segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Seria a Doutrina da Trindade ilógica?


É comum vir de céticos e unicistas a idéia de que a Trindade é uma doutrina ilógica e, portanto, deve ser negada ou o Cristianismo é falso. Porém, quando propriamente entendida, o máximo que podemos dizer é que a Trindade é incompreensível, mas não logicamente impossível ou ilógica.

Seria a Doutrina da Trindade ilógica?


Viola a lei da não-contradição?


Céticos vão dizer que a Trindade é uma violação da lei da não-contradição. De acordo com a lei da não-contradição, duas coisas não podem ser verdadeiras se uma exclui a outra. No caso da Trindade, céticos vão dizer que ela viola tal lei, já que afirma que Deus é um mas não é um, e que é três mas não é três. Porém, esse argumento comete a falácia do espantalho, já que ninguém nunca disse que a doutrina de Trindade é um Deus que ao mesmo tempo é três deuses. Mas sim, que é um Deus que subsiste em três Pessoas. Como diz o filósofo Kenneth Samples:

Trinitários afirmam que uma pessoa deve distinguir a essência de Deus de um lado e a subsistência de Deus no outro. Deus é um com respeito a algo diferente da forma em que ele é três, e três em respeito a algo diferente de como ele é um. Então a Trindade, como um O Que e três Quens, não é uma contradição lógica formal (Kenneth Samples, Reasons to Believe: The Trinity: Isn’t It a Contradiction? Part 1 (of 2), http://www.reasons.org/articles/the-trinity-isn%E2%80%99t-it-a-contradiction-part-1-of-2)

Viola a lei da identidade?


Alguns também afirmam que é uma violação da lei da identidade, já que a doutrina da Trindade diz que Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mas que o Pai não é o Filho e nem o Espírito Santo e assim por diante. Sendo assim, Deus não é Deus ao mesmo tempo. Porém, novamente, essa é a falácia do espantalho. É verdade que Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo e que cada pessoa é distinta uma da outra. Mas a Pessoa do Pai é diferente da Pessoa do Filho que é diferente da Pessoa do Espírito Santo, mas todos são Deus. Não é o caso de cada um ser Deus e ao mesmo tempo cada um não ser Deus. Novamente, é um O Que, que subsiste em três Quens.

Viola a lei do meio da exclusão?


Por fim, alguns podem dizer que a visão trinitária de Jesus é uma violação da lei do meio da exclusão, que diz que uma afirmação ou é A ou não-A, mas não há um terceiro ou meio entre ambos. No caso, Jesus não pode ser 100% homem e 100% Deus ao mesmo tempo, já que um excluiria o outro. Porém, novamente se comete a falácia do espantalho. 
No meio teológico, a encarnação de Jesus é chamad de união hipostática. São duas naturezas distintas em uma Pessoa. É incorreto afirmar que Jesus seja 100% homem e 100% Deus, ja que, como visto, é logicamente impossível ser 100% duas coisas distintas. Acredito que o que deva ser afirmado é que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Como diz William Lane Craig:

As vezes isso pode ser expressado de forma confusa por Cristãos [...] dizendo que Cristo era completamente Deus e completamente homem – ou que ele era 100% Deus e 100% homem. Sob uma interpretação, isso soa como uma contradição. Se ele era completamente homem, então não há espaço para sua deidade. Você não pode ter qualquer outra coisa além da humanidade, se ele for totalmente homem. Ou se ele é completamente Deus, isso parece excluir sua humanidade. O que esses Cristãos querem dizer, eu acho, não é que ele era 100% homem, ou ele era 100% Deus; o que eles querem dizer é que ele era verdadeiramente Deus e ele era verdadeiramente humano. Quer dizer, ele possuía todos os atributos essenciais da deidade e nesse sentido é totalmente Deus. Ele não tem apenas alguns atributos da deidade; ele tinha todos os atributos essenciais da deidade e portanto era verdadeiramente Deus. E ele possuía todos os atributos essenciais de humanidade e portanto era verdadeiramente humano. Ele é totalmente humano nesse sentido: que ele tem todos os atributos essenciais que uma pessoa humana tem. Então, entendido propriamente, “completamente Deus e completamente homem” não é algo que se possa protestar; mas eu acho que isso pode levar ao mau entendimento porque parece soar contraditório. O que queremos dizer, como todos os credos dizem [...] é que Jesus era verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem; ele tinha todas as propriedades essenciais da humanidade e todas as propriedades essenciais de deidade. (Reasonable Faith, Defenders 2 Class: Doctrine of Christ (part 1), http://www.reasonablefaith.org/defenders-2-podcast/transcript/s6-1#_ftn5)

