quinta-feira, 11 de junho de 2015

Reflexões sobre o filme "A Teoria de Tudo"


Só agora, depois de um tempo, eu assisti o filme A Teoria de Tudo [The Theory of Everything] e resolvi escrever sobre algumas coisas ditas no filme sobre Deus, cosmologia e o Big Bang.


Reflexões sobre o filme "A Teoria de Tudo"


“Uma religião feita para ateus inteligentes”

No inicio do filme, quando Jane (ex-esposa dele) conhece Hawking ela pergunta o que ele faz. Ele responde que é um cosmólogo e ela pergunta o que é isso. Então, ele responde que “é uma religião para ateus inteligentes”.
Jane diz que é Cristã e pergunta “em que ele tem esperança” (ou algo assim, não me lembro bem) e ele responde que “tem esperança em uma teoria de tudo que explique tudo”.

O que uma “Teoria de Tudo”?

Basicamente, uma teoria que unifica a Relatividade Geral de Einstein e a Mecânica Quântica. Em certo momento do filme, Jane tenta explicar isso com batatas e ervilhas. As batatas, por serem grandes, representam coisas grandes, e nisso se aplica a Relatividade Geral. Já as ervilhas, representam o nível subatômico, e ai é que entra a mecânica quântica.
Atualmente, na física, digamos que a Teoria de Tudo seria uma tentativa hipotética que tenta unificar as forças fundamentais da natureza: Gravidade, força nuclear forte e força nuclear fraca.

Iria uma “Teoria de Tudo” eliminar Deus?

A resposta é... não. Uma “Teoria de Tudo” poderia explicar “tudo”, mas ela ainda precisaria de uma explicação para sua existência. Seria uma coincidência enorme existir uma formula matemática que explique “tudo”. Como astrofísicos Bernard Carr e Martin Rees colocaram:

“Mesmo se todas as aparentes coincidências antrópicas pudessem ser explicaras [em termos de alguma lei fundamental], ainda seria incrível que o relacionamento ditado pela teoria física aconteceu também de ser esses propícios a vida.” [Bernard Carr e Martin Rees, “The Anthropic Cosmological Principle and the Structure of the Physical World”, p. 612.]

Uma teoria que explicasse “tudo” ainda necessitaria de uma explicação. Como pode, uma pessoa em um dia de trabalho, fazendo cálculos, desenvolver um calculo que explique “tudo”? Albert Einstein colocou da seguinte forma:

“A coisa mais incompreensível sobre o mundo é que ele é compreensível” [Citado por Antonina Vallentin em “Einstein: A Biography”, p.24]

Essa estrutura matemática do universo, em uma visão ateísta seria uma “coincidencia feliz”, como disse a filosofa da matemática Mary Leng. Mas o teísta já tem a explicação pronta: Deus criou o universo com uma bela estrutura matemática.

O Modelo Big Bang

No filme, Hawking mostra seu teorema da singularidade que demonstra que, dada a expansão do universo, se ela fosse revertida, o universo chegaria a um ponto de singularidade e esse seria o inicio do universo e do tempo. Como ele mesmo e Roger Penrose disseram:

“...quase todo mundo hoje acredita que o universo, e o tempo, começaram com o Big Bang.” [Stephen Hawking e Roger Penrose, “The nature of space and time”, p. 20]

O fato é que o universo esta expandindo. E se “rebobinarmos” ele, chegaria a um ponto onde o tempo, espaço e matéria começariam a existir. Hawking admitiu em 2012 que esse “ponto de criação seria um ponto onde a ciência quebraria. Teríamos que apelar para a religião ou para a Mão de Deus.” [Citado por Lisa Grossman, "Why physicists can't avoid a creation event", New Scientist”, 11 de Janeiro de 2012]
Em determinado ponto do filme, Hawking diz que “sua nova teoria iria refutar a antiga” (essa “antiga” seria a singularidade proposta no Big Bang).

O Modelo “Sem Fronteiras”

A teoria de Hawking para explicar a “origem” do universo, seria um universo eterno, onde o universo esteve em um estado estático, que contrai até um mínimo e depois expande. Já que esse seria um universo eterno, então não haveria necessidade de um Deus Criador.
Para isso, Hawking tenta usar... a “Teoria de Tudo”! Unificando a relatividade geral a mecânica quântica. O problema simples aqui é que ninguém, nem ele mesmo, sabe como a gravidade quântica funciona!
Hawking usa um pequeno “truque” em sua tentativa, que é o uso de “tempo imaginário” na era de contração. (Números imaginários seriam a raiz quadrada de números negativos)
Fora o fato de ninguém saber como a gravidade quântica funciona, há pelo menos mais três problemas com o modelo “sem fronteiras” de Hawking:
Primeiro, quando se converse o tempo imaginário em tempo real a singularidade volta a aparecer. Quer dizer, o universo volta a ter um inicio absoluto. Hawking admite:

“Apenas se nós pudermos colocar o universo em termos de tempo imaginário é é que não haveriam singularidades [...] Quando se volta ao tempo real que nós vivemos, porem, ainda vão aparecer singularidades.” [Stephen Hawking, “A Brief History of Time”, pp. 138-39.]

