sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Universo teve um começo? #1 - Razões filosóficas para um inicio.


A primeira serie que eu pretendo trazer para o blog avaliara se o universo teve ou não um começo. Quero dizer antes que, cientificamente falando, não se sabe realmente se o universo teve um começo. O que se sabe é que o espaço-tempo clássico quase com certeza teve um inicio, mas chega um ponto que ninguém sabe nada do que aconteceu. Isso por causa da falta de uma teoria da gravidade quântica completa. Portanto, qualquer afirmação sobre o universo ter um inicio é apenas especulativo.
Eu também falarei de argumentos filosóficos para o inicio do universo (isso que, alias, será o tema deste primeiro texto) e suas implicações, junto com uma opinião pessoal.
Argumento de Al-Ghazali para o inicio do universo

Al-Ghazali foi um teólogo muçulmano antigo que desenvolveu o que é conhecido hoje como “O Argumento Cosmológico Kalam” (rebatizado assim por William Lane Craig). Ele desenvolveu uma serie de argumentos para a finitude do passado.
Não vou comentar sobre a impossibilidade de um infinito real de coisas, mas apenas sobre um tempo com passado infinito e suas implicações.
O argumento de Al-Ghazali para o inicio do tempo diz que o tempo avança por adicionar um “evento temporal” depois do outro. Seriam como peças de dominó, que vão sendo derrubadas uma após a outra. O ultimo dominó seria o evento atual. Ele dizia, porem, que você não pode ter uma serie infinita de dominós, ou momentos de tempo, já que não seria possível passar por essa serie infinita de dominós e chegar ao momento atual. Outra forma de ver isso é tentando contar até infinito: 0, 1, 2, 3... você pode contar até 1000, mas ainda faltará um numero infinito de segundos para chegar ao infinito. Similarmente, se o universo tem seu tempo de -infinito até +infinito, a contagem nunca chegaria ao segundo atual. Pois passaria por uma seria infinita de segundos: -infinito1, -infinito2, -infinito3... Quando se chegaria ao 0, ou o momento atual? Nunca.
Al-Ghazali ainda dava mais exemplos de absurdos causados por um passado infinito. Por exemplo, se para cada volta que Saturno da em volta do Sol, Júpiter da duas. Quanto mais voltas Júpiter der, mais pra trás Saturno fica. Se continuarem a dar voltar pela eternidade, ambos chegam ao limite, onde Saturno vai estar infinitamente atrás de Júpiter. Obviamente, esses dois nunca chegarão a esse limite.
Suponha agora que que os dois estão dando voltar desde a eternidade. Qual tem mais voltas completas? Ora, ambas tem infinitas voltas! Mas, pense bem: Como o numero de voltas é igual, se a cada volta elas devem estar uma mais distante da outra?
Outro exemplo: Suponha que alguém esteja contando desde a eternidade e esta quase acabando: ...-3, -2, -1, 0! Agora se pergunte: Por que essa pessoa acabou hoje? Por que não ontem ou anteontem? Em qualquer ponto do passado já teriam passado um numero infinito de segundos.
Esses exemplos mostram é um passado infinito é impossível, e que deve ter havido um começo de tudo.

Confusões com o infinito

Há alguns mal entendidos quando dizemos que algo é “infinito”:
Infinito Real – É algo que já é infinito.
Infinito Potencial – Tem o potencial para ir até o infinito, mas nunca chegará. Você pode ir adicionando coisas até o infinito, mas nunca chegará ao infinito.
Uma confusão feita entre esses dois normalmente é no exemplo de divisão: Você pode dividir uma linha infinitas vezes, mas ela nunca chegará ao infinito. Esse não é um infinito real, mas sim um infinito potencial.

Considerações teológicas

Esse argumento funