domingo, 5 de julho de 2015

A Existência de Deus #17 - O Argumento Moral


O Argumento Moral (ou Argumento Axiológico) para a existência de Deus mostra que dado nosso conhecimento de valores e deveres morais objetivos, deve haver um padrão ou legislador moral acima da humanidade. Esse padrão e legislador é o que chamamos de Deus.

 O Argumento Moral


Premissa 1 – Se Deus não existe, então valores e deveres morais objetivos não existem.


O que quer dizer “objetivos”?


Por valores e deveres morais objetivos, quero dizer valores e e deveres que independem da opinião humana. Por exemplo, mesmo se os Nazistas tivessem ganho a segunda guerra e feito lavagem cerebral em todos para pensarem que eles estavam certos, eles ainda estariam errados. Mesmo que uma cultura inteira pense que torturar bebes por diversão seja algo certo, eles ainda estarão errados.

Valores morais


Valores morais tem a ver com algo ser bom ou mal. Por exemplo, honestidade, amor e justiça são coisas boas, enquanto ódio, injustiça e assassinato são coisas ruins.
Se algo pode ser bom e cada vez melhor, então deve haver um padrão além da humanidade. Por que? Ora, se eu digo “é melhor cuidar de uma criança do que abusar dela”, estou dizendo que é melhor de acordo com qual padrão? Comparemos esse padrão com o que Platão chamava de “O Bem”. Esse “Bem” é o padrão para amor, justiça, honestidade, etc. Porem, essas características são as de uma pessoa. Portanto, esse padrão, “O Bem”, é uma Pessoa maior que a humanidade, que nos serve de padrão para a objetividade moral.
Considerando o ateísmo, que base há para afirmar valores morais? Dada a forma mais comum de ateísmo, o naturalismo, então tudo o que existe é a matéria em diferentes rearranjos. Mas, se isso for verdade, qual o valor moral de um ser humano? No ateísmo, o ser humano é apenas um rearranjo de partículas, não diferente do que pedaços de carne. Como biólogo Richard Dawkins admite:

“Em um universo de forças físicas cegas e replicação genética, algumas pessoas irão se machucar, outras vão ser sortudas, e você não vai encontrar qualquer rima ou razão nisso, nem qualquer justiça. O universo que observamos tem precisamente as propriedades que deveríamos esperar se no fundo não existe nenhum projeto, nem propósito, mal, nem bem, nada, exceto indiferença sem sentido. [...] Somos máquinas para a propagação de DNA [...] DNA não sabe e não se importa. DNA apenas é. E nós dançamos de acordo com sua musica.” [Richard Dawkins, River out of Eden: A Darwinian View of Life (Nova Iorque: Basic, 1996, publicado em português com o título O rio que saía do Éden: uma visão darwinista da vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1996), p. 133]

As verdadeiras consequências se o ateísmo for verdade são inegáveis: Tudo é indiferente e o ser humano não passa de um pequeno pó sem valor no universo.
Uma resposta que podem oferecer é a de que valores morais são produtos da evolução biológica, já que em algumas espécies de primatas é demonstrado que o auto sacrifício é algo mais vantajoso para a sobrevivência da espécie. O problema aqui é que, como o próprio Darwin percebeu, se voltássemos a história da evolução humana, as pessoas poderiam surgir com valores morais completamente diferentes. Ele escreveu:

“Se [...] os homens fossem criados precisamente sob as mesmas condições das abelhas de uma colmeia, dificilmente teríamos dúvida de que nossas fêmeas que não se casassem, assim como as abelhas operarias, acreditariam ser um dever sagrado matar seus irmãos, e as mães lutariam para matar suas filhas férteis, e ninguém pensaria em interferir.” [Charles Darwin, The Descent of Man and Selection in Relation to Sex. Nova Iorque: D. Appleton & Company, 1909, p. 100]

Outra objeção que pode ser levantada, é o famoso dilema de Eutifron. Quer dizer, algo é bom por que Deus quis? Ou Deus quer algo por esse algo ser bom? Se for o primeiro, então Deus escolhe arbitrariamente, se for o segundo então esse algo é bom independente de Deus.
A resposta ao dilema é simples, pois há uma terceira alternativa: Deus quer algo pois Ele é bom. Os valores morais são puro reflexo de Sua natureza.
Outra tentativa de rebater o argumento é o Platonismo Moral Ateísta, que quer dizer, valores morais simplesmente existem, como objetos abstratos. Platão não era ateu, mas alguns ateístas podem vir a argumentar que valores morais como justiça e amor simplesmente existem, como ideias auto existentes.
Essa ideia é absurda. Podemos dizer que “João é honesto”, mas o que quer dizer “honestidade existe independente das pessoas”? “Honestidade” apenas existe, de forma abstrata? Essa ideia parece mais uma tentativa desesperada.
Não apenas isso, mas como pode o processo evolucionário cego produzir criaturas que correspondem a esses valores abstratos? Como William Craig colocou, “é fantasticamente improvável que o processo evolutivo cego fosse capaz de cuspir precisamente o tipo de criaturas que correspondessem ao domínio abstratamente existente dos valores morais. Isso parece ser uma coincidência totalmente não crível, quando se pensa nela. É quase como se o domínio moral soubesse que estávamos chegando.” [William Lane Craig, “Em Guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão”, p. 151]
Ateista Sam Harris tenta explicar a moralidade sem Deus redefinindo o que algo “bom” ou “mal” em termos não morais. Ele diz que devemos redefinir o “bom” para ser algo que “traz o bem estar para criaturas conscientes”. Ele diz:

“Falando de ‘verdades morais’, eu estou falando que devem haver fatos sobre o bem estar de humanos e animais” [Sam Harris, “The Moral Landscape”, p. 31]

Mas, isso não diz nada sobre valores morais, é apenas sobre algo ser condutivo à prosperidade de vida sensível neste planeta. Nessa visão, é claro que a ciência pode nos fornecer uma resposta para valores morais, da mesma forma que nos diz sobre a prosperidade de mosquitos e bactérias. Isso é estranho, pois nos permite conceber em um mundo possível onde aquilo que traz o bem estar é algo que vem de pessoas más. Essas pessoas achariam o bem estar em atos como roubo, mentira e estupro. Agora, pense nisso: Se o bem estar e a bondade moral não são necessariamente os mesmos, então isso implica que o “panorama moral” de Sam Harris não é de verdade um “panorama moral”.

Deveres morais


Em nossa experiência, nós sabemos que certas coisas são certas ou erradas. Por exemplo, estuprar pequenas crianças é algo errado. Enquanto ama-las é algo certo. Mesmo havendo áreas negras, como a questão do aborto, ainda assim isso não implica que deveres morais não existam. Pelo contrario, o simples fato de haverem discussões sobre se o aborto é certo ou errado, pressupõe que existe um dever moral a ser descoberto. Como o professor Jay Budziszewski, da Universidade do Texas, escreveu:

“Todo mundo conhece certos princípios. Não existe uma terra onde o assassínio seja uma virtude e a gratidão seja um defeito” [Written on the Heart: The Case for Natural Law, p. 208-209]

Mas então a pergunta inevitável aparece: Se existem deveres morais – uma forma de como as coisas deveriam ser, então de onde eles vem? Deve haver uma Lei Moral que nos diz o que é certo e errado. Essa lei moral é prescritiva, mas não causa ações. Ela prescreve ações que eu me sinto obrigado a fazer ou posso me recusar. Diferente das leis da natureza, onde eu nunca falho em seguir a “lei da gravidade”, por exemplo, eu posso falhar em fazer a “coisa certa”. Se a lei moral objetiva (ou dever moral objetivo) tem a propriedade de ser um comando, nós o recebemos, então deve haver um objetivo. Um comando só faz sentido se duas mentes se comunicam uma dando comando à outra. Se essa Lei Moral existe, então deve vir de um Legislador Moral, que esta acima da humanidade e tem autoridade para impor essa Lei no coração de todos.
Se não há objetivo para a humanidade, não existe então um jeito certo ou errado de se viver. Afinal, como pode haver um jeito certo se no fim das contas não há um projeto? C. S. Lewis escreveu:

“Pense em um país onde as pessoas fossem admiradas por fugirem da batalha, ou onde um homem se sentisse orgulhoso por trair todas as pessoas que tivessem sido bondosas para ele. Você também poderia tentar imaginar um país onde dois mais dois fosse igual a cinco.” [C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, p. 9]

Eticista ateísta, Richard Taylor escreve:

“dizer que algo é errado porque [...] é proibido por Deus, é [...] perfeitamente compreensível para quem crê num Deus legislador. Mas dizer que algo é errado [...] embora não exista Deus para proibi-lo, não dá para entender [...]”. “O conceito de obrigação moral [é] ininteligível sem a ideia de Deus. As palavras permanecem, mas o seu sentido se foi” [Richard Taylor, Ethics, Faith, and Reason (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1985), 90, 84.]