Segundo, o modelo Hartle-Hawking sem fronteiras prediz que as chances de nosso universo começar como um espaço bem grande é muitas vezes maior que ele começar como um espaço pequeno. Mas, apenas em um universo com um começo bem pequeno se teria um universo como o nosso. Como Aron Wall disse:

“Infelizmente, o estado Hartle-Hawking parece predizer que as chances de que o universo deveria ter começado com um grande espaço de Sitter é algo como 10^120 vezes maior que as chances do que as chances dele ter começado como um pequeno. Isso é péssimo porque se ele começou como um pequeno, você plausivelmente teria uma história do universo que parece mais ou menos como o nosso. Considerando que um grande seja bem achatado: já que ele tem um máximo de entropia generalizada, nada interessante acontece (exceto por flutuações termais)” [Undivided Looking, “Did the Universe Begin? VIII: The No Boundary Proposal”]

Por fim, mas não menos importante, uma contração seria impossível, pois essa era seria altamente instável e geraria singularidades estranhas. Como Alex Vilenkin apontou:

“Isso faz parecer que não há nada errado em ter uma contração antes da expansão. Mas o problema é que um universo em contração é altamente instável. Pequenas perturbações o fariam desenvolver todos os tipos de singularidades confusas, então ele nunca chegaria a fase de expansão. [Alex Vilenkin para Victor Stenger, citado em http://arizonaatheist.blogspot.com/2010/05/william-lane-craigs-arguments-for-god.html]

E se o universo for eterno?

Se o universo fosse eterno, Deus ainda poderia existir simultaneamente. Nesse caso, o universo seria criado no sentido de que ele existe em um estado de dependência de Deus.
Para entender melhor, pense em um copista que copia livros pela eternidade. Os livros dependem do copista para existirem, e ele ainda seria o criador dos livros em todo momento.
Basicamente, é isso o que o Argumento da Contingência de Leibniz conclui: Uma Razão Suficiente para a existência do nosso Universo Contingente. Já que o universo, mesmo se fosse eterno, não existiria necessariamente, ele ainda precisaria de uma explicação para a sua existência.

Conclusão


O filme A Teoria de Tudo é um filme muito bom. Eu realmente gostei dele. Adorei conhecer a história de Hawking (embora, obviamente o filme “enfeite” um pouco). Mas, como bom jovem que curte essas coisas, resolvi escrever comentando sobre as afirmações teológicas, filosóficas e cientificas. 

2 comentários:

  1. Filme cativante e divertido. Muito bom filme, ”A Teoria de Tudo é uma história que tem pontos fracos, mas o desempenho do Eddie Redmayne é digno de ser visto. No começo eu pensei que era um filme sobre a vida de Stephen Hawking, mas na realidade não é assim que é um filme biográfico de Jane Wilde Hawking, o primeiro cientista mulher. O filme é baseado em seu livro "Rumo a infinidade - Minha vida com Stephen Hawking", e ele mostra: tudo é contada a partir de seu ponto de vista. Mais descobertas de um dos supostos gênio de nossa era, o que mostra este melodrama é como uma mulher pode gerir a realização de uma casa habitada por três filhos e um marido com uma deficiência motora grave. O filme é muito bonito, mas eu teria gostado de jogar mais de descobertas de Hawking e não seu dia.

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  2. Parabéns pelo texto. Faltou o eletromagnetismo para a grande unificação. Número imaginário, simbolizado pela letra i é a raiz quadrada de menos um. Surgiu como solução de x ao quadrado igual a menos um, admitindo sinais de mais e de menos. Daí surgiu a matemática dos números complexos e o plano de Argand-Gauss.
    Bem, já estudei as ideias do Hawking e acho que entre os equívocos há muitos acertos. O fato de ele propor um Universo eterno não exclui Deus. Como estudo o monismo da substância fundamental que evolui essa só poderia ser gerada por Deus e ter em Deus sua Lei e seu Legislador.
    Quanto ao filme vi mais um drama humano do que física que me interessa.
    É isso. Grande abraço.

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