sexta-feira, 8 de abril de 2016

A Ressurreição de Jesus #5 - A Evidência da Origem do Cristianismo


Temos visto ao longo da série a credibilidade dos eventos principais acerca da ressurreição de Jesus. Quer dizer, sua crucificação, seu sepulcro vazio e as aparições pós-morte. Ainda vimos que alucinações não podem explicar a natureza dessas aparições, e faltam em poder explicativo para explicar a tumba vazia. Mas há ainda mais. Um grande mistério fica no ar no inicio da fé Cristã. O porquê de ela ter surgido.

A Evidência da Origem do Cristianismo


Se não houve ressurreição...


De onde os Judeus tiraram a idéia da ressurreição de um individuo? De fato, temos que pensar da perspectiva de um Judeu do primeiro século, seguindo a seguinte linha temporal:

1-      Judeus seguindo um suposto Messias
2-      O Messias é condenado à morte
3-      O Messias é crucificado
4-      Tendo sido crucificado, a crença daqueles Judeus era a de que o Messias estava amaldiçoado por Deus.
5-      X acontece que os faz mudar completamente
6-      Esses Judeus começam a proclamar a ressurreição desse Messias
7-      Os discípulos, antes apenas Judeus, morrem por sua fé.

É altamente improvável que os discípulos tenham inventado ou alucinado essa ressurreição. Pois a crença judaica excluía qualquer um de ressuscitar individualmente antes do fim dos tempos. Os Judeus, na verdade, acreditavam em uma ressurreição geral, pouco antes do final (Ezequiel 37, Isaías 26 e Daniel 12:2). Alem disso, a crença judaica do Messias era a de alguém que viria reinar sobre os Judeus e os Gentios. Mas note que aquele que eles proclamaram até serem mortos que era o Messias havia sido crucificado e morto de forma humilhante. Historiador N. T. Wright explica:

“A crucificação de Jesus, compreendida do ponto de vista de qualquer espectador, fosse ele solidário ou não, estava destinada a ter a aparência de uma completa destruição de quaisquer pretensões ou possibilidades messiânicas que ele ou seus seguidores pudessem ter sugerido” (Christian origins, 3:557-558)

O estudioso do Novo Testamento, Joachim Jeremias também diz:

“O Judaísmo antigo não conhece uma ressurreição antecipada como um evento na história. Em nenhuma parte alguém pode encontrar na literatura qualquer coisa comparada a ressurreição de Jesus. Certamente ressurreição dos mortos eram conhecidas, mas essas eram sempre ressuscitações, o retorno a vida terrena. Em nenhuma parte da antiga literatura Judaica ela é uma ressurreição para a [glória] como um evento da história” (Die alteste Schicht der Osteruberlieferung, em Resurrexit, p. 194)

Então, se Jesus não ressuscitou dos mortos, de onde veio essa fé que fez os discípulos a proclamarem pondo suas vidas em risco?

Tomé foi martirizado?


A morte de Tomé é atestada no apócrifo chamado “Os Atos de Tomé”, escrito no terceiro século. Nesse conto, Tomé viaja até a Índia, e (pra não perdermos tempo com toda a história) no final é morto por guardas com lanças.
Apesar de ser um pouco tardio, historiadores são divididos em opiniões sobre se ele é totalmente mítico ou se possui alguma verdade histórica embelezada com lendas. Comparemos sua data com a dos escritos de Plutarco. Plutarco escreveu uma das fontes principais de um numero enorme de pessoas da antiguidade, muitas que viveram centenas de anos antes dele. Dentre estas estão Pelópidas, Timoleon, Cleômenes, dentre outros.
Um outro ponto importante para determinar a validade desse documento é entender seu gênero. De acordo com Christine Thomas, esse e alguns outros documentos nomeados como “Atos” devem ser entendidos como “ficções históricas” (Christine Thomas, The Acts of Peter, Gospel Literature, and Ancient Novel: Rewriting the Past). Tal história não pode ser 100% lendária, pois muito pesa em sua confiabilidade a menção de personagens e lugares históricos, como Tomé, Gondofares, Gad, Mazdai e a cidade de Andrapolis.
James Kurikilamkatt diz:

“Se a história não tem nenhum pano de fundo histórico e se o leitor do livro sabia que Tomé havia ido a outros lugares que não esses mencionados em [Atos de Tomé], como o autor [...] podia crer que qualquer credibilidade seria dada a sua história?”(First Voyage of the Apostle Thomas to Índia, p. 86)

Devemos concluir então que, mesmo a história não sendo totalmente histórica, podendo conter lendas, existe um “núcleo” nela que deve ser histórico.

Tiago, irmão de Jesus, foi martirizado?


Isso já foi discutido em outro texto da série. Mas é bom lembrar que existem evidências extra-bíblicas de que Tiago foi martirizado. Essa evidência vem de Flavio Joséfo, historiador do primeiro século:

“Anano, um dos que nós falamos agora, era homem ousado e empreender, da seita dos saduceus, que, como dissemos, são os mais severos de todos os judeus e os mais rigorosos no julgamento. Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não havia chegado, para reunir um conselho diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento. Esse ato desagradou muito a todos os habitantes de Jerusalém, que eram piedosos e tinham verdadeiro amor pela observância das nossas leis” (Antiguidades 20:197:203).

Eusébio também cita a morte de Tiago com uma história similar a de Joséfo. (História Eclesiástica 2.23.21-24).

Paulo foi martirizado?


Evidência extra-bíblica vem de 1 Clemente 5:5-7, escrito no final do primeiro século, onde esta escrito que Paulo foi “liberto deste mundo e transportado ao lugar santo, tendo se tornado o grande exemplo de perseverança”. Podemos encontrar mais evidências nos escritos de Inácio (Carta aos Efésios 12:2), Policarpo (Carta aos Filipenses 9:1-2), Dionísio de Corinto (Eusébio, História Eclesiástica 2:25.4), Irineu (Contra Heresias 3:11), o apócrifo Atos de Paulo e em Tertiliano (Scorpiace 15:5-6).

Pedro foi crucificado de cabeça pra baixo?


Há evidência unânime desde o primeiro século de que Pedro morreu por sua fé. O Evangelho de João, o mais tardio dos evangelhos, registra que Jesus profetizou que Pedro morreria de forma parecida com a tradição (quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras. - João 21:18)
Existe também o registro no apócrifo Atos de Pedro, escrito no final do segundo século. Apesar de ser repleto de material lendário, existe um fundo histórico. Christine Thomas diz:

“O mero fato de que indivíduos externamente atestados do primeiro século aparecem como protagonistas nas paginas de Atos de Pedro é o suficiente para mostrar que essas narrativas não são completas ficções divorciadas da memória histórica” (Christine Thomas, ibid, p. 47)

O primeiro Pai da Igreja a mencionar a morte de Pedro por crucificação de cabeça pra baixo é Orígenes, no volume 3 de seu Comentário sobre Gênesis, no meio do terceiro século. É incerto se Orígenes conheceu esse fato pelo apócrifo mencionado ou se foi pela tradição. Sendo assim, evidência inconclusiva.

A pergunta se mantém


O que causou tal transformação nos apóstolos? Pense na situação deles: Após seguir Jesus por três anos, seu líder estava morto. Subitamente, eles começam a proclamar a ressurreição do Messias, tendo toda a predisposição ao contrário, e morrendo por suas crenças. Isso não pode ser mera invenção deles. Como Paul Little diz:

“Os homens morrerão pelo que crêem ser verdade, ainda que possa ser falso. No entanto, eles não morrem pelo que sabem ser uma mentira” (Know Why You Beleve, p. 173)

Filosofo J. P. Moreland também diz:

“Eles enfrentaram dificuldades, foram ridicularizados, suportaram hostilidade e tiveram mortes de mártires. Considerando tudo isso, eles nunca poderiam ter sustentado uma motivação tão inabalável se soubessem que estavam pregando uma mentira” (Scaling the Secular City: A Defense of Christianity, p. 172)

Mudança de hábitos


Não apenas houve uma grande mudança em suas crenças que os levou a morte, mas também houveram abandonos “graves” (do ponto de vista judaico) de diversos “hábitos”. Moreland lista algumas dessas mudanças drásticas:

“Em primeiro lugar [...] eles tinham aprendido desde o tempo de Abraão e Moisés que precisavam oferecer anualmente sacrifícios de animais para expiar seus pecados. Deus transferiria os pecados deles para o animal, e seus pecados seriam perdoados, para poderem manter o relacionamento com Deus. De repente, depois da morte desse carpinteiro de Nazaré, esses judeus deixam de oferecer sacrifícios. Em segundo lugar, os judeus davam ênfase à obediência às leis que Deus lhes transmitira por meio de Moisés. Na opinião deles, era isso o que os separava das nações pagas. Pouco tempo depois da morte de Jesus, porém, esses judeus começaram a dizer que ninguém se torna um membro destacado da sociedade simplesmente obedecendo às leis de Moisés. Em terceiro lugar, os judeus guardavam escrupulosamente o sábado, no qual não faziam estritamente nada que não fizesse parte do culto religioso. É assim que ficavam de bem com Deus, garantiam a salvação da sua família e mantinham a harmonia na nação. Todavia, depois da morte desse carpinteiro de  Nazaré, essa tradição de 1 500 anos é mudada abruptamente. Os cristãos adoram a Deus no domingo. E por quê? Porque foi nesse dia que Jesus ressuscitou. Em quarto lugar, os judeus criam no monoteísmo: só existe um Deus. Os cristãos ensinam uma forma de monoteísmo, mas eles dizem que Pai, Filho e Espírito Santo são esse único Deus. Isso é radicalmente diferente do que os judeus acreditavam. Eles teriam considerado a heresia das heresias dizer que alguém podia ser Deus e homem ao mesmo tempo. Entretanto, vemos judeus começando a adorar Jesus como Deus na primeira década da religião cristã. E em quinto lugar, esses cristãos retratavam o Messias como alguém que sofrerá e morrera pelos pecados do mundo, enquanto os judeus tinham sido ensinados a crer que o Messias seria um líder político que destruiria os exércitos romanos.” (J. P. Moreland, entrevistado por Lee Strobel em “Em Defesa de Cristo”, pp. 391-392)

Josh e Sean McDowell dizem:

“A decisão de mudar ‘o dia de adoração’ do sábado judeu para o primeiro dia da semana (o domingo) é provavelmente uma das decisões mais significativas feitas por um grupo de pessoas na história. Isso é verdadeiro, em particular, quando consideramos as conseqüências que resultariam, segundo acreditavam os judeus, se estivessem errados” (Josh e Sean McDowell, Evidências da Ressurreição, kindle pos. 3403)

Depois de, similarmente, listar também as evidências acima, Dr. Barry Leventhal disse:

“A evidência comprobatória citada acima aponta para a ressurreição única, em espaço e tempo, de Yeshua, o Messias? Qualquer que seja a nossa resposta, não se pode negar que a comunidade messiânica primitiva assim pensava – e muitos deles deram suas vidas, em vez de negar qualquer parte delas. O fato da ressurreição de Jesus a esperança da sua própria ressurreição. O impacto de Jesus, como o Messias ressuscitado, parece tão certo como qualquer fato pode ser” (Why I Believe Jesus is the Promised Messiah, em Why I AM a Christian: Leading Thinkers Explain Why They Believe, Ed. Norman Geisler e Paul Hoffman, p. 218)

A mudança de vida dos apóstolos foi tão impactante, que George Élson Ladd chegou a concluir que, “para o historiador, a transformação na vida dos discípulos é um problema não solucionado. Ele também deve admitir que a teoria de que Jesus realmente ressuscitou dos mortos explicaria todos os fatos.” (The New Testament and Criticism, p. 188)

Poderiam essas crenças ter vindo de origem pagã?


Já lidamos com isso em um outro e enorme texto. Mas existem dois problemas principais com tal teoria: Primeiro, apesar dela ter sido proposta a cerca de um século atrás, ela foi abandonada principalmente por que os paralelos entre a história da ressurreição e os mitos pagãos simplesmente ou não existe ou são forçados. A maioria das histórias que teriam paralelos são de herois que adquirem divinalização e vão ao céu (Hercules, Romulo), herois que desaparecem e vão para uma realidade superior (Apolonio, Empédocles), simbolos de colheitas com vegetação que morre e volta a vida na estação da chuva (Tamuz, Osiris, Adonis) e nenhum desses tem relação com a ideia judaica de ressurreição. Como N. T. Wright colocou:

“Estes múltiplos e sofisticados cultos representavam a morte e a ressurreição do deus como uma metáfora, cujo referente concreto era o ciclo da plantação e colheita, da reprodução e fertilidade humana. Algumas vezes, como no Egito, os mitos e os rituais incluíam praticas funerárias [...] Mas a nova vida que esperavam experimentar não era um retorno a vida presente. Ninguém, efetivamente, esperava que as múmias se levantassem, caminhassem de um lado para o outro e levassem uma vida normal [...] No mundo judaico não há rastros de deuses e deusas que morrem e ressuscitam. [...] quando judeus falavam de ressurreição, não se referiam a algo que supostamente aconteceria com seu Deus YHWH. Tampouco era algo que aconteceria com eles repetidamente; seria um evento único e irrepetivel.”
“De igual modo, quando os cristãos falavam da ressurreição de Jesus, não tinham em mente algo que acontecia todos os anos, como na época de semeadura e da colheita. [...] Obviamente, é bem possível que quando as pessoas [...] ouviram o que os primeiros cristãos diziam, elas tentaram encaixar esta estranha mensagem na cosmovisão dos cultos que conheciam. Mas a evidencia sugere que era mais provável que ficassem confusas ou que zombassem” (N. T. Wright, “A Ressurreição do Filho de Deus”, pp. 137-138)

Praticamente ninguém na história contemporânea crê em tais bobagens. Como Tryggve Mettinger colocou:

“A partir da década de 1930 [...] formou-se um consenso dando conta de que os ‘deuses que morrem e revivem’ morriam, mas não voltavam ou ressuscitavam para viver novamente [...] Os que ainda pensam de outra forma são considerados membros residuais de uma espécie quase extinta” (The riddle of resurrection, p. 4, 7)

Em segundo lugar, os Judeus estavam familiarizados com essas divindades (Ezequiel 8:14-15) e as repugnava. Por fim, o primeiro paralelo real de um deus que morre e ressuscita só aparece depois do ano 150 d.C, mais de cem anos depois da origem do cristianismo. (Edwin YamauchiI, "Easter - Myth, Hallucination or History?")

Conclusão


A melhor explicação para o fato da origem do Cristianismo é a de que a crença na ressurreição era sincera. Luke Johnson, estudioso do Novo Testamento diz:

“É necessário uma experiência poderosa, transformadora, para produzir o tipo de movimento que deu origem ao cristianismo primitivo” (Luke Timothy Johnson, The Real Jesus, p. 136)

Unido aos fatos já discutidos na série, existe forte evidência histórica da ressurreição física de Jesus Cristo. O historiador N. T. Wright conclui:

“É por essa razão que, como historiador, não posso explicar o surgimento do cristianismo primitivo a menos que Jesus tenha ressuscitado, deixando um túmulo vazio atrás de si” (N. T. Wright, The New Unimproved Jesus, p.26)

Fontes


Josh e Sean McDowell, "Evidências da Ressurreição"
William Lane Craig, "Apologética Contemporânea"
Sean McDowell Website, Apostles, http://seanmcdowell.org/category/apostles
Lee Strobel, "Em Defesa de Cristo"
N. T. Wright, "A Ressurreição do Filho de Deus"

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