segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A Existência de Deus #7 - O Argumento Ontológico Modal



O argumento de St. Anselmo foi bem controverso por séculos, pois, apesar de ter certa lógica, não parecia ser “prova definitiva” como ele pensava. No entanto, a versão que vou defender aqui é a versão Modal do argumento, desenvolvida por um dos maiores filósofos da atualidade: Alvin Plantinga.
Para se entender esse argumento, é necessário primeiro entender o conceito de mundos possíveis (caso contrario, acabará como Richard Dawkins e 90% dos youtubers que acham que refutaram o argumento). Um mundo possível não é um “universo paralelo” ou um outro planeta. É apenas uma descrição de como a realidade poderia ser. É uma forma de filósofos testarem uma idéia para ver se é lógica, perguntando se pode existir em algum mundo como o nosso.
Há três maneiras de definir um ser ou entidade no argumento ontológico:

Impossível - Significa que não existe em nenhum mundo possível.
(Ex: Triângulos de quatro lados, solteiros casados, etc)

Contingente – São logicamente possíveis, podem existir em alguns mundos possíveis.
(Ex: Unicórnios)

Necessários – Tem que existir em todos os mundos possíveis.
(Ex: Muitos matemáticos acreditam que números existem necessariamente, que nenhum mundo possível pode não conter números. Outro exemplo seria um quadrado, que tem quatro lados em todos os mundos possíveis.)

O argumento segue as seguintes premissas:

Premissa 1 - É possível que um Ser de Grandeza Máxima (Deus) exista.

Premissa 2 - Se é possível que um SGM (Deus) exista, então ele existe em algum mundo possível.

Premissa 3 - Se um SGM (Deus) existe em algum mundo possível, ele deve existir em todos os mundos possíveis.

Premissa 4 - Se um SGM (Deus) existe em todos os mundos possíveis, ele existe no mundo real.

Premissa 5 - Se um SGM (Deus) existe no mundo real, então ele existe.

Conclusão - Portanto, um Deus existe.

O Argumento Ontológico Modal


Premissa 1 - É possível que um Ser de Grandeza Máxima (Deus) exista.


É perfeitamente possível que Deus exista. Não há nada de ilógico ou contraditório no conceito de Deus. Não é algo como um triangulo de quatro lados ou um solteiro casado.
Alguns céticos tentam responder a isso com paradoxos dos atributos de Deus. Por exemplo: Pode Deus criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo possa carregar?
O problema com essa objeção é que ela assume que Deus pode fazer absurdos lógicos. Onipotência divina nunca significou poder fazer o que é logicamente impossível. Até mesmo a Bíblia diz que tem certas coisas que Deus não pode fazer (ex: Deus não pode mentir, Deus não pode citar o nome de alguém maior que ele, etc). Então, Deus não pode criar coisas como “solteiros casados”, “triângulos de quatro lados”, “políticos honestos”, etc.
Céticos dizem que, já que Deus é onisciente, ele sabe tudo. Isso significa que Ele não pode mudar de ideia, então há algo que Ele não pode fazer. Portanto, Ele não pode ser onipotente.
O problema é que novamente o cético esta assumindo que Onipotência Divina significa poder fazer o que é logicamente absurdo. Onipotência significa que Deus pode fazer qualquer coisa que seja logicamente possível dentro de Sua natureza.
Dizer que Deus não pode mudar de ideia é o mesmo que dizer “Pode um ser que sabe tudo aprender algo novo?”. Um ser onisciente tem que ser perfeitamente racional e absurdos lógicos são contradições irracionais da realidade.

Premissa 2 - Se é possível que um SGM (Deus) exista, então ele existe em algum mundo possível.


Se é possível que Deus exista, então Ele deve existir em algum mundo possível. Seres contingentes existem em mundos possíveis. Por exemplo, é possível que um leão azul exista, então há algum mundo possível onde ele exista.
Se não houver nada de ilógico no conceito de Deus, então é perfeitamente possível que ele exista em algum mundo possível.

Premissa 3 - Se um SGM (Deus) existe em algum mundo possível, ele deve existir em todos os mundos possíveis.


Como Deus é um Ser de Grandeza Máxima, ele tem todas as propriedades de excelência máxima ao máximo, que quer dizer que ele tem todas as propriedades que são melhores de se ter. Um Ser de Grandeza Máxima deve ser então: Todo Poderoso (já que é melhor do que ser só poderoso ou fraco), Todo Sábio (já que é melhor do que ser apenas sabio ou ignorante), Todo Amoroso (Já que é melhor do que ser só amoroso ou odioso), entre outros. Ele não pode ter imperfeições e corrupções, já que essas são propriedades de excelência menor. Um Ser de Grandeza Máxima deve ser também Necessário, já que é melhor ser necessário do que contingente. Se fosse apenas contingente, existiria apenas em alguns mundos possíveis, o que o tornaria menor do que é.
Alguns respondem a esse argumento fazendo uma parodia. Por exemplo, “é possível que um unicórnio de grandeza máxima exista”. O problema é que um unicórnio seria um ser físico, e não poderia existir no inicio do universo, quando este era apenas uma singularidade. Então, há um mundo possível onde ele não exista. Outra tentativa seria uma “ilha de grandeza máxima”. Mas uma ilha pode sempre ter mais arvores e coqueiros, então nunca chegaria a grandeza máxima. Ainda outra, popularizada pelo falecido Victor Stenger, seria uma “Pizza de grandeza máxima”. Mas uma pizza de grandeza máxima não poderia ser comida, se não, não seria de grandeza máxima. E se não pudesse, não seria uma pizza.
Uma outra objeção que levantam, é que “Necessidade” não é uma propriedade de grandeza máxima, já que seres contingentes podem ter propriedades de grandeza máxima alem de existência necessária. A objeção basicamente diz que seria ridículo dizer que algo contingente, como uma musica de Mozart, que tem algumas propriedades de grandeza máxima, seria melhor se fosse necessária. No entanto, Peter S Williams responde dizendo:

“Isso parece algo estranho de se dizer já que uma peça de musica necessariamente existente não poderia ser também algo composto por Mozart. Esse experimento pede para alguém imaginar uma peça de musica que é e não é um produto de um processo contingente de composição por uma pessoa contingente especifica, o que claramente é uma noção incoerente.” [“Cambridge Union Society Debate: an Analysis” por Peter S. Williams - http://www.bethinking.org/does-god-exist/cambridge-union-society-debate-an-analysis]

Necessidade é uma propriedade de grandeza máxima, pra qualquer coisa que possa coerentemente ter isso. Não há motivo para dizer que uma peça de musica é “necessária” nem que logicamente poderia ser. Isso não mostra que Necessidade não é uma propriedade de grandeza máxima, ou que ela não possa ser possuída por um ser.

Premissa 4 - Se um SGM (Deus) existe em todos os mundos possíveis, ele existe no mundo real.


Já que o mundo real é um mundo possível, então se Deus existe em todos os mundos possíveis Ele existe no mundo real.

Premissa 5 - Se um SGM (Deus) existe no mundo real, então ele existe.


Alguns céticos tem acusado o argumento de cometer uma falácia chamada de petição de principio. “Petição de principio” é uma falácia lógica ocorrida quando a conclusão de um argumento é considerada provada sem nenhuma nova informação alem da que é dada em apenas uma das premissas. Ou seja, a confirmação é verdadeira pois refere-se a própria afirmação para confirmar a afirmação. Por exemplo:

Premissa 1 – Aquele cara é feio pois não é atraente

Conclusão – Portanto, ele é feio.

Não há nenhuma razão independente da primeira premissa para afirmar que o cara é feio. Seria esse o caso do Argumento Ontológico? Céticos dizem que sim, pois no argumento Deus é definido como um ser necessário, e tudo o que é necessário deve existir, então Deus deve existir pois é necessário. Como “Deus é necessário, portanto Ele existe”.
Céticos dizem que a primeira premissa é equivalente a conclusão. Então o argumento é reduzido a:

Premissa 1 – É possível que seja necessário que um SGM (Deus) exista

Conclusão – Portanto, Deus existe.

Se esse fosse o argumento, então iria incorrer de petição de principio. Mas isso é uma péssima representação. A primeira coisa a se notar é que há uma confusão entre “de dicto” e “de re”. “De dicto” é a necessidade de uma afirmação. “De re” é a necessidade de algo. A primeira premissa do argumento ontológico afirma que certa afirmação é possível, a afirmação de que um Ser de Grandeza Máxima existe ou que Grandeza Máxima é exemplificada. Não é a afirmação, “é possível que seja necessário que um SGM (Deus) exista”. A afirmação envolve a iteração de duas modalidades “de dicto”.
Há uma confusão de “equivalência lógica” com “sinonímia”. Dizer que “Possivelmente, um Ser de Grandeza Máxima existe” é, de fato, logicamente equivalente com “Possivelmente, é necessário que um Ser de Excelência Máxima exista.”. Mas essas afirmações não significam a mesma coisa. É o significado de uma afirmação que é relevante ao estado epistemico para nós, não suas vinculações lógicas. Uma afirmação pode parecer verdade para nós mesmo se nós não estivermos alerta de suas implicações lógicas. Isso é, portanto, um erro dizer que “’possível necessário’ é o mesmo que ‘necessário’”, se por “é” você quer dizer “significa”.
Vale lembrar que esse é um argumento dedutivo. O argumento é valido através de raciocínio dedutivo, não por processo redutivo. A natureza de um argumento dedutivo é que a conclusão esta implícita nas premissas, esperando para ser explicita por meios de regras lógicas de inferência [Reasonable Faith Q&A With William Lane Craig: Does the Ontological Argument Beg the Question? - http://www.reasonablefaith.org/does-the-ontological-argument-beg-the-question].
O exemplo clássico do silogismo aristotélico, ou da lógica dedutiva, é o seguinte:

Premissa 1 – Todos os homens são mortais

Premissa 2 – Sócrates é um homem

Conclusão – Portanto, Sócrates é mortal.

Ou seja, a equivalência lógica da conclusão do Argumento Ontológico com sua primeira premissa apenas mostra que esse é um argumento dedutivo valido, não um que cometa petição de principio.
O que parece é que os céticos estão confundindo um argumento que incorre de petição de principio com raciocínio circular. Raciocínio Circular é quando uma premissa, tanto implícita quanto explicita, é equivalente a conclusão. Como:

Premissa 1 – A mesma condição de verdade que a conclusão

Premissa 2 – Outra razão conectando as duas

Premissa 3- Outra razão conectando as duas

Conclusão – A mesma condição de verdade que a Premissa 1

Na maioria das vezes é um problema, mas se um argumento quer apenas informar, ao invés de persuadir então não é um problema e pode ser usado. Uma boa maneira que o raciocínio circular é usado é para simplificar dados em uma teoria. Teorias cientificas confiam distintamente nesse tipo de raciocínio circular.
Se um argumento for circular, mas não incorre de petição de principio, e ainda informa, então não é um problema. E é exatamente isso o que o argumento ontológico faz. Ele mostra que a Premissa 1 é logicamente equivalente a Conclusão por raciocínio dedutivo. Vendo a Premissa 1 (É possível que um SGM (Deus) exista) ninguém iria dizer que Deus existe. Mas vendo todo o raciocínio dedutivo do argumento, pode-se ver que a conclusão e a primeira premissa são logicamente equivalentes. Dizer que Deus é possível, é também o mesmo que dizer que Ele existe.
Então, nessa versão do argumento e em outras, o argumento é mais para nos informar da ontologia de Deus, nos dizendo que se ele é Metafisicamente Possível, então ele Necessariamente existe. Mostrar esse ponto obvio e dizer que o argumento incorre de petição de principio é simplesmente um mal entendido.
Dawkins começa sua critica ao argumento citando Kant, que diz que existência não é uma perfeição. Mas, essa versão do argumento não pressupõe isso. Então a objeção é irrelevante. 
Dawkins vai adiante tentando provar que Deus não existe dizendo que um “Deus que criou o universo, enquanto não existe é maior do que um Deus que criou existindo”. No entanto, essa parodia na verdade reforça o argumento. Como Dr. William Lane Craig responde:

“Ironicamente, essa paródia, longe de minar o argumento ontológico, na verdade o reforça. Porque um ser que criou tudo, embora não exista, é uma incoerência lógica e, portanto, impossível: não há nenhum mundo possível que inclua um ser não existente que cria o mundo. Se o ateu teima em sustentar — por obrigação — que a existência de Deus é impossível, o conceito de Deus teria de ser igualmente incoerente. Mas não o é. Isso dá sustentação à plausibilidade da Premissa 1.” [Reasonable Faith: O neoateismo e cinco argumentos a favor de Deus - http://www.reasonablefaith.org/portuguese/o-neoateismo-e-cinco-argumentos-a-favor-de-deus]

Dawkins vai em frente e diz que “conseguiu provar que porcos voam adaptando o argumento ontológico”, e diz que para responder, os teólogos tem que recorrer a lógica modal pra demonstrar que ele estava errado. Fica evidente que Dawkins é quase uma mosca quando se trata de filosofia. O argumento ontológico É um exercício de lógica modal, a lógica do possível e do necessário. Então, eu lamento, mas se você segue a Dawkins, não entre em debates. Vai passar vergonha.
Outros tem tentado responder apelando para uma outra paródia do argumento. Uma parodia do argumento que é formulada ao contrario, da seguinte forma:

Premissa 1 - É possível que um SGM (Deus) não exista

Premissa 2 - Se é possível que um SGM (Deus) não exista, então ele não existe em algum mundo possível.

Premissa 3 - Se um SGM (Deus) não existe em algum mundo possível, ele não existe em nenhum mundos possíveis

Premissa 4 - Se um SGM (Deus) não existe em nenhum mundo possívei, ele não existe no mundo real.

Premissa 5 - Se um SGM (Deus) não existe no mundo real, então ele não existe.

Conclusão - Portanto, um SGM (Deus) não existe.

O problema esta na premissa 2, que diz que Deus não existe em algum mundo possível. Mas para isso, ele teria que ser mostrado como impossível. Já que o conceito de um Ser de Grandeza Máxima não foi mostrado como impossível, então ele pode existir em algum mundo possível. Se existe em algum mundo possível, existe em todos.
Além disso, o Argumento da Perfeição Modal mostra de Grandeza Máxima é possível:

1- Se uma propriedade é uma “propriedade que torna mais excelente”, sua negação é uma “propriedade que torna menos excelente”.

2- “Propriedades que tornam mais excelentes” não implicam logicamente “propriedades que tornam menos excelentes”

(Faz sentido, porque como poderia uma “propriedade que torna mais excelente” ser uma “propriedade que torna mais excelente” se exigisse falhas?)

3- A grandeza máxima é a maior [mais excelente] de todas as “propriedades que tornam mais excelente”, consequentemente a grandeza máxima não pode implicar sua negação de não-(grandeza máxima).

Numero 3 é importante, porque na lógica modal, é perfeitamente razoável para uma propriedade que é logicamente impossível implicar o seu oposto

Exemplo: Circularidade quadrada.

Uma vez que a “circularidade quadrada” é uma propriedade impossível, então todas as coisas devem negar a "circularidade quadrada”. O que significa que tudo implica a “não-circularidade quadrada”.

Circularidade quadrada - Impossível

- Então todas as coisas devem negar a “circularidade quadrada”

- Significa que todas as coisas devem implicar a “não-circularidade quadrada”. (Incluindo propriedades impossíveis)

- O que significa que “circularidade quadrada” implica (logicamente) a “não-circularidade quadrada”

Se uma grandeza máxima fosse impossível

- então todas as coisas devem negar a Grandeza Máxima

- Significa que todas as coisas DEVEM implicar a “não-Grandeza Máxima” (incluindo propriedades impossíveis, como a própria Grandeza Máxima)

- Portanto, Grandeza Máxima implica em “Não-Grandeza Máxima”

Porém, “Grandeza Máxima” não pode implicar o seu oposto, porque “propriedades que se tornam excelentes” (como a Grandeza Máxima) não podem ser “propriedades que tornam Excelentes” e ao mesmo tempo implicar falhas de “propriedades que tornam menos excelentes”. Além disso, a Grandeza Máxima é a Perfeição e se a perfeição é logicamente absurda, então não podemos definir adequadamente coisas como “mal”, “ódio” ou “ignorância” como imperfeições. Alguém pode definir a “ignorância” como uma “propriedade que torna mais excelente”, ao lado da “inteligência”, o que seria incoerente. Então se a Grandeza máxima é possível, então em alguns mundos há um ser com Grandeza Máxima.
Outra argumentação que levantam contra o argumento, é o de que é possível que outros seres de grandeza máxima existam. O cético aqui argumenta que poderia haver mais de um SGM que existem juntamente com Deus. No entanto, se concluirmos que existe um SGM, concluímos também que só deve haver um, pois se houvesse mais de um ser Onipotente, suas vontades iriam entrar em conflito. Se um ser Onipotente criasse um unicórnio, o outro poderia não querer essa existência, o que levaria a um absurdo lógico. Além disso, se houvesse mais de um, nenhum deles seria o maior, já que em dois iguais há igualdade, mas não superioridade.
Mas como podemos saber que existe apenas um ser “Todo-Amoroso” e não “Todo-Maldoso”? C. S. Lewis argumenta que é impossível alguém ser mal apenas por ser mal. O mais próximo seria alguém sendo cruel, no entanto, pessoas só são cruéis para conseguir poder, prazer ou segurança. Mas essas coisas não são ruins de ter, são coisas boas. O mal vem em tentar alcança-los do modo errado. No entanto, diferente do mal, você pode ser bom apenas por ser bom. Você pode fazer um ato de bondade sem esperar nada em troca. Portanto, o mal é apenas a corrupção do bem, tentando alcançar coisas boas pelo método errado. O Criador do Universo deve ser moralmente perfeito, já que o mal não pode existir por conta própria, mas deve ser uma corrupção do bem.
Mas isso nos apresenta outro problema: Já que amor perfeito é apenas possível com duas ou mais pessoas, como pode Deus ser perfeitamente amoroso, se antes da criação não existiam outros seres para serem amados? Seu amor depende da criação? No Cristianismo, cremos em Um Deus que é Três Pessoas. Portanto, o Deus Trinitário da Bíblia pode existir, já que cada uma das Pessoas da Trindade ama e precisa um do outro. Portanto, apenas o Deus da Bíblia é logicamente possível.
Céticos também dizem que já que é possível que uma equação matemática (como a Conjetura de Goldbach) seja verdadeira, então a lógica modal deve mostrar que ela é verdadeira. Não podemos mostrar a validade de uma teoria matemática pela lógica modal. Então, por que usaríamos lógica modal para mostrar que Deus existe?
O problema com essa parodia é que não podemos testar infinitamente uma teoria matemática (como a Conjetura de Goldbach) para saber se ela é coerente em algum mundo possível. Mas no caso de Deus, nós podemos saber suas propriedades e avalia-las para ver se Ele faz sentido em algum mundo possível.
São dois tópicos diferentes. Para saber se algo é verdade em algum mundo possível, nós temos que saber tudo sobre esse algo para avaliar se é logicamente coerente ou não. Como não sabemos tudo sobre esses problemas matemáticos não resolvidos, então não podemos dizer se são verdade em algum mundo possível.
A próxima tentativa que vou responder, é ao chamado “argumento ateísta correto”. O argumento proposto por Peter Van Inwegen diz que, já que existem outros seres logicamente possíveis, eles poderiam existir, mas sua existência contrariaria a existência de Deus. Ele é assim:

Premissa 1 - É possível que exista um mundo não-senciente

Premissa 2 - Ja que um mundo não-senciente não é incoerente, então é um mundo possivel.

Premissa 3 - Se um mundo possível é não-senciente, então Deus não existe nesse mundo

Premissa 4 - Portanto, Deus não existe nesse mundo

Premissa 5 - Portanto, Deus não é necessário e na verdade é impossível

Conclusão - Portanto, Deus é impossível

O grande ponto desse argumento é dizer que, apesar do argumento ontológico ser lógico, alguém poderia formar outro argumento lógico como esse, mas não podem ser os dois verdadeiros.
No entanto, no argumento ontológico, quando filósofos dizem que Deus é possível, não estão apenas dizendo que Ele é possível apenas porque Seu conceito parece logicamente possível. Deus não é apenas logicamente possível, mas também é metafisicamente possível, pois há razões extras para crer nisso. O que isso significa é que, qualquer coisa pode ser logicamente possível se não for auto-contraditório, enquanto ser metafisicamente possível, é mais restrito do que ser apenas logicamente possível. Então, menos coisas são metafisicamente possíveis que são logicamente possíveis. Mas a regra geral é a de que para algo ser metafísico deve haver razões adicionais alem de ser apenas logicamente possíveis.
Temos que lembrar também que o argumento ontológico é um argumento metafísico, então não podemos criar um argumento na metafísica dependendo de algo ser apenas logicamente possível.
Ao contrario desse argumento, que diz que algo é apenas logicamente possível por parecer coerente, a possibilidade de Deus é também metafísica, pois há razões adicionais para crer isso. 
Trent Dougherty diz:

“Ja que todos os esforços para mostrar o conceito de Deus como contraditorio falharam, então eu concluo, um pouco relutante, que Deus existe […] Agora, eu entendo que a maioria das pessoas isso parece como um truque, mas a maioria das pessoas não esta particularmente acostumada em seguir argumentos lógicos, muito menos formas altamente especializadas de calculo logico desenvolvidos por filósofos profissionais […] O que aqueles que conhecem isso, mas não acreditam em Deus dizem? Eles dizem que o conceito de Deus é incoerente. Eu não vi ainda qualquer argumento levemente plausível para esse efeito. Até eu ver, o Argumento Ontológico vai ser convincente para mim. Eu devo adicionar que eu sou um convertido nesse argumento. Eu argumentava por anos que o Argumento Ontológico era falho até alguém me mostrar a versão modal. Eu sempre segui a Razão para onde ela levava e, como sempre, ela me levou a Deus.” [Concise introduction to the Modal Ontological Argument for the Existence of God - http://www.abarnett.demon.co.uk]

Além disso, a probabilidade da existência de Deus aumenta graças aos outros argumentos da teologia natural (cosmológicos, teleológicos, moral, etc). Mas não devem ser como partes de uma corrente única, mas sim fazer parte de um caso cumulativo.
Por fim, céticos podem tentar citar Plantinga em seu livro “The Nature of Necessity”, onde ele diz:

“Deve ser concedido, no entanto, que Argumento A não é uma peça bem sucedida da teologia natural. Para este último normalmente atrai suas premissas a partir do estoque de proposições aceitas por quase todos os homem são, ou talvez quase todo homem racional. Por isso, o nosso veredicto sobre estas versões reformuladas do argumento de Santo Anselmo deve ser o que se segue. Eles não podem, talvez, ser dito para provar ou estabelecer a sua conclusão.”

O problema é que essa citação esta fora de contexto. Plantinga segue dizendo:

“… Mas, já que é racional aceitar suas premissas centrais, elas devem mostrar que é racional aceitar a conclusão. E talvez isso seja tudo o que deve ser esperado de qualquer argumento.” [Alvin Plantinga, The Nature of Necessity, pp 219-221]

O que Plantinga esta dizendo não é que o argumento é uma perda de tempo, mas sim que o argumento não é feito e não deveria ser usado para provar que Deus existe. Na verdade, nenhum argumento da teologia natural tem esse objetivo. Os argumentos devem ser usados para mostrar que é mais racional crer que Deus existe do que seu oposto.

Conclusão - Portanto, um Deus existe.


Apesar de confuso a principio, esse é um argumento bastante poderoso. A única premissa que tem que ser defendida é a primeira, já que as premissas 2 a 6 são incontroversas. A maioria dos filósofos acredita que, se a existência de Deus for meramente possível, então Ele deve existir.
Então, para provar que Deus não existe, seu conceito tem que ser mostrado como logicamente impossível, assim como o conceito de um solteiro casado ou um quadrado redondo. Já que o conceito de Deus é perfeitamente possível, então Ele deve existir. 


Créditos (Muito do texto foi traduzido dos vídeos do IP)


InspiringPhilosophy – The Ontological Argument (An Introduction) - https://www.youtube.com/watch?v=RQPRqHZRP68

InspiringPhilosophy – Answering Objections to the Ontological Argument - https://www.youtube.com/watch?v=ixqsZP7QP_o

InspiringPhilosophy – Answering Objections to the Ontological Argument 2 - https://www.youtube.com/watch?v=_JRsHIN5ATY

InspiringPhilosophy: The Ontological Argument (Question Begging?) - https://www.youtube.com/watch?v=FC94N-mZnrM

Bibliografia


William Lane Craig, Apologética Contemporânea
Alvin Plantinga, Deus, a Liberdade e o Mal

5 comentários:

  1. Parabéns pela didática explanação. A muito tempo venho em vão tentando entender esse argumento, até que hoje consegui. Deus abençoe e blogueiro responsável por esse trabalho na defesa da Fé Cristã. Suas postagens são curtas, mas bem explicativas mesmo assim, vlw e obrigado!

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    1. É um prazer =) Obrigado pela visita e Deus abençoe =]

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  2. Bravo.
    Sinto um alinhamento de meus conhecimentos de física quântica com o Divino solidamente firmados nessa filosofia apresentada de forma muito didática, como bem comentou Papo de Jovem acima.
    Imagino o desespero do ateu querendo enfiar flutuações quânticas e rusgas em mundos branas agitadas pelo "nada" de puro "acaso" de um vácuo mataestável, só para negar o SGM!
    Gostei dessa nomenclatura: SGM.
    Fran De Aquino, grande físico teórico brasileiro, tem outra: Suprema Consciência.

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  3. "Deus não pode criar políticos honestos" - pegou pesado.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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