terça-feira, 5 de julho de 2016

Uma Critica ao Utilitarismo


Esse texto ja estava presente em minha defesa do Argumento Moral para a existência de Deus. Para fins de pesquisa mais especifica, decidi coloca-lo separado. Também acrescentei algumas coisas.

Uma Critica ao Utilitarismo


Utilitarismo divide entre valor não-moral (bondade), que seria uma serie de coisas que tem valor intrínseco em si mesmas, mas não são morais, e o valor moral (retidão), que seriam regras morais (como “não roube”), ações morais individuais (o “ato de roubar”) e tipos de ações (Ex: Ações semelhantes ao roubo).
Exemplos de valor não-moral seriam saúde, arte, amizade, matemática, conhecimento, etc. Se algo tem valor intrínseco (como a “alegria”), então é valiosa em si mesma. É algo bom e digno de ser desejado.
Algo pode ter apenas o valor instrumental, como o dinheiro. Seu valor esta no fato de ser um meio para o valor intrínseco. Podem haver coisas com valor intrínseco sem ser instrumental, mas não o oposto. Também pode haver algo com valor misto (como a saúde). Há, no entanto, discordância entre o que possui valor intrínseco (não-moral)
Utilitaristas Hedonistas dizem que algo tem utilidade em termos de felicidade ou prazer. Jeremy Bentham dizia que o que importava era a quantidade de prazer VS a de dor. Isso é chamado Hedonismo Quantitativo. John Stuart Mill rejeitou essa idéia, dizendo que um ser humano insatisfeito ainda era melhor do que um porco satisfeito. (Ou “um Sócrates insatisfeito é melhor do que um tolo satisfeito”.)
A idéia de Bentham era basicamente essa, a de que “um porco com maior quantidade de prazer tinha maior valor do que um Sócrates insatisfeito”. Isso não diferencia os tipos de prazer e despreza o fato de que alguns prazeres tem mais valor do que outros (Ex: prazer intelectual VS estomago cheio.) Também é difícil calcular a duração e intensidade de alguns prazeres.
Mill propôs então o Hedonismo Qualitativo. Basicamente, ainda é “prazer VS dor”, porem, agora com diferentes tipos de prazer. Algo como “amizade” ou “belas artes” não tem valor intrínseco, mas sim o prazer que vem delas. O problema aqui é que a classificação do valor relativo de prazeres não é especificada adequadamente.
O utilitarismo pluralista nos diz que não é apenas o prazer e a felicidade que tem valor intrínseco e não moral. Por exemplo, não é apenas o prazer gerado pela “amizade” que tem valor, mas a amizade em si.
Aqui o problema vem da relativa inutilidade dos valores como amor, beleza, saúde, liberdade, coragem, autoestima, etc. Não existe escala desses valores para determinar o que alguém deve fazer. Como a amizade (e vários tipos de amizade) com valores de experiência estética ou a coragem.
Por esses motivos, a maioria dos utilitaristas vão para o Utilitarismo de Preferencia Subjetiva. Quer dizer, a ação deve maximizar a satisfação dos desejos e preferencias pessoais. Obviamente, isso leva a problemas. Por exemplo, se alguém quiser abusar de crianças, então é justificado por estar satisfazendo seus desejos. A resposta que dão a isso é que devemos usar a razão, escolhendo o que satisfaz os desejos racionalmente. Aqui há dois tipos de racionalidade: Prescritiva e Descritiva.
A racionalidade prescritiva diz que pode se ter crenças justificadas sobre o que tem valor intrínseco, e devemos deixar essas crenças inspirarem os nossos desejos. O problema é que isso é raciocínio circular:

“O bem é o que é racional desejar” – “o racional é o que as pessoas desejam como bem”