Pode ser argumentado que tudo isso não passa de um instinto. Esse instinto certamente existe, mas quando falamos de Lei Moral estamos falando de outra coisa. Como o próprio C.S Lewis disse:

“Suponhamos que você ouça o grito de socorro de um homem em perigo. Provavelmente sentirá dois desejos: o de prestar socorro (que se deve ao instinto gregário) e o de fugir do perigo (que se deve ao instinto de auto-preservação). Mas você encontrará dentro de si, além desses dois impulsos, um terceiro elemento, que lhe mandará seguir o impulso da ajuda e suprimir o impulso da fuga. Esse elemento, que põe na balança os dois instintos e decide qual deles deve ser seguido, não pode ser nenhum dos dois. Você poderia pensar também que a partitura musical, que lhe manda, num determinado momento, tocar tal nota no piano e não outra, é equivalente a uma das notas no teclado. A Lei Moral nos informa da melodia a ser tocada; nossos instintos são meras teclas.” [Idem, p. 14]

Outra forma de perceber que essa Lei Moral não é apenas um instinto é vendo quais instintos reagem nessa situação: O seu desejo de sobrevivência é provavelmente mais forte do que o de ajudar o outro homem. Mas, se em nossa mente só há esses instintos, o instinto mais forte deveria ganhar sempre, não? A Lei Moral nos ajuda a decidir qual a coisa certa a se fazer.
Outras pessoas tem tentado dizer que a evolução explica nosso senso de certo e errado. Como algo é bom para o desenvolvimento evolucionário, então nós deveríamos fazer isso. Porem, tal argumento confunde epistemologia com ontologia. Epistemologia tem a ver com como nós descobrimos algo, enquanto ontologia tem a ver com a realidade desse algo. Dizer que a evolução explica a moralidade é simplesmente dizer que nós descobrimos algo como certo ou errado, mas não responde o por que desse algo ser certo ou errado.
Não apenas isso, mas isso não tornaria algo em certo ou errado, mas sim em algo “fora de moda”. Atos como estupro não seriam moralmente errado, seriam apenas tabu que foi qualificado como inútil ao longo do processo sócio biológico.
Além disso, me parece que tal argumento é auto refutável. Se o naturalismo for verdade, então não só nossas crenças morais são produto dela para a sobrevivência, mas todas as nossas crenças são produtos de condição social. Dessa forma, se nossas crenças são produtos da evolução para a sobrevivência, elas podem ou não ser verdade. Comportamento paranoico, mesmo podendo ser  baseado em mentiras, se mostra muitas vezes melhor pra sobrevivência individual do que a verdade. Então, se a explicação naturalista for verdade, todas as nossas crenças surgiram para a sobrevivência, não para nos dizer a verdade. Mas, se esse é o caso, quanta confiança podemos ter no naturalismo, se essa pode ser uma crença apenas para a sobrevivência?
Teorias éticas, como o utilitarismo, tentam trazer alguma base para a afirmação de valores morais. O Utilitarismo divide entre valor não-moral (bondade), que seria uma serie de coisas que tem valor intrínseco em si mesmas, mas não são morais, e o valor moral (retidão), que seriam regras morais (como “não roube”), ações morais individuais (o “ato de roubar”) e tipos de ações (Ex: Ações semelhantes ao roubo).
Exemplos de valor não-moral seriam saúde, arte, amizade, matemática, conhecimento, etc. Se algo tem valor intrínseco (como a “alegria”), então é valiosa em si mesma. É algo bom e digno de ser desejado.
Algo pode ter apenas o valor instrumental, como o dinheiro. Seu valor esta no fato de ser um meio para o valor intrínseco. Podem haver coisas com valor intrínseco sem ser instrumental, mas não o oposto. Também pode haver algo com valor misto (como a saúde). Há, no entanto, discordância entre o que possui valor intrínseco (não-moral)
Utilitaristas Hedonistas dizem que algo tem utilidade em termos de felicidade ou prazer. Jeremy Bentham dizia que o que importava era a quantidade de prazer VS a de dor. Isso é chamado Hedonismo Quantitativo. John Stuart Mill rejeitou essa idéia, dizendo que um ser humano insatisfeito ainda era melhor do que um porco satisfeito. (Ou “um Sócrates insatisfeito é melhor do que um tolo satisfeito”.)
A idéia de Bentham era basicamente essa, a de que “um porco com maior quantidade de prazer tinha maior valor do que um Sócrates insatisfeito”. Isso não diferencia os tipos de prazer e despreza o fato de que alguns prazeres tem mais valor do que outros (Ex: prazer intelectual VS estomago cheio.) Também é difícil calcular a duração e intensidade de alguns prazeres.
Mill propôs então o Hedonismo Qualitativo. Basicamente, ainda é “prazer VS dor”, porem, agora com diferentes tipos de prazer. Algo como “amizade” ou “belas artes” não tem valor intrínseco, mas sim o prazer que vem delas. O problema aqui é que a classificação do valor relativo de prazeres não é especificada adequadamente.
O utilitarismo pluralista nos diz que não é apenas o prazer e a felicidade que tem valor intrínseco e não moral. Por exemplo, não é apenas o prazer gerado pela “amizade” que tem valor, mas a amizade em si.
Aqui o problema vem da relativa inutilidade dos valores como amor, beleza, saúde, liberdade, coragem, autoestima, etc. Não existe escala desses valores para determinar o que alguém deve fazer. Como a amizade (e vários tipos de amizade) com valores de experiência estética ou a coragem.
Por esses motivos, a maioria dos utilitaristas vão para o Utilitarismo de Preferencia Subjetiva. Quer dizer, a ação deve maximizar a satisfação dos desejos e preferencias pessoais. Obviamente, isso leva a problemas. Por exemplo, se alguém quiser abusar de crianças, então é justificado por estar satisfazendo seus desejos. A resposta que dão a isso é que devemos usar a razão, escolhendo o que satisfaz os desejos racionalmente. Aqui há dois tipos de racionalidade: Prescritiva e Descritiva.
A racionalidade prescritiva diz que pode se ter crenças justificadas sobre o que tem valor intrínseco, e devemos deixar essas crenças inspirarem os nossos desejos. O problema é que isso é raciocínio circular:

