terça-feira, 17 de maio de 2016

A Ressurreição de Jesus #10 - Ressurreição física ou espiritual?


Ressurreição física ou espiritual? Alguns críticos do Novo Testamento tentam argumentar que os discípulos tiveram experiências com uma ressurreição espiritual de Jesus, e que a linguagem usada no Novo Testamento é simbólica. Algumas seitas pseudo-cristãs, como o Espiritismo, adoram essa visão, enquanto as Testemunhas de Jeová, para explicar a ressurreição com sua doutrina holística de não-tem-alma-não, creem que Deus destruiu o corpo de Jesus no sepulcro e que o recriou com um novo corpo.
Essa ultima teoria não será comentada por duas razões obvias: Primeiro, não existe evidência alguma em parte alguma do Novo Testamento, nem nos apócrifos e nem nos escritos dos Pais da Igreja. Segundo, claramente é uma teoria ad hoc apenas para defender doutrina. Então, sorry folks, mas saiam da seita e sejam salvos.

Seria a ressurreição apenas espiritual?


Qual é o argumento a favor?


Alguns críticos e historiadores céticos, como Richard Carrier, tentam argumentar que esse era o ensino original dos discípulos, já que os escritos mais antigos que temos, vindos do Apostolo Paulo, parecem ensinar (para Carrier e outros) uma ressurreição espiritual. No antigo credo que Paulo cita em 1 Coríntios 15, ele diz:

Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras,
foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras,
e apareceu a Pedro e depois aos Doze.
Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido.
Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos;
depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo.
1 Coríntios 15:3-8 NVI

O argumento é que, de acordo com o credo antigo, as aparições a todos os outros parece ser igual à que Paulo presenciou que, em Atos 9:3-7, é mostrada como uma aparição espiritual de luz. Portanto, nenhum dos discípulos tiveram experiências com o Jesus ressurreto, mas sim com visões dele.

Resposta


Existem vários problemas com esse argumento. Em primeiro lugar, Paulo nunca diz que todas as aparições foram iguais. A lista apenas destaca quem presenciou as aparições, não como as aparições ocorreram. Como William Lane Craig colocou, “incluindo a si mesmo na lista, Paulo de forma nenhuma implica que as aparições expostas foram do mesmo tipo de aparições que que a dele. Ele esta preocupado aqui, não com o como das aparições, mas com quem apareceu.” (Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus, p. 73-74)
Em segundo lugar, Atos foi escrito por Lucas e bem depois de 1 Coríntios. Então, o cético não estaria indo ao ensinamento mais antigo dos Cristãos. E se admitirmos que a citação da conversão de Paulo por Lucas foi preservada ao longo do tempo, e depois colocada em Atos, devemos admitir que, na verdade, as aparições foram físicas, já que o Evangelho de Lucas foi escrito antes de Atos pelo mesmo autor.
Terceiro, existem sinais de aparição física de Jesus à Paulo em Atos. Por exemplo, a aparição de Jesus no caminho pra Damasco à Paulo é descrita em Atos 9, Atos 22 e Atos 26. Todas elas dizem que os companheiros de Paulo tiveram alguma experiência com a visão que Paulo estava tendo. Além disso, é narrado que Paulo ficou cego por três dias, o que teria de ser uma consequência de algo físico, e não uma aparição mental qualquer.
Por fim, é claro que Jesus iria aparecer em uma luz do céu. Já que, de acordo com o próprio livro de Atos, Jesus, após aparecer aos discípulos num período de quarenta dias, foi ascendido aos céus.

“corpo natural” vs “corpo espiritual”?


Alguns podem tentar apelar para o seguinte texto para justificar, não apenas a ressurreição espiritual, mas também a reencarnação:

Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção.
Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor.
Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.
1 Coríntios 15:42-44 ACRF

Porem, um estudo melhor do texto torna essa interpretação impossível. Primeiro, Paulo faz um contraste entre os tipos de corpo:

Natural – Espiritual
Mortal – Imortal
Corrupto – incorrupto
Fraco – poderoso
Natural – espiritual

Apenas o ultimo ponto possibilita uma ressurreição espiritual... mas não no grego. A palavra grega para “natural” é psychikos, que significa, literalmente, “de alma”. Isso significa um corpo dominado pela natureza humana. O termo para “espiritual”, é pneumáticos, que não significa feito do espírito. Mas sim “dominado pelo espírito”. Paulo usa os mesmos termos em outra parte da epístola:

Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.
Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido.
1 Coríntios 2:14,15 ACRF

Historiador Michael Licona fez um estudo dos termos gregos usados por Paulo em outros textos antigos do século VIII a.C. até III d.C. e concluiu:

“Embora eu não tenha examinado todas as 846 ocorrências, examinei a maioria delas. E não consegui encontrar uma única ocorrência em que psychikos tivesse o significado de ‘físico ou “material’” (Michael Licona, “Paul on the Nature of the Resurrection Body” em Buriel Hope or Risen Savior? The Search for the Jesus Tomb, ed. Charles Quarles, p. 177-198)

Ele também diz:

“...aplicando os termos ‘natural’ e ‘espiritual’ Paulo não esta se referindo à substancia do corpo velho e do novo, mas sim de seus modos de existência [...] ele esta dizendo que nosso corpo atual esta sepultado com todos os seus apetites e fraquezas ‘naturais’ ou ‘mundanos’ mas esta de pé e transformado em um corpo novo com apetites e qualidades espirituais.” (The Resurrection of Jesus, p. 410)

Stephen Davis também diz:

“Não devemos nos confundir com o uso que Paulo faz da expressão ‘corpo espiritual’. Ele não está usando essa expressão para indicar um corpo ‘formado de espirito’ nem feito de ‘matéria espiritual’, o que quer que isso possa dizer. Paulo se refere a um corpo que foi glorificado ou transformado por Deus, e agora esta dominado pelo poder do Espírito Santo.” (Stephen Davis, Risen Indeed, p. 56)

De fato, há mais um problema com a tese de ressurreição espiritual. A palavra grega para “ressurreição” é anastasis. Não há nenhuma ocorrência dessa palavra significando uma aparição espiritual ou existência desencarnada. Ela significa literalmente “se levantar” ou “voltar à vida”.
Para ser justo, a palavra pneumaticos é usada apenas uma única vez para significar algo espiritual (Efésios 6:2). Porém, no contexto de 1 Coríntios 15, com o contraste entre o verdadeiro significado de “natural”, se torna não-exegético interpretar pneumaticos como algo espiritual, ao invés de algo guiado pelo Espírito. Como em todo o contexto ele faz comparações entre um e outro, neste caso, se segue que, necessariamente, a interpretação correta é o contraste entre “guiado pela carne” e “guiado pelo Espírito”.

“Mas carne e sangue não herdarão o reino de Deus!”


Outros podem argumentar usando este texto:

E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.
1 Coríntios 15:50 ACRF

Já que Jesus foi para o céu, ele não poderia ter um corpo. Isso também é usado pelos reencarnacionistas. Porem, Norman Geisler responde a isso dizendo:

“A expressão ‘carne e sangue’, neste contexto, significa, aparentemente, corpo mortal, e sangue, isto é, um mero ser humano” (Norman Geisler, Baker Encyclopedia of Christian Apologetics, p. 662)

A vasta maioria de estudiosos do Novo Testamento concorda que “carne e sangue” é apenas uma figura de linguagem, para falar da natureza humana. A mesma expressão é usada em Mateus 16:17, Gálatas 1:16, Efésios 6:12 e Hebreus 2:14, assim como em fontes judaicas extra-bíblicas como a Sirac 14:18, Sirac 17:31, Berakoth 28b, M. Nazir 9.5 e M. Sotah 8.1, e ela sempre esta expressando “mortalidade”. Paulo explica isso apenas três versos depois:

Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade.
1 Coríntios 15:53 ACRF

Problemas com a teoria da ressurreição espiritual Ela não explica a tumba vazia


Um dos problemas com essa teoria é que ela não explica a tumba vazia. De fato, no próprio credo citado por Paulo a tumba vazia é pressuposta, assim mostrando que Paulo ensinou uma ressurreição física:

E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
1 Coríntios 15:4 ARA

Paulo diz que Jesus foi sepultado e depois ressuscitou. Obviamente, se aquilo que foi sepultado ressuscitou deve ter deixado a tumba vazia.

Não esta de acordo com a concepção Judaica de ressurreição


Para um judeu palestino da época, uma ressurreição espiritual não seria nem ao menos chamada de ressurreição. Como o rabino Dan Sherbock diz:

“Ou Jesus ressuscitou fisicamente, ou não ressuscitou. É simples. Não há outra opção. A narrativa do Evangelho sobre o sepulcro vazio e o reconhecimento dos discípulos do Cristo ressuscitado apontam para um conceito histórico do evento da ressurreição. Para eles, não faria sentido que o corpo de Jesus revivesse de modo espiritual – e não físico.” (Dan Cohn Sherbock, “The Resurrection of Jesus: A Jewish View”, em Resurrection Reconsidered, p. 200)

Historiador N. T. Wright também diz:

“...ainda que os judeus possam ter tido varias interpretações diferentes, ‘ressurreição’ sempre indica uma posição no espectro. ‘Ressurreição’ não era uma palavra que significava ‘vida após a morte’, de modo geral. Ela sempre significava uma nova materialização.” (N. T. Wright, “Christian Origins and the Resurrection of Jesus: The Resurrection as a Historical Problem”, Sewanee Theological Review, vol. 41:2, p. 111)

Embora ele não creia na ressurreição física de Jesus, o historiador ateu Gerd Ludemann também concorda que “nós não temos razão nenhuma para colocar a interpretação simbólica da ressurreição de Jesus no contexto da crença dos primeiros Cristãos na ressurreição” (Gerd Ludemann, The Resurrection of Christ: A Historical Inquiry, p. 180)

Conclusão


Não há evidência alguma para um tipo de ressurreição espiritual em parte alguma do Novo Testamento. Essa explicação não esta de acordo com o conceito judaico de ressurreição e, alem disso, não explica a tumba vazia. A única forma de inferir que o texto de Paulo infere uma ressurreição espiritual é ignorando o grego, o contexto literário e o contexto histórico. Sendo assim, não fazia parte do ensinamento dos primeiros cristãos a ressurreição espiritual. Apenas a física.

Bibliografia


Sean e Josh McDowell, “Evidências da Ressurreição”
William Lane Craig, “Apologética Contemporânea”

Agradecimento 


Inspiring Philosophy, “6. The Resurrection of Jesus (Spiritual Resurrection?)”, https://www.youtube.com/watch?v=rffmrioFnBY

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