quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Como não argumentar contra o Argumento Cosmológico



Muita gente acha que os Argumentos Cosmológicos (Tomista, Leibniziano ou Kalam) são argumentos “ruins”. Normalmente essas pessoas usam de alguma objeção simples e acham que por isso o argumento foi destruído. Então, no texto de hoje decidi mostrar porque essas objeções não conseguem cumprir seus objetivos e, na verdade, mostram a ignorância do objetor.
(Esse texto foi inspirado pelo texto do filosofo Edward Feser: So you think you understand the cosmological argument? Traduzido pelo site Respostas ao Ateísmo: Então você acha que entendeu o argumento cosmológico?)

Como não argumentar contra o Argumento Cosmológico


A Diferença entre os argumentos


Tomista


O Argumento Cosmológico Tomista busca um Motor Imóvel para a mudança (ou movimento) no universo. Aquele que é a causa primeira. Não primeira causa em um sentido cronológico, mas a causa que é a primeira, em um sentido de ranking.
Cada objeto causa o movimento do outro, tornando de potencial para real. Mas, essa serie de potencial – real não pode ser eterna. Tomas de Aquino usava um exemplo de um homem com um graveto que movia uma pedra. A pedra era movida pelo graveto e o graveto pelo homem. Então deve haver uma causa primeira, que já é real em si mesma.

Premissa 1 – Tudo o que esta em movimento, deve este movimento a algo.

Premissa 2 – Uma serie de movimentadores e de coisas em movimento não pode ser infinitamente longa

Conclusão – Portanto, deve haver uma primeira causa para todo o movimento.

Leibniziano


O Argumento Cosmológico Leibniziano busca uma razão suficiente para a existência do universo. Tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência, sendo essa explicação dada pela própria necessidade da natureza do objeto ou por uma causa externa. O universo é contingente, significando que deve ter uma explicação para a sua existência. Já que o universo abrange toda a realidade espacial, temporal e material, a explicação deve estar além dessa realidade.
Tanto esse argumento quanto o Tomista funcionam mesmo se o universo for eterno. Leibniz usava o exemplo de um homem escrevendo livros de geologia pela eternidade. Note que os livros serem eternos não explica por que eles existem. Deve haver algo além deles.

Premissa 1 – Tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência; ou por necessidade de sua própria natureza ou em uma explicação externa.

Premissa 2 – Se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus

Premissa 3 – O universo existe.

Premissa 4 – Portanto, o universo tem uma explicação para a sua existência. (de 1 e 3)

Premissa 5 – Portanto, a explicação para a existência do universo é Deus. (de 2 e 4)

Conclusão – Portanto, Deus existe.

Kalam


O Argumento Cosmológico Kalam busca uma primeira causa. Se tudo o que começa a existir tem uma causa, então se o universo começou a existir ele deve ter tido uma causa. Para defender esse argumento são apresentados argumentos filosóficos e científicos.
Ao chegar a conclusão, podemos deduzir que a causa esta além do tempo, espaço e matéria. Além disso, deve ser um agente pessoal, pois deveria escolher criar o universo.

Premissa 1 – Tudo o que começa a existir tem uma causa

Premissa 2 – O universo começou a existir

Conclusão – Portanto, o universo teve uma causa.


(Você pode ler mais textos sobre este argumento na serie Origem e Kalam)

Objeções que são ruins


“Deus das lacunas”


Nenhum dos argumentos apela pra lacunas no nosso conhecimento cientifico. Na verdade, o Kalam é o único que fala de ciência e mesmo assim são usados fatos científicos que conhecemos, e não que não desconhecemos. Além disso, são dadas razões para uma causa pessoal e transcendente.
(Mais aqui)

“Quem Criou Deus?”


Se o tempo teve um inicio, a causa tem que estar além do tempo. Se esta além do tempo, é atemporal e, portanto, não teve um inicio. Se não teve um inicio *rufem os tambores* não teve uma causa.
(Mais aqui)

“Tudo tem uma causa?”


A primeira premissa do ACKalam é “tudo o que começa a existir tem uma causa”. No caso do Leibniziano, a primeira premissa diz que “tudo o que existe possui uma explicação para a sua existência; ou na necessidade da própria natureza ou por uma explicação externa.” Já que o numero de explicações contingentes não pode ter infinito, deve haver uma explicação necessária para toda a contingencia do universo.

“Qual Deus?”


Ridículo. Nenhum dos argumentos cosmológicos tenta chegar a um Deus especifico, mas sim a um Monoteísmo genérico. (Seria uma forma estranha de ateísmo aceitar uma Primeira Causa Atemporal, Imaterial, Não-Espacial, Necessária e Pessoal que criou e sustenta todo o universo, mas questionar qual Deus é.)

“Raciocínio Circular?”


Nada nos argumentos pressupõe que Deus exista. São argumentos que avaliam o efeito buscam a melhor explicação. É um raciocínio de efeito para causa.

“Tudo tem uma causa/explicação, menos o universo.”


Falácia do Taxi – Você usa o principio da causa e efeito até onde lhe convém e depois dispensa como um taxi. Além disso, essa objeção faria com que nós tivéssemos que crer que o universo simplesmente brotou do nada.
(Mais aqui)

“Regresso infinito é possível se o tempo se comportar como um circulo.”


Essa objeção é levantada contra um dos argumentos usados para defender a segunda premissa do ACKalam. O argumento em defesa da premissa "o universo começou a existir" diz que, se o passado fosse eterno, então o numero de eventos passados seria infinito. Mas, se fosse infinito, então o evento atual jamais teria chegado.
Esse essa objeção ("regresso infinito é possível se o tempo se comportar como um circulo") só leva o argumento um nível acima: Se houve um numero infinito de círculos de tempo, então o atual jamais teria chegado.

“Causa sem tempo, espaço e matéria é o mesmo nada.”


Qualquer versão do argumento conclui com uma característica de existência positiva.
Tomista: Portanto, deve haver uma primeira causa de toda a mudança.
Leibniziano: Portanto, a explicação para a existência do universo é Deus
Kalam: Portanto, o universo teve uma causa.
Dizer que a causa é “nada” é o mesmo que dizer que é “não-causado”, o que é completamente contrario a conclusão do argumento.

“Tempo não existe”


Isso sim é pressupor uma teoria do tempo. Na teoria do tempo estático, o passado, presente e o futuro são igualmente reais e a passagem do tempo é ilusão de nossa consciência. Na teoria do tempo dinâmico, o passado não existe mais, o presente existe e o futuro ainda vai existir e o passar do tempo é real. A segunda teoria esta de acordo com nossa percepção normal, e não há razão alguma pra duvidar dela.

“O Argumento de Tomas de Aquino é igual ao Kalam”


Essa é a objeção de Richard Dawkins. Porem, o Argumento de Aquino não busca uma primeira causa para o universo. Mas sim uma causa primeira para a moção do universo. Mesmo se o universo fosse eterno e estivesse em movimento eternamente, ainda seria necessária uma primeira causa para “sustentar” todo o movimento.
Esse argumento não me convencia de primeira, mas depois de estuda-lo um pouco eu vi seu poder.

"Não temos certeza se o universo teve um começo."


Verdade, mas a evidencia torna isso muito mais provável do que o contrario.


"Se infinitos são impossíveis, como pode Deus ser infinito?


Antes da criação do tempo, Deus vivia em estado atemporal. Logo, não haviam "momentos de tempo". Isso evita o regresso infinito.
Ja quanto aos atributos de Deus que são de infinito poder, é um infinito qualitativo, diferente do infinito quantitativo contável. O infinito que é impossível é o infinito contável,

Nenhum comentário:

Postar um comentário