quarta-feira, 20 de julho de 2016

Reflexões sobre Cristianismo e Marxismo


Uma pergunta recorrente no meio cristão é: Seria o Cristianismo compatível com o Marxismo? A resposta simples é não. A gigantesca maioria dos teólogos e especialistas em filosofia da religião vai dizer que ambos possuem filosofias completamente opostas. Por outro lado, é compreensível porque muitos leigos são iludidos pela ideia de “cristianismo” marxista.

Reflexões sobre Cristianismo e Marxismo


Princípios básicos do Cristianismo vs marxismo


Seja você calvinista, arminiano ou molinista, existe um principio óbvio na Bíblia de que o homem é essencialmente mal. A Bíblia diz isso repetidamente:

Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;
Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.
Não há ninguém que entenda;Não há ninguém que busque a Deus.
Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis.Não há quem faça o bem, não há nem um só.
A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios;
Cuja boca está cheia de maldição e amargura.
Os seus pés são ligeiros para derramar sangue.
Em seus caminhos há destruição e miséria;
E não conheceram o caminho da paz.
Não há temor de Deus diante de seus olhos.
Romanos 3:9-18

Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe.
Salmos 51:5-5

Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.
João 8:44-44

Com isso em mente, avaliemos a ideia da esquerda. Em qualquer “versão” da esquerda, é dito como justo a dependência do governo, apesar de nem todos apostarem todas as fichas nisso. Existe um principio de igualdade também, que diz que o governo deve “igualar” a posição das pessoas sob condições que as “reprimem”. Por exemplo, suponhamos que cotas sejam dadas aos negros porque eles supostamente foram muito reprimidos e ainda existe muito preconceito. Dessa forma, a maneira de igualar o negro e o branco é dando maior chance ao negro.
Há essa ideia de “paraíso na terra” ou “paraíso humano”, onde o povo depende do governo e este deve fazer de tudo para manter a igualdade. Sadlly, como vimos, o ser humano é totalmente depravado, e a ideia de paraíso humano nunca vai funcionar. O próprio Jesus disse isso quando afirmou que Seu reino não era desse mundo (João 18:36). Como disse David Gooding e John Lennox:

O marxismo [...] ensinou que o homem não é essencialmente mau apenas ainda imperfeito, corrompido e alienado pela opressão capitalista. Remova a opressão, e o homem salvará a si mesmo e a sua sociedade por seu próprio trabalho. Porém, mais uma vez, a amarga experiência provou que essa esperança também é ilusória. Em todos os séculos, os melhores esquemas políticos e econômicos foram, e continuam sendo, destruídos pelo continuo egoísmo, inveja, ciúme, ganância, luxúria, embriaguez, roubo, mentira, crueldade e assassínio do homem. A história mostra que o homem é, como a Bíblia diz que ele é, essencialmente pecador e mau. (David Gooding e John Lennox, Cristianismo: Ópio do Povo?, pp. 10-11)

Além disso, o principio da igualdade dependente de um governo para satisfazer necessidades “oprimidas” é contrário ao principio bíblico de trabalhar para merecer:

E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.
Eclesiastes 3:13-13

Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade.
Efésios 4:28-28

De fato, tal visão proposta apenas faz o pensamento egoísta crescer, sendo que cada “oprimido” acaba querendo seus “direitos”. Porém, se você olhar de outra perspectiva, vai ver que a opressão criar direitos é apenas opressão de outro lado. Peguemos como exemplo a fantasiosa história das feministas que dizem que elas podem abortar porque “aborto masculino” já existe quando o pai abandona o filho. Partindo do principio de que o assassinato do feto é um direito para a mulher que não quer ser mãe, o homem tem todo o direito de ir atrás de seu direito de abandonar a mulher que não quer abortar por não querer ser pai. Isso poderia implicar em um mundo possível onde aqueles que não possuem suas “vantagens por opressão”  se sentem oprimidos por não possuir suas vantagens, e proclamam assim seus direitos. Mas nós não precisamos ir tão longe. Os negros sofrem com preconceito e por isso tem o direito às cotas. Porem, se partirmos desse principio, então se cria uma condição de desigualdade, onde o negro tem uma vantagem e uma classificação. Ele já é de inicio colocado como desigual. E, como dito acima, a “vantagem” dele pode fazer, a longo prazo, o branco se sentir oprimido.
Agora, o que me parece mais absurdo é que a ideia de paraíso humano parte de um raciocínio circular com relação ao futuro. Toda a ideia da igualdade futura precisa ser pressuposta antes de ser vista. E isso nos leva a outro problema, o de que em toda a história da humanidade, esse sistema não funcionou e gerou mais mortes do que qualquer outro.
Agora, se levarmos essa ideologia aos seus limites mais profundos, a incompatibilidade se torna ainda maior. Um cristão não pode afirmar que apenas a sua religião é verdadeira, já que isso seria opressão contra o budista, o hindu e o espirita. Uma pessoa se sente confortável com as crenças budistas, e dizer que sua crença é falsa seria intolerância e opressão. Então, para o principio da igualdade ser validado de verdade, o relativismo tem que ser buscado. Porém, novamente, como qualquer pessoa que pensa por cinco minutos deve perceber, o relativismo é falso em si mesmo, e gera preguiça intelectual de buscar a verdade. O que, pra variar, iria refutar o próprio marxismo. Seria a ideia de que o marxismo é a melhor ideologia politica verdade? E isso não estaria oprimindo aquele que discorda? É logicamente impossível que todas as visões de mundo sejam verdadeiras, pois isso violaria a lei da não-contradição. Porém, em um pressuposto marxista, as religiões, na verdade, são apenas ilusões subjetivas, e nenhuma delas é verdadeira. Apenas a suposta opressão causada por elas é que é real.
Uma das ideias centrais de Marx foi o anti-sobrenaturalismo. De acordo com ele, aquilo que não pode ser explicado deve ser descartado como falso. Como colocou Pavel Hanes, “para uma coisa ser aceita e crida ela tem que ser plausível para a mente humana e coisas que estão além da compreensão são por essa razão falsos.” (Pavel Hanes, Christianity in the Post-Marxist Context, pp. 31-32.)
Note que tal asserção não possui justificativa. Por que algo incompreensível deve ser declarado como falso? De fato, algumas versões do Marxismo assumem como uma explicação para as origens o Darwinismo. Porém, como foi demonstrado varias e varias vezes, o próprio mecanismo não explica a rápida mudança nos fosseis, a origem e a adição da informação no DNA e a adaptação de maquinas moleculares. De fato, mesmo se partirmos de uma visão naturalista e explicarmos tudo no universo a partir de explicações naturais, ainda assim vai faltar uma explicação do porque a natureza existe. Pode ser protestado, “apenas existe, inexplicavelmente”, porém, não apenas tal afirmação parte de um raciocínio circular, como também admite que o naturalismo não possui todas as respostas. Além disso, cometeria a falácia do táxi, por usar o principio da explicação onde convêm, mas onde não convêm o dispensa como se fosse um táxi. Então, até mesmo o marxismo ateísta não pode explicar tudo, violando seu próprio principio de explicação.
Mas, deixando isso de lado, se partirmos do principio de que o marxismo não admite o sobrenaturalismo, então o cristianismo e qualquer visão de mundo que assume algo sobrenatural como verdade se torna imediatamente incompatível.
Ironicamente, muitos podem até mesmo caracterizar o marxismo como uma religião secular. Ela possui uma doutrina de criação (Darwinismo), pecado original (divisão de trabalho), salvação (Proletariado), eclesiologia (o conjunto) e escatologia (paraíso humano).
Esse anti-sobrenaturalismo unido à busca do paraíso terreno são totais afrontas às ideias cristãs. Um outro escritor de nome Aaron também comentou:

...O fim pratico da verdade deve ser determinado apenas pela realidade física. Cristãos, portanto, estão sob ataque. Marxismo requer a mudança do homem e do mundo agora, colocando o desafio aos Cristãos, que sempre agiram com relação a um julgamento escatológico futuro. Em outras palavras, o materialismo do Marxismo esta em contraste com a espiritualidade do Cristianismo. (Thoughts of a Living Christian, A Christian Critique of Marxism, https://thoughtsofalivingchristian.wordpress.com/2010/11/21/a-christian-critique-of-marxism/)

Refutação de argumentos “bíblicos” para o marxismo cristão


Existem dois eventos que são basicamente usados para argumentar a favor da compatibilidade do cristianismo com o marxismo. Em primeiro lugar, a divisão dos pães e peixes (Mateus 14-15). Porém, Jesus ensinou que deveriam pescar por si só (João 21) e o propósito do milagre não foi para alimentar minorias desfavorecidas. Na verdade, foi para alimentar gente que estava cansada e faminta por horas ouvindo sermão e não podiam ir atrás de comida. Não eram pobres oprimidos. Apenas pessoas cansadas.
Segundo, a venda dos bens e divisão em Atos:

E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.
E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.
Atos 2:44,45

O problema aqui é a confusão entre descrição, prescrição e motivação. Como bem colocou o site GotQuestions:

Primeiro, essa passagem, assim como quase tudo em Atos, é descritiva, não prescritiva; quer dizer, essa passagem não contêm nenhum comando para a igreja funcionar dessa forma; é simplesmente uma descrição de como a igreja primitiva em Jerusalém fez para satisfazer alguma necessidade única e urgente. Não há indicação de que esse compartilhamento extensivo tenha sido copiado por outras igrejas do Novo Testamento. Segundo, o arranjo comunitário de Atos foi completamente voluntário e motivado pelo amor de Cristo. Qualquer tentativa de aplicar isso ao comunismo involuntário e secular (sem Deus) realmente não faz sentido. (GotQuestions, Is Marxism compatible with the Christian Faith?, http://www.gotquestions.org/Marxism-Christian.html)

De fato, até mesmo Frederick Engels se opôs à ideia de “cristianismo marxista”. Ele disse:

Essas boas pessoas não são os melhores Cristãos, apesar deles se estilizarem assim; porque se eles forrem, eles iriam conhecer melhor a bíblia, e descobrir que, se algumas poucas passagens da bíblia pode ser favorável ao Comunismo, o espirito geral de doutrinas é totalmente oposto a ele. (“Progress of Social Reform on the Continent,” em The New Moral World, 3rd Series, Nos. 19, Nov. 4, 1843, transcrito por Andy Blunden)

Conclusão


Não, o Cristianismo e o marxismo não se misturam. Um tem a visão de mérito e liberdade, além da motivação voltaria do amor de Cristo, enquanto o outro tem como objetivo um reino terreno dominado por ideias humanas de igualdade relativista que matou milhões apenas no século passado. Não é que ainda não foi posto em prática. É que ja foi posto e não funcionou. E se o processo pra fazer funcionar não funciona, então ele também não funciona.
A ideia central da esquerda pode ser colocada como "o governo faz tudo pelo povo pra trazer a igualdade a todos." Traduzindo para o cristianismo, seria como dizer "um bando de egoístas, imorais, pecadores, adúlteros, assassinos e preguiçosos faz tudo por um bando de egoístas, imorais, pecadores, adúlteros, assassinos e preguiçosos pra acabar com o egoismo, a imoralidade, os pecados, o adultério, os assassinos e a preguiça". Um Cristão ser marxista é propor um tipo de salvação pelo homem. A Bíblia, porém, diz que o homem não vai conseguir isso, e que apenas Deus pode nos salvar. O problema do homem é o homem. O marxismo busca achar a solução no problema.
Deixo, por fim, as palavras de Felipe Cruz do Dois Dedos de Teologia:

"Uma pessoa que se diz cristã e marxista, das duas uma: ou não compreendeu o marxismo e o comunismo de um modo geral, nas suas implicações mais profundas, em todos os seus desdobramentos filosóficos, intelectuais, econômicos, seja o que for. Ou ainda não é cristão. Não compreendeu o cristianismo verdadeiro, é um cristão bobo, um cristão imaturo seja la como for também." (Dois Dedos de Teologia, Querido Duvivier (O  Jesus de Esquerda), https://www.youtube.com/watch?v=uSFq-LyxTZ0 [10:41])

Assista também essa palestra de Yago Martins sobre Romanos 13: Romanos 13:1-7: O cristão diante da origem e das funções do governo civil (Yago Martins)

* Agradecimento aos amigos Lucas Cardoso e Saulo Reis pelo auxílio e revisão do artigo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário