quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Jesus Histórico #6 - Refutando o Zeitgeist: Jesus é uma cópia de Horus, Dionísio, Krishna, etc?


Um filme popular da internet é o chamado Zeitgeist, que compara a história de Jesus com a de vários outros deuses pagãos e leva a conclusão de que a história de Jesus é uma grande copia. De acordo com o filme, a história de Jesus é uma cópia da história de Horus, Osíris, Dionísio, Mythra e outros. Estes teriam nascido de uma virgem, no dia 25 de dezembro, teriam realizado milagres, morrido em uma cruz e ressuscitado no terceiro dia. Mas será que realmente a história de Jesus é uma copia desses mitos?

Refutando o Zeitgeist


Erros básicos

Os primeiros erros do filme vem quanto a data do nascimento. Em primeiro lugar, Jesus não nasceu dia 25 de Dezembro. Não há nenhuma parte nos evangelhos que diga a data do nascimento de Cristo, então já podemos ver o primeiro erro. Mas mesmo se esse fosse o caso de Jesus, esse com toda a certeza não seria o caso dos deuses nessas outras histórias. Seria bem difícil um deles ter essa data de nascimento quando seu povo da época e local usavam calendários diferentes.

Não são bons paralelos.

Em seu livro “The Riddle of Resurrection”, o estudioso do Novo Testamento T. N. D. Mettinger admite que o consenso geral entre os estudiosos modernos é o de que não haviam histórias de deuses morrendo e ressuscitando antes do Cristianismo, mas sim que essas histórias vieram pelo menos depois do primeiro século. Ele conclui:


“Não há, até onde eu sei, nenhuma evidencia prima facie de que a morte e ressurreição de Jesus é uma construção mitológica, pega nos mitos e ritos de outros deuses que morrem e se levantam pelo mundo [...] A morte e a ressurreição de Jesus tem caráter único na história das religiões.”
[1]

Os mitos vieram depois ou são forçados

As histórias desses deuses podem ter se originado antes de Cristo, mas as partes em que alguns morrem e ressuscitam vieram anos depois ou são paralelos forçados. Como Michael Licona colocou sobre Baal, Attis, Adônis, Marduk e Tammuz:

“Em uma das histórias mais populares, [...] Baal morreu e voltou. Ninguém viu isso. Não haviam testemunhas. Supostamente aconteceu em um passado distante e não-datado. Era uma fabula para explicar por que não havia chuva no verão – e nada mais. Parece alguma coisa com a ressurreição de Jesus? [...] Attis? Esse mito é mais antigo que o Cristianismo mas o primeiro relato da ressurreição de Attis que temos veio muito depois do primeiro século. Adônis veio mais do que cem anos depois de Jesus. Não há relato na antiguidade de Marduk até mesmo morrendo – e então ressuscitando é algo menos claro. Alguns estudiosos dizem que Tammuz é um relato de um deus morrendo e ressurgindo – mas isso é disputado e mesmo assim não é um bom paralelo já que não há relato do aparecimento de um tumulo vazio e esse mito tem relação com a mudança de estações.”
[2]

Osíris

Licona procede falando de Osíris. Ele diz:

“O relato mais popular diz que o irmão de Osíris o matou, o cortou em quatorze partes e os dispersou pelo mundo. Bem, a deusa Isis sentiu compaixão por Osíris, então ela procurou pelas partes do corpo dele para dar a ele um sepultamento digno. Ela apenas encontrou treze partes, colocou elas de volta juntas, e então Osíris foi sepultado. Mas ele não volta a esse mundo; ele é dado o status de deus do submundo [...] Isso não é um paralelo com a ressurreição de Jesus, o qual tem um suporte histórico bem forte.” [3]

Mitra

Mitraismo foi uma religião Romana popular que se tornou a principal rival do Cristianismo no segundo século. Mitra era um antigo deus persa do sol.
O historiador Edwin M. Yamauchi descarta completamente a possibilidade de Jesus ser uma copia de Mitra. Ele diz:

“Mesmo que Mitra tenha sido um deus Persa que foi atestado tão cedo quanto o século quatorze A.C., nós não temos quase nenhuma evidencia do Mitraismo no sentido de uma religião de mistério no Oeste até muito tempo depois – tempo demais para ter influenciado o inicio do Cristianismo. [...] O primeiro reconhecimento de Mitra em Roma foi por Tiridates, rei de Armênia, em 66 d.C. É dito que ele se dirigiu a Nero dizendo ‘E eu vim, meu deus, para adorar como eu faço Mitra’ [...] Mitraismo como uma religião de mistério não pode ser atestada antes de 90 d.C., que é o tempo do poema do Mitraismo por Statius. Nenhum templo Mitraico foi encontrado na Pompéia, que foi destruída pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. A inscrição Mitraica mais antiga no oeste esta em uma estatua do imperador Trajan de 101 d.C.”
“Os primeiros templos Mitraicos são datados do segundo século. Há algumas inscrições feitas a mão que datam do inicio do segundo século, mas a vasta maioria dos textos são datados de 140 d.C. A maioria das evidencias que temos dizem que o Mitraismo vio no segundo, terceiro e quarto século depois de Cristo.” [4]

Mitra também não nasceu de uma virgem. Ele nasceu de uma rocha.
Outro paralelo usado normalmente é o de que seus discípulos prometiam imortalidade. Mas isso é comum em qualquer religião. Alem disso, ele não foi um mestre com doze discípulos.
Outros dizem que ele se sacrificou pela paz, mas isso também não é verdade: Na história dele, ele matou um touro.
E que tal sobre morrer e ressuscitar? Na verdade, não há sequer evidencias de que ele tenha morrido em seu mito. Como Yamauchi diz:

“Nós não temos nada sobre a morte de Mitra. Nós temos muitos monumentos, mas nós não temos nenhuma evidencia textual, porque era uma religião secreta. Mas eu não sei de nenhuma referencia a uma suposta morte e ressurreição.” [5]

E Richard Gordon declara em seu livro “Image and Value in the Greco-Roman World” que Mitra “não morreu”, portanto, não houve ressurreição. [6]

Horus

Horus é talvez a comparação mais famosa. Assim como os outros, é dito que ele nasceu de uma virgem no dia 25 de dezembro, adorado por três reis, teve doze discípulos, fez milagres, morreu e ressuscitou. O problema é que tudo isso é falso.
Horus era filho de Osíris e Isis, e Isis não era virgem. A data de 25 de dezembro pode ser descartada pelos motivos citados no começo do texto.
Dr. Chris Forbes fala sobre esses e outros erros. Ele diz:

“Isis não era virgem. E não há nenhuma sugestão nas fontes egípcias antigas de que ela era. Toda essa lista de paralelos [do filme] é verdade para Jesus, mas não são para Horus de forma nenhuma. É bem improvável que as fontes egípcias digam que Horus tenha nascido em 25 de dezembro, porque dezembro é um mês latino, e o calendário deles é completamente diferente. Horus foi crucificado e ressuscitou dos mortos? Não, ele não foi crucificado. Ele nem ao menos foi morto. Osíris foi traído e morto por seu irmão Seth [...] e depois Isis junta seus pedaços para que ele seja a primeira múmia e ressuscite. Mas tudo isso aconteceu não em um tempo histórico. Isso tudo aconteceu no equivalente ao tempo egípcio do “era uma vez”, um tempo mitológico.”
[7]

E ele conclui

“Não há nenhum historiador serio do Cristianismo que afirme que Jesus não existiu. Há algumas discussões sobre se ele era realmente como a Bíblia descreve, sobre alguns incidentes em sua vida. Mas nenhum historiador serio nega que Jesus tenha sido uma pessoa real que realmente viveu na Galiléia no primeiro século.” [8]

(Outro erro que eu poderia apontar é o fato do filme nomear Horus como o deus do sol. Mas na mitologia egípcia o deus do sol era Rá. Horus era o deus do céu.)

Dionísio

No filme e em alguns livros, é comum ver uma imagem de Dionisio crucificado. No entanto, sabe-se que esse amuleto foi criado no quarto século (Capa do livro “The Jesus Mysteries”). O que realmente acontece é que o irmão de Dionísio, Pentheus, foi colocado no topo de uma arvore por ele. Depois, Dionísio chamou algumas mulheres, que foram correndo e jogaram galhos e pedras nele, mas não alcançaram seu alvo. (Puxa, igualzinho a história de Jesus, né?)
O aniversario de Dionísio sempre foi comemorado no dia 6 de Janeiro. Sua mãe, Semele, também teve relações com Zeus.
Ele foi um grande mestre que proferia milagres? Sim. No entanto, o paralelo com a história de Jesus é bem forçado. Jesus viajou em uma determinada região, já Dionísio viajou pelo que era conhecido do mundo. Os milagres de Jesus eram positivos, como curas, mas os de Dionísio tinham relação com julgamentos contra aqueles que o desafiavam.
De acordo com o filme, Dionísio era um rei sagrado. Não, ele não era. Zeus era o rei. Dionísio era chamado de “Rei dos Reis” e “Deus dos Deuses”? Isso seria bem estranho, considerando que ele era filho de Zeus.
Outra coisa que o filme diz é que Dionísio foi ressuscitado em 25 de Março. Mas não existe documento antigo que diga isso. A data de sua ressurreição após a morte pelos Titãs é de 8 de Novembro. Alem disso, Jesus também não ressuscitou dia 25 de Março. A maioria dos estudiosos acredita que sua crucificação não foi antes de 28 de Março, fazendo sua ressurreição não antes de 30 de Março.
Ele era chamado de “salvador”? Sim, mas da fúria de Pentheus, não salvador do pecado e condenação eterna.
Há outros problemas com as comparações entre Dionísio e Jesus. Como o historiador J. P. Holding apontou:

“Os paralelos Cristo-Dionisio são muito poucos para serem elogiados. Os poucos paralelos que existem são baseados em concepções e temas universais. Alem disso, para o argumentador fazer seu argumento persuasivo, ele deve explicar como e porque um grupo de Judeus Palestinos roubaram a teologia e os ensinamentos de um culto estrangeiro e fundaram uma nova religião baseada nele. Ele também deve explicar por que o paralelo entra a doutrina ensinada por Jesus e aquela do Judaísmo contemporâneo eram tão similares, sem mencionar por que os Cristãos primitivos inicialmente mantiveram as observações religiosas Judaicas.”
[9]

Krishna

Krishna nasceu de uma virgem? Pelo fato dele ter tido sete irmãos mais velhos, acho difícil.
Em Zeitgeist, o pai de Krishna era um carpinteiro. Mas não existe nenhum documento antigo que diga qualquer coisa a respeito. Alem disso, os pais de Krishna estavam ambos na prisão quando ele nasceu.
Também não há menção em nenhuma fonte antiga sobre Krishna de:
- uma estrela como sinal do nascimento
- ter azeite jogado em sua cabeça por uma mulher curada
- uso de parábolas para ensino, ressuscitar ou curar pessoas
- foi acusado pelo clero e os acusou de hipocrisia
- dar a habilidade de fazer milagres a seus discípulos
- Ser chamado de Senhor e Salvador
Krishna morreu com 125 anos, não com 30, como diz o filme (errou por pouco!)
Algumas comparações do filme foram colocadas como parte da história de Krishna anos depois do Cristianismo já existir. Por exemplo, o filme diz que Krishna era chamada de Jezeus por seus discípulos, mas a fonte para isso vem de escritos de Louis Jacolliot, ou seja, é do século 19. (Alem disso, é irrelevante, já que o nome de Jesus em Hebreu era Yeshua). Outra coisa que vem de Jacolliot que o filme diz fazer parte da história de Krishna é que ele irá voltar para julgar os mortos e lutará com o “Príncipe do Mal”.
O filme cita o trabalho de Edward Carpenter para demonstrar que as histórias dos milagres de Jesus são copias de Krishna. Mas, ao ir à fonte, Edward cita Robertson, que em seu trabalho diz:

“A defesa em favor da afirmação de prioridade Cristã tem sido de forma geral fortalecida pela investigação precisa da literatura Indu, o que nos mostrou que a maior parte dessa literatura é uma redação muito mais tardia do que foi imaginado.”
[10]

Mais problemas com a teoria “copycat”

Em primeiro lugar, o primeiro paralelo real de um deus que morre e ressuscita só aparece depois do ano 150 d.C, mais de cem anos depois da origem do cristianismo. [11]
Essa teoria toda teve inicio no inicio do século XX, no entanto, ela desmoronou bem rápido. Isso por que a forma correta de se avaliar a história de Jesus não é como um mito grego-romano, mas sim pelo pano de fundo da cultura judaica.
A maioria das histórias que teriam paralelos são de herois que adquirem divinalização e vão ao céu (Hercules, Romulo), herois que desaparecem e vão para uma realidade superior (Apolonio, Empédocles), simbolos de colheitas com vegetação que morre e volta a vida na estação da chuva (Tamuz, Osiris, Adonis) e nenhum desses tem relação com a ideia judaica de ressurreição. Como N. T. Wright colocou:

“Estes multiplos e sofisticados cultos representavam a morte e a ressurreição do deus como uma metáfora, cujo referente concreto era o ciclo da plantação e colheita, da reprodução e fertilidade humana. Algumas vezes, como no Egito, os mitos e os rituais incluíam praticas funerárias [...] Mas a nova vida que esperavam experimentar não era um retorno a vida presente. Ninguem, efetivamente, esperava que as mumias se levantassem, caminhassem de um lado para o outro e levassem uma vida normal [...] No mundo judaico não há rastros de deuses e deusas que morrem e ressuscitam. [...] quando judeus falavam de ressurreição, não se referiam a algo que supostamente aconteceria com seu Deus YHWH. Tampouco era algo que aconteceria com eles repetidamente; seria um evento único e irrepetivel.”
 
“De igual modo, quando os cristãos falavam da ressurreição de Jesus, não tinham em mente algo que acontecia todos os anos, como na epoca de semeadura e da colheita. [...] Obviamente, é bem possível que quando as pessoas [...] ouviram o que os primeiros cristãos diziam, elas tentaram encaixar esta estranha mensagem na cosmovisão dos cultos que conheciam. Mas a evidencia sugere que era mais provavel que ficassem confusas ou que zombassem” [12]

E David Aune, especialista em literatura do Antigo Oriente medio conclui:

“Não se encontra paralelo delas [tradições da ressurreição] na biografia greco-romana.”
[13]

Um outro problema com essa teoria é que, dado o fato de que os Judeus conheciam esses mitos e os achavam repugnantes (Ezequiel 8:14-15), eles jamais iriam copia-los. Isso por acha-los extremamente blasfemos.
Por fim, mesmo se tivessem mitos de deuses ressuscitando antes de Jesus, isso não significa que a história é um mito. A seria “Jornada Nas Estrelas” veio antes dos programas norte-americanos de ônibus espaciais, isso não significa que as reportagens sobre sejam copias de “Jornada Nas Estrelas”.

Conclusão

Existem diversos problemas com essa teoria. Alem de vários paralelos serem forçados, muitos deles vieram bem depois do Cristianismo existir. Existem outros livros comparando Jesus com outros deuses, mas o problema é o mesmo. (Tem um livro que compara Jesus com um tal de Beddra, mas se você procurar, nunca existiu nenhuma história de nenhum Beddra.)
A segunda parte do filme é sobre teorias da conspiração (algo meio escroto). Então nem vou comentar.
Se você tiver tempo, este video é excelente refutando a todas as ideias do filme Zeitgeist.

Fontes

[1] – Tryggve N. D. Mettinger, “The Riddle of Resurrection”, p. 221.
[2] – Lee Strobel, “The Case for the Real Jesus”, p. 162
[3] – Idem, p. 163
[4] – Idem, pp. 168-169
[5] – Idem, p. 172
[6] – Richard Gordon, “Image and Value in the Greco-Roman World”, p. 96
[7] – “Jesus, cópia de mitos? Zeitgeist Desmascarado”, https://www.youtube.com/watch?v=ujkfoc6Fpi0
[8] – Idem
[9] – Tektonics, “Dionysus and Jesus”, http://www.tektonics.org/copycat/dionysus.php
[10] – John M. Robertson, “Christianity and Mythology”, p 142
[11] – Edwin Yamauchi, "Easter - Myth, Hallucination or History?"
[12] – N. T. Wright, “A Ressurreição do Filho de Deus”, pp. 137-138
[13] – D. E. Aune, “The genre of the Gospels”, p. 48

Nenhum comentário:

Postar um comentário