sábado, 26 de dezembro de 2015

Seria Deus injusto por nos criar e punir alguns? - Uma Resposta


Uma das perguntas mais profundas que um ser humano pode fazer é: Por que Deus me criou? Não é injusto Deus me criar sem o meu consentimento? E ainda me responsabilizar pelas escolhas morais que eu faço?
Como sou um infernalista, isso ainda levanta a grande questão: Seria Deus injusto por me criar sem meu consentimento e ainda me punir por minhas ações erradas? Afinal, eu nasci por que Ele me criou. Então o meu sofrimento eterno seria culpa d’Ele.

Seria Deus injusto por nos criar e punir alguns?


“Me criou sem eu pedir! Ou sem me perguntar”


Bom, pense bem: É logicamente impossível perguntar pra você se você quer existir, antes de existir! Como William Lane Craig colocou:

“... se você pensar sobre isso, não poderia ser de outra forma. É incoerente dizer que poderia nos ser dada a opção de existir, porque se nos é dada a opção de escolher, então nós já existimos – certo? – então é logicamente impossível dar a alguém a opção de escolher ou não vir a existir. Então, esta nas mãos de Deus; Deus é aquele que escolhe quem criar, quem empurrar à existência, e isso não é injusto, pois é um tremendo presente – o presente da existência, o presente da vida. É uma tremenda benção existir, e encontrar o preenchimento da existência no relacionamento com o Deus infinito, o paradigma de toda a bondade e amor. É para isso que somos criados. [...] essa é a providencia de Deus, essa é a soberania de Deus. Ele escolhe quem criar, e o que nós podemos dizer [...] é que Deus [nos] ama, ele [nos] deu um tremendo presente. Não desperdice. Venha a conhecer Deus.” [Reasonable Faith Podcast, “I Didn't Ask To Be Born” (acesso em 26 de dezembro de 2015)]

De fato, olhe o que Deus lhe deu: A possibilidade de existir! A vida! A oportunidade de se relacionar com a fonte de infinito amor!

Criação e Salvação Sola Gratia


Na visão cristã, Deus é uma Trindade. Um Deus que é três pessoas. Um “o que” que é “três quems”. A pergunta “como pode um ser amoroso existir sem ninguém para amar antes da criação?” se torna irrelevante na visão cristã. Cada pessoa da Trindade amava uma a outra em estado permanente antes de qualquer criação.
Com isso em mente, vemos que o amor doador faz parte da própria natureza de Deus. A escolha d’Ele de criar o universo e os seres vivos foi para que estes se relacionassem com Ele – A fonte de infinito amor. Como William Lane Craig e J. P. Moreland colocaram:

"Por que, então, Deus criou o mundo? Tem-se dito que se Deus é essencialmente caracterizado pelo amor que se entrega, então a criação se torna necessária. Mas a doutrina cristã da Trindade sugere outra possibilidade. À medida que ele existe sem a criação, Deus não é, de acordo com a concepção cristã, uma mônada solitária, mas, na triunidade do próprio ser, Deus desfruta da plena e imutável relação amorosa entre as pessoas da Trindade. A criação é, assim, desnecessária para Deus e é um fino presente, concedido a favor das criaturas, para que possamos experimentar a alegria e a satisfação de conhecer a Deus. Como sempre fez, ele nos convida ao relacionamento amoroso intratrinitário na condição de filhos adotados. Desse modo, a criação, assim como a salvação, é sola gratia." [William L. Craig e J. P. Moreland, "Filosofia e cosmovisão cristã", p. 680]

“Ok, mas por que Ele me cria e me responsabiliza pelas minhas decisões imorais, se a primeira foi d’Ele?”


A decisão de Deus de te criar não é má. Ela é um presente da graça de Deus. O que você faz depois disso é sua responsabilidade. De fato, você sabe quais são as suas opções: Deus ou você mesmo. (De outra forma, não estaria nem levantando essa questão.) Se seguir você mesmo, acabará sem ver a própria natureza pecadora. Se seguir a Cristo, saberá da sua natureza e tentará segui-lo.
Como analogia: Você é culpado por seu filho ser preso por assassinato? Apesar de você te-lo gerado, a culpa é inteiramente dele.
A graça de Deus é manifestada na criação e na salvação. Você é condenado por rejeitar a salvação pela graça. Então, rejeitar o presente da existência - a criação pela graça! – também é um ato condenável. “Eu não escolhi nascer” é a rejeição do grande presente de Deus.
Keith D. Wyma diz:

“Os primeiros pontos de justificação para a nossa completa inabilidade de colocar qualquer obrigação moral sob Deus com respeito ao estado de nossa criação. Que dizer, no ato de nos criar, Deus graciosamente nos da a existência; é como se Deus estivesse nos dando um presente. Já que a existência não é nem recebida e nem devida a nós – afinal, antes de nós existirmos nós não podemos ser objetos de qualquer dever moral – se segue que nós não podemos fazer qualquer afirmação de Deus de como nós devemos existir. Por exemplo, que eu existo é essencialmente um presente para mim; com respeito a obrigação moral, o ato de Deus em me criar foi supererrogatório  (pelo menos com respeito a qualquer afirmação moral de minha parte). Dado isso, como eu posso fazer qualquer reclamação moral sobre as qualidades desse presente? Devo acusar Deus de injustiça porque eu não sou tão perspicaz, nem tão bom escritor, como eu pude ser? Não. Se Deus escolheu me criar em um período anterior ou em uma nação cheia de guerra, fome, ou doença, poderia eu dizer que eu estava sendo tratado de forma errônea, já que eu havia sido rejeitado da vida fácil, confortável que eu poderia ter? Não. Se Deus escolheu me criar com menos habilidade ou oportunidade – ou mesmo me deixar nascer com serias inabilidades mentais ou físicas ou ambas – isso impugnaria a justiça de Deus? Não. Por que não? Porque em uma situação de doação não-obrigatória, a quantidade do presente também é uma questão não-obrigatória. Deus pode dar mais ou menos habilidade ou oportunidade, como ele preferir. Em suma, as circunstâncias iniciais de nossas vidas e a extensão inata de nossas capacidades – morais e ao contrario – depende no alcance das obrigações morais que nós podemos clamar sob Deus.” [Keith D. Wyma, “Innocent Sinfulness, Guilty Sin: Original Sin and Divine Justice”, em Peter Van Inwagen, “Christian Faith and the Problem of Evil”, p. 265]

E de fato, acusar Deus de ser injusto pressupõe que haja um jeito justo. Mas, isso pressupõe que exista um jeito certo – uma lei moral. E, portanto, deve haver um Legislador Moral. Por definição, esse legislador moral absoluto deve ser perfeitamente justo. Já que Deus tem que ser, por definição, o maior ser possível, então Ele é esse legislador (já que, de outra forma, estaria sujeito às leis de outro ser). Portanto, acusar um ser perfeitamente justo de ser injusto é, em si mesmo, uma acusação equivocada. É o acusador que está errado em seu julgamento.
(Eu estava pensando em colocar nesse tempo a perspectiva molinista de predestinação, soberania divina e livre arbítrio, mas achei que fugiria um pouco do assunto.)

A Importância do Inferno


 Esse não é um texto sobre a doutrina do inferno. Mas como ele é “indiretamente tocado” aqui, creio que seja bom falar um pouco do assunto. Se nós compreendermos que “fogo” é uma metáfora (como qualquer teólogo bom vai dizer) e que o inferno é a completa separação de Deus, vemos a importância dessa doutrina. Creio que essa citação de Tim Keller resuma bem:

“A doutrina do inferno é importante porque é a única forma de saber o quanto Jesus nos amou e o quanto ele fez por nós. Em Mateus 10:28 Jesus diz que nenhuma destruição física pode ser comparada com a destruição espiritual do inferno, de perder a presença de Deus. Mas isso é exatamente o que aconteceu com Jesus na cruz – ele foi esquecido pelo Pai (Mateus 27:46.) Em Lucas 16:24 o homem rico no inferno esta desesperadamente com sede (v. 24) e na cruz Jesus disse “tenho sede” (João 19:28.) A água da vida, a presença de Deus, havia sido tirada dele. O ponto é esse. A menos que nós venhamos a compreender essa ‘terrível’ doutrina, nós nunca vamos sequer começar a entender a profundidade do que Jesus fez por nós na cruz. Seu corpo estava sendo destruído na pior forma possível, mas isso era uma picada de pulga comparado ao que estava acontecendo com sua alma. Quando ele gritou que seu Deus o havia esquecido ele estava experimentando o próprio inferno. Mas considere – se nosso debito pelo pecado é tão grande que ele nunca será pago la, mas nosso inferno se estende pela eternidade, então o que nós temos que concluir do fato de que Jesus disse que o pagamento estava ‘finalizado’ (João 19:30) depois de três horas? Aprendemos que o que ele sentiu na cruz era muito pior e mais profundo do que todo o nosso merecido inferno posto junto.” [Timothy Keller, “The Importance of Hell” (acesso em 26 de dezembro de 2015)]

Nenhum comentário:

Postar um comentário