domingo, 26 de julho de 2015

Respondendo comentários #2 - O argumento kalam equivoca em “começa a existir”?


O leitor Lucas Carvalho comentou o seguinte em meu texto “Defendendo o AC Kalam #4 - Falacia do Equivoco?”:

[M]as aqui o começar e um termo de premissa falsa ja que o começar da 1 premissa nao e igual a segunda

Vamos responder rapidamente.


O argumento kalam equivoca em “começa a existir”?


O que eu disse no texto


Pra quem já leu, você pode pular essa parte. Mas basicamente foi uma resposta aos que dizem que o Argumento Cosmológico Kalam comete a Falácia do Equivoco com a palavra “causa”.
Para os que não estão familiarizados, o ACKalam é tradicionalmente colocado dessa forma:

1.       Tudo o que começa a existir tem uma causa
2.       O universo começou a existir
3.       Portanto, o universo teve uma causa.

Um argumento que comete a falácia do equivoco usa a mesma palavra para se referir a duas coisas distintas. Por exemplo:

1.       Sócrates é Grego
2.       Grego é uma língua
3.       Portanto, Sócrates é uma língua.

Agora, no texto eu respondi a quem diz que em (1) “causa” significa causa material e em (3) “causa” significa causa eficiente.
Aristóteles distinguia entre esses dois tipos de causas. “Causa material” é aquilo que compõe o “efeito”, enquanto “causa eficiente” é aquilo que trás o “efeito” a existência. Por exemplo, Michelangelo é a causa eficiente da estatua de David, enquanto o mármore que compõe a estatua é a causa material.
O que eu apontei no texto era que tanto na premissa (1) quanto na (3), o argumento se refere a “causa eficiente”. De acordo com o modelo cosmogônico do Big Bang, não existia a matéria. Portanto, pelo menos uma causa eficiente é necessária.

Sobre o comentário 


Agora, a nova objeção se refere a colocação “começa a existir”. Como Lucas não explicou o que quis dizer, vou ter que tentar adivinhar. O que imagino é que, em (1), “começa a existir” se refere a um “rearranjo de matéria”, enquanto em (2) é um efeito totalmente novo criado ex nihilo.
Deixe-me explicar o que “começa a existir” significa no argumento:
Para cada entidade E, e tempo T, E vem a existir em T se e apenas se:

(1) E existe em T

(2) T é o primeiro momento em que E existe

(3) Não há nenhum estado no mundo real em que E existe atemporalmente

(4) A existência de E em T é um fato flexível/temporal

Vamos tentar com um exemplo:
1.       Tudo o que começa a existir tem uma causa
2.       A cadeira da minha sala começou a existir
3.       Portanto, a cadeira da minha sala teve uma causa.

Antes da “cadeira” ser feita, o que existia era madeira. Não a cadeira. Então, em determinado momento T a cadeira passou a existir.
Reformulações mais recentes do argumento cosmológico kalam não sofrem dessa confusão. Por exemplo, a formulação atual usada pelo Dr. Craig é a seguinte:

1.       Se o universo começou a existir, então deve haver uma causa transcendente que o trouxe a existência.
2.       O universo começou a existir.
3.       Portanto, há uma causa transcendente que trouxe o universo a existência.

Até mesmo a formulação simples defendida aqui no blog evita tal confusão:

1.       Se o universo começou a existir, então o universo teve uma causa.
2.       O universo começou a existir.
3.       Portanto, o universo teve uma causa.


Espero que isso responda ao comentário.

2 comentários:

  1. Felipe, eu sei que a minha pergunta não está relacionada como tema do post, mas gostaria de realizá-la aqui: à luz do criacionismo progressivo/evolucionismo teísta, qual a explicação para fenômenos como terremotos, furacões, tsunamis, inundações, epidemias, visto que ambos os pontos de vista (CP e ET) defendem que havia morte e sofrimento antes da Queda?

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    Respostas
    1. Isso será respondido em um texto na serie Criacionismo Progressivo. Mas basicamente, se Deus criou isso antes ou depois da Queda, ainda assim Ele que criou. Essas coisas existem até hoje e nós não temos capacidade cognitiva para entender por que Deus as criou ou permite.

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