segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Respondendo ao "The Atheist Experience" sobre o Argumento Kalam


Recentemente, eu vi um vídeo do The Atheist Experience (esse aqui) que faz varias objeções ao Argumento Cosmológico. Algumas dessas objeções são completos mal entendidos sobre o argumento e sobre o conceito de Deus que defendemos. Algumas dessas objeções podem fazer algum Cristão não treinado pensar que o Kalam foi refutado, por isso vou tentar responde-las.

Respondendo ao The Atheist Experience

A forma tradicional do Argumento Cosmológico Kalam

Antes de começar a responder, vou explicar "basicamente" a versão tradicional do Argumento Cosmológico Kalam. Ele é assim:

Premissa 1 - Tudo o que começa a existir teve uma causa

Premissa 2 - O universo começou a existir

                  Premissa 2:1 - Impossibilidade de um numero infinito de coisas

                  Premissa 2:2 - Impossibilidade de um regresso infinito de causas

                  Premissa 2:3 - A Expansão do Universo

                  Premissa 2:4 - Segunda lei da Termodinâmica 

Conclusão - Portanto, o universo teve uma causa

                  Analise da causa 1 - Esta fora do universo

                  Analise da causa 2 - Transcende a natureza

                  Analise da causa 3 - É um agente pessoal

                            Agente pessoal 3:1 - Objeto Abstrato ou Mente? Só uma Mente pode causar.

                            Agente pessoal 3:2 - Causas cientificas ou pessoais? Não haviam causas                                                                      cientificas

                            Agente pessoal 3:3 - Somente uma causa pessoal pode escolher causar algo                                                                  novo.

Se quiser uma formulação mais elaborada, de uma olhada nesse outro texto (Aqui)

O Argumento Cosmológico vem sendo revisado? (0:35)

Falso. Tanto os argumentos Cosmológicos Tomista, Leibniziano e o Kalam têm os mesmos princípios de quando foram criados. O Kalam em especial só teve mudança quanto a evidencia para a premissa 2 (O universo começou a existir) por causa das novas evidencias cientificas. Quanto ao Tomista, ele foi apenas “pensado mais profundamente” sobre sua base, e o de Leibniz teve uma mudança no Principio da Razão suficiente. Mas nenhum foi “completamente revisado”.
Mesmo se o argumento tivesse sido revisado varias e varias vezes, isso não invalidaria a verdade de sua conclusão.

Regresso infinito e Deus (1:15)

Aqui a acusação é a de que nós damos tratamento especial a Deus por causa da impossibilidade de um regresso infinito. Mas isso é um mal entendimento de como o Kalam funciona. O Argumento para a impossibilidade de um regresso infinito diz que é impossível o tempo ter o passado infinito, pois se tivesse, teria que passar por um numero infinito de momentos, então, o momento atual jamais chegaria. (Explicação melhor desse argumento aqui) Portanto, se traçarmos o tempo de volta no passado, chegaremos a algo atemporal, pelo fato de que não pode haver tempo antes do tempo existir. Mas não é apenas isso que podemos deduzir da conclusão do argumento. Esse ser ou coisa atemporal tem que ser um agente pessoal, pois não se pode ir de um estado de não-existência a um estado de existência sem que haja uma escolha. Portanto, da conclusão do argumento podemos deduzir um ser atemporal e pessoal, que se encaixam na descrição do Deus tradicional do monoteísmo.
A confusão deles é que eles acham que nós usamos o Kalam da seguinte forma:

“O universo não pode ter o passado eterno”
“Portanto algo eterno o causou”
“Algo eterno é Deus, pois ele pode”

Isso é falso. Como expliquei, o argumento chega a uma conclusão e dela nós deduzimos qual a causa mais racional para o efeito.

Suposição? (2:15)

A acusação é a de que o Argumento Cosmológico Kalam apenas “assume” que na conclusão a causa do universo é o Deus Cristão. Isso é falso. A causa da conclusão nos leva a uma causa pessoal que pode ser qualquer Deus do monoteísmo, e ninguém nunca o usou para o contrario. Pessoas que dizem isso apenas nunca entenderam o Kalam.
Outra acusação feita é o de que nós “supomos” o que havia antes do universo. Isso é verdade, mas nós não supomos com base em nada. Nós usamos o regresso infinito tempo para chegar a algo atemporal e pessoal, e/ou a cosmologia do Big Bang para chegar a algo que esta alem do universo. Não se pode dizer que a natureza seja a causa da natureza, seria como dizer que você deu a luz a si mesmo. Não, isso não é inventado. São deduções a partir da lógica e da ciência.

Petição de principio? - Begging the question? (2:50)

“Petição de principio” é uma falácia lógica ocorrida quando a conclusão de um argumento é considerada provada sem nenhuma nova informação alem da que é dada em apenas uma das premissas. Ou seja, a confirmação é verdadeira pois refere-se a própria afirmação para confirmar a afirmação. Por exemplo:

Premissa 1 – Aquele cara é feio pois não é atraente

Conclusão – Portanto, ele é feio.

Não há nenhuma razão independente da primeira premissa para afirmar que o cara é feio. Mas esse não é o caso com o Argumento Cosmológico Kalam. O argumento é valido através de raciocínio dedutivo, não por processo redutivo. A natureza de um argumento dedutivo é que a conclusão esta implícita nas premissas, esperando para ser explicita por meios de regras lógicas de inferência. Como:

Premissa 1 – Todos os homens são mortais

Premissa 2 – Sócrates é um homem

Conclusão – Portanto, Sócrates é mortal.

No argumento cosmológico, podem ser dadas razões para se crer na verdade das premissas. Premissa 1, por exemplo, diz que tudo o que começa a existir tem uma causa, e isso parece obvio. Dizer que algo pode brotar do nada sem uma causa é pior do que mágica. Se coisas podem brotar do nada sem causa, então por que não aparecem cavalos do nada? Bicicletas? Caminhões?

O Reino de Deus alem do espaço-tempo (3:20)

Eles querem uma explicação de como é “esse reino fora do espaço-tempo, quais as leis de ele segue, etc”. Bom, a simples resposta é a seguinte: Deus vivia sozinho em estado atemporal, imaterial e sem espaço físico. Ele, então, criou o Reino dEle que segue leis diferentes das nossas, porem com objetivos parecidos. Isso seria onde os anjos viviam. Já que eles assistiram a criação do mundo, é razoável crer que eles tinham o reino deles antes do nosso. (Jó 38:4-7) Depois disso, Ele criou o nosso universo. (Gênesis 1:1)
“Ah, mas isso é um absurdo!” – Eu estou dando uma resposta bíblica. Dizer que é um absurdo é a resposta ateísta. Já que a sua pergunta é sobre Deus, a minha resposta pode pressupor a existência do reino dEle.

Como pode algo atemporal criar algo temporal? (3:40)

Causa simultânea. Se eu estou sentado no sofá, eu estou causando a “depressão” na almofada ao mesmo tempo em que o efeito existe. Deus existia atemporalmente antes da criação (já que não existia tempo) e depois se tornou temporal. Isso é um raciocínio filosófico-teológico perfeitamente compatível com a visão bíblica.

Pressupondo que existia uma mente ao invés do nada? (5:40)

Isso e uma resposta a pergunta de Leibniz “Por que existe qualquer coisa ao invés do nada?”. No entanto, é logicamente impossível “nada” existir. Se tem uma razão suficiente para a existência do universo, essa razão tem que estar fora dele.

Mecânica quântica e causa-efeito (6:05)

O cara no telefone diz que uma resposta ao Kalam é a que diz que a mecânica quântica prova que coisas vem do nada. Mas ele responde a essa afirmação dizendo que as coisas da mecânica quântica tem causas, e nós só não sabemos qual é ainda. Então a mulher pergunta “Qual a diferença entre não ter uma causa e ter uma causa desconhecida?”.
Bom... um não tem uma causa e o outro você sabe que tem uma causa, mas não sabe qual é ainda. Um brota do nada  e o outro de algo que não se sabe ainda. (Dã)

“O Reino que Deus teria que existir” (6:50)

E... daí? Cristãos não acham que Deus criou tudo. Achamos que Ele criou tudo menos Ele mesmo. Isso inclui o Seu Reino e o mundo material.

“É apenas uma suposição não testável, que não da pra saber se esta correta e não tem porque discutir isso” (7:40)

Essa é a pior parte. A mulher (não sei o nome) diz que devemos demonstrar ou provar algo por métodos testáveis. Se tentarmos apenas convencer a pessoa, e mesmo que a convençamos, isso não prova que a conclusão do argumento é verdade. Bom, convencer não torna algo em verdade, isso é verdade (Dã²). Mas se a conclusão de um argumento for verdade, então você gostando ou não... é verdade.
Outro problema é que essa afirmação é auto-refutavel. A afirmação “só devemos acreditar naquilo que é testável”, não pode ser testada. Alem disso, existem varias coisas não testáveis na ciência: A era inflacionaria no inicio do Big Bang não pode ser testada, mas ela pode ser deduzida a partir de equações matemáticas e “pseudo-problemas” na teoria Big Bang tradicional (monopolos ausentes por exemplo)

Cosmologia do Big Bang não se trata do inicio do universo, mas do inicio da expansão. (8:40)

Verdade. O que nós não sabemos, é o que aconteceu antes do inicio dessa expansão, que é onde a era de gravidade quântica entra em conta. Já que não se tem uma teoria de gravidade quântica ainda, ninguém pode dizer se essa era é eterna ou não. Mas se o universo esteve sempre expandindo, então ele tem que ter tido um inicio absoluto. E a cosmologia do Big Bang não é o único argumento usado por Cristãos para um inicio absoluto. Nós usamos a impossibilidade de um numero infinito de coisas, de um numero infinito de momentos do passado, cosmologia do Big Bang, Teorema BGV, e a segunda lei da termodinâmica.
Alem disso, um novo teorema, criado pelo físico Aron Wall, mostra que mesmo a era da gravidade quântica deve ter tido um inicio, graças a uma generalização da segunda lei da termodinâmica. Como ele usa conceitos bem básicos da gravidade quântica, então, os resultados devem se manter mesmo quando a teoria estiver completa. (Vou falar dele ainda, mas uma explicação em inglês esta aqui)

Conclusão

O pessoal do The Atheist Experience não entende o Argumento Cosmológico Kalam nem o conceito bíblico de Deus. Alem disso, eles fazem acusações falsas sobre “petição de principio” e “apelo especial”. Eles também não entendem como a dedução de um argumento filosófico é feita. Em suma, eles fazem falsas acusações sobre o que não entendem.

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