A racionalidade descritiva diz que as pessoas podem usar meios eficientes para chegar a certos objetivos, se forem esses colocados. Mas, alguém poderia ter um objetivo moralmente ruim e ser racional caso soubesse de maneiras eficientes para chegar a ele. Por isso, utilitaristas vão dizer que só é racional a pessoa que desejar o mesmo que todas as pessoas psicologicamente normais. Nesse caso, por que alguém normal não escolheria ser um molestador de crianças? “Por que é errado”, é raciocínio circular. Além disso, isso implicaria que existe um mundo possível onde pessoas normais são molestadores de crianças. Não há nada de ilógico nessa possibilidade.
O principio da utilidade vai dizer que aquilo que traz o maior bem para o maior numero de pessoas é o certo a se fazer. Porem, não só tal tentativa pressupõe que existam valores morais (o bem para o maior numero de pessoas), como ela implicaria absurdos. Por exemplo, em uma situação hipotética onde você deve abusar de uma garotinha para salvar a vida de um grande numero de pessoas, tornaria o ato não apenas em certo, como também faria com que você fosse moralmente obrigado a fazer isso. Similarmente, escravizar uma minoria para o bem da maioria seria algo considerado moralmente correto. E por esses e outros absurdos implicados pelo utilitarismo que devemos nega-lo como uma boa teoria ética.
Pode ser protestado: “Mas e o cristianismo? Ele não prega que um único ato ruim na história salvou o mundo?” Porem, existem alguns problemas de mal entendimento aqui. Primeiro, não foi a morte de um único ser humano. Foi a morte do Deus encarnado. E Deus tem mais valor do que toda a humanidade junta. Segundo, um ato é errado mesmo que o beneficio dele seja o bem de mais pessoas. Como disse Dr. Craig, “não ache que, porque Deus permite o mal de algum ato à luz de um bem maior, esse ato já não é mais mal. O ato humano ainda é mal, apesar dos grandes bens que podem vir dele. Ou seja, o consequencialismo é falso e permanece sendo falso.” (Reasonable Faith, Deus é um Consequencialista?, http://www.reasonablefaith.org/portuguese/qa-333)
Também não é o caso de Deus dar essa preferencia sempre. O fato de Deus permitir que algum sofrimento venha para um bem maior apenas implica que existam certas situações de sofrimento que vão ter apenas como consequência um bem maior, mas isso não implica que Deus permitira o sofrimento sempre que ele tiver como consequência um bem maior. Como disse Steve Wykstra, a permissão de Deus para algum mal

Fornece uma razão apenas para uma condição necessária de Sua permissão de alguma instância de sofrimento: Ele permite isto APENAS SE, fazendo isso, fortemente serve um propósito bom maior. Isso não significa que Ele permite QUANDO (se) ele traz um bem maior. Pode muito bem haver outras limitações de uma espécie deontológica [...] O consequencialismo a ser mais cauteloso, penso eu, faria 'alcançar um bem maior', tanto uma condição necessária e suficiente para permitir algum mal quando-considerado-sozinho. (Contato pessoal com William Lane Craig, ibid)

De fato, há ainda uma diferença grande entre Deus e nós. Deus sabe o futuro e nós não. Então, com que base podemos afirmar que um ato terá consequências positivas para a maioria? Como disse Dr. Craig, “nós não temos idéia do cenário final de nossas ações. Alguns atos bons a curto prazo podem levar a uma miséria longa e não-vista enquanto algumas ações que parecem desastrosas a curto prazo podem se tornar coisas que trazem o maior bem à humanidade. Nós não temos qualquer pista disso dada nossas limitações cognitivas.” (Defenders!, Excursus on Natural Theology, Part 32, http://www.reasonablefaith.org/defenders-3-podcast/transcript/excursus-on-natural-theology-part-32)

Conclusão


As diferentes versões do utilitarismo hedonista possuem problemas. Alem disso, vimos que o consequencialismo também pode vir a ser usado para justificar cenários absurdos. Por fim, Deus não é um utilitarista. As consequências devem ser avaliadas, mas isso não implica que o ato se torne certo apenas com elas em mente. 

Bibliografia


William Lane Craig e J. P. Moreland, Filosofia e Cosmovisão Cristã

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