sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Jesus histórico falou sobre o inferno?


Teria o Jesus histórico falado sobre o inferno? Ou foram apenas comentários feitos por Mateus, Marcos, Lucas e João? Não apenas dizer que foram comentários dos evangelistas é um sinal de hiper ceticismo (o que eles não fariam com outras fontes históricas), como também pode ser refutado se usarmos os critérios de historicidade com as afirmações de Jesus. (Hiper ceticismo com relação à Bíblia é comum, mas eu duvido que esses céticos usariam esse critério pra dizer que qualquer outro personagem da história não tenha dito “tal coisa” só porque foi escrito por outra pessoa.)

O Jesus histórico falou sobre o inferno?*


Quais os critérios de historicidade?


Nesse caso, veremos como alguns critérios são cumpridos:

- Critério do embaraço: A informação é embaraçosa para o autor criar.
- Critério de múltipla-atestação: Se a informação for repetida em mais de uma fonte.
- Critério do testemunho antigo: Quanto mais antigo, mais provável de ter sido real
- Critério da testemunha ocular: Se dito por testemunha ocular, mais provável de ter sido real.

Os relatos nos evangelhos


Vamos colocar aqui alguns relatos, apenas para a primeira análise. Mateus relata que Jesus falou do inferno em algumas partes:

Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem ançadade.
E ança-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.
Mateus 13:41,42

Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos,
E ança-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.
Mateus 13:49,50

E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.
Mateus 25:46

Marcos também mencionou que Jesus ensinou sobre o inferno:

E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga,
Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.
E, se o teu pé te escandalizar, corta-o; melhor é para ti entrares coxo na vida do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno, no fogo que nunca se apaga
Marcos 9:43-45

Critério de historicidade #1 – Critério do embaraço


É altamente improvável que esse ensinamento tenha sido inventado pelos evangelistas. Seria bem esquisito (pra não dizer idiota) eles criarem uma religião que diz que quem não seguir determinado caminho irá para o inferno. E aquele que protesta contra o inferno não pode negar isso, já que ele, mesmo hoje, não consegue aceitar isso. Então, tal ensino deve fazer parte dos dizeres do Jesus histórico, mesmo se você não aceita-lo como Deus, já que passa em um dos critérios de historicidade mais relevantes, que é o do embaraço.

Critério de historicidade #2 – Critério da múltipla-atestação


Note que as falas de Jesus em Marcos 9 são repetidas em Mateus 18:

E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga,
Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.
E, se o teu pé te escandalizar, corta-o; melhor é para ti entrares coxo na vida do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno, no fogo que nunca se apaga
Marcos 9:43-45

Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.
Mateus 18:8

Os detalhes divergem, mas o foco é o mesmo. O fato dos detalhes divergirem apenas mostra que Mateus também teve sua fonte (talvez ele mesmo) do ocorrido.

Critério de historicidade #3 – Critério do testemunho antigo


Marcos é o evangelho mais antigo, embora exista uma pequena parte de historiadores que argumentem a favor de Mateus. Ambos foram escritos no máximo quarenta anos depois da crucificação de Jesus. Isso é muito pouco tempo para o desenvolvimento de lendas, especialmente em uma cultura judaica, onde, na época, a tradição oral era preservada com rigor. De fato, a maioria das testemunhas oculares ainda estariam vivas se isso fosse apenas uma invenção dos discípulos, e poderiam invalidar qualquer relato equivocado.
Agora, pode ser dito que quarenta anos é muito tempo, e permite a corrupção da história. Porem, como dito acima, os discípulos vinham de origem judaica, em uma sociedade judaica, onde a tradição oral era fortemente preservada. Alguns rabinos até decoravam o Antigo Testamento inteiro! Então, mesmo se fosse possível os discípulos se enganarem, a população da época iria contra. Como diz William Lane Craig:

“Numa cultura oral como a da Palestina do primeiro século, a habilidade de memorizar e reter grandes textos de tradição oral era algo altamente valorizado e bastante desenvolvido. Desde os primeiros anos, as crianças no lar, na escola fundamental e na sinagoga eram ensinadas a memorizar corretamente as tradições sagradas. Os discípulos teriam exercido cuidado similar com os ensinamentos de Jesus.” ("The Evidence for Jesus". Online em http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/rediscover2.html.)

Além disso, se comparado a outras fontes antigas, os evangelhos foram escritos bem perto dos eventos. Alexandre Magro, por exemplo, teve sua primeira biografia escrita quatrocentos anos depois de sua morte.
Por fim, ainda há a possibilidade de Marcos ter sido escrito antes de 37 d.C., já que ele menciona o Sumo Sacerdote, mas não menciona seu nome, ao passo que os outros evangelhos o identificam como Caifás. Qual motivo de Marcos não menciona-lo? É possível que seja porque ele ainda estava vivo e, portanto, não havia necessidade de mencionar seu nome. Isso daria quatro anos de diferença entre os eventos e o relato de Marcos. Como Caifás morreu em 37 d.C., isso explicaria porque os evangelhos posteriores mencionam seu nome. (Flávio Joséfo, Antiguidades, 18.4.3).

Critério de historicidade #4 – Critério do testemunho ocular


Vimos no critério da atestação múltipla que os detalhes divergentes nos relatos apontam para fontes independentes. Marcos teve sua fonte em Pedro e/ou em um documento que historiadores chamam de Q. Sabemos que o autor de Mateus foi o próprio por causa dos Pais da Igreja. Eusébio (265 d.C. – 339 d.C.) citou Orígenes (185 d.C. – 254 d.C.) dizendo que este evangelho havia sido escrito por Mateus [História Eclesiástica 6:25]. Irineu também disse que foi  Mateus. [Against Heresies 3.1.1-2] Como os Pais da Igreja viviam em lugares bem distintos, é bem improvável que eles tenham se reunido para combinar toda uma conspiração inventando quem escreveu o que.
Um outro ponto que deve ser colocado é que a Igreja posterior não escolheria o nome de Mateus para a autoria. Embora Mateus fosse um dos Doze, e isso lhe garantisse credibilidade de testemunha ocular, ele era um cobrador de impostos. Coisa que era mal vista. Seria muito melhor escolher nomes como Pedro e Filipe, como fizeram os autores dos evangelhos apócrifos que foram escritos séculos depois. Além disso, a igreja não atribuiu à carta aos Hebreus a nenhum autor. Por que então fariam isso apenas com os evangelhos?
Então, se Mateus escreveu o evangelho, isso o da credibilidade de testemunha ocular. Junto com os critérios do embaraçamento, da múltipla-atestação e do testemunho antigo, isso nos da razões de sobra para crer que o relato de Mateus é um relato fiel.
Há também a história do rico e do Lazaro, dita por Lucas em Lucas 16, que plausivelmente pertence ao Jesus histórico. Isso porque há evidências de sobra de que Lucas teve acesso a testemunhas oculares em Atos, e é de se esperar que ele tenha tido o mesmo cuidado com sua biografia de Jesus. Colin Hemer identificou 85 fatos historicamente confirmados nos últimos 16 capítulos de Atos (Colin Hemer, The Book o/ Acts in the Setting o/ Hellenistic History)
No inicio do capitulo 3 de Lucas, ele coloca nomes de pessoas famosas e importantes da época, como Herodes, César Augusto e Quirino. Esse detalhe é importante, porque ninguém colocaria esses nomes em relatos fantasiosos. Como disse o historiador F. F. Bruce:

“O escritor que relaciona deste modo sua história ao contexto maior da história mundial está procurando problemas se não for cuidadoso. Ele dá aos seus críticos e leitores muitas oportunidades para testar sua precisão. Lucas assume esse risco e passa no teste de maneira admirável.” (F. F. Bruce, Merece confiança o Novo Testamento?, p. 107)

Então, temos, além de Marcos e Mateus, o testemunho ocular de Lucas, que escreveu:

Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele;
E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas.
E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado.
E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio.
E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.
Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado.
E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá.
E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai,
Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.
Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.
E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam.
Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite.
Lucas 16:20-31

Conclusão



Os relatos de Jesus falando sobre o inferno possuem fontes múltiplas, independentes e antgas, além de passarem no critério do embaraçamento, por ser um fato não-atraente para uma religião nova, e possuir a validação de possíveis testemunhas oculares. Com tudo isso, é altamente improvável que Jesus não tenha falado nada sobre o inferno. De fato, um outro ponto que podemos fazer é que existem varias partes nos evangelhos os quais Jesus menciona o inferno, fogo eterno, castigo eterno, etc. Eles são mencionados tantas vezes, que é altamente implausível que tenham sido adições fantasiosas por parte dos discípulos. 

* É importante dizer que eu não vejo diferença entre o Jesus histórico e o Jesus da fé. Mas o texto tem como intuito mostrar aos céticos que existem formas de avaliar o que Jesus disse. Ja que, apenas dizer que a Bíblia diz não é o bastante, uma análise histórica é necessária para o convencimento dos céticos.

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