quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Bíblia ensina que Deus criou o universo a partir do nada?


Um dos ensinamentos centrais do Mormonismo é o de que a matéria é eterna. Deus não criou o universo a partir do nada, é o que diz a doutrina Mórmon. O “profeta” Mórmon, Joseph Smith, disse:

Você pergunta aos doutores por que eles dizem que o mundo foi feito a partir do nada; e eles vão responder, “A Bíblia não diz que Ele criou o mundo?” E eles inferem, a partir da palavra criar, que deve ter sido feito a partir do nada. Não, a palavra criar vem da palavra bara que não significa criar a partir do nada; ela significa organizar. [...] Então, nós inferimos que Deus tinha os materiais para organizar o mundo a partir do caos [...] Eles [os materiais] não tiveram inicio, e não podem ter fim. [1]

O segundo presidente dos Mórmon, Brigham Young diz que “Deus nunca criou algo a partir do nada.” [2]
Alguns Mórmons ainda argumentam que a doutrina foi originada pelos filósofos cristãos da era pós-apostólica. Isso é, do segundo século pra frente. Boa parte, na verdade, argumenta que a doutrina de Creatio Ex Nihilo se originou com Agostinho, e que ele interpretou o texto bíblico errado, já que apenas possuía a tradução para o Latim, mas não viu o texto Hebraico ou Grego.
Seria esse um verdadeiro ensino bíblico? Será mesmo que a Bíblia não ensina Creatio ex nihilo? Vamos avaliar as evidências bíblicas e históricas.

A Bíblia ensina que Deus criou o universo a partir do nada? 


A doutrina se originou com Agostinho?


É falsa a alegação de que a doutrina se originou com Agostinho. Os Pais da Igreja já tinham a crença de que Deus havia criado o mundo a partir do nada. De fato, tal doutrina foi mantida por todos eles. [3] De acordo com o teólogo Louis Berkhof, essa doutrina era unânime desde o início, sendo encontrada nos escritos de Justino Mártir, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes e outros. [4]
O livro de 2 Macabeus, apócrifo do Antigo Testamento (livro não-canônico escrito antes de Cristo) diz:

Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra; reflete bem: tudo o que vês, Deus criou do nada, assim como todos os homens. – 2 Macabeus 7:28 (versão Ave Maria)

Outra tradução:


Conjuro-te, meu filho, contempla o céu e a terra, vê todas as coisas que aí se encontram e compenetra-te de que Deus as criou do nada. E que também o gênero humano foi assim formado. – 2 Macabeus 7:28 

A Bíblia de Jerusalém traduz:

Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra e observa tudo o que neles existe. Reconhece que não foi de coisas existentes que Deus os fez, e que também o gênero humano surgiu da mesma forma. – 2 Macabeus 7:28

Isso mostra que, mesmo antes de Cristo, existiam judeus que acreditavam em criação ex nihilo.
O historiador judeu do primeiro século, Flávio Joséfo, também acreditava em uma criação absoluta, de que Deus havia criado todas as coisas materiais existentes. Ele utilizou termos como demiourgos ton holon [Criador do universo] e demiurgos tes holes [o criador do ser universal]. [5] O Rabino do segundo século, Rabino Gamaliel também ensinou que Deus criou todas as coisas. [6]
Por fim, esse argumento cometeria a falácia genética. Quer dizer, tenta invalidar a verdade de algo atacando como se originou. Mesmo se Agostinho tivesse sido o primeiro a interpretar dessa forma, isso não significa que o texto não diga isso.

Gênesis 1:1


No princípio criou Deus o céu e a terra. - Gênesis 1:1

Ha’aretz ha'shayimin Elohim bara B’reshit < Hebraico
הָאָרֶץ. וְאֵת הַשָּׁמַיִם אֵת אֱלֹהִים בָּרָא בְּרֵאשִׁית

Grego -> En arche epoiesen ho Theos ton outanon kai ten gen
En ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ Θεὸς τὸν οὐρανὸν καὶ τὴν γῆν

A palavra para “criou” em Gênesis 1:1 é bara. Sempre que ela é usada na Bíblia, ela esta associada a uma ação de Deus. É verdade que ela não significa, necessariamente, “criar a partir do nada”. De acordo com o dicionário Strong, a o verbo bara significa simplesmente criar. Ela pode ser traduzida de outra forma, mas sempre com o significado de criar algo novo.
As palavras céus (shayimin) e terra (eretz) são uma formula judaica para “universo”. No hebraico antigo, não existia palavra para “universo”. Por isso, os judeus utilizavam essas palavras para se referir ao universo. [7]
Logo vemos como a criação do universo deve ter sido feita a partir do nada. Se Deus criou o universo (toda a matéria, espaço e tempo) como sendo algo novo, então não pode ser feito de algo do universo que existia antes.
O teólogo especialista em Antigo Testamento, Thomas McComiskey, argumenta que a palavra bara enfatiza a realização de algo novo. [8] Edward P. Arbez e John P. Weinsengoff dizem:

Gênesis 1 está totalmente permeado pela ideia da transcendência ilimitada de Deus e pela ideia de que todos os seres dependem absolutamente de Deus para que existam. A ideia de “creatio ex nihilo” parece estar tão logicamente ligada à visão que o autor tem de Deus que quase não é possível se recusar a vê-la nessa declaração de abertura. [9]

Kenneth Mathews também diz que, “[a] ideia de creatio ex nihilo é uma inferência teologicamente cabível derivada da estrutura total do capítulo [Gênesis 1].” [10]
Na Septuaginta, a palavra bara é traduzida por epoiesen, que significa fazer, construir, agir ou causar. O historiador judeu, Josefo, traduziu em sua obra Antiguidades pela palavra ektisen, uma variante da palavra ktizo, que significa criar. [11]
A escolha pela palavra epoiesen, longe de dar a impressão de uma construção a partir de uma matéria pré-existente, mostra a idéia de criação absoluta. Teólogo William Lane Craig comenta, dizendo que “esse entendimento absoluto de Gênesis 1.1e sua condição como oração independente é amparada pela tradução da Septuaginta.” [12]
Comentando a relação de bara e epoiesen, o teólogo especialista em línguas bíblicas, Eduardo Feltraco, diz que “o sentido é o mesmo. A raiz de epoiesen é poieó. Na Septuaginta, seria mais a favor do sistema evolutivo. Bara é mais instantâneo e Poieó é uma construção.” [13] Em outras palavras, é como se no hebraico estivesse escrito de forma mais instantânea (se considerarmos apenas bara), e no grego uma criação da matéria seguida do uso dessa matéria para a construção.
De fato, esse sentido "não-instantâneo" também pode ser encontrado no Hebraico. Podemos ver isso avaliando o sentido da palavra b’reshit (“no principio”). Em Jeremias 28:1 e Gênesis 10:10, essa palavra é usada para se referir a longos períodos de tempo que aconteceram “no principio” de um período de reinado. Comentando essas duas passagens, o estudioso do Antigo Testamento Rodney Whitefield diz: “Claramente, o 'principio' se refere a um período de tempo considerável. Tempo o bastante para construir, ou reinar, quatro cidades.” Levando à conclusão da exegese de Gênesis 1:1, ele conclui: “’No principio’ representa um longo período de tempo e Gênesis 1:1 representa um longo período de tempo. Gênesis 1:1 a Gênesis 1:2 representam um longo período de tempo. Tudo precede o ‘E Deus disse’ de Gênesis 1:3.” [14]
Com isso, terminamos nossa análise de Gênesis 1:1. Mas ainda existem outras passagens relevantes ao tema.

Romanos 4:17


Ele é nosso pai aos olhos de Deus, em quem creu, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem, como se existissem [καλοῦντος τὰ μὴ ὄντα ὡς ὄντα]. - Romanos 4:17

Uma tradução literal dessa ultima parte seria:

...chamando à existência as coisas não existentes.

Mórmons vão argumentar que essa passagem esta se referindo ao ensinamento grego que o mundo sensível é uma ilusão. O publico de Paulo, nessa carta, teria entendido de uma perspectiva mais platônica, que considerava essa realidade metafísica como o mundo real. Então, argumentam, que as coisas que “existem” e “não existem” devem ser entendidas como “realidade metafísica” e “realidade sensível”. [15]
Existem dois problemas aqui: O publico de Paulo não era de pessoas altamente influenciadas por filosofia grega, mas sim de judeus convertidos e por gentios convertidos ao judaísmo e depois ao cristianismo [16]
Além disso, o contexto não trata de discussões filosóficas, mas sim da promessa feita a Abraão:

Sem se enfraquecer na fé, reconheceu que o seu corpo já estava sem vitalidade, pois já contava cerca de cem anos de idade, e que também o ventre de Sara já estava sem vitalidade.
Mesmo assim não duvidou nem foi incrédulo em relação à promessa de Deus, mas foi fortalecido em sua fé e deu glória a Deus, estando plenamente convencido de que ele era poderoso para cumprir o que havia prometido. - Romanos 4:19-21

O historiador do Novo Testamento J. P. Holding diz:

O contexto desse verso é o da promessa feita a Abraão para se tornar o “pai de muitas nações”, uma promessa cumprida primeiro através de Isaque [...]
Romanos 4:17 realmente não é um verso que se trata da criação diretamente, mas a criação ainda esta na sombra dele. A premissa de que Deus tem o poder de afetar o universo material ao ponto de que Ele é capaz de declarar o que vai e não vai existir, sugere um contexto mais amplo que por extensão significa que Deus tem o poder de criar coisas ex nihilo. [17]

Hebreus 11:3


Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que é visível. - Hebreus 11:3

O sentido do texto é bem claro. Mas, para ninguém ficar com “mimimi tradução”, vamos ver o grego:

εἰς τὸ μὴ ἐκ φαινομένων τὸ βλεπόμενον γεγονέναι
em o não do que se vê o que se vê veio a ser

Como no grego as palavras não estão em ordem, literalmente colocaríamos como:

...o que se vê não veio a ser do que se vê.

Ou, como esta na NVI:

...o que se vê não foi feito do que é visível.

Almeida Corrigida e Revisada Fiel:

...de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.

Almeida Revisada de Acordo com os Melhores Textos Hebraicos e Gregos:

... de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê.

Agora, o que é que é visível não foi feito do que se vê? No inicio do versículo esta claro: Os mundos ou o universo. A palavra grega aqui é αἰῶνας (aionas), que literalmente significa uma era. Como o contexto fala de coisas visíveis, a era a que o texto se refere deve ser entendida como o mundo visível ou o universo que vemos.

Apologistas Mórmons interpretam esse versículo como se referindo à física quântica, que não pode ser vista e estava presente na singularidade do Big Bang. Essa interpretação é o cúmulo da eisegese (tentar encaixar uma ideia pré-concebida no texto ao invés de ver o que o texto diz). Um judeu-cristão do primeiro século nem imaginava isso. Além disso, o texto diz que foi criado pela Palavra de Deus (ῥήματι Θεοῦ).

João 1:1-3


No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.
Ela estava com Deus no princípio.
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.
João 1:1-3

Versículo 3 em grego:

πάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν ὃ γέγονεν.

A palavra em vermelho é egeneto. De acordo com o dicionário Strong, ela significa: vir a ser, nascer, se tornar, acontecer ou emergir.

Não há muito o que comentar sobre esse versículo. O texto implica que todas as coisas foram feitas por Jesus (o Verbo) no principio. 

Colossenses 1:16


Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. - Colossenses 1:16

Esse versículo é bem claro. Em grego, a primeira parte é:

ὅτι ἐν αὐτῷ ἐκτίσθη τὰ πάντα ἐν τοῖς οὐρανοῖς καὶ ἐπὶ τῆς γῆς, τὰ ὁρατὰ καὶ τὰ ἀόρατα

A palavras em vermelho são ektisthe, panta, uranois, ges, horata e aorata, respectivamente. Ektisthe, como comentado acima, tem a raiz ktizo, que significa criar. Não da pra colocar que existia uma matéria pré-existente que Deus utilizou, pois o texto diz que criou “todas as coisas” (panta), “visíveis” (horata) e “invisíveis” (aorata), nos “céus” (uranois) e “terra” (ges).

Conclusão



Apesar de não ter nenhum texto que use os termos “criação a partir do nada”, podemos ver que o conceito existe na Bíblia. Além disso, ele não foi criado pelos pais pós-apostólicos, mas já era algo discutido entre os judeus. Os textos avaliados aqui (Gênesis 1:1, Romanos 4:17, Hebreus 11:3 e João 1:1-3) mostram o sentido de uma criação ex nihilo. A análise dos textos bíblicos pode ser concluída com a interpretação direta ou indireta da doutrina tradicional do cristianismo de creatio ex-nihilo

Fontes


[1] - SMITH, Joseph, Teachings of the Prophet Joseph Smith, pp. 350-352
[2] – YOUNG, Brigham, Journal of Discourses 14:116, 14 de Maio, 1871
[3] – CRAIG, William Lane, COPAN, Paul, “An Examination of the Mormon Doctrine of Creation and a Defense of Creatio ex nihilo”, em ed. Francis Beckwith, Carl Mosser, Paul Owen, The New Mormon Challenge, p. 96
[4] – Berkhof, Louis, Systematic Theology, p. 126
[5] – CRAIG, William Lane, COPAN, Paul, Creation out of Nothing, p. 104
[6] – Genesis Rabba 1:9
[7] - ReasonableFaith Defenders 2 Podcast, Doctrine of Creation (Part 1), http://www.reasonablefaith.org/defenders-2-podcast/transcript/s8-01 
[8] – MCCOMISKEY, Thomas, “bârâ”, em R. Laird Harris, Gleason Archer, Bruce Waltke, Theological Dictionary of the Old Testament, 2.v. 1:127
[9] - Exegetical Notes on Genesis 1:1-2”, Catholic Biblical Quarterly 10 (1948): 144-145
[10] – MATHEWS, Kenneth, Genesis 1-11:26, p. 141
[11] – Josefo, Antiguidades Judaicas, 1,1
[12] – Reasonable Faith, Creatio ex nihilo: uma critica a doutrina mórmon de criação, http://www.reasonablefaith.org/portuguese/creatio-ex-nihilo-uma-cr%C3%ADtica-a-doutrina-mormon-da-criacao
[13] – Contato pessoal com Eduardo Feltraco. Agradeço pelas observações.
[14] - WHITEFIELD, Rodney, Genesis one and the age of the earth: what does the bible say?, p. 21, http://creationingenesis.com/Genesis_One_and_the_Age_of_the_Earth.pdf
[15] – Hopkins, Richard R. How Greek Philosophy Corrupted the Christian Concept of God, p. 293
[16] – Tektonics Apologétics, Ex Nihilo Creation and the Bible, http://tektonics.org/af/exnihilo.php
[17] – ibid  

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