segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Existência de Deus #8 - O Argumento do Desejo


Há um argumento para a existência de Deus que foi popularizado (não tem certeza se foi ele quem fez) por C. S. Lewis que apela para nosso desejo de algo maior. Veremos ao longo do texto uma explicação melhor do argumento, reformulado pelo filosofo católico Peter Kreeft.

O Argumento do Desejo


Premissa 1 - Todo desejo inato e natural em nós corresponde a algum objeto real que pode satisfazer esse desejo.

Aqui deve ser feita a diferença entre desejo natural e artificial. Um desejo natural seria o desejo por comida, bebida, sexo, sono, amizade, etc. Esses desejos são naturais, e nós buscamos satisfazê-los par não nos sentirmos com fome, sede ou com solidão.
Já um desejo artificial, seria algo como o desejo por um carro, um videogame, um time de futebol ser campeão, ir para Narnia (eu quero...), etc. Nesse caso, nós não precisamos satisfazer esses desejos. Não nos sentiríamos “narnitarios” por não ir para Narnia, ou “descarrado” por não ter um carro.
Os primeiros desejos vem de nossa natureza, enquanto os segundos vem da sociedade, propaganda ou ficção. Os desejos naturais são encontrados em todas as pessoas, mas os artificiais variam. Como Peter Kreeft colocou:

“...os desejos naturais vem de dentro, de nossa natureza, enquanto aqueles que são artificiais vem da sociedade [...] Essa [...] diferença é a razão para uma terceira diferença: os desejos naturais são encontrados em todos nós, mas os artificiais variam de pessoa para pessoa”
[1]

Os desejos artificiais não implicam necessariamente que o objeto desejado exista. Carros existem, mas Narnia não (droga!). Mas a existência de desejos naturais sempre nos diz que aquilo que é desejado existe.

Premissa 2 - Mas, existe em nós um desejo que nada ao longo do tempo, nada nesta terra e nenhuma criatura pode satisfazer.

Existe algum ser humano que esta realmente satisfeito com a vida que tem? Alguém realmente vai chegar e dizer “Eu sou 100% feliz com meu carro, minha mulher, meu dinheiro, etc.”. A única pergunta que podemos fazer é “Mesmo?” O ateu Jean-Paul Sartre admite:

“Chega uma hora em que a pessoa pergunta, até mesmo quanto a Shakespeare ou Beethoven: ‘Será que isso é tudo o que existe?’”

Isso é bem visível na musica “I Still haven’t found what I’m looking for” [Ainda não encontrei aquilo que procuro] do U2, onde Bono Vox lista um numero enorme de coisas que ele fez na vida, mas mesmo assim ainda não encontrou aquilo que procurava.

“Eu escalei as mais altas montanhas
Eu corri através dos campos
Eu corri, eu rastejei
Eu escalei estes muros da cidade
Estes muros da cidade
Eu beijei lábios doces
Senti os dedos que curam
Queimava como fogo
Este desejo ardente
Eu falei na língua dos anjos
Eu segurei na mão do demônio
Era quente durante a noite
Eu estava frio como uma pedra
Mas eu ainda não encontrei o que estou procurando”

Conclusão - Portanto, deve existir algo mais do que o tempo, do que esta terra e as criatura que possa satisfazer esse desejo.

C. S. Lewis disse:


“As criaturas não nascem com desejos, a menos que exista satisfação para eles. Um bebê sente fome: bem, existe uma coisa chamada comida. Um patinho quer nadar: bem, existe uma coisa chamada água [...] Se eu encontrar em mim mesmo um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui feito para outro mundo. [2]

Alguns podem perguntar, “mas como você sabe que esse desejo é verdade, sem saber primeiro que esse desejo natural não tem um objeto real?”. Mas essa objeção vem do antigo “empirismo” que dizia que só podemos saber algo por indução, sentindo as coisas individuais. No entanto, isso nega verdades universais. Todos nós sabemos, por exemplo, que “todos os humanos são mortais”, sem a experiência de sentir todos os humanos, mas pelo senso comum universal de que a natureza humana nos diz que os humanos são mortais. Se argumentarmos:

Todos os homens são mortais
Sócrates é homem
Portanto, Sócrates é mortal

Eu sei que Sócrates é mortal pela dedução. Similarmente, se existe um desejo que não pode ser preenchido com nada nesse mundo, então ele deve poder ser preenchido por algo de outro mundo.
Também podem responder ao argumento dizendo “eu não sou feliz com o que tenho, mas garanto que seria se tivesse um trilhão de reais ou vários parceiros sexuais!”. A resposta obvia é: tente. Mesmo se conseguir tudo isso, ainda vai querer mais. Como Peter Kreeft e Ronald Tacelli argumentam:


“Milhões de pessoas já fizeram, e outras milhares estão agora mesmo realizando trilhões de experiências desse tipo, buscando desesperadamente a sempre fugidia satisfação por que anseiam. E mesmo que elas ganhem o mundo inteiro, isso não será o suficiente para preencher o anseio do coração humano delas.”“No entanto, a maioria continua tentando, crendo que ‘ se apenas... da próxima vez...’ Esse é o jogo mais estúpido deste mundo, porque é o único que consistentemente nunca proporcionou os resultados desejados.” [3]

Podem me responder também, sobre a musica do U2, dizendo “mas no resto da musica ele diz que acredita em Deus!”. Esse é o ponto que, partindo de alguém como Bono Vox, que é Cristão, nós podemos perceber o que ele quer dizer. Não basta acreditar em Deus e “segurar a mão do demônio”. Você tem que confiar em Deus e criar um relacionamento pessoal com Ele.
Esse também não é um argumento que se baseia na ideia de Deus, apenas. Mas sim na experiência humana de falta de algo, algo necessário para preencher um desejo por algo maior. Se todos os desejos naturais tem algo correspondente, então o desejo natural por algo maior deve ter algo correspondente. Se nada nesse mundo satisfaz esse desejo, logicamente, é algo de outro mundo. Esse algo é o que as pessoas chamam de “Deus” e “vida com Deus para sempre”.

Fontes

[1] – Peter Kreeft, “The Argument from Desire”, http://www.peterkreeft.com/topics/desire.htm
[2] – C. S. Lewis, “Cristianismo Puro e Simples”
[3] – Peter Kreeft e Ronald Tacelli, “Manual de Defesa da Fé”, p. 116

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