quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Inferno Eterno ou Aniquilação?


Existem duas versões do aniquilacionismo que devem ser esclarecidas antes dos comentários serem feitos a respeito dessa doutrina. A primeira, é o que eu chamei (e não sei se mais alguém chamou) de aniquilacionismo imediato. Essa é a doutrina das Testemunhas de Jeová, que diz que os ímpios serão imediatamente aniquilados depois do juízo. A segunda é a doutrina dos Adventistas do Sétimo Dia, que diz que os ímpios irão para um inferno temporário e depois serão aniquilados.
Então, alguma delas é Bíblica? Eu creio fortemente que não. No texto a seguir, vou tentar demonstrar brevemente como essas conclusões só podem ser baseadas em uma exegese tendenciosa ou, como também é chamada, eisegese (o nome em português é meio ofensivo, então vou usar esse termo assim mesmo).

Inferno Eterno ou Aniquilação?


Eisegese – Quando ideias pré-concebidas são encaixadas no texto.


Olhe bem para os seguintes textos Bíblicos:

E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.
Daniel 12:2

E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.
Mateus 25:46

E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome.
Apocalipse 14:11

E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.
Apocalipse 20:10

Note que, a primeira leitura que você fizer (e a que foi feita desde o inicio do Cristianismo, a propósito), não da nenhuma outra ideia a não ser a de punição eterna. Um inferno eterno, onde o ímpio é atormentado. A única forma de ler que esses textos falam de “consequência eterna” é lê-los com essa ideia já na cabeça. Isso é Eisegese. Tentar encaixar uma ideia no texto, quando o texto não diz isso.
Agora, alguns podem se justificar dizendo que Sodoma e Gomorra receberam o “fogo eterno” e não ficaram queimando para sempre:

Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.
Judas 1:7

O problema com essa resposta é que o texto pode estar falando do fogo eterno do inferno, pra onde a cidade há de ser lançada no juízo. E isso parece ser implicado pelo contexto:

E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;
Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.
E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades.
Judas 1:6-8

Todo o contexto de Judas parece estar ligado a juízo e submissão a Deus.

Aniquilação imediata – Uma resposta


Um dos grandes problemas que vejo com a aniquilação das TJ é o fato de que Jesus sempre diz que os ímpios irão para um lugar onde haverá “pranto e ranger de dentes” (Mateus 13:42, 13:50, 8:12, 24:51, 25:30, 22:13).
Responder simplesmente que “é uma parábola” não resolve absolutamente nada. Parábola de que? Sofrimento naquele que não existe mais?
Existem mais três problemas com a aniquilação imediata: Primeiro, pense em como é a fase de existência do ímpio:

Não existe – nasce e existe – não existe de novo.

Não há punição. O ímpio simplesmente volta ao estado em que estava antes de nascer. E isso nos leva ao segundo problema. Veja o que Jesus diz nessa passagem:

Na verdade o Filho do homem vai, como dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para o tal homem não haver nascido.
Marcos 14:21

Como pode o “não nascer” (inexistência) ser melhor para o ímpio (no caso, Judas) do que a inexistência do castigo?
O ultimo problema é que é exatamente isso que o ímpio espera. Como John Piper disse, a “aniquilação é o que os que não se arrependeram querem, não o que eles temem. Seria um premio, não uma punição. Aquele sem consciência não sabe de nenhuma perda” [Comentário feito no Twitter https://twitter.com/johnpiper/status/554103026085265409 (acesso 25 de fevereiro de 2016)]
O ímpio ficaria extremamente confortável em ser aniquilado. “Ufa, pensei que agora iria sofrer eternamente!” eles pensariam. Como:
Uma resposta que pode ser dada é que existem certas passagens que dizem que o ímpio irá perecer. O problema com isso é que, apesar da palavra grega “apollumi” significar “destruição”, ela também é usada quando Jesus fala da ovelha perdida (apollumi) (Lucas 15:4), da dracma perdida (apollumi) (Lucas 15:8), do filho perece (apollumi) de fome (Lucas 15:17), o filho perdido (apollumi) (Lucas 15:24) e o alabastro desperdiçado (apollumi) (Mateus 26:8). Mas note que a ovelha, a dracma, o filho e o alabastro não deixaram de existir. Então, a ideia da palavra “apollumi” não é a de “extinção”, mas sim “estar em ruina”. Assim como uma pessoa que passou por vários problemas (perdeu emprego, esposa largou, etc) diz que esta “acabado”.
Além disso, a parábola do Rico e do Lazaro em Lucas 16 mostra uma consciência após a morte. Muitos vão protestar dizendo que “é uma parábola baseada nas lendas judaicas e egípcias da época”.
É “debativel” se essa história é literal ou se é uma parábola. Porem, acho isso irrelevante. Mesmo que seja uma parábola, Jesus nunca usou um lugar imaginário em suas parábolas. Sempre remetia a um lugar verdadeiro. Como Gary Inrig colocou:

“... todas as parábolas, mesmo sendo parábolas, são baseadas na realidade. Parábolas não são fabulas. Elas são estórias. Então, realmente há uma ovelha perdida, realmente há um filho pródigo, realmente há o homem que vai de Jerusalém para Jericó [...] O fato de que é uma parábola não remove a realidade dela. Isso significa que não esta descrevendo um ‘evento real’, mas sim a, se é que posso colocar dessa forma, ‘realidade do evento’. [...] O fato de que você pode contar uma estória pode significar que é uma ficção, mas o poder de toda ficção [...] é que ressoa pois é verdade para a vida.” [Former Adventist Fellowship, “Revelation! #49: "The Second Death" by Gary Inrig, Loma Linda Word Search”, online em https://www.youtube.com/watch?v=6GrMDXzWEQg aos 27 minutos (acesso 25 de fevereiro de 2016)]

Acusar de ser uma “cópia” de histórias da época também é falacioso. Comete a falácia post hoc, quer dizer, só por que a história existia antes, não significa que essa seja a causa do uso por parte de Jesus. Também a falácia genética, tentar invalidar uma crença ou posição atacando como ela se originou não diz nada quanto a sua verdade. Mesmo se Jesus tiver usado um conceito da época, isso não diz nada quanto a veracidade do hades.
O aniquilacionismo tem grandes semelhanças com o universalismo. Ambas as crenças dizem que Deus não enviará ninguém ao inferno por ser Todo Bondoso e puro Amor. Ambas ignoram que Deus precisa ser Justo e punir aqueles que pecaram.
Por fim, isso nega a punição "em níveis" ensinada por Jesus em Mateus 10:15. Essa punição (aniquilação) é justa? Deus castigaria da mesma forma Hitler e um ladrão qualquer?

Inferno temporário – uma resposta


Eu argumentaria que essa doutrina faz menos sentido ainda. O ímpio, sendo castigado no inferno, quando sua sentença acabar ele será aniquilado. Por que? Ele já pagou por tudo o que fez. Por que extingui-lo da existência? Qual motivo há para isso? Se ele já pagou pelos pecados, por que aniquila-lo?
Existe um problema maior aqui: Os textos bíblicos são claros:

E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome.
Apocalipse 14:11

Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua fornicação, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia! E a fumaça dela sobe para todo o sempre.
Apocalipse 19:2,3

E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre.
Apocalipse 20:10

O teólogo Adventista Samuele Bacchiocchi tenta argumentar que essas passagens são metáforas (Crenças Populares, p. 161), mas o problema em responder que “Apocalipse é metafórico” é que toda metáfora tem como propósito mostrar algo real.
A “fumaça” do tormento de fato é uma consequência. Mas isso não implica que as passagens falam de “consequência eterna” ao invés de “punição eterna”. A metáfora da fumaça é para algo real. A fumaça de algo queimando só pode ser eterna se algo permanecer queimando pela eternidade.
Por fim, uma pessoa que esta no inferno esta em completa separação de Deus. Sem nem ao menos uma graça preveniente. Então, essas pessoas continuarão a pecar para sempre. E para sempre merecerão o castigo.

Conclusão


O inferno é Bíblico. É uma doutrina “pesada” de se pensar, mas não devemos colocar nosso julgamento acima do julgamento de Deus. Ele é soberano e sabe o que faz.

Vimos que a doutrina da aniquilação imediata das Testemunhas de Jeová não é algo ensinado nas Escrituras, além de fazer pouco sentido à luz do que Jesus ensinou. A possibilidade do inferno temporário também nos faz pensar “por que?”. E uma pessoa separada de Deus pecará para sempre, assim merecendo o castigo eterno. 

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