segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Ressurreição de Jesus #8 - Objeção: Os Evangelhos possuem contradições?

http://www.gospelclearinghouse.com/wordpress/the-new-testament-revised

Outra objeção comum que vemos na internet e em alguns debates com leigos, é o de que os evangelhos possuem contradições, e por isso não podem ser cridos. De fato, não só tal objeção invalidaria uma serie de documentos históricos, como também é baseada em uma leitura superficial, e as “contradições” ajudam a estabelecer a credibilidade dos documentos.

Objeção: Os Evangelhos possuem contradições?


Houve incêndio em Roma? – discrepâncias invalidam a credibilidade histórica?


Suetonio diz que “Nero abertamente enviou homens para queimar a cidade de Roma” e que ele “assistiu a cidade queimando da torre de Mecenas.” (Nero 38:1, 2)
Dião Cassio diz que “Nero secretamente enviou homens para queimar a cidade de Roma”, e que ele “assistiu a cidade queimar do topo do palácio.” (História Romana 62.16.2; 62.18.1)
Tácito diz que “Nero talvez não tenha sido o responsável” e que ele “estava à milhas de distancia em Anzio.” (Anais 15.38, 39)
Lívio e Políbio nos dão narrativas que são aparentemente irreconciliáveis da passagem de Aníbal pelos Alpes, em seu ataque a Roma na segunda guerra Púnica. Porem, ninguém questiona que Aníbal realizou o ataque. (Murray Harris, Raised Immortal, p. 68)

Comum em biografias greco-romanas


Esse tipo de narrativa é exatamente o que deveríamos esperar de narrativas antigas em biografias greco-romanas. Sean e Josh McDowell dizem:

“Muitos estudiosos agora concordam que o gênero dos Evangelhos é o de biografia antiga greco-romana. Esse gênero permitia aos autores o mesmo tipo de flexibilidade na narrativa que as pessoas empregam tipicamente em suas conversas diárias. Lucas, por exemplo, usa uma técnica chamada ‘telescópio’, em que o tempo é comprimido para simplificar a narrativa de várias histórias. Especificamente, ele comprime o tempo da ressurreição, as aparições do Cristo ressuscitado e a ascensão de uma maneira que poderia dar a impressão de que todos esses eventos tivessem ocorrido no domingo de Páscoa. Mas o Evangelho de João mostra que esses eventos ocorreram durante um período mais longo de tempo. Isso é uma contradição? Não. Na verdade, a compressão usada por Lucas era um recurso estilístico aceitável no gênero das biografias greco-romanas. Afirmar que essas diferenças são uma contradição revela uma ignorância do gênero, em vez que questionar a credibilidade dos Evangelhos.” (Sean e Josh McDowell, Evidências da Ressurreição, kindle pos. 2217, 2230)

Exemplos modernos


Se você assistir ao Jornal da Globo e ao Jornal da Record, comentando a mesma noticia, é bem possível que veja alguns detalhes que vão divergir entre si. Ainda assim, isso não significa que o caso que esta sendo noticiado seja falso. De fato, esse é um principio básico do jornalismo: repórteres vão interpretar a mesma história de formas um pouco diferentes. Como diz o jornalista William Proctor:

“Esse tipo de diferença nas histórias escritas sobre os mesmos eventos é um fenômeno comum, quando estão trabalhando repórteres dinâmicos e independentes – por várias razões. Em primeiro lugar, nenhum jornalista, não importa o quão talentoso seja, pode contar tudo o que acontece em uma situação confusa e tumultuada. Cada um deles automaticamente escolherá os fatos com base no seu discernimento, seus interesses e suas tendências; como consequência, as histórias finais forçosamente não serão similares. Em segundo lugar, um bom repórter investigará mais a fundo em determinada direção do que outro, que irá explorar em uma direção completamente diferente. Nessa situação, é inevitável que os resultados sejam um pouco diferentes, embora cada relato ainda apresente facetas da mesma história” (W. Proctor, The Resurrection Report, p. 41)

As “contradições” mostram credibilidade fraca?


Apontar aparentes discrepâncias em relatos não mostra, necessariamente, que os textos se contradizem. Muitas vezes um autor pode ser mais detalhista, ao passo que outro foca mais no principal. Dr. John Feinberg diz:

“Fazer acusação de contradição não é afirmar simplesmente que duas ideias não se encaixem. Nem significa que, embora elas se encaixem, agora não consigamos ver como, embora possamos ver mais tarde. Nem mesmo significa que Deus sabe que elas se encaixam, embora nós não. Mas significa que não há uma maneira possível para que alguém explique como todas as ideias podem ser verdadeiras e não se contradizerem, umas às outras.” ("The Incarnation of Jesus", extraído de In Defense of Miracles, ed. R. Douglas Geivett e Gary Habermas, p. 229)

Como ele disse, aparentes discrepâncias não estabelecem que são contraditórias. No máximo nos indicam que não sabemos como explica-las de forma harmoniosa agora. Mas existem explicações plausíveis para a maioria das ditas contradições. A tarefa do historiador é a de ver como se podem harmonizar os relatos paralelos, ao invés de simplesmente joga-los fora. Comentando sobre o tema de discrepâncias em relatos, o advogado Norman Anderson pergunta:

“Não é uma questão de simples bom senso que se faça um esforço razoável para tentar solucionar aparentes inconsistências em qualquer conjunto de evidências, antes de saltar à conclusão prematura de que as testemunhas – ou, na realidade, uma testemunha – nos presenteou com contradições ‘evidentes’ e ‘irreconciliáveis’?” (N. Anderson, A Lawyer Among Theologians, p. 111)

Por exemplo, Marcos diz que havia um homem no sepulcro de Jesus (Marcos 16:4-5), enquanto Lucas diz que haviam dois (Lucas 24:4). Porem, qualquer um que olhar com cuidado os relatos de Lucas, verá que ele é mais detalhista. De fato, para se ter dois homem em um lugar, é necessário, antes de tudo, ter um. O mesmo vale para a cura dos cegos em Mateus 20:29-34, onde Jesus cura dois cegos, enquanto cura apenas um em Marcos 10:46. Como Norman Geisler e Thomas Howe argumentam:

“Antes de mais nada, Marcos não declara que apenas um cego foi curado. Mateus disse que foram dois, e onde há dois, sempre há um, sem exceção! Mateus anteriormente mencionara dois endemoninhados, e Marcos e Lucas fazem menção a apenas um (Mateus 8:28-34). [...]”
“O fato de Marcos mencionar o nome de um dos cegos, Bartimeu, e o nome de seu pai, Timeu (10.46) indica que ele se concentrou naquele que conhecia pessoalmente. Se duas pessoas viessem a receber uma medalha de honra do presidente do país, e se uma dessas pessoas fosse um amigo seu, é compreensível que, quando você relatasse a história você se referisse simplesmente àquele seu conhecido que recebeu a medalha” (N. Geisler e T. Howe, Manual de dificuldades bíblicas, p. 287)

Apesar dos detalhes divergentes, nas narrativas da ressurreição há uma grande harmonia no que é essencial para a história. O filosofo Stephen Davis diz:

“Apesar das diferenças nos detalhes, os quatro evangelistas estão de acordo, a um nível assombroso, no que diz respeito ao que poderíamos chamar de fatos básicos. Todos se unem para proclamar que bem cedo, no primeiro dia da semana, certas mulheres, entre elas Maria Madalena, foram ao sepulcro: Elas o encontraram vazio; elas depararam-se com um ou mais anjos; e lhes foi dito, ou elas descobriram, que Jesus estava vivo. Há também uma assombrosa concordância entre o Evangelho de João e pelo menos um dos Sinóticos em cada um desses aspectos: As mulheres informaram Pedro e/ou outros discípulos a respeito da sua descoberta; Pedro foi ao sepulcro e o viu vazio; o Jesus ressuscitado apareceu às mulheres, e lhes deu instruções para os discípulos” (Stephen Davis, Risen Indeed, p. 69)

Historiador Craig Blomberg diz:

“Muitas das acusações [de contradições] foram respondidas adequadamente muitas vezes pelos que escreveram em defesa da confiabilidade e veracidade dos Evangelhos. A grande maioria dos leitores dos Evangelhos Sinóticos [Mateus, Marcos e Lucas] fica espantada, não com as diferenças entre eles, mas com a sua notável similaridade.” (Craig Blomberg, The Historical Reliability of the Gospels, p. 113)

E o advogado Simon Greenleaf afirmou que “as cópias que foram tão universalmente aceitas e influentes como os quatro Evangelhos teriam sido aceitas como evidencias suficientes em qualquer tribunal, sem a menor hesitação.” (Simon Greenleaf, An Examination of the Testimony of the Four Evangelists by Rules of Evidence Administeres in the Courts of Justice, p. 17)
(Algumas das alegadas contradições estão sendo respondidas na série "Supostas Contradições Bíblicas", aqui no blog)

Como contradições ajudam na credibilidade do Novo Testamento?


