerada seja falsa. Se não fosse assim, não se toleraria essa visão, se concordaria com ela! Então, o que “'vestir’ Jesus como uma travesti, identidade estigmatizada e marginalizada.” Tem a ver com “tolerância”? Se seu pai te salvasse de ser espancado em algum dos regimes comunistas, você gostaria que fizéssemos uma peça em que ele é um travesti? Da mesma forma, uma peça com Jesus travesti é (a) zombar de um homem histórico que era um Judeu e jamais se sentiria respeitado por isso; e (b) zombar da fé de milhões de pessoas. Zombar daquele que bilhões de pessoas creem ser o único Deus verdadeiro e Salvador da humanidade. Mas, novamente, enquanto Sakamoto e os filósofos de segunda categoria (pós-modernos) acharem que religião é apenas algo de fide, então eles não verão que a imposição de sua fé relativista é exatamente aquilo que eles pregam como errado. São meros hipócritas.
Por que Sakamoto não faz um texto desses com Maomé? O Corão é muito mais machista e homofobico do que qualquer coisa que ele queira imaginar que o Cristianismo é. Enquanto o Cristianismo não segue a Lei do Antigo Testamento, o Corão não possui nada que “invalide” suas leis.
Continuando:

Se houver um Deus, ele ou ela não morrerá de vergonha por causa daqueles que tocam a vida da forma que os faz mais felizes. Mas por conta dos que lançam preces e cantam musiquinhas para louvar seu nome – para, logo depois, censurar, ofender, cuspir, bater, esfolar, censurar e matar também em sua honra. Nessa hora, deve experimentar um sentimento louco de culpa somado à vergonha alheia. Pois pensa: ''Será que as pessoas acham que eu quero sacrifícios humano?”

Esse paragrafo pressupõe um padrão moral. Pois ele pressupõe que haja algo errado em “censurar, ofender, cuspir, bater, esfolar, censurar e matar”. Porém, se Deus não existe, não existe padrão moral que transcenda a humanidade. Se esse for o caso, então essa é a mera opinião de Sakamoto. Mas, como ele está pressupondo um padrão moral, então Deus existe. E ainda assim, ele incorre de petição de principio, pois pressupõe sua conclusão (que esse Deus não pode ser o judeico-cristão) no seu argumento. Ele ainda diz:

Deve pensar que falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto. Como disse um amigo meu, que é pastor e está horrorizado com o clima de inquisição, seria tão bom se as pessoas entendessem o que está escrito no Evangelho de João, capítulo 3, versículo 17: ''Deus enviou o seu filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele”

Sakamoto, você se deu o menor trabalho de ler o contexto dessa passagem? Um verso antes e um depois, temos:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
João 3:16-18

Eu acho que isso se encaixaria bem naquilo que Sakamoto e nossos amigos relativistas chamam de “intolerante”, não? Isso contradiz completamente o que ele diz em seguida: “por conta do meu passado, sei razoavelmente bem o que está escrito nos evangelhos. E o discurso de intolerância que grassa na boca de muita gente não está na bíblia cristã.” Não é o que parece. Pois o centro do Evangelho não é encontrado em seu texto.
No fim, ele diz:

O fato é que se [interpretássemos] por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderíamos que toda essa violência não faz sentido algum. O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Quando Jesus diz “dai a César o que é de César”, ele antes pergunta de quem é a imagem na moeda. Quando respondem que é de César, ele diz para dar a César o que é de César. Mas ele não pergunta nada antes de falar “dai a Deus o que é de Deus.” Por quê? Porque o seu público já sabia o que possuía a imagem de Deus.
Com esse texto, eu não disse que devemos espancar, matar ou qualquer coisa do tipo com relação a mulheres negras ou transexuais. O amor cristão está em se negar pelo próximo. É isso que a palavra grega Agape significa: É o amor doador. Devemos tratar essas pessoas com todo o amor possível, ao mesmo tempo em que falamos do evangelho. Não é o “deixe ele fazer o que lhe deixa feliz”. Se esse “feliz” vai dar a ele eternidade de sofrimento, então esse é o menor ato de amor possível. A verdade é que as pessoas querem libertinagem pois odeiam Deus. Querem se mergulhar em prazeres e por isso odeiam Cristo.
Jesus não disse à mulher adultera que ela deveria continuar em pecado. Ele disse “va e não peques mais” (João 8:11) E é justamente isso que os anti-cristãos odeiam: Abandonar o pecado. Por isso, disfarçam seu ódio de Cristo com amor. E ainda tem a ousadia de dizer que esse é o “amor de Cristo.”
Para terminar, faço das palavras finais de Sakamoto as minhas:


Por isso continuo achando a passagem mais legal dos Evangelhos o livro de Lucas, capítulo 23, versículo 34: ''Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem''

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