terça-feira, 16 de setembro de 2014

A Existência de Deus #2 - O Argumento Cosmológico Leibniziano


O Argumento Cosmológico Leibniziano é um argumento que busca uma razão suficiente para a existência do universo. Diferente dos outros Argumentos Cosmológicos, este não busca uma primeira causa. Ele foi desenvolvido pelo filosofo Gottfried Wilhelm Leibniz, quando ele levantou a pergunta “Por que existe qualquer coisa ao invés do nada?”


O Argumento Cosmológico Leibniziano


Formulação

P1 - Tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência; ou por necessidade de sua própria natureza ou em uma explicação externa.

P2 - Se o universo tiver uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus.

P3 - O universo existe

P4 - Portanto, o universo tem uma explicação para a sua existência (de 1 e 3)

P5 - Portanto, a explicação da existência do universo é Deus (de 2 e 4)

Conclusão - Portanto, Deus existe. 

Premissa 1 – Tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência; ou por necessidade de sua própria natureza ou em uma explicação externa.

Imagine que você anda pela floresta e no meio das arvores e folhas, encontra uma bola translúcida. Você imediatamente se pergunta “por que essa bola esta aqui?”. Agora, imagine que essa bola é do tamanho de uma casa. A mesma pergunta aparece. Ou que a bola é do tamanho do planeta… Mesmo problema. E que tal do tamanho de todo o universo? A mesma pergunta permanece.
Esse exemplo, dado por Richard Taylor, mostra que qualquer coisa que exista deve ter uma explicação para sua existência. Taylor diz:

“Isso ilustra uma crença metafísica que quase parece fazer parte da própria razão, mesmo que apenas alguns homens pensem nisso; a crença de que há uma explicação para a existência de qualquer coisa, alguma razão do por que isso deve existir ao invés de não. A não-existencia de algo […] nunca requer uma explicação; mas a existência requer […] Se alguém perguntasse por que não há e nunca houve uma grande bola translúcida, a resposta obvia seria perguntar por que deveria haver.” [Richard Taylor, “The Cosmological Argument: A Defense” - http://mind.ucsd.edu/syllabi/02-03/01w/readings/taylor.pdf, p. 1]

Esse é o “Principio da Razão Suficiente” (PRS) do filosofo Gottfried Wilhelm Leibniz: Todo o fato que acontece, ou tudo o que existe, deve ter uma explicação para a sua existência. A explicação de algum fato se deve a alguma outra coisa ou fato, esses fatos que requerem explicação são chamados de “contingentes”. Há também aquelas coisas que dependem de si mesmas, quer dizer, sua explicação se deve a sua própria natureza. Por exemplo, muitos matemáticos e alguns filósofos acreditam que números existem necessariamente, que eles devem sua explicação a sua própria natureza. Se formos ver algo contingente, como o fato de que a bola esta na floresta, obviamente alguém a colocou la. Essa verdade depende de algo externo para a sua existência.
O PRS não pode ser negado. Se negássemos que qualquer coisa que exista tem uma explicação para a sua existência, estaríamos atacando a própria ciência, já que não podemos aceitar que algo possa brotar do nada sem uma explicação. Nossos pensamentos e conclusões também devem ter explicações do por que ocorrem. Seria estranho negar a conclusão de que o PRS funciona, mas aceitar a conclusão de sua negação. Nossas conclusões sempre têm como explicação a nossa razão. Como Alexander Pruss diz:

“… uma vez que admitimos que algum estado de coisas contingentes não tem explicação, um cenário completamente novo de ceticismo se torna possível: não há nenhum demônio enganando você, mas seu estado percentual esta ocorrendo por nenhuma razão […] Assim, nós não podemos nem dizer que violações do PRS são improváveis se o PRS é falso” [Alexander Pruss, "The Leibnizian Cosmological Argument, em William Lane Craig e J. P. Moreland, The Blackwell’s Companion to Natural Theology, p. 28 (Ou pode ser lido aqui de graça nesse link - https://bearspace.baylor.edu/Alexander_Pruss/www/papers/LCA.html )]
Peter Van Inwagen objetou contra esse argumento perguntando: Como pode algo contingente ser explicado por algo necessário? Se algo necessário causa seu efeito, então seu efeito deve ser necessário também
Aqui, Van Inwagen falha pois acha que o argumento diz que cada explicação deve implicar o fato que explica. No entanto, apesar desse ter sido um erro no argumento original de Leibniz, esse não é um erro nessa versão. A premissa 1 foi justamente formulada para concertar esse erro, já que apenas requer que tudo que existe deve ter uma explicação. William Lane Craig diz:

“… o teista poderia manter que para cada coisa contingente existente, há uma explicação do porque essa coisa existe. Ou novamente, ele poderia afirmar que tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, ou na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa […] essas são versões mais modestas, não-paradoxicas, e aparentemente mais plausíveis do PRS. Então, a objeção feita por Van Inwagen erra o alvo – ou, mais precisamente, é mirada em outro alvo” [Reasonable Faith Q&A with William Lane Craig #132: Leibniz’s Cosmological Argument and the PSR - http://www.reasonablefaith.org/leibnizs-cosmological-argument-and-the-psr]

Então, essa objeção falha pois a premissa 1 não diz que uma explicação deve implicar a coisa que esta explicando, apenas que ela explique o porque dessa coisa estar ali.

Premissa 2 – Se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus

Mas agora vem a grande pergunta: Por que o universo existe? Três motivos podem ser dados para chegar a conclusão de que a explicação da existência do universo é Deus:

 - Dado o fato de que o universo (ou até mesmo multiverso) abrange toda a realidade material, temporal e espacial, a explicação de sua existência se deve a algo que transcende a matéria, o tempo e o espaço. Só há dois possíveis candidatos que se encaixam nessa descrição: Um objeto abstrato ou uma mente sem corpo. Já que um objeto abstrato não se mantêm em relação causal, muito menos para um universo, a única explicação plausível é uma Mente Transcendente, eterna e necessária.

- Natureza não pode ser a explicação do universo natural. Seria como dizer que você é a explicação de si mesmo.

- Também tem outro motivo para essa explicação ser um agente pessoal. Se fosse apenas um conjunto de coisas necessárias impessoais, como poderia explicar uma realidade contingente como o universo? Se a explicação fosse um conjunto forças impessoais necessárias, seu efeito seria continuamente necessário também. O universo deveria ser o mesmo em todo e qualquer mundo possível. O único jeito de uma explicação necessária ter como efeito algo contingente como o universo, é se essa explicação for um agente pessoal. Portanto, a explicação deve, necessariamente, um agente pessoal transcendente. Essa explicação é exatamente o que chamamos de Deus, o qual a explicação de Sua existência esta em sua própria natureza.

Outro motivo para podermos dizer que Deus é uma explicação plausível para universo é que a afirmação da Premissa 2:

“Se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus.”

É logicamente equivalente ao que os naturalistas sempre disseram:

“Se o ateísmo é verdade, o universo não tem explicação para a sua existência.”
Podem tentar responder também dizendo: Um dia poderemos explicar o universo completamente em princípios contingentes O problema é que princípios contingentes, ou científicos, não podem ser a razão do porque algo existe. Alexander Pruss responde:

“Um principio não pode por si só puxar seres para a existência de um chapéu mágico metafísico, já que o próprio principio deve ser verdade de alguma coisa e a verdade em virtude de alguma coisa.” [Alexander Pruss, ibid, p. 79 (Ou pode ser lido aqui de graça nesse link - https://bearspace.baylor.edu/Alexander_Pruss/www/papers/LCA.html)]

Princípios são apenas descrições de como as coisas são, eles não se mantem como a razão para a existência de coisas concretas.
O naturalista pode dizer que a explicação do universo teria que existir antes do universo, mas que antes do universo não existia nada e que a explicação teria que ser nada, assim sendo impossível para este ter uma explicação. Essa objeção, no entanto, é bastante falaciosa, já que essa afirmação assume que o universo material é tudo que existe, sem nenhuma prova, evidencia ou razão para se crer nisso. Ou seja, essa objeção assume que o ateísmo/naturalismo seja verdade, assim, comete de petição de principio.

Premissa 3 – O universo existe e é contingente

Um fato inegável é que o universo existe. Mas talvez algum cético diga que o universo é uma dessas coisas que existem necessariamente. Essa não é uma opção plausível por vários motivos filosóficos e científicos. Para algo ser necessário, deve ser imutável, quer dizer, deve ser como é em todos os mundos possíveis. No entanto, não há nada ilógico em crer que o universo poderia ser diferente. Podemos perfeitamente imaginar um mundo possível onde não tenha objetos no universo todo. De fato, dada a cosmologia contemporânea, vemos essa mutabilidade do universo todo o tempo. Ele poderia ser eterno, poderia expandir e contrair, poderia ter seis mil anos, poderia ser um multiverso, etc. Para o universo ser necessário, ele teria que ser o mesmo e todo mundo possível.
Um exemplo para explicar melhor as diferentes possibilidades com um objeto: Os sapatos que esta usando agora, poderiam ser de aço? Claro que alguém poderia ter feito esses sapatos de aço, no entanto a pergunta é: Esse mesmo sapato que você usa nesse exato momento, poderia ser de aço? A resposta obviamente é não. William Lane Craig diz:

“Certamente as coisas são naturalmente contingentes no sentido de que a continuidade de sua existência depende de vários fatores, inclusive de massas de partículas e de forças fundamentais, temperatura, pressão, nível de entropia, etc. […] É fácil imaginar a não existência de qualquer um dos objetos que vemos no mundo; na verdade, antes de certo ponto no passado, quando o universo era muito denso e quente, nenhum deles existia. […] Contudo, se assim for, disso se segue que o universo não existe em decorrência de uma necessidade de sua própria natureza, uma vez que um universo constituído de um conjunto totalmente diferente de quarks (partículas fundamentais) não seria um universo igual ao nosso.” [William Lane Craig, “Apologética Contemporânea”, pp. 104-105]

Outro coisa que torna algo necessário seria a eternidade. Contudo, hoje temos bons motivos para crer que o universo teve um inicio. Mas, mesmo se o universo for eterno a pergunta permanece: Por que esse universo eterno existe? Leibniz nos convida a imaginar vários livros de geometria sendo copiados pela eternidade. Esse regresso infinito não explica o porquê desses livros existirem. Similarmente, se o numero de eventos passados no universo for infinito, ainda temos que achar uma razão suficiente para a existência desses eventos. Como Richard Taylor diz:

“Deve ser notado que não responde a pergunta, por que algo existe, dizer por quanto tempo essa coisa existiu. Um geólogo não supõe que ele tenha explicado por que há rios e montanhas meramente dizendo o quão velho eles são. […] Mesmo que nós suponhamos que algo, como o sol, por instancia, tenha existido pela eternidade, e nunca ira ter um fim, ainda assim nós não podemos concluir disso que ele existe por sua própria natureza. Se, o que é muito questionavel, o sol existiu pela eternidade e nunca acabará, então é possível que seu calor e luz também tenham existido pela eternidade e nunca acabarão; mas isso não nos mostraria que o calor e a luz do sol existem por sua própria natureza. Eles são obviamente contingentes e dependem do sol para existir, sendo eles sem começo e eternos ou não” [Richard Taylor, “The Cosmological Argument: A Defense” - http://mind.ucsd.edu/syllabi/02-03/01w/readings/taylor.pdf  , pp. 3 e 5]

Premissa 4 – Portanto, o universo tem uma explicação para a sua existência. (de 1 e 3)

Podemos então admitir que deve haver uma explicação do por que essa realidade existe e essa explicação se deve em um fato necessário, já que, se fosse contingente, necessitaria de outra explicação, levando a um numero de explicações infinitas.
Alguns podem dizer que “tudo dentro do universo tem uma explicação, mas o universo não”. Mas essa objeção comete a falácia do táxi, que quer dizer, você não pode descartar a premissa 1 ou o Principio da Razão Suficiente como um táxi assim que chega a seu destino. Seria arbitrário dizer que o universo é exceção a regra.
Outros podem perguntar: Então, qual seria a explicação de Deus? Note que Leibniz não excluiu Deus da premissa 1. Ele diz “Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência; OU por necessidade da própria natureza OU por uma explicação externa.”
Não se pode explicar tudo por fatos contingentes, pois estes necessitariam outra explicação seguindo ao infinito. Portanto, deve-se chegar a algo necessário, e este é Deus.
O naturalista pode dizer que a explicação do universo teria que existir antes do universo, mas que antes do universo não existia nada e que a explicação teria que ser nada, assim sendo impossível para este ter uma explicação. Essa objeção, no entanto, é bastante falaciosa, já que essa afirmação assume que o universo material é tudo que existe, sem nenhuma prova, evidencia ou razão para se crer nisso. Ou seja, essa objeção assume que o ateísmo/naturalismo seja verdade, assim, incorre de petição de principio.

Premissa 5 – Portanto, a explicação para a existência do universo é Deus. (de 2 e 4)

Seguindo os argumentos para Deus ser a explicação da realidade natural em (2), e vendo que essa realidade é contingente em (3), então se segue das premissas (2) e (4) que a explicação da existência do universo é Deus.

Conclusão – Portanto, Deus existe.

Se as premissas são verdade, a conclusão é inegável. Esse argumento não usa o Principio Causal como o Argumento Cosmológico Kalam. Ele usa o Principio da Razão Suficiente. Sendo assim, ele apenas exige uma explicação suficiente para a existência do universo/multiverso, mesmo se este for eterno.

Um comentário:

  1. Mesmo após anos ter me formado em física me surpreendo com estes tipos de textos filosóficos. É como se eu estivesse mais maduro para "filosofar" (entre parênteses pois há raciocínios dos quais não estou acostumado a exercitar.
    Gostaria de saber se há algo sobre Plotino nesse prestigiado blog.
    Felicidades.

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