Existem duas objeções entre céticos leigos que são comuns de se ouvir:

- Que a Bíblia possui contradições

- Que a Bíblia foi alterada

Porém, não só historiadores tem certeza de que o Novo Testamento não foi alterado (como argumentado em outros textos), como as contradições nos ajudam a estabelecer essa falta de alteração: Se os Evangelhos tivessem sido alterados, então claramente essas aparentes discrepâncias teriam sido removidas. Tais discrepâncias nos ajudam a ver que os relatos são de testemunhas oculares.
Os detalhes divergentes também ajudam a credibilidade histórica do Novo Testamento, mostrando que existe mais de uma fonte histórica.
É comum ser argumentado entre céticos que, como Mateus e Lucas vieram depois de Marcos, então eles simplesmente usaram Marcos como fonte, e que, portanto, devem ser considerados como apenas uma fonte, assim invalidando o critério de múltipla-atestação. Porem, não apenas isso não invalidaria o critério em vários casos, como também é refutado pelas discrepâncias presentes. É verdade que Mateus e Lucas usaram Marcos de fonte, e muitos historiadores creem que Marcos usou o chamado documento Q. Mas também é bem aceito que Mateus teve uma fonte privilegiada chamada de fonte M, ao passo que Lucas também teve fontes, que são chamadas de fonte L.
Testemunhas em um tribunal que mostram testemunhos iguais, normalmente são consideradas como inconfiáveis. Já que o testemunho exatamente igual mostra uma alta probabilidade deles terem combinado como seria seu relato. Como diz o historiador N. T. Wright, “é assim que um testemunho ocular soa; esta é a maneira de se expressar um testemunho ocular.” (N. T. Wright, “The Transformation of the Bodily Resurrection”, em The Meaning of Jesus: Two Visions, Marcus Borg e N. T. Wright, p. 121, 122)
O ex-detetive J. Warner Wallace argumenta:

“Claro que essas aparentes ‘contradições’ e peculiaridades curiosas estão presentes nos textos mais antigos e obviamente estavam presentes para os primeiros Cristãos. Os manuscritos mais antigos dos evangelhos que temos mostram esse tipo de validação de testemunha ocular, e não há razão para pensar que os originais eram menos únicos ou individuais. Os primeiros crentes teriam destruído tudo menos um dos relatos, mudando os detalhes conflitantes, ou teriam simplesmente harmonizado os Evangelhos. Mas esses diversos relatos foram preservados (assim como são) porque eles são verdadeiros; eles mostram todas as marcas que deveríamos esperar em um testemunho verdadeiro de testemunha ocular. Se a igreja primitiva tivesse eliminado as quatro perspectivas de testemunhas oculares e nos limitado a uma versão arrumada, nós inevitavelmente teríamos perdido alguns detalhes significantes.” (J. Warner Wallace, Cold-Case Christianity, kindle pos. 1257)

Uma outra aparente discrepância que nos ajuda a estabelecer a credibilidade do Novo Testamento, é a de 1 Coríntios 15, onde o primeiro a ver o Jesus ressurreto é Pedro, ao passo que os Evangelhos relatam que foram mulheres. Mas isso apenas nos mostra o quão embaraçoso era para as pessoas da época colocar mulheres como testemunhas, chegando ao ponto de ocultar isso na formula de catequese. E o fato das quatro biografias de Jesus mencionarem mulheres como as primeiras testemunhas torna o fato altamente improvável de ter sido inventado, pois passa no critério de múltipla atestação e no critério do embaraçamento.
Historiadores Michael Licona e Gary Habermas dizem:

“...as discrepâncias nos Evangelhos podem indicar que eles foram relatos independentes, já que copistas teriam sido mais unificados nos fatos. Do ponto de vantagem do historiador, essa diversidade adiciona à sua credibilidade, já que indica que o evento esta sendo atestado por mais de uma fonte.” (M. Licona e G. Habermas, The Case for the Resurrection of Jesus, kindle pos. 1183)

Por essas e outras que o historiador Paul Meier conclui que “as variações nas narrativas sobre a ressurreição tendem a respaldar, em vez de minar, a sua autenticidade. Elas demonstram que havia varias tradições independentes e derivadas de algum evento que realmente deveria ter acontecido para dar inicio a elas.” (Paul Meier, In the Fulness of Time: A Historian Looks at Christmas, Easter, and the Early Church, p. 180)

Conclusão


Se essa objeção tivesse algum poder, teríamos que descartar partes da história antiga. Sendo os Evangelhos documentos biográficos greco-romanos, é de se esperar que hajam certas diferenças. E muitas dessas diferenças e aparentes “contradições” foram resolvidas por estudiosos. Mas o ponto chave é que essas discrepâncias mostram que os documentos foram escritos por testemunhas oculares, além de passarem no critério de múltipla atestação. Sendo assim, as discrepâncias aumentam a credibilidade do Novo Testamento. 

Bibliografia


Michael Licona e Gary Habermas, The Case for the Resurrection of Jesus.
Sean e Josh McDowell, Evidências da Ressurreição.
J. Warner Wallace, Cold-Case Christianity.
Norman Geisler e Thomas Howe, Manual de dificuldades bíblicas.
Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário