segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sobre a presciência de Deus e o Molinismo


Muitas teorias sobre o conhecimento futuro de Deus foram formuladas ao longo dos séculos. Nesse texto, vou falar sobre a idéia que diz que, para nossa liberdade, Deus abandonou a presciência dEle. Também falarei sobre o Molinismo, a idéia de Conhecimento Médio/Intermediário. Tenha em mente também que você não precisa concordar comigo. Também saiba que eu não sou um especialista no Molinismo. Mas, conhecendo o "básico", me parece a opção mais razoável. 

Sobre a presciência de Deus e o Molinismo


Poderia Deus ter abandonado sua presciência?

A idéia é que, antes de Deus nos criar (ou logo no começo da criação de agentes livres), Ele se absteve desse poder para que nós fossemos livres. Ele abandonou essa habilidade para o nosso bem. Porem, eu acredito que essa idéia confronte um sério obstáculo. Pense nisso: Se Deus se absteve da presciência em determinado momento X, então antes de X Ele ainda tinha essa presciência. Mas, se Ele tinha essa presciência antes de X, então antes de X Ele sabia o que iria acontecer depois de X. Já que esquecimento é uma imperfeição, então Deus não pode ter esquecido o que Ele a sabia.
Uma possível resposta a esse problema é a de que, depois desse momento X, Deus eliminou o próprio conhecimento que tinha antes sobre o futuro. Porem, eu não acho isso convincente, e aqui vai o porque: Para isso ser realizado, Deus teria que dar um “ataque” a própria memória. Porem, Deus é onisciente. Se Deus aniquila o próprio conhecimento, então ele começa a saber menos do que antes e, portanto, não é onisciente.
Outro problema é que Deus teria que ignorar parte de Seu conhecimento. Porem, a Bíblia diz claramente que Deus sabe o futuro. Por exemplo, Jesus diz que Pedro o negaria três vezes, e isso aconteceu. Alem disso, como podem profecias serem previstas e mostradas, sem conhecimento futuro?
De qualquer forma, se em determinado momento X, Deus abandona Sua presciência, antes desse abandono Ele ainda a tinha e, portanto, Seu conhecimento anterior a X diria o que aconteceria no futuro.
Somos deixados então com uma única opção: Deus sabe o futuro. Mas, se Deus sabe o futuro, como podemos ser livres?

Esclarecendo termos

Antes de começar, é importante esclarecer alguns significados.

Mundo Possível – Uma descrição de como a realidade poderia ser

Algo necessário – Algo que não poderia ser diferente em nenhum mundo possível.

Algo contingente – Poderia ser diferente em outro mundo possível.

Deus é onisciente?

Apesar da resposta tradicional ser “Sim”, eu prefiro a abordagem de William Lane Craig: Deus é mais do que onisciente. Isso porque, para ser onisciente, Deus tem que saber todas as verdades. Porem, existem verdades que, se Ele soubesse, Ele seria menos do que perfeito. Por exemplo, é verdade que eu sou Felipe Soares Forti, mas Deus não sabe essa verdade. Deus não pensa “eu sou Felipe Soares Forti”. Porem, Ele sabe o que eu sinto sendo Felipe Soares Forti. Ele sabe que eu sei que eu sou estudante de teatro, que eu sou alto, que eu sou etc...

Molinismo – Conhecimento Médio

Luis de Molina argumentava que tudo o que Deus sabe, Ele sabe de uma só vez. Porem, ainda assim existe uma prioridade no conhecimento de Deus. Uma ordem fundamental. No nível mais fundamental estaria o Conhecimento Natural, que seria o conhecimento de todas as verdades necessárias. Por exemplo, 2+2=4, tudo o que tem forma tem tamanho, se estiver chovendo esta chovendo, etc.
Em ultimo lugar estaria o que Molina chamou de Conhecimento Livre, que são verdades contingentes, dependentes da vontade de Deus. Por exemplo, não é uma verdade necessária que Dilma seja a presidentE do Brasil. Isso é uma verdade contingente que poderia ser diferente. Dependendo do Mundo Possível que Deus criasse, as verdades contingentes seriam diferentes. Quer dizer, elas não são necessariamente verdade.
Quando alguém faz o seguinte argumento:

1- Se Deus sabe que Felipe irá casar, então Felipe irá casar

2- Se Felipe irá casar, então Felipe não é livre para não se casar.

Por essa lógica, eu (felizmente) teria que me casar. Porem (infelizmente), não se segue de (1) que (2) acontecerá. De (1), nós podemos ter duas conclusões:

1a– Necessariamente, se Deus sabe que Felipe irá se casar, então Felipe irá se casar.

1b- Se Deus sabe que Felipe irá se casar, então necessariamente Felipe irá se casar.

O argumento anterior só leva a conclusão de 1a, mas não de 1b. Como Alvin Plantinga colocou:

“É de fato necessariamente verdadeiro que, se Deus (ou qualquer outra pessoa) sabe que uma proposição P é verdadeira, então P é verdadeira; todavia, uma vez que não se segue que, se Deus sabe P, então P é necessariamente verdadeira. Se eu sei que ‘Henrique é um solteirão, então Henrique é um solteirão’, é uma verdade necessária; não se segue que, se eu sei que ‘Henrique é um solteirão’, então é necessariamente verdadeiro que o é. Sei que o ‘Henrique é solteirão’: o que se segue e apenas que ‘Henrique é casado’ é falsa; não se segue que é necessariamente falsa” [1]

Pode parecer confuso, mas vou tentar colocar em outras palavras: Eu sou solteiro, mas isso não é uma verdade necessária, é algo contingente que poderia ser diferente. Desse fato, só se segue que “Felipe é casado” é falso, mas não necessariamente falso.

Conhecimento Médio/Intermediário

Entre o Conhecimento Natural (conhecimento das verdades necessárias) e o Conhecimento Livre (conhecimento das verdades contingentes, resultantes do mundo que Deus escolheu realizar), esta o que Luis de Molina chamou de Conhecimento Médio/Intermediário (Middle Knowledge). Quer dizer, o conhecimento que Deus tem do que uma pessoa faria se essa pessoa estivesse em determinada circunstancia. Por exemplo, Deus sabe que, se criasse Pedro em determinada circunstancia, ele iria negar Cristo um certo numero de vezes.
Antes da decisão de Deus de criar um mundo, Ele saberia o que qualquer pessoa possível iria escolher livremente fazer em qualquer circunstancia que ela estivesse posta. Esse conhecimento não é necessário de Deus, é dependente de como nós vamos escolher livremente. E nós temos a habilidade de escolher, nessas circunstancias, de fazer outra coisa. Como Thomas Flint diz:

“Providência pode ser exercida [...] apenas se Deus sabe como suas criaturas agiriam se colocadas em varias circunstancias não determinantes” [2]

William Lane Craig segue essa citação dizendo:


“Se Deus tem conhecimento médio, então Ele sabe a verdade de condições subjuntivas [...] por exemplo, ‘Se Cuthbert estivesse em C, ele iria livremente comprar uma iguana’. Então, não importa se mundos possíveis diferentes contenham C; o ponto se mantém que já que Deus sabe o que Cuthbert faria livremente em C, Ele pode saber apenas na base desse conhecimento e em Seu conhecimento em Seu decreto de criar Cuthbert em C, exatamente o que Cuthbert faria.” [3]



Conclusão

Você esta mais confuso do que cachorro bêbado no deserto. Mas, pondo tudo de forma simples: A idéia de que Deus abandonou a Presciência é logicamente impossível, pois antes dEle abandonar ela, Ele saberia o futuro e este, se fosse capaz de determinar o futuro, ainda assim seria determinado.
Luis de Molina introduziu o Conhecimento Médio, que é a idéia de que Deus saberia o que uma pessoa faria sob determinadas circunstancias. Mas, uma pessoa fazer isso não é predeterminado pelo conhecimento necessário de Deus. Só porque Deus necessariamente sabe o futuro, não significa que o futuro necessariamente vai acontecer daquela forma. Por exemplo, eu necessariamente sei que eu nasci, mas eu não nasci necessariamente.

Fontes

[1] – Alvin Plantinga, “Deus, a Liberdade e o Mal” (Vida Nova, 2012), p 87-88
[2] – Thomas Flint, “Divine Providence, p. 40

[3] – Reasonable Faith, “Q&A #23 – Middle Knowledge”, http://www.reasonablefaith.org/middle-knowledge

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