sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Existência de Deus #4 - O Argumento Cosmológico Kalam


O Argumento Cosmológico Kalam é o meu argumento favorito para a existência de Deus. Isso por que ele esta totalmente de acordo com a filosofia e a ciência contemporânea, e vai direto de forma racional ao que o teísta afirma: que Deus criou o universo.
Esse texto expõe uma defesa avançada do argumento cosmológico kalam. Para uma versão mais básica, acesse este link: http://olharunificado.blogspot.com.br/2015/07/apologetica-basica-1-o-argumento.html 

O Argumento Cosmológico Kalam


Silogismo


Premissa 1 - Se o universo começou a existir, então o universo teve uma causa

Premissa 2 - O universo começou a existir

Conclusão - Portanto, o universo teve uma causa.

Premissa 1 – Se o universo começou a existir, então o universo teve uma causa.



Essa premissa é praticamente inegável. Em nossa experiência, nós vemos sempre que coisas não “brotam” do nada. Carros, dinheiro, cavalos, etc não aparecem simplesmente do nada e por meio de nada. Se algo começa a existir, então esse algo tem que ter tido uma causa.
Para entender melhor, o que “começa a existir” significa:
Para cada entidade E e tempo T, E vem a existir em T se e apenas se:

(1) E existe em T

(2) T é o primeiro momento em que E existe

(3) Não há nenhum estado no mundo real em que E existe atemporalmente

(4) A existência de E em T é um fato flexível/temporal (mais sobre isso abaixo)

Por “universo”, quero dizer toda a realidade temporal, material e espacial – A natureza em geral. Isso inclui até mesmo o vácuo quântico.
Algumas pessoas tentam dizer que a lei da causa e efeito só vale para coisas dentro do universo, mas não para fora dele. Mas, primeiro, esse pensamento não estaria fora do espaço-tempo, e mesmo assim foi causado? De fato, algo atemporal poderia existir permanentemente, mas se nós temos indícios de que esse algo começou a existir, então mesmo assim ele teve uma causa.
Outras pessoas podem tentar acusar a premissa 1 de cometer a Falácia da Composição. Que quer dizer, as coisas dentro do universo tem causas, mas não o próprio universo. Mas, esse próprio argumento comete a chamada Falácia do Taxi: Você vai com o principio da causa e efeito até onde quer, e então dispensa como se fosse um taxi.
Alguns ateístas, como Lawrence Krauss e Stephen Hawking tentam argumentar que no nível subatômico, pequenas partículas aparecem do nada. Mas há vários problemas come essa resposta: Primeiro, é mentira. Partículas subatômicas não vêm do nada, elas vêm do vácuo quântico, que é um mar de energia flutuante. Astrofísico Sir Martin Rees também criticou:

“Cosmólogos às vezes clamam que o universo poderia surgir ‘do nada’. Mas eles deveriam tomar cuidado com sua linguagem, especialmente quando estiverem falando com filósofos. Nós percebemos desde Einstein que este espaço vazio pode ter uma estrutura que pode ser deformada e distorcida. Mesmo se encolher até um ‘ponto’, ele é latente com partículas e forças – ainda é uma construção muito mais rica do que o ‘nada’ do filosofo. Teoristas podem, algum dia, ser capazes de escrever equações fundamentais governando a realidade física. Mas físicos nunca poderão explicar o que ‘respira fogo’ nessas equações e realiza elas no cosmos real. A questão fundamental ‘Por que existe algo ao invés do nada?’ ainda se mantem na província dos filósofos.” (Sir Martin Rees, Just Six Numbers, p. 131)

Astrofísico Luke Barnes também diz:

“Krauss repetidamente falou sobre universos vindo do nada, partículas vindo do nada, diferentes tipos de nada, nada ser instável. Isso não faz sentido algum. A palavra nada é usada livremente – Eu não tenho nada na minha mão, não tem nada no frízer, etc. Mas, a definição apropriada de nada é ‘não qualquer coisa’. Nada não é um tipo de alguma coisa, não é um tipo de coisa. É a ausência de qualquer coisa.” (Luke Barnes, Letters to Nature: Of Nothing, https://letterstonature.wordpress.com/2011/04/01/of-nothing/)

Ele também conclui:

“Se alguma coisa pudesse vir do nada, então qualquer coisa e tudo deveria poder vir do nada em todos os tempos e lugares. Então, essa é a evidência empírica que nós deveríamos precisar para crer que o universo pode vir do nada.” (Luke Barnes, Letters to Nature: More Sweet Nothings, https://letterstonature.wordpress.com/2011/04/16/more-sweet-nothings/)

Sendo assim, chamar algo de “nada”, seria cometer a Falácia do Equivoco (usar a mesma palavra para se referir a duas coisas diferentes). Se você quiser saber o que é o “nada” de verdade, a definição de Aristóteles pode vir a calhar: “O nada é aquilo que as rochas sonham”. Bem diferente de chamar um mar de energia instável repleto de partículas de “nada”.
Em sua analise ao livro de Lawrence Krauss, “A Universe from Nothing” [Um Universo do Nada] o filosofo da ciência David Albert, especialista em física quântica, aponta esses equívocos e concluiu:

“...tudo o que eu posso dizer sobre isso, até onde posso ver, é que Krauss esta extremamente errado e seus críticos religiosos e filosóficos estão absolutamente certos.” (David Albert, New York Times, “On the Origin of Everything ‘A Universe From Nothing,’ by Lawrence M. Krauss”, http://www.nytimes.com/2012/03/25/books/review/a-universe-from-nothing-by-lawrence-m-krauss.html?_r=0)

Segundo, existem pelo menos dez interpretações da mecânica quântica. Ninguém sabe qual é a correta e nem se uma delas é a correta. Mas Krauss e Hawking não vão deixar o leitor saber disso, e eles tentam ir a uma das perguntas mais importantes e profundas da filosofia: “Por que existe algo ao invés do nada?”. Claro, sem tentar invocar Deus.
Por causa da falta de treino filosófico, Krauss e Hawking parecem realmente não entender a pergunta. Todas as suas respostas envolvem algo que seja comandado por Leis da Natureza, sem se importar em questionar o por que delas existirem, o que ou quem as criou, etc. Como Edward Feser colocou:

“[Krauss] propõe que ‘talvez não existe uma teoria fundamental’ [para explicar o universo] mas apenas camadas sob camadas de leis da física, o que podem acumular até ficarmos cansados. Mas, isso não é uma explicação do universo. Em particular, não chega nem perto do que Krauss prometeu a seus leitores ‘uma explicação de como o universo veio do nada’ já que uma serie sem fim de ‘camadas’ de leis da física dificilmente é ‘nada’ [...] A enchente de livros ruins em filosofia e teologia de proeminentes cientistas como Deus, um Delírio de ‘Dawkins, O Grande Projeto de Hawking e Mlodinow e On Being, among others de Atkins’ são notáveis não apenas por seus erros filosóficos e teológicos, mas também por serem pura repetição.” (First Things, “Not Understanding Nothing – A Review of A Universe from Nothing by Edward Feser”, http://www.firstthings.com/article/2012/06/not-understanding-nothing)

Terceiro, quando esse vácuo evolui ele evolui para si mesmo. Físico Aron Wall aponta esse problema:

“Krauss afirmou que se você começar com um espaço vazio que não tem nenhuma partícula virtual nele, então partículas virtuais vão aparecer, e isso é ‘algo’ vindo do ‘nada’. Isso é ridículo, já que estritamente falando, não há nada do tipo na Teoria Quântica de Campo como um estado sem partículas virtuais. (Se tivesse, seria infinitamente diferente do estado de vácuo, e, portanto teria energia infinitamente grande. Isso não é nada!) Se qualquer coisa pode coloquialmente ser chamada de ‘Nada’ em Teoria Quântica de Campo, é o estado de vácuo. Mas esse estado já tem todas essas partículas virtuais nele. E depois do tempo passar, ele evolui para... espera um pouquinho... ele mesmo! Isso mesmo, se você concorda em chamar o estado de vácuo de Nada, então Nada vem dele.” (Aron Wall, “Undivided Looking: AUniverse from Nothing?”, http://www.wall.org/~aron/blog/a-universe-from-nothing/, traduzido em “Um Universo do Nada?”, http://olharunificado.blogspot.com.br/2014/09/um-universo-do-nada.html)

Hawking propõe também que “como existe uma lei como a da gravidade, o universo por e irá criar-se a si mesmo a partir do nada”. Mas primeiro, se existe gravidade, então ele já não vem do “nada”. Segundo, criar-se a si mesmo é um absurdo lógico. Seria como eu me dando a luz!
Ele também diz que “o universo é ‘nada’ por causa da energia positiva e negativa balanceadas’ do universo (Hawking, “Curiosity!”). A lógica é a seguinte: A quantidade de energia positiva é igual a quantidade de energia negativa. Matematicamente falando, o resultado é zero, portanto o universo é nada.
Dizer que o universo não existe só porque o balanceamento das energias é zero é uma grande besteira. É como dizer que só porque tenho 5 reais na carteira e devo 5 reais pra alguém, portanto não tenho dinheiro nenhum.
Hawking faz a seguinte analogia: Um homem com uma pá começa a cavar um buraco e fazer um monte de terra. Enquanto ele empilha a terra, ele também cava o buraco. O monte de terra e o buraco são iguais e se cancelam, o que iguala a zero.
O problema com essa analogia é que ela prova o contrario. Mesmo que o volume do monte de terra seja o mesmo que o volume do buraco, não se pode afirmar que isso implica que a pilha de terra não existe. No caso do universo, ainda é necessária uma causa pra energia positiva e energia negativa. (Também podemos pensar: Se o vácuo quântico é “nada”, e o universo é “nada”, então “nada” veio do “nada”?)

Premissa 2 – O universo começou a existir


Argumentos Filosóficos para a origem do universo

Durante seculos os ateístas disseram que o universo é eterno, portanto, eliminando a necessidade de um criador. Embora Deus ainda possa existir mesmo em um universo eterno, esse ponto da eternidade do universo sempre foi um ponto de debate.
John Philoponus (400 a.C.) argumentava que tanto o espaço quanto o tempo não poderiam ser eternos, já que, se fossem, um numero infinito de estrelas teria ocupado o espaço, e a luz delas faria com que o céu nunca fosse escuro. Algo assim:

Premissa 1 – Se o universo é infinito (espaço e tempo), no sentido de que o numero de estrelas que ele contem é infinito, a luz emitida por elas também seria infinita e assim não haveriam espaços escuros no universo.

Premissa 2 – Mas, há espaço escuro no universo.

Conclusão – Portanto, o universo não é infinito.

Esse argumento pode, de certa forma, não funcionar atualmente. Mas eu o coloquei apenas por curiosidade.
Outros argumentos poderiam ser formados para demonstrar a impossibilidade de um numero infinito de coisas. Um argumento desses seria assim:

Premissa 1 – Um infinito real não pode existir.

Em defesa a essa premissa, o argumentador pode apresentar uma serie de razões para a verdade dela. Por exemplo: Suponha que eu tenha um numero infinito de bolinhas, todas marcadas com números de um a infinito. Se eu te der todos os números impares, você fica com um numero infinito de bolinhas e eu ainda continuo com infinitas bolinhas. Agora, suponha que eu te de todas as bolinhas numeradas acima de 5. Você agora tem infinitas bolinhas, mas eu tenho apenas 5.
Em ambos os casos, o mesmo numero de bolinhas foi retirado, mas o resultado foi diferente.
Um outro exemplo que podemos dar é o famoso Hotel de Hilbert, do matemático David Hilbert: Considere um hotel hipotético com infinitos quartos, todos ocupados - isto é, todos os quartos contêm um hóspede. Suponha que um novo hóspede chega e gostaria de se acomodar no hotel. 1 Se o hotel tivesse apenas um número finito de quartos, então é claro que o requerimento não poderia ser cumprido, mas como o hotel possui um número infinito de quartos então se movermos o hóspede do quarto 1 para o quarto 2, o hóspede do quarto 2 para o quarto 3 e assim por diante, movendo o hóspede do quarto N para o quarto N+1, podemos acomodar o novo hóspede no quarto 1, que agora está vago. Por um argumento análogo é possível alocar um número infinito (contável) de novos clientes: apenas mova o hóspede do quarto 1 para o quarto 2, o hóspede do quarto 2 para o quarto 4, e em geral do quarto N para o quarto 2N, assim todos os quartos de número ímpar estarão livres para os novos hóspedes.1 [Wikipédia, Hotel de Hilbert, http://pt.wikipedia.org/wiki/Hotel_de_Hilbert]
David Hilbert conclui:

“O infinito não é encontrado na realidade. Ele não existe na natureza, nem provê uma base legitima para pensamento racional [...] O papel que resta para o infinito esta apenas no mundo das idéias.” (David Hilbert, "On the Infinite", Philosophy of Mathematics, pp. 139, 141)

Em seu livro, “Infinity: An Essay in Methaphysics” [Infinito: Um Ensaio sobre a Metafísica], José A. Bernadete também usa de uma série de paradoxos que resultariam em um numero infinito real de coisas. Uma de suas ilustrações mais intrigantes, começa apenas com um simples livro.
Imagine que você encontra um livro em cima de uma mesa. Agora, abra o livro e analise a primeira página. A grossura dessa página é intrigante: meio centímetro. Então, vá para a próxima página. Essa possui apenas metade da página anterior. O mesmo acontece com a seguinte. E assim ad infinitum. Note que, não apenas cada página é sucedida por outra com a metade de sua grossura, como também cada página está separada da primeira página por um numero finito de páginas. Não existe nada contraditório em ambas essas afirmações. Mas ambas implicam que não haja uma ultima página no livro.
Agora, feche o livro. Vire-o com a capa pra baixo. Tente abrir na ultima página. Não há ultima página. Bernadete nos convida a imaginar o que aconteceria se tentássemos tocar a ultima “página” desse livro. Algo como uma barreira nos impediria de tocá-lo? Ou nossas mãos passariam por um numero infinito de páginas sem jamais nem tocar a primeira?
A impossibilidade de um passado eterno também pode ser demonstrado com o paradoxo do ceifador. Suponha que você esteja vivo à meia-noite. O ceifador #1 te matará à uma hora da manhã, se ainda estiver vivo. O ceifador #2 te matará à meia-noite e meia, se ainda estiver vivo. O ceifador #3 te matará à meia-noite e quinze, se ainda estiver vivo. E assim por diante. O grande paradoxo é esse: Você não pode sobreviver além da meia-noite, e ainda assim nenhum ceifador poderá te matar!

Premissa 2 – Um regresso temporal infinito de eventos físicos é um infinito real.

Uma objeção a essa premissa seria a de que nós podemos pegar uma distancia entre o ponto A e o ponto B e dividir infinitamente (Eu chamo essa objeção de “Argumento Culpa das Estrelas”). Esse é o chamado Paradoxo de Zenão. De acordo com tal paradoxo, Aquiles teria que atravessar um estádio. Mas, antes de conseguir atravessar o estádio, ele teria que passar pela metade do estádio. E antes disso, pela metade da metade do estádio. E assim por diante. Dessa forma, Aquiles teria uma distancia infinita para atravessar e, portanto, jamais sairia do lugar.
Apesar de lógico, tal paradoxo nos leva a uma impossibilidade lógica. Isso seria incoerente por afirmar que um infinito tem um começo (A) e um fim (B). De fato, uma outra conseqüência bizarra que veríamos é a de que poderíamos alinhas as “metades” com as “metades das metades” uma após a outra e conseguir uma distância infinitamente maior do que a original.
A conclusão inicial do paradoxo de Zenão, porem, parece contrariar-nos em nossa experiência comum. Obviamente, nós teríamos o mesmo problema que Aquiles em qualquer distância. Porem, e aqui vai o ponto chave, nós ainda assim conseguimos nos mover. E isso é inegável! Enquanto digito, se considerarmos o paradoxo de Zenão para a distância entre meus dedos e o teclado, existe uma distância infinita, mas ainda assim eu consigo digitar.
Podem tentar argumentar contra essa premissa dizendo que eventos no passado não existem mais e, portanto, não se acumulam em um infinito real. Porém, certamente esses eventos poderiam ser acumulados em indicações de eventos reais. Por exemplo, em algum momento no passado, George Washington foi presidente. Em algum momento do passado, dinossauros existiram. Ambos esses eventos ocorreram no passado e podem ser contados atualmente. Então, um numero de eventos infinitos no passado não pode existir, pois eles poderiam ser “apontados” atualmente como infinitos.

Conclusão – Portanto, um regresso temporal infinito te eventos físicos não existe.

Outro argumento que pode ser feito é o seguinte:

Premissa 1 – A série temporal de eventos físicos é um conjunto formado por adição sucessiva.

Premissa 2 – O conjunto formado pela adição sucessiva não pode ser um infinito real.

A razão é simples: Suponha que você vá pedir seu salário a seu chefe. Então, ele pede ao chefe dele. E o chefe dele ao chefe dele. E suponha que isso aconteça infinitamente, com um numero infinito de chefes. Agora, se cada chefe tem que pedir ao chefe, então nunca nenhum daria a permissão ao seu chefe para lhe dar seu salário.
Aplicando isso ao tempo: o momento atual depende do evento anterior, que depende do anterior, que depende do anterior, e assim por diante. Agora, se houve um numero infinito de eventos anteriores, então o momento atual jamais chegaria.

Conclusão – Portanto, a serie temporal de eventos físicos não pode ser um infinito.

Uma forma de desviar dessa conclusão é dizendo que o argumento pressupõe uma teoria do tempo flexível (teoria do tempo dinâmico ou temporal ou Teoria-A do tempo).
Na teoria-A, o passado não existe mais, o presente existe e o futuro ainda vai existir. Na teoria-B (ou teoria não-flexível ou estática ou atemporal), o passado, presente e futuro existem igualmente. Porem, nós podemos formular o raciocínio de forma que funcione na teoria-B também. Simplesmente trocando “tempo” por “causalidade”. Mesmo se, no futuro a ciência descobrir que o tempo não existe (como sugere a teoria do tempo-B), a causalidade ainda deve existir. Usando um exemplo de Immanuel Kant: Suponha que uma bola esteja sobre uma almofada, causando a “depressão” nela. Ao mesmo tempo em que a bola afunda, ela cria a causa e o efeito, mesmo que seja por toda a eternidade. Sendo assim, a existência dessa “depressão” depende da bola. Se não houvesse a bola, não existiria esse afundamento na almofada.
Aplicando isso a teoria-B do tempo, os eventos do passado, presente e futuro igualmente existem, mas cada momento dependo um do outro, mesmo se o passar do tempo objetivo não existir. Então, mesmo na teoria-B, cada momento depende de um momento anterior. Nenhum momento existe por si só. Dessa forma, se pegarmos um momento X do tempo, podemos ver o absurdo de um passado eterno. O momento X existe dependendo do momento X-1 para causá-lo, assim como o momento X-1 existe dependendo do momento X-2, e assim por diante. Agora, se os eventos existentes dependem do anterior,  e antes do momento X existe um numero infinito de momentos, então o momento X nunca teria uma chance de existir. Ele nunca viria a existir.
Para ilustrar esse ponto, imagine uma corrente em que cada parte dela é um momento do tempo, e essa corrente esta presa a dois postes, de forma que ela não toca o chão. Agora, ela só esta "levantada" pois esta sendo puxada causalmente dos dois lados. Mas, se o numero de partes da corrente for infinito, então ela nunca se levantará, e a corrente ficará no chão. Assim, as partes X da corrente nunca são causadas a ficarem levantadas. Similarmente, sem um inicio do tempo, os momentos do tempo não são causados a existir.
Uma outra formulação que poderia ser feita, é que mesmo se o passar do tempo for ilusório, a ilusão de tempo atual teria que passar por um numero infinito de ilusões, nunca chegando a atual.

Uma defesa da Teoria do Tempo Dinâmico (Teoria-A)

Tempo deve ser definido como “aquilo que impede que tudo aconteça ao mesmo tempo”. Enquanto na teoria-A o tempo verdadeiramente existe, na teoria-B o tempo passando é apenas uma ilusão de nossa consciência.
Se existem fatos temporais, então o tempo deve ser flexível. Quer dizer, se eu disser “eu nasci em 1991”, eu quero dizer que eu “ter nascido” é um fato que ocorreu no passado. Não faria sentido nenhum eu dizer que “Eu tenho nascido em 1991”. Apenas em uma teoria do tempo flexível essas afirmações fazem algum sentido na realidade. Se eu disser “o encontro é ao meio dia”, eu estou expressando um fato temporal. Mas não posso dizer “eu estou te encontrando ao meio dia”, se não for meio dia e o encontro já tiver passado ou ainda não tiver chegado. Podemos argumentar então:

Premissa 1 – Sentenças temporais aparentemente expressam fatos temporais

Premissa 2 – A aparente expressão de fatos temporais por sentenças temporais deveriam ser aceitas como regras, a menos que (a) sentenças temporais sejam mostradas como traduzíveis em sentenças atemporais sem nenhuma perda de sentido ou (b) fatos temporais sejam mostrados como desnecessários para a verdade de sentenças temporais.

Premissa 3 – Sentenças temporais não foram mostradas como traduzíveis em sentenças atemporais sem perda de sentido.

Premissa 4 – Fatos temporais não foram mostradas como desnecessárias para a verdade de sentenças temporais.

Conclusão – Portanto, a aparente expressão de fatos temporais em sentenças temporais deveria ser aceita como correta.

Há também como argumentar para a teoria-A mostrando que ela é a nossa percepção normal do tempo, sendo assim, não deve haver razão para desacreditar nela. Isso é chamado de Crença Própria Básica Adequada. Dessa forma argumentamos:

Premissa 1 – Crer na realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro é uma crença básica adequada.

Premissa 2 – Se a nossa crença na realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro é basicamente adequada, então nós estamos justificados prima facie em manter essa crença.

Conclusão – Portanto, nós estamos justificados prima facie em manter a crença da realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro.

Suponha também que você tenha que fazer um exame desagradável. Quando esse evento acabar, você diria “que bom que esse momento acabou!”. Mas o teorista-B teria que dizer algo completamente sem sentido, como “que bom que a conclusão dessa consulta é simultânea com ela!”
O teorista-B pode dizer que sua teoria é suportada pela Teoria da Relatividade Especial de Einstein. Porem, a Relatividade Especial possui três interpretações: A Einsteiniana, a Minkowskiana e a Lorenziana. As duas primeiras são a favor da teoria-B, enquanto a Lorenziana favorece a teoria-A, onde o tempo passa de verdade. Todas as interpretações são empiricamente equivalentes, e não há razão para se favorecer uma à outra. Só podemos analisa-las do ponto de vista filosófico.
Pensemos também: Na teoria-B, o passar do tempo é ilusório. Mas essas ilusões, existem atemporalmente também? Sem ligação com o mundo externo? Dessa forma, o teorista-A pode dizer:

Premissa 1 – O passar do tempo de eventos mentais é ou dependente da mente ou não.

Premissa 2 – Se não for, o passar do tempo é real e objetivo.

Na premissa 2, se o passar do tempo de eventos mentais não dependem da mente, então o passar do tempo se torna real. Porque nos teríamos apenas o conhecimento do “agora”? Se minha consciência do passado e do futuro existem, então por que estou confinado “aqui”?

Premissa 3 – Se for, o passar do tempo ainda é real e objetivo.

Não seria o caso de até mesmo ilusões do tempo requererem o tempo passando? Aqui o teorista-B entra em um dilema:  Por um lado, ele tem que aceitar que experiências mentais são temporais, o que faria ele ter que aceitar fatos temporais. Por outro lado, ele tem que aceitar que a consciência é atemporal e o passar do tempo é ilusório. O que é auto-refutavel.

Conclusão – Portanto, o passar do tempo é real.

Me parece então que a Teoria-A do tempo é a mais plausível, e que o passar do tempo é algo real.

Evidência cientifica para a origem do universo

Em 1916, Albert Einstein estava fazendo seus cálculos da Teoria da Relatividade Geral. Ele não estava gostando muito de onde estava chegando, seus cálculos o diziam que o universo tinha tido um inicio. Na verdade, para “desviar” dessa conclusão, Einstein colocou uma constante cosmológica em seus cálculos para que pudesse mostrar que o universo era estático.
Mais tarde, em 1919, seu “disfarce” foi descoberto, quando o cosmólogo Arthur Eddington fez um experimento durante um eclipse solar que confirmou a teoria da relatividade.
Pouco tempo depois, em 1922, o matemático Alexander Friedmann expôs o “disfarce”: Einstein havia feito uma divisão por zero (sim, isso mesmo). Friedmann e o astrônomo Georges Lamaître (que também era um padre), utilizando os cálculos de Einstein conseguiram mostrar, de forma independente um do outro, que o universo não poderia ser eterno, mas que estava expandindo.
Em 1929, o astrônomo Edwin Hubble observou do Observatório do Monte Wilson que as luzes das galáxias distantes estavam ficando vermelhas, que indicava que as galáxias estavam se afastando. Esse deslocamento para o vermelho foi interpretado como efeito Doppler, onde fontes de luz recuavam da linha de visão. De acordo com a teoria, as galáxias estão em repouso, mas se afastando umas das outras por causa da expansão do espaço.
Ainda em 1948, foi predito por três cientistas que, se o Big Bang realmente tivesse acontecido, deveriam ser capazes de detectar uma radiação. Foi em 1965 que Arno Penzias e Robert Wilson detectaram por acidente uma radiação misteriosa na antena do Laboratório Bell. Não importava para onde eles apontavam, a radiação permanecia. Aquilo que eles haviam descoberto é conhecido como a radiação cósmica de fundo, um brilho avermelhado que era a luz e o calor da explosão inicial. A luz não pode mais ser detectada, mas o calor sim. Um ano depois dessa descoberta, Georges Lamaître faleceu, mas havia recebido com alegria a descoberta de Penzias e Wilson que confirmava a sua teoria.
Se revertermos a expansão do universo, chegaríamos a um estado de densidade infinita. Esse estado aponta para uma singularidade, onde há uma fronteira de tempo-espaço. Paul Davis expressa dessa forma:

“Se extrapolarmos essa projeção ao extremo, chegamos a um ponto em que todas as distâncias do universo serão reduzidas a zero. Portanto, uma singularidade cosmológica inicial forma uma extremidade temporal passada do universo. Não é possível prosseguir com o raciocínio físico, ou mesmo com o conceito de espaço-tempo, através de tal extremidade. Por isso, a maior parte dos cosmólogos toma a singularidade inicial como o inicio do universo. Nessa perspectiva, o Big Bang representa o evento da criação; a criação não só de toda a matéria e de toda a energia do universo, mas do próprio espaço-tempo.” (Paul. Davis, “Spacetime singularities in cosmology”, em “The Study of Time”, pp. 78-79)

Esse é o modelo Friedmann-Lamaître (ou modelo do Big Bang, ou modelo padrão). Ele nos diz que o universo teve um inicio absoluto a partir do nada. Como John Barrow e Frank Tipler colocam:

“Nessa singularidade, o espaço e o tempo começaram a existir. Não havia literalmente coisa alguma antes da singularidade; portanto, se o universo teve origem em tal singularidade, teríamos então uma criação ex nihilo.” (John Barrow e Frank Tipler, “The Anthropic Cosmological Principle”, p. 442)

Embora saibamos que o universo esta em expansão e que ela nos diz que no inicio deve ter havido uma singularidade, existem pequenas coisas que não sabemos. Por exemplo, o porque da ausência de monopolos magnéticos, ou o chamado problema do horizonte, etc. Porem, apelar para esses mistérios para invalidar a teoria seria cometer a Falácia do Mistério Não-Resolvido. Quer dizer, apelar para coisas que a teoria não explica e que não sabemos para invalidar toda ela, o que simplesmente é falacioso.
Alem disso, mesmo os cientistas mais céticos que detestam a idéia de um universo com um começo não apelam para esses mistérios para invalidar o Big Bang, o que tornam esses argumentos falhos e não-convincentes.
Varias teorias foram criadas para tentar demonstrar que o universo tem o passado eterno, como Modelos oscilantes, modelos de flutuação no vácuo, modelos inflacionários, entre outros. Mas nenhum deles teve sucesso.
Em 2003, Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin conseguiram demonstrar que qualquer universo em expansão cósmica como o nosso não pode ter o passado eterno, mas deve ter tido um inicio em uma fronteira do espaço-tempo. O teorema deles implica que até mesmo um possível Multiverso teve um inicio.
De acordo com o físico James Sinclair, "o teorema da singularidade Borde-Vilenkin-Guth (BVG) agora é amplamente aceito dentro da comunidade da física." (W. L. Craig e James Sinclair, “The Kalam Cosmological Argument”, em W. L. Craig e J. P. Moreland, “The Blackwell Companion to Natural Theology”, p. 142)
Em 2006, Vilenkin declarou:

“Dizem que um argumento convence pessoas racionais e uma prova convence até mesmo pessoas irracionais. Com a prova agora em seu devido lugar, os cosmólogos não podem mais se esconder atrás da possibilidade de um universo com passado eterno. Não há escapatória: eles têm que encarar o problema de um nascimento cósmico.” (Alexander Vilenkin, “Many Worlds in One”, p. 176)

Em 2012, Stephen Hawking declarou:

“Um ponto de criação seria um ponto onde a ciência quebraria. Teríamos que apelas para a religião e a mão de Deus” (Lisa Grossman, "Why physicists can't avoid a creation event", New Scientist”, 11 de Janeiro de 2012, http://www.newscientist.com/article/mg21328474.400-why-physicists-cant-avoid-a-creation-event.html)

No mesmo dia, Vilenkin avaliou novas teorias que tentavam invalidar a origem do universo, onde ele concluiu:

“Nenhum desses cenários pode ser eterno no passado.” (Did the Universe have a Beginning? Alexander Vilenkin, https://www.youtube.com/watch?v=NXCQelhKJ7A)

“Todas as evidencias que temos dizem que o universo teve um inicio” (Lisa Grossman, Idem)

Alguns podem vir a responder a esse argumento dizendo que por que não temos ainda uma teoria completa de gravidade quântica, não podemos dizer com toda a certeza que o universo teve um inicio. Mas, o teorema BGV é independente de qualquer descrição do inicio do universo. Como Vilenkin diz:

Algo marcante sobre esse teorema é sua generalidade arrebatadora. Nós não fizemos suposições sobre o conteúdo material do universo. Nós nem ao menos assumimos que a gravidade é descrita pelas equações de Einstein. Então, se a gravidade de Einstein necessitar alguma modificação, nossa conclusão ainda vai se manter. A única suposição que fizemos foi a de que a taxa de expansão do universo nunca fica abaixo do valor não-zero, não importa o quão pequeno. Essa suposição certamente se satisfazer no falso vácuo inflando. A conclusão é a de que a inflação com o passado eterno sem um inicio é impossível (Alexander Vilenkin, “Many Worlds in One”, p. 175)

Christopher Isham observou que as cosmologias quânticas podem “divergir em seus detalhes [mas] todas elas concordam na ideia de que o espaço e o tempo emergiram de alguma forma de uma região puramente quantum-mecânica que pode ser descrita de alguma forma como se fosse um espaço clássico com tempo imaginário” (Christopher J. Isham, “Quantum Theories of the Creation of the Universe,” em Quantum Cosmology and the Laws of Nature, ed. Robert J. Russell, p. 75) Dado o fato de que tal região esta em constante fluxo, implicando mutabilidade, então deve haver algum tipo de tempo em tal região. Mas, se há tempo, dada a instabilidade do vácuo quântico, é incompreensível como tal estado poderia ter durado pela eternidade e simplesmente, de repente, mudado para o espaço-tempo clássico. Note que, como disse Isham, todos os modelos cosmogônicos concordam que o espaço-tempo clássico emergiu de uma era anterior descrita pela mecanica quântica. Mas, Anthony Aguirre e John Kehayias argumentaram, ao analisar um especifico modelo de universo emergente, que a conclusão de sua instabilidade é generalizável. Eles dizem:

“Apesar de nós termos analisado apenas uma versão do Universo Emergente, nós argumentaríamos que nossa analise esta apontando para um problema mais geral: É muito difícil imaginar um sistema – especialmente um quântico – que não faz nada ‘para sempre’, e então evolui. Um estado quântico periódico ou verdadeiramente estacionário, que duraria para sempre, nunca evoluiria, enquanto um com qualquer instabilidade não iria durar por um tempo indefinido.” (Anthony Aguirre e John Kehayias, Quantum Instability of the Emergent Universe, http://arxiv.org/pdf/1306.3232v2.pdf, p. 5)

Em 2015, Vilenkin concluiu que o teorema BGV realmente não deixa espaço para qualquer modelo de universo eterno:

"Nós não temos nenhum modelo viável de universo eterno. O Teorema BGV nos da razões para crer que tais modelos simplesmente não podem ser construídos." (Alexander Vilenkin, "The Beginning of the Universe", http://inference-review.com/article/the-beginning-of-the-universe)

Uma outra evidencia que temos vem da segunda lei da termodinâmica. De acordo com a segunda lei da termodinâmica, a entropia (nível de desordem) em um sistema fechado nunca diminui, mas tendem sempre a ir à um estado de equilíbrio.
Assumindo que o universo seja um sistema fechado, ao aplicarmos a segunda lei a ele vemos que quando o universo chegar a um estado de equilíbrio ele chegará a um estado de morte quente. Mas então uma pergunta inevitável aparece: Se o universo é eterno, então por que ele não esta agora nesse estado de equilíbrio, em estado morto? Alguém pode tentar desviar dessa conclusão dizendo que, como o universo vai expandir para sempre, então ele nunca chegará a esse estado de equilibro, já que sempre haverá mais espaço para a desordem. Porem, quanto mais o universo expande, mais ele gasta energia, até chegar a um estado de morte gelada, expandindo na escuridão eterna. Então a pergunta permanece: Se o universo tem o passado eterno, por que não é agora que ele esta nesse estado de morte fria e escura?
Sendo uma morte quente ou fria, a pergunta permanece. O físico Paul Davis conclui:

“O universo não pode ter existido para sempre. Nós sabemos que deve ter tido um inicio absoluto a um tempo finito atrás” (Paul Davies, “The Big Questions: In the Beginning”, ABC Science Online, entrevista com Phillip Adams, http://www.abc.net.au/science/bigquestions/s460625.htm)

Podem tentar desviar dessa conclusão esperando que uma teoria de Gravidade Quântica restabeleça a eternidade do universo. Mas, em 2013, o físico Aron Wall desenvolveu um novo teorema, que nos diz que até mesmo essa era quântica deve ter tido um inicio. Wall nos diz que, dada a Segunda Lei da Termodinâmica Generalizada, o universo provavelmente começou a existir. Ele diz:

“Há uma possibilidade racional de que o teorema da singularidade de Penrose pode ser provado até mesmo no contexto completo da gravidade quântica. […] O argumento da mecânica estática para um inicio do tempo, com base no fato de que a entropia diminui quando se vai para o passado, também foi generalizado para um argumento da SLG. Junto com o teorema da singularidade, isso nos leva a um argumento prima facie de que o tempo teve um verdadeiro inicio no Big Bang a 13.7 bilhões de anos atras.” (Aron C. Wall, “The Generalized Second Law implies a Quantum Singularity Theorem,” arXiv: 1010.5513v3 [gr-qc] - http://arxiv.org/abs/1010.5513v3 , p. 37-38)

Ele nos diz que, como o teorema dele usa coisas bem básicas da física quântica, então os resultados devem se manter até mesmo com uma teoria da Gravidade Quântica completa. Sendo assim, o universo deve ter começado a existir, e, como ele diz, um inicio no tempo “levantaria o mesmo tipo de perguntas filosóficas que qualquer outro tipo de inicio no tempo levantaria” [Idem , p. 38]
No debate de William Lane Craig com o físico Sean Carroll, Carroll argumentou que existe um teorema que mostra que o universo é eterno, chamado Quantum Eternity Theorem (QET), que diz que, obedecendo as equações de Schrödinger, o universo pode ir de “-infinito” para “+infinito”. No entanto, o físico Dr. Aron Wall responde dizendo o seguinte:

“É um pouco bombástico Carrol se referir a isso como um ‘teorema’, já que é apenas uma reafirmação elementar de um dos princípios mais básicos da mecânica quântica. […] Você ainda pode imaginar que Deus miraculosamente criou o universo em um momento t=0, e que as leis da física apenas se aplicam após esse momento. Então, a física atual não teria nada para falar sobre um Começo real, mas apenas o que acontece após isso.” (Aron Wall, “Did the Universe Begin? IV: Quantum Eternity Theorem” - http://www.wall.org/~aron/blog/did-the-universe-begin-iv-quantum-eternity-theorem/; traduzido em "O Teorema da Eternidade Quântica", http://olharunificado.blogspot.com.br/2014/09/o-teorema-da-eternidade-quantica.html)

Carroll disse que se tivermos um universo que obedece as leis convencionais da mecânica quântica, tem energia não-zero e as leis da física são elas mesmas e não mudam com o tempo, então o universo é necessariamente eterno. Wall responde:

“O que Carroll se esqueceu de dizer durante esse debate, é que há muitas razões para se crer que a energia do universo é zero.”
“Na verdade, é complicado fazer um conceito preciso de ‘energia’ na Relatividade Geral. A razão é que a energia é definida em relação a como as coisas mudam com o tempo, e tempo é um conceito bastante escorregadio na Relatividade Geral. Não há apenas uma noção de tempo, mas qualquer escolha de cordenada ’t’ que você escolher é igualmente valida. Se não há um conceito de tempo bem definido, então não há um conceito bem definido de energia, e o QET não se aplica.” (idem)

E ele conclui:

“Na cosmologia fechada, a energia é zero, e em uma cosmologia aberta ela pode nem ao menos ser definida. Então, o apelo de Carroll para o QET provavelmente não faz sentido.” (idem)

Conclusão – Portanto, o universo teve uma causa


Dadas as circunstancias anteriores ao Big Bang, essa causa criou:
- Tempo
- Espaço
- Matéria
- Natureza em geral

Portanto, deve ser:
- Atemporal
- Não-espacial
- Imaterial
- Sobrenatural

Sendo assim uma causa transcendente, que transcende tempo, espaço e matéria. Já que o universo é uma realidade contingente, e o numero de causas contingentes não pode ser infinito, então essa primeira causa deve ser Necessária. O mesmo motivo deve ser dado para o fato dela ser uma causa não-causada. Já que o numero de causas não pode ser infinito, então essa primeira causa é não-causada. Já que mudanças exigem tempo e matéria, essa causa deve ser imutável também. Já que criou o universo a partir de absolutamente nada, ela deve ser imensamente poderosa.
Essa causa também deve ser um agente pessoal, que pode livremente escolher criar um novo efeito. Cinco motivos podem ser dados para isso:
Primeiro, existem dois tipos de explicações: As cientificas e as pessoais. As explicações cientificas são aquelas que podem ser explicadas por Leis da Natureza ou por condições iniciais. As pessoais, são aquelas que requerem um agente para causa-las. Já que essa causa, como sendo a primeira, criou as leis da natureza e, por ser a primeira, não depende de condições iniciais, então ela plausivelmente é uma explicação pessoal.
Segundo, como algo imaterial e atemporal, então nós podemos reduzir o numero de candidatos a apenas dois: um objeto abstrato ou uma mente sem corpo. Já que objetos abstratos não se mantem em relações causais, então a primeira causa deve ser uma mente pessoal.
Terceiro, como você pode ter uma causa permanente com as condições para criar o universo, mas com um efeito com um inicio? Livre arbítrio. A causa tem que ter a habilidade de fazer uma escolha. Um homem que esta sentado pela eternidade pode livremente escolher se levantar. Mas se ele não tem livre arbítrio para fazer essa escolha, então ele nunca vai se levantar, a menos que já esteja em pé pela eternidade. Similarmente, para o universo começar a existir em momento X, a causa tem que ter escolhido criar o universo.
Quarto, como sendo um evento de extrema precisão, finamente ajustado, essa causa, plausivelmente deve ser um ser inteligente, capaz de criar um universo finamente ajustado para manter sua estrutura e para o eventual aparecimento de vida.
Quinto, como o universo possui informação matemática em toda a parte, e informações apenas podem vir de mentes, então a melhor conclusão é a de que uma mente inteligente, capaz de produzir informação, deve ser a causa do universo. Nestes últimos cinco argumentos, apontamos que a causa deve ser um Agente, uma Mente, uma Pessoa Inteligente.
Uma objeção ao argumento, é que causas devem preceder o efeito no tempo, e sem a existência de tempo, uma causa atemporal não poderia criar o universo. Mas por que causas não podem ser simultâneas? Se eu dou um murro no vidro, eu bato nele ao mesmo tempo em que quebro. Se eu sento no sofá, eu deixo a almofada “baixa” ao mesmo tempo em que me sento.
Mas e o processo de me deitar ou de dar um murro, requer tempo? Sim, mas, usando outro exemplo, se eu estou com os dedos em posição pra estalá-los pela eternidade, então o movimento é mínimo, e assim que eu começo a me mover eu causo o efeito. No caso de Deus, Ele poderia simplesmente começar a contar pra criar o tempo.
O filosofo ateu Quentin Smith tenta responder ao argumento dizendo que ele só leva a uma causa misteriosa em um passado distante, mas não estabelece o presente dessa causa. Porem, é plausível que essa causa ainda exista hoje, pois transcende o universo e esta acima das leis da natureza que ela criou. É improvável que algo nas leis da natureza pudessem extinguir essa causa.
Em suma, o Argumento Cosmológico Kalam nos leva à conclusão de que deve haver uma Causa:
Não-causada
Atemporal
Imaterial
Não-espacial
Sobrenatural
Necessária
Imutável
Gigantescamente poderosa
Pessoal e Inteligente...

Que é o que todo mundo chama de Deus. 

Fontes


William Lane Craig, Apologética Contemporânea
_____ e James Sinclair, “The Kalam Cosmológical Argument” em The Blackwell Companion to Natural Theology
Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu
David Albert, New York Times, “On the Origin of Everything ‘A Universe From Nothing,’ by Lawrence M. Krauss”, http://www.nytimes.com/2012/03/25/books/review/a-universe-from-nothing-by-lawrence-m-krauss.html?_r=0
Allen Hainline, Cross Examined: Much ado for Nothing, http://crossexamined.org/much-ado-nothing/
Aron C. Wall, “The Generalized Second Law implies a Quantum Singularity Theorem,” arXiv: 1010.5513v3 [gr-qc] - http://arxiv.org/abs/1010.5513v3 , p. 37-38
_____, “Did the Universe Begin? IV: Quantum Eternity Theorem” - http://www.wall.org/~aron/blog/did-the-universe-begin-iv-quantum-eternity-theorem/
Inspiring Philosophy, A Universe from Nothing, Therefore God Exists!, https://www.youtube.com/watch?v=_ie9musGEqQ 

Um comentário:

  1. Maravilhoso. Estou publicando a Teoria de Fran De Aquino em vídeo, várias partes, e gostaria de publicar este texto com a devida permissão e créditos autorais. Permite?
    Meu canal YouTube: Eliel da Silva:

    https://www.youtube.com/channel/UCMoH5LhibQOwwGVlMJrQQFA

    Grande abraço.

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