“O bem é o que é racional desejar” – “o racional é o que as pessoas desejam como bem”

A racionalidade descritiva diz que as pessoas podem usar meios eficientes para chegar a certos objetivos, se forem esses colocados. Mas, alguém poderia ter um objetivo moralmente ruim e ser racional caso soubesse de maneiras eficientes para chegar a ele. Por isso, utilitaristas vão dizer que só é racional a pessoa que desejar o mesmo que todas as pessoas psicologicamente normais. Nesse caso, por que alguém normal não escolheria ser um molestador de crianças? “Por que é errado”, é raciocínio circular. Além disso, isso implicaria que existe um mundo possível onde pessoas normais são molestadores de crianças. Não há nada de ilógico nessa possibilidade.
O principio da utilidade vai dizer que aquilo que traz o maior bem para o maior numero de pessoas é o certo a se fazer. Porem, não só tal tentativa pressupõe que existam valores morais (o bem para o maior numero de pessoas), como ela implicaria absurdos. Por exemplo, em uma situação hipotética onde você deve estuprar uma garotinha para salvar a vida de um grande numero de pessoas, tornaria o ato não apenas em certo, como também faria com que você fosse moralmente obrigado a fazer isso. Similarmente, escravizar uma minoria para o bem da maioria seria algo considerado moralmente correto. E por esses e outros absurdos implicados pelo utilitarismo que devemos nega-lo como uma boa teoria ética.
  

Responsabilidade moral


Mesmo se valores e deveres morais existirem se o ateísmo for verdade, eles ainda se tornam irrelevantes, pois ninguém responde por seus atos. Se a vida termina na sepultura, então não há diferença entre viver como Stálin ou Francisco de Assis. Como disse Dostoiévski:

“Se não há imortalidade, tudo é permitido.” [Fiódor Dostoiévski, The Brothers Karamazov, trad. C. Garnett (Nova Iorque: Signet Classics, 1957), livro II, cap. 6; livro V, cap. 4; livro XI, cap. 8 (publicado em português com o título Os irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2008)]

Richard Wurmbrand nos diz o absurdo de tal visão de mundo ateísta, se for verdadeira:

“É difícil de acreditar na crueldade do ateísmo, no qual o homem não tem fé na recompensa do bem nem no castigo do mal. Não há razão para ser humano. Não há limites para as profundezas do mal que há no homem. Os torturadores comunistas diziam sempre: ‘Não há Deus, não há vida futura, não há castigo para o mal. Podemos fazer o que quisermos’. Certa vez ouvi um torturador dizer: ‘Dou graças a Deus, em quem não creio, por ter vivido até agora, quando posso expressar toda a maldade do meu coração’. Ele a expressava com brutalidade e tortura inacreditáveis, infligidas aos prisioneiros.” [Richard Wurmbrand, Tortured for Christ (Londres: Hodder & Stoughton, 1967), p. 34 (publicado em português com o título Torturado por amor a Cristo. São Paulo: A. D. Santos, 1998)]

Uma confusão


Note que não estou dizendo que a pessoa deve crer em Deus para ser boa e fazer o certo. Ninguem faria afirmação tão tola. O que esta sendo dito é que, se Deus – o padrão para o bem e o mal e o Legislador da Lei Moral – não existir, então não existem valores e deveres morais. Não há apelação para crenças religiosas ou a qualquer Livro Sagrado.

Premissa 2 – Valores e deveres morais objetivos existem.


Em nossa experiência sabemos que existem esses valores e deveres morais. Atos como estupro e injustiça são objetivamente errados. Já amar uma criança e educa-la é algo bom e certo.
A pessoa que negar a existência de valores e deveres morais certamente terá todo o ônus da prova. É ela quem esta negando nossa crença básica adequada. Esse tipo de crença é algo fundamentado em nós com base em nossa experiência. Nossa experiência nos diz que há uma Lei Moral, assim como diz que o mundo externo existe (você poderia ser um cérebro em um pote sendo estimulado e iludido por um cientista maluco, mas sua experiência torna tal crença em algo irracional), ou de que o passado não foi criado a cinco minutos com aparência de idade. Como filosofa ateísta Louis Antony disse:

“Qualquer argumento para o ceticismo moral será baseado em premissas que são menos obvias do que a realidade dos próprios valores e deveres morais, e portanto nunca poderá ser racional aceito o ceticismo moral” [Comentário feito durante do debate entre William Lane Craig e Louise Antony na Universidade de Massachusetts. Citado em Reasonable Faith Podcast, “Those Who Deny Objective Moral Values” (10:04)]

Nossa crença moral é uma crença básica adequada. Quer dizer, nossa experiência torna mais racional crer na realidade moral do que o contrario. Argumentos a favor do ceticismo moral têm a mesma força de argumentos a favor da crença de que somos um cérebro em um vidro sendo iludido ou que o passado foi criado a cinco minutos com aparência de idade. Simplesmente é algo desfavorecido pela nossa experiência.

Relativismo moral


Relativismo moral individual ou cultural também tem seus problemas de refutação própria. Por exemplo, o relativismo moral individual diz que as coisas são certas relativamente. Uma pessoa acha algo certo e a outra errado, como sabores de sorvete – pra um chocolate é bom e pra outro é ruim. Porem, essa objeção, além de ignorar nossa percepção moral objetiva, é auto refutável. Ela simplesmente pressupõe que as pessoas tenham o direito de ter seus “certos e errados” individuais. Mas por que esses direitos são bons? Uma pessoa pode dizer “você não deve impor sua moralidade nos outros” e a resposta seria “quem disse?” ou “por que?”
Me lembra a história que William Craig conta do estudante que escreveu um trabalho enorme, bem montado, com uma bela capa azul, onde ele argumentava que não existiam certos e errados, justiça e injustiça, etc. Ele entregou seu trabalho ao professor, era um ótimo trabalho. No dia seguinte, o professor entregou o trabalho ao aluno com um Zero bem grande e escrito em baixo “não gosto de capa azul”. O aluno então foi a sala do diretor reclamar “Como assim não gosta de capa azul?? Isso não é justo! Isso esta errado!”. Então o professor disse “O que? Não é esse o trabalho que diz que não existe essa coisa de certo e errado, justiça e injustiça?”. Imediatamente o aluno percebeu que estava errado, e o professor mudou a nota pra 10, já que, apesar de errado, era um excelente trabalho de filosofia.
Quanto ao relativismo moral cultural, também existem problemas. Se a moral apenas varia de sociedade pra sociedade, então ser contra o que determinada sociedade, contra sua lei civil, então ir contra essa lei seria imoral. Se as leis determinam o que é moralmente certo e errado, significa que qualquer pessoa que proteste contra as leis é moralmente errada. Se alguma lei mudasse, não mudaria para uma lei melhor ou mais justa, seria apenas uma mudança de regras. Isso significa que pessoas como Jesus, Ghandi ou William Wilberforce são os maiores imorais que já houve. Além disso, não há resposta certa pra nada. Só por que México, EUA e China não concordam em como o aborto deva ser tratado, por exemplo, não significa que não tenha uma resposta certa para o aborto.
Algumas pessoas podem argumentar que, no passado nos pensávamos diferente e isso prova o relativismo cultural. Porem, tal argumento na verdade, nos mostra a objetividade da moralidade. Afinal, se é possível a sociedade melhorar as regras, então ela avança de acordo com um padrão. Mas, se esse padrão moral fora da humanidade não existir, então a sociedade não melhora, ela apenas muda de regras. Isso também seria uma confusão entre a objetividade moral e a percepção mutável dos fatos. Usemos como exemplo as bruxas, que eram sentenciadas como assassinas no seculo XVIII, mas não são mais. O relativista diz que os valores mudaram, já que não matamos mais as bruxas. Mas essa afirmação deles esta incorreta. O que mudou não foi o principio de que assassinato é errado, mas a compreensão de se as “bruxas” podem ou não matar pessoas com suas maldições. Agora não acreditamos mais que elas podem fazer isso.
Mas, deixando tudo isso de lado, o relativismo cultural também é auto refutável. Digamos que alguém discorda do relativismo cultural. O relativista diz que não há visão correta absoluta de como as coisas deveriam ser, mas se esse for o caso, o próprio relativismo cultural não pode ser uma visão correta. Se uma sociedade criar uma lei que diga que a lei dos outros lugares esta errada, então o que aconteceria?

Dilemas Morais


E quanto a dilemas morais? Eles provam o relativismo? Suponha que existe um trem que irá se dividir em dois caminhos. O da esquerda possui uma pessoa que será atropelada e o da direita possui dez. Você tem a possibilidade de escolher qual caminho o trem seguirá. Tal dilema não nos mostra que a moral é relativa? Afinal, pessoas dariam respostas diferentes ao dilema. O problema aqui é que, se não existe uma moral objetiva, então não existiria dilema algum. Alguém simplesmente perguntaria “quem se importa?”

Evolução torna moralidade ilusória


A ultima objeção que eu vou cobrir aqui, é a que nossa percepção moral é ilusória por causa da evolução. Ela nos faz crer que algo é certo ou errado, mas no fundo é apenas uma ilusão causada por nossa necessidade de sobrevivência. O filosofo da biologia, Michael Ruse, por exemplo, diz:

A posição dos evolucionistas modernos [...] é que os humanos têm consciência de moralidade [...] pois esse tipo de consciência tem importância biológica. A moralidade é uma adaptação biológica, não menos do que mãos, pés e dentes [...] Considerada como um conjunto de alegações racionalmente justificáveis sobre coisas objetivas, a ética é ilusória. Acho louvável que, ao dizerem “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, as pessoas achem que estão se referindo acima e além de si mesmas. [...] No entanto, [...] tal referência é, de fato, desprovida de fundamento. A moralidade é somente um auxílio à sobrevivência e à reprodução [...] e qualquer significado mais profundo é ilusório" [Michael Ruse, “Evolutionary Theory and Christian Ethics”, in The Darwinian Paradigm (Londres: Routledge, 1989), pp. 262, 268-269]

Porem, esse argumento comete a Falácia Genética. Tal falácia é cometida quando tentam invalidar uma crença ou posição atacando como ela se originou. Mesmo se nós viemos a crer na evolução por meio evolucionista, isso não diz nada sobre a realidade moral que existe.

Conclusão – Portanto, Deus existe.


Dado o fato de que valores e deveres morais existem, deve haver um Padrão – o “Bem” – que tem esses valores em sua própria natureza e que é o Legislador da Lei Moral que esta escrita no coração de todos nós. Essa Lei Moral e nosso conhecimento do Bem e do Mal são reflexos da própria natureza desse Padrão Legislador. Esse é o que todo mundo chama de Deus.

Bibliografia

William Lane Craig, Em Guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão
_____, Apologética Contemporânea: A Veracidade da fé Cristã
_____ e J. P. Moreland, Filosofia e Cosmovisão Cristã
Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu
C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples

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