quarta-feira, 4 de março de 2015

O Jesus Histórico #9 - Jesus acreditava ser Deus?


Jesus disse que era Deus? Ele pensava ser Deus? Ele agiu como se fosse Deus? Cumpriu profecias? Eu não vou simplesmente dizer “a Bíblia diz isso”. O que quero fazer é, alem de colocar o que a Bíblia diz (que são documentos históricos, não só “livros inspirados”) dizer por que essas passagens são históricamente criveis. Também vou refutar, mais adiante, argumentos contra a divindade, como os de Allan Karcec, Islamismo, Testemunhas de Jeová, etc.

Jesus acreditava ser Deus?


Critérios de autenticidade

John Meier, um grande estudioso do Novo Testamento, lista os seguintes critérios para avaliação dos evangelhos[1]:

1- Fontes múltiplas e independentes: Relatos em fontes independentes antigas tem maior probabilidade de serem históricas

2- Dessemelhanças: Se algo difere do Judaísmo antigo e do Cristianismo posterior, então deve pertencer o Cristianismo primitivo, portanto, pertence ao Jesus histórico.

3- Embaraço: Fatos que causariam algum embaraço ou dificuldade aos Cristãos antigos não deve ser invenção.

4- Rejeição e execução: 100% dos historiadores aceita que Jesus foi crucificado, então seus dizeres tem que corresponder ao que levou a sua crucificação como “Rei dos Judeus”. Um Jesus que era bonzinho e só pregava o monoteismo não poderia ter sido executado dessa forma.

“Eu Sou”

É extremamente aceito entre os historiadores atuais que Jesus acreditava ser Deus. Um bom exemplo disso é o uso de uma correlação entre João 8:58 com Êxodo 3:14, quando Jesus diz ser “Eu Sou”. Quando Jesus diz “Eu Sou”, no original esta escrito “ego eimi”, que também é usado em Mateus 14:27/Marcos 6:50/João 6:20:

Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. - Mateus 14:27 
Porque todos o viam, e perturbaram-se; mas logo falou com eles, e disse-lhes: Tende bom ânimo; sou eu, não temais. - Marcos 6:50
Mas ele lhes disse: Sou eu, não temais. - João 6:20

Onde esta escrito “sou eu”, no original em grego é usado “ego eimi”, que é equivalente ao “ani hu” usado em Êxodo 3:14, onde Deus disse:

Disse Deus a Moisés: “Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês”. - Êxodo 3:14

Em outras passagens em João, Jesus também usa “ego eimi” (João 8:24, João 13:19 e João 18:6). Por isso que em João 8:59 os Judeus pegaram pedras pra jogar em Jesus. Porque acreditavam que Ele estava blasfemando contra Deus se dizendo igual a Ele.

Filho do Homem


Apesar de alguns acreditarem que a firmação de ser “O Filho do Homem” se refira a humanidade de Jesus, ela na verdade se refere a sua divindade. Historiador Craig Blomberg colocou dessa forma:

“Olhe, ao contrário da crença popular, ‘Filho do Homem’ não se refere originariamente à humanidade de Jesus. Pelo contrário, trata-se de uma alusão direta a Daniel 7.13,14. […] Veja, portanto, o que Jesus faz quando aplica a si mesmo a expressão ‘Filho do Homem’. Estamos diante de alguém que se aproxima de Deus, na sala do trono celestial, alguém a quem é concedida autoridade e domínio universais. Isso faz de ‘Filho do Homem’ um título de grande exaltação, e não de mera humanidade.” [2]




Algumas pessoas podem dizer que “existiam outras pessoas no Antigo Testamento que referiam-se a si mesmas como “Filho do Homem”. No entanto, essa é uma interpretação equivocada.
No Antigo Testamento, quando alguém usava “filho do homem”, em hebraico era “ben adam”. Isso é encontrado frequentemente em Ezequiel. No entanto, esse não é o mesmo tipo de “filho do homem” que Jesus usava. Jesus falava aramaico, e a frase aramaica é “bar enasha”. Essa frase faz referencia ao livro de Daniel quando diz:

Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído. - Daniel 7:13-14

Em Marcos 14, Jesus cita a passagem em Daniel 7 pra mostrar que era uma figura divina:

O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito?E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu. - Marcos 14:61-62

Alem disso, no Antigo Testamento, o ato de voar nas nuvens é apenas para Deus (Isaias 19:1; Salmos 68:4; 68:33; 104:3; Deuteronômio 33:26). Como o teólogo Dr. William Lane Craig diz:

“Na visão de Daniel, a figura descrita se parece com um ser humano (“alguém parecido com filho de homem”), mas ele “vinha nas nuvens” e “foi-lhe dado domínio, e glória” que devidamente pertencem a Deus somente.” [3]









A passagem em Daniel e o que Jesus disse nos mostram o entendimento que Jesus tinha: O Filho do Homem vem do céu para a Terra para domina-la; Ele será adorado; e Seu reino vai durar para sempre. Essa passagem em Daniel é a única no A.T. que fala sobre o Filho do Homem e o Reino de Deus, enquanto Jesus fala desses dois constantemente.
Daniel era Judeu, então, que tipo de ser é esse que vem do céu e pode ser adorado? Os Judeus abominavam qualquer tipo de adoração a outro ser que não fosse Deus. Então, o ser que Daniel fala só pode ser algo divino, que pode ser adorado sem que o monoteísmo judaico seja violado.
Quando Jesus diz que Ele vai voltar para o julgamento final, Ele é interpretado como estando blasfemando. Isso por que os Judeus antigos esperavam apenas Deus no julgamento final. (Joel 2:1-11)
Em Marcos 2:28, Jesus diz quer que “O Filho do Homem é o Senhor do Sabbath”. Porem, foi Deus que criou o universo e estabeleceu o padrão Sabatino. Baseado em Gênesis 1, apenas Deus é o Senhor do Sabbath. Porem, Jesus diz também ser. Jesus também ensina como viver o sábado as pessoas, mostrando que é um dia para fazer o bem e dar “descanso” aos doentes.

Filho de Deus

Messias e O Filho de Deus estão relacionados. Mas o que Jesus disse especificamente sobre o titulo “Filho de Deus”? Considere primeiro a parábola em Marcos 12.1-9:

Então Jesus começou a lhes falar por parábolas: "Certo homem plantou uma vinha, colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para prensar as uvas e construiu uma torre. Depois arrendou a vinha a alguns lavradores e foi fazer uma viagem. Na época da colheita, enviou um servo aos lavradores, para receber deles parte do fruto da vinha. Mas eles o agarraram e espancaram, e o mandaram embora de mãos vazias. Então enviou-lhes outro servo; e lhe bateram na cabeça e o humilharam. E enviou ainda outro, o qual mataram. Enviou muitos outros; em alguns bateram, a outros mataram. "Faltava-lhe ainda um para enviar: seu filho amado. Por fim o enviou, dizendo: ‘A meu filho respeitarão’. "Mas os lavradores disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Assim eles o agarraram, e o mataram, e o lançaram para fora da vinha. "O que fará então o dono da vinha? Virá e matará aqueles lavradores e dará a vinha a outros. - Marcos 12:1-9

Nessa parábola, a vinha é um símbolo para Israel, o dono é Deus, os agricultores são os lideres religiosos Judeus e os servos os profetas. O dono pensa que, após os agricultores matarem seus servos, se ele enviasse seu amado filho, eles o respeitariam. Mas eles o mataram por ser o herdeiro da vinha.
Não há historiador que não reconheça a autenticidade dessa parábola, já que ela também esta presente no documento favorito dos céticos do Seminário Jesus, “O Evangelho de Tomé”, o que a torna atestada de forma independente. Ela também contém ligações com Isaías 5, que estavam em uso no tempo de Jesus. Também é altamente improvável que tenha se originado nos tempos posteriores, pela igreja cristã primitiva, já que o tema presente na parábola sobre quem deveria ficar com a vinha depois dos agricultores a tomarem não era discutido pelos primeiros cristãos, na que Roma destruiu Jerusalém em 70 d.C. Alem disso, como não há referencia a ressurreição do filho do agricultor, não pode ter sido uma visão dos primeiros Cristãos por não estar de acordo com sua crença sobre Jesus. Craig Evans diz:

“Quando entendido adequadamente e em todo o contexto, tudo sobre a parábola dos agricultores maus – incluindo seu contexto nos Evangelhos do Novo Testamento – argumenta a favor de que ela se originou em Jesus, não na igreja primitiva.” [4]









Essa parábola nos diz que Jesus via a si mesmo como o único filho de Deus, diferente dos profetas. O filho não pode ter sido adicionado depois pelos cristãos à parábola por ela ficaria sem clímax e sem motivação.
Jesus também disse que ninguém conhece o Pai senão o Filho, e ninguém conhece o Filho senão o Pai (Mateus 11:27; Lucas 10:22). Essa afirmação é bastante provável de ser autentica, já que vem da fonte antiga usada por Mateus e Lucas. Outra coisa que favorece sua autenticidade é que essa passagem diz que o Filho não pode ser conhecido. Mas os primeiros cristãos do movimento pós ressurreição pregavam que podemos conhecer o Filho (Filipenses 3.8-11). Então é improvável que essa passagem tenha sido criada pelos cristãos posteriores.
Outra passagem que nos diz que Jesus dizia a si mesmo como o Filho de Deus é Marcos 13-32, onde ele diz:

Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o Pai. - Marcos 13:32

Como essa passagem demonstra ignorância do Filho, ela provavelmente não foi inventada pela igreja posterior. O constrangimento dessa passagem fica evidente quando vemos que Mateus a reproduziu (Mateus 24:36), mas Lucas a omite. Alem disso, muitos copistas de Mateus a omitiram (mas foi mantida nas melhores copias). Como Marcos também cita esse dito de Jesus, temos um atestamento múltiplo. (Essa passagem é usada como evidencia contra a divindade de Cristo, mas eu já respondi a isso nesse outro texto)
C. S. Lewis concluiu:

“Estou tentando impedir aqui que qualquer um realmente diga as coisas tolas que as pessoas costumam dizer sobre Ele: ‘Estou pronto para aceitar Jesus como um grande professor de moral, mas não aceito a afirmação de que ele é Deus’. Isso é algo que não devemos dizer. Um homem que fosse simplesmente homem e dissesse esse tipo de coisas que Jesus disse não seria um grande professor de moral. Seria, em vez disso, um lunático — ou estaria no mesmo nível do homem que diz que é um ovo cozido — senão, seria o próprio Demônio do inferno. Você precisa fazer sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou então ele é um louco ou algo pior. Você pode calá-lo, considerando um tolo; você pode cuspir nele e até matá-lo como se fosse um demônio; ou então pode cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha com um ar paternalista sem sentido sobre o fato de ele ser um grande professor humano. Ele não deixou isso aberto a nós. Ele não pretendia fazer isso.” [5]

Conclusão

Os dizeres de Jesus como Deus são tantos em tantas partes dos evangelhos que não podem ser tratadas simplesmente como “foi colocado depois”. Nenhum historiador serio nega que o Jesus histórico acreditava ser Deus. No próximo texto, vou responder aos argumentos de Alan Kardec contra a divindade de Cristo.

Fontes

[1] – John Meier, "A Marginal Jew", pp. 168-177 
[2] – Lee Strobel, “Em Defesa de Cristo”
[3] – William Lane Craig, “Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão”, p. 231
[4] – Craig Evans, “Fabricating Jesus”, p. 138
[5] – Clive Staples Lewis, “Cristianismo Puro e Simples”, pp. 69

Nenhum comentário:

Postar um comentário