Teólogos e filósofos ao longo dos séculos debatem acerca de como a união hipostática pode ser explicada. A Bíblia simplesmente diz que Jesus é Deus e se fez homem (João 1:1). Alguns tentaram explicar isso dizendo que Jesus apenas se revestiu de carne, outros que Ele se esvaziou para ser uma alma humana em um corpo humano, outros que Sua natureza divina substitui a natureza pecaminosa de um ser composto de corpo, alma animal e nous (alma racional), etc. Uma coisa que pode ser colocada é que, enquanto Deus é um O Que, que é três Quens, a Segunda Pessoa da Trindade é Um Quem que possui dois o quês.
A proposta cristológica de William Lane Craig e J. P. Moreland é interessante: Jesus possui duas naturezas: humana e divina; a natureza divina esta no lugar da alma racional; e a natureza divina existe em um subconsciente da consciência humana de Jesus. (W. L. Craig e J. P. Moreland, Filosofia e Cosmovisão Cristã, p. 731-740)
Não cabe a mim responder aqui objeções à essa proposta nem explica-la melhor. No livro citado eles respondem a algumas objeções. Mas uma coisa fica clara: Não há nada de ilógico na união hipostática de Jesus. 

Incompreensível = Impossível?


Seria algo incompreensível algo impossível? Obviamente não. Por exemplo, cosmólogos assumem que no inicio do universo houve um período de aumento de velocidade que depois desacelerou conhecido como inflação. Mas como ou por que esse período ocorreu é incompreensível por enquanto. Também é assumido em uma visão neo-darwinista que as forças cegas da natureza causaram acidentes aleatórios capazes de formar a complexidade da vida e a alta informação complexa no DNA. Mas como isso aconteceu apenas com forças cegas é inexplicável. Muitos filósofos também acham incompreensível o fato de uma massa física com químicas como o cérebro ser capaz de direcionar pensamentos de forma intencional. Mas nem por isso descartam a experiência da intencionalidade do pensamento. (Até porque, seria auto-refutável direcionar um pensamento de negação da existência de direcionamento do pensamento.)
Poderia ser adicionado também que a Trindade resolve problemas que as outras religiões monoteístas sofrem. Se Deus não for o Maior Ser Concebível, então Ele não é Deus, ja que algo poderia ser maior do que Ele, e então este seria Deus. Mas, se Ele é o Maior Ser Concebível, então deve ter propriedades de grandeza máxima, como Onipotência (ja que ser Todo Poderoso é melhor do que ser fraco), Onisciência (ja que ser Todo Sábio é melhor do que a ignorância), Onibenevolencia (ja que ser Todo Amoroso é melhor do que ser odioso), etc. Se Ele é Todo Amoroso, então deve possuir o Amor Perfeito. Porém, amor perfeito só é possível se houver duas ou mais pessoas. Então, se não houver uma pluralidade de pessoas em Deus antes da criação, Ele não pode possuir amor perfeito. Só a Trindade Cristã pode ser um Deus de amor e o Maior Ser Concebível. 
Em suma, a incompreensibilidade de algo não o torna impossível. Torna apenas um mistério. Mas algo ser misterioso não implica em sua não-existência. Mas o mistério maior que fica é: Será mesmo que apenas meros judeus de dois mil anos atrás criaram um conceito tão complexo de Deus? Não seria muito mais atraente para sua religião criar um conceito mais simples de Deus? Criações humanas são entendíveis à mente humana. A Trindade claramente não é compreensível ao ser humano. Portanto, a Trindade não pode ser uma criação humana.

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