terça-feira, 23 de junho de 2015

Teria Deus Comandado Genocídio?


De acordo com a Bíblia, Deus ordenou aos Israelitas que matassem os cananeus. Homem, mulher, crianças... todos deveriam morrer. No entanto, isso nos deixa com um problema: Se Deus é moralmente perfeito, como pode Ele ter ordenado tal coisa horrível e maldosa?


Teria Deus Comandado Genocídio?


Seria isso objetivamente errado?


Primeiro, nós temos que perguntar qual a natureza de valores e deveres morais objetivos. Por objetivos eu me refiro a valores e deveres que são independentes da opinião humana. Por exemplo, mesmo se os nazistas tivessem convencido o mundo inteiro de que matar judeus era algo certo, isso ainda seria errado.
Agora, se existe um jeito errado, então existe um jeito certo. Uma forma como as coisas deveriam ser. E se esse é o caso, então existe uma Lei Moral. Se existe uma Lei Moral, então existe um Legislador Moral.
A questão aqui é: Iria um Legislador moralmente perfeito ordenar algo moralmente errado? Bom... Se alguém moralmente perfeito não pode fazer algo moralmente errado, então mesmo que nós, em nossa limitação, vejamos esse ato como moralmente errado, Deus que vê toda a história do inicio ao fim poderia ter uma razão moralmente suficiente para comandar esse algo. Dessa forma:

Deus é moralmente perfeito – Deus comandou algo moralmente errado – Deus não pode comandar algo moralmente errado – Portanto, nosso julgamento é que esta precipitado.

Quando Deus julga as nações?


O julgamento é o ultimo recurso para Deus. Ele deu 400 anos de avisos para os cananaues pararem com suas praticas de sacrifícios infantis, bestialidade, incesto, estupros, etc. Se você visse coisas assim, não iria querer pará-los?
Em Sodoma e Gomorra, Abraão intercedeu para Deus pelo bem dessas nações:

“E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?
Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela?
Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?
Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles.
E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.
Se porventura de cinqüenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco.
E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta.
Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta.
E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte.
Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.” - Gênesis 18:23-32

Noé, por 120 anos orou pelas pessoas antes que Deus os julga-se com o dilúvio.
Os profetas do Antigo Testamento, que proclamavam um julgamento iminente, mostravam como Deus era misericordioso, lançando sobre o povo um chamado de arrependimento. Na verdade, em todos os casos em que as pessoas demonstraram arrependimento, Deus mostrava misericórdia (Jonas 3; Josué 2)
A destruição causada por Deus, nunca foi resultado de uma limpeza étnica. As destruições tinham como objetivo a limpeza da idolatria. Até os assírios e os babilônicos perseguiram o povo de Deus porque estes caíram na idolatria.
Outro ponto que devemos evitar é afirmar “eu encaro a Bíblia literalmente”. A Biblia não é pra ser lido de forma literal, mas sim como literatura. Há coisas na Bíblia que não foram escritas para serem lidas de forma literal. A Bíblia é repleta de vários tipos de literatura ou gêneros. Temos literaturas de gêneros históricos, poéticos, proféticos, apocalíptico, biografias, cartas, etc.

Os Cananeus eram “inocentes”?


Os cananeus, não eram um “povo qualquer”, eles eram terríveis. Ofereciam bebes como sacrifício, o povo vivia em imoralidade sexual e adoravam deuses falsos. Um dos deuses dos Cananeus era Anath. Veja o que William Albright, arqueólogo e estudioso bíblico, diz sobre a imagem dessa deusa:

“O sangue era tão profundo que ela entrava nele até os joelhos – ou melhor, até o pescoço. Sob seus pés haviam cabeças humanas, acima de suas mãos, mãos humanas voavam como gafanhotos. Em seu deleite sexual, ela se decorava com cabeças suspensas enquanto anexava mãos a sua cintura.”
“Sua alegria nos talhos é descrito como: ‘O fígado incha com o riso, seu coração estava cheio de alegria, o fígado de Anath (estava cheio de) exultação’. Depois, Anath estava “satisfeita” e lavou suas mãos em sangue humano antes de prosseguir a outras ocupações.” [Albright, “Archaeology and the Religion of Israel”, p.77]

Você acha que um povo que servia a essa deusa, fazia coisas boas? Como Norman Geisler diz:

“Era uma cultura inteiramente má, tanto assim que a Bíblia diz que dava náuseas a Deus. Estavam envolvidos na brutalidade, crueldade, incesto, bestialidade, prostituição religiosa e até mesmo o sacrifício de crianças na fogueira. Era uma cultura agressiva que queria aniquilar os israelitas. [...] E veja o que aconteceu com os corruptos habitantes da cidade de Nínive. Deus iria julgá-los porque mereciam, mas eles se arrependeram e Deus salvou todo mundo.” [Norman Geisler, entrevistado por Lee Strobel em “Se Deus mata crianças inocentes, ele não é digno de adoração” em “Em defesa da fé”, p. 168]

A Linguagem exagerada do Antigo Oriente Medio


Alem disso, no antigo oriente médio eram muito usados exageros e hipérboles, como em Josué, quando é dito pra “não deixar nenhum sobrevivente”. Era muito comum, quando uma nação conquistava outra, dizerem como se fosse uma proclamação de vitória “não deixamos vivo nada que respirava”. É como quando um time de futebol diz antes do jogo “vamos destruí-los!” ou depois do jogo “nós destruímos eles!”. Essa é a linguagem usada no livro de Josué. Agora pense nisso: Como podem ter matado a todos, se nas paginas seguintes ou em livros posteriores, ainda existem cananeus vivos? O que se segue é que a ordem dada por Deus não foi de “estraçalhar os inimigos”, mas sim expulsa-los daquelas terras. Como Paul Coulter diz:

“Não era bem o caso de um genocídio (o extermínio de um grupo étnico) mas na verdade uma remoção forçada da terra de Canaã. O julgamento de Deus era primeiramente para que os Cananeus pudessem perder sua terra por causa de suas praticas religiosas detestáveis e para preservar a pureza da adoração de Israel a Ele.” [Bethinking, “Old Testament Mass Killings]

Paul Copan diz:

“Como seus contemporâneos do Oriente Médio, Josué usou a linguagem retórica de guerra convencional. A linguagem parece vangloriosa e exagerada a nossos ouvidos. Note primeiro a linguagem em Josué 10:40: “Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis; nada deixou; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o Senhor Deus de Israel.” Josué usou linguagem brava e retorica de seu tempo, assegurando que toda a terra foi capturada, todos os reis derrotados, e todos os Cananeus destruídos (10:40-42; 11:16-23: “Josué conquistou toda aquela terra ... e a deu... de herança a Israel”).” [Paul Copan, “Is God a moral monster?”, p. 170]

Alem disso, Deus diz que o processo de expulsão dos Cananeus seria algo gradual, em Deuteronômio 7:22 é algo antecipado, e reafirmado em Juízes 2:20-23.
Alguns podem objetar dizendo que parece mais uma “desculpinha”. Porem, temos evidencias de que as pessoas no Antigo Oriente Médio escreviam dessa forma:
Tutmosis III do Egito (final do décimo quinto século a.C.): “o exercito numeroso de Mitanni foi derrubado em uma hora, aniquilado totalmente, como esses que [agora] são inexistentes.” – De fato, as forças de Mitanni viveram em luta no décimo quinto e décimo quarto século antes de Cristo.
Rei Mursilli II, que comandou de 1322 a 1295 a.C. registrou o “Monte Asharpaya vazio (de humanidade)” e as “montanhas do Tarikarimu vazias (de humanidade).
Rei Mesha de Moab (840/830 a.C.) se gabou que o Reino de “Israel havia desaparecido completamente para sempre”, o que foi prematuro por um século. Os Assírios devastaram Israel em 722 a.C.

E a ordem de matar os homens midianitas?


Temos que entender que os homens eram os principais inimigos de Israel em uma guerra. As mulheres seduziam esses homens e faziam rituais cheios de orgias e adultério para adorar Baal.

E a ordem de salvar as mulheres virgens?


Seria isso uma “carta branca” para “usa-las”? Não. Elas eram salvas justamente por nunca terem se envolvido nestes rituais imorais.
Essas nações iam invadindo a terra do povo de Israel, e o grande perigo era seus costumes invadirem mais e mais o povo de la, tornando-os iguais e com o tempo possivelmente piores.

Mas as crianças...


Esse é um ponto forte, de acordo. Mas temos que ter algumas considerações: Suponha que essas crianças tivessem crescido naquele povo. O que aconteceria com elas? Se não fossem oferecidas em sacrifício infantil, cresceriam como os moradores, em extremo pecado e seriam condenadas ao inferno. Agora, existem motivos Bíblicos para se crer que crianças, se forem mortas antes de certa idade vão direto pro céu. Então, o que aconteceu foi bom ou ruim?
A objeção obvia então é “mas então por que aborto e infanticídio são errados?” Simplesmente porque quem da a vida é Deus. E Ele tem o direito de tirar quando achar que é o mais correto. Ele não admitiria esse ato se não houvesse razão suficiente para isso.
Considere também que os israelitas seguiam regras que diziam para eles entrarem na cidade pedindo paz. Se esse é o caso, muitas mulheres e crianças tiveram a chance de fugir, e assim só os guerreiros ficaram para traz.

Quais as possíveis conseqüências da destruição dos Cananeus?


Obviamente, isso trouxe o fim do sacrifício infantil dos Cananeus. Se eles continuassem vivos, também poderiam ter “envenenado” as nações vizinhas, tornando todas iguais a eles.
Temos que ver que se Deus existe, então comandos morais vem dEle. Sendo assim, Ele sendo moralmente perfeito e sabendo o futuro pode dar um comando que pareça mal para nós com nossos atributos limitados, mas para Ele, que sabe o que poderia ter acontecido, pode ser algo moralmente justificável.
“Mas então, e se um louco ‘ouvir a voz de Deus’ e matar varias pessoas?” Bom, dado o contexto em que esse louco vive e conhecendo Deus, é altamente improvável que Ele comande algo do tipo. O que tal pessoa teria que se perguntar é: Deus comandaria isso?

Conclusão



A ordem pode muito bem ter sido para expulsar os Cananeus daquela terra e matar os que quisessem lutar. Alem disso, eles não eram um “povo maneiro” e inocente. As mulheres e crianças provavelmente fugiram e aqueles que morreram sem culpa foram salvos. Pessoas reclamam de Deus por não acabar com o mal no mundo. Mas, aparentemente, quando Ele o faz as pessoas reclamam também.

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