quinta-feira, 12 de maio de 2016

A Ressurreição de Jesus #9 - A Objeção de Bart Ehrman: Milagres são improváveis?


Essa objeção é constantemente feita pelo historiador Bart Ehrman, que diz que historiadores não podem falar se um milagre aconteceu ou não, já que historiadores não tem acesso ao sobrenatural.  Ele diz que, “porque historiadores podem apenas estabelecer o que provavelmente aconteceu, e um milagre desta natureza [da ressurreição] é altamente improvável, o historiador não pode dizer que ele provavelmente ocorreu.” (Bart Ehrman, The Historical Jesus, Part II, p. 50.)
Em seu debate com William Lane Craig, ele formula uma variante do argumento de David Hume, dizendo que milagres são altamente improváveis. Ele diz:

“Historiadores podem estabelecer apenas o que provavelmente aconteceu no passado, e por definição um milagre é a possibilidade mais remota a se considerar. Sendo assim, pela natureza do canons da pesquisa histórica, nós não podemos reivindicar historicamente que um milagre provavelmente aconteceu. Por definição, a ressurreição provavelmente não aconteceu. E a história pode estabelecer apenas o que provavelmente ocorreu.” (Reasonable Faith, Existem Evidências Históricas para a Ressurreição de Jesus? Craig-Ehrman debate, online em http://www.reasonablefaith.org/portuguese/existem-evidencias-historicas-para-a-ressurreicaeo-de-jesus-craig-ehrman acesso 12 de maio de 2016)

Então, basicamente, já que a experiência humana nos diz que pessoas não ressuscitam dos mortos, muito menos para um corpo imortal, a ressurreição de Jesus é uma explicação altamente improvável.

A Objeção de Bart Ehrman: Milagres são improváveis?


Raciocínio circular


O primeiro problema com o argumento de Ehrman, é que ele é baseado inteiramente em raciocínio circular. Ele pressupõe que milagres são improváveis enquanto tenta provar que são improváveis. Esse é o mesmo erro de Hume, que dizia que milagres são impossíveis. Ele pressupunha que eles são impossíveis para provar que são impossíveis. Porém, se Deus existir, milagres são possíveis e podem acontecer quando Ele quiser.
A lógica de Ehrman e Hume nada mais é do que puro raciocínio circular. De cara eles já excluem qualquer possível explicação que vá contra a sua visão de mundo para explicar a evidência.

Podemos dizer que esses eventos improváveis aconteceram?


Existem vários eventos na história que não acontecem normalmente, mas podemos dizer que eles aconteceram. Apesar da alta improbabilidade natural da origem da vida, ela deve ter acontecido. A origem do universo aconteceu uma só vez, nós não vemos com frequência universos brotando do nada no nosso dia-a-dia. O nascimento de Bart Ehrman aconteceu uma só vez e, detalhe, nenhum de nós estava lá para ver. Seria o nascimento de Bart Ehrman altamente improvável? De fato, todo evento na história aconteceu apenas uma vez e nós não os vemos acontecendo atualmente. Nós não vemos o descobrimento do Brasil ou o Holocausto com frequência (graças a Deus!). Mas isso não significa que eles não aconteceram.
A probabilidade de um evento não tem relação com quantas vezes ele acontece, mas com a evidência que temos para ele. E, como discutido ao longo da série, existem evidências para a ressurreição que devem ser explicadas. Teorias como “os discípulos roubaram o corpo”, “Jesus não estava morto”, “Jesus foi substituído” ou “Jesus tinha um irmão gêmeo” foram universalmente rejeitadas no meio acadêmico. Também lidamos na série com a hipótese das alucinações. Então, o que tem que ser visto não é quantas vezes uma explicação aconteceu para saber se ela pode explicar a evidência. Mas sim qual a explicação que tem melhor poder explicativo, maios alcance explicativo, é menos ad hoc, etc. para explicar a evidência que temos.

Seriam as evidências da ressurreição improváveis?


A ressurreição é, de fato, uma explicação miraculosa para a evidência que temos. Porem, a evidência em si não é miraculosa. E o próprio Bart Ehrman concorda que essas evidências são fatos históricos:

A Crucificação:

“Aspectos da história de Jesus simplesmente não teriam sido inventados por ninguém querendo inventar um novo Salvador. Os primeiros seguidores de Jesus declararam que ele foi um messias crucificado [...] porque eles criam especificamente que Jesus era o Messias. E eles sabiam muito bem que ele havia sido crucificado.” (Bart Ehrman, “Did Jesus Exist?”, http://www.huffingtonpost.com/bart-d-ehrman/did-jesus-exist_b_1349544.html acesso 26 de março de 2016)

O sepultamento e a tumba vazia:

“Os relatos mais antigos que temos são unanimes em dizer que Jesus foi de fato sepultado por esse sujeito, José de Arimateia, e assim é relativamente seguro que isso foi o que de fato aconteceu. Também temos tradições sólidas para indicar que as mulheres encontraram esse túmulo vazio três dias depois.” (From Jesus to Constantine: a history of early Christianity, Lecture 4: “Oral and written traditions about Jesus”)

As aparições pós-morte:

“Nós podemos dizer com certa confiança que os discípulos clamaram terem visto Jesus vivo” (Ehrman, Jesus, p. 200.)

A origem da fé cristã:

“É um fato histórico de que alguns dos seguidores de Jesus vieram a crer que ele havia sido ressuscitado dos mortos logo após sua execução.” (Bart D. Ehrman, “The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings”, p. 276)

A pergunta que deve ser feita depois de ver quais são as evidências é: O que explica melhor essa evidência? Até mesmo o filósofo Anthony Flew, que foi um ateu fervoroso por mais de sessenta anos e se tornou um deísta no fim de sua vida, admite:

“A evidência para a ressurreição é melhor do que para os ditos milagres de qualquer outra religião. É extraordinariamente diferente em qualidade e quantidade” (Did the Resurrection Happen?, p. 85)

Não deveríamos avaliar a probabilidade da explicação pela frequência da explicação, mas devemos nos perguntar: Se a ressurreição não aconteceu, qual a probabilidade da tumba vazia, das aparições pós-morte e da origem da fé dos discípulos? 

Estaria Ehrman certo?


Note que ele diz que um milagre é inacessível a um historiador. Podemos dividir sua objeção em duas etapas: Primeiro, a explicação miraculosa se torna inacessível a um historiador; segundo, o historiador não pode falar nada quanto à probabilidade de um milagre.
Quanto a primeira afirmação, ela esta errada. Uma explicação não se torna a melhor dependendo do acesso que temos a ela. A existência de dinossauros a 65 milhões de anos atrás não é acessível, mas é a melhor explicação para a evidência que temos. De fato, muitas teorias atuais da ciência postulam explicações inacessíveis ao cientista. Como por exemplo, a teoria das cordas, a teoria do multiverso, a teoria da evolução darwinista, etc. Mas, o acesso a elas não diz nada quanto a sua probabilidade ou não. Peguemos a teoria do multiverso por exemplo. Não há evidencia alguma pra ela. Porem, ela é a única explicação naturalista para o ajuste fino que há no universo. Mas também existem evidências contra o multiverso, como por exemplo o problema dos cérebros de Boltzmann. E ela também falha em explicar o ajuste fino e a origem do universo, já que o próprio multiverso precisaria de um ajuste fino e um inicio.
E quanto à segunda parte do argumento, de que historiadores não podem fazer afirmações quanto a probabilidade de milagres? Bom, mesmo se isso fosse verdade, isso não diria nada quanto a veracidade de um fato miraculoso. Como William Lane Craig explica:

“Por que como filósofo ou simplesmente como ser humano eu não posso julgar que a melhor explanação dos fatos em questão é uma explanação miraculosa? Alias, por que não pode o próprio historiador, quando não está de serviço, por assim dizer, fazer um juízo semelhante? Não seria trágico se não pudéssemos vir a conhecer a verdade simplesmente por uma questão de restrição metodológica? À parte de alguma boa razão para se pensar que a inferência a uma explanação sobrenatural é irracional, por que deveríamos nós, quanto não estamos agindo como historiadores profissionais, nos submeter a uma simples restrição metodológica?” (William Lane Craig, Apologética Contemporânea, p. 337)

Pode o historiador examinar afirmações sobre milagres?


Outro problema é que não existe essa “regra” de que historiadores não podem falar sobre eventos miraculosos. Michael Licona expos uma lista de historiadores que creem que avaliação de milagres é possível ao historiador, e também uma lista de historiadores que creem que não é possível. (Michael Licona, Resurrection of Jesus, p. 181)
Agora, é verdade que explicações naturalistas devem ser preferíveis. Porem, se não houver tal explicação, e a melhor explicação for sobrenatural, então não há problema em inferir um milagre como melhor explicação. Como historiadores Mike Licona e Gary Habermas colocaram:

“... apesar de que causas naturais terem de ser consideradas primeiro, uma causa sobrenatural pode ser considerada se todas as teorias naturais falharem, e se houver evidência crível em favor da intervenção divina. É verdade, nós devemos ser cuidadosos de que isso não se torne uma solução ‘Deus das lacunas’, onde Deus se torna a resposta padrão quando nós não podemos pensar em outra resposta. Porem, quando os fatos parecem apontar fortemente para o divino, e todas as explicações naturalistas parecem ser altamente improváveis, uma explicação sobrenatural deve ser fortemente considerada.” (Gary Habermas e Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus, kindle pos. 1375, 1384)

De fato, para mostrar que um evento é um milagre, ele tem que, por definição, ser raro. Milagres são raros até mesmo na Bíblia. A própria definição de milagre é a de um evento raro causado por Deus. Então, não se pode dizer que ele é improvável e portanto não aconteceu, pois faz parte da definição de um milagre que ele seja raro. E, dessa forma, ele estaria sendo excluído apenas por parte de sua definição.

A objeção é auto-refutável


Por fim, mas não menos importante, a objeção de Bart Ehrman é auto-refutável. Por ele, como historiador, esta fazendo uma afirmação sobre a improbabilidade de milagres, ao mesmo tempo em que afirma que historiadores não podem fazer afirmações sobre a probabilidade de milagres. O que é um argumento auto-refutável.

Conclusão


Seriam milagres improváveis? Vimos então que essa afirmação é baseada em raciocínio circular, pois pressupõe que milagres são improváveis para tentar provar que milagres são improváveis. Além disso, ela invalidaria muitos eventos da história, pois estes não acontecem com frequência, mas apenas aconteceram uma vez. E, por fim, a objeção é auto-refutável, pois faz uma afirmação sobre a probabilidade de milagres, dizendo que não se pode falar da probabilidade de milagres.

Bibliografia


William Lane Craig, Apologética Contemporânea
Gary Habermas e Michael Licona, The Case for the Resurrection of Jesus
Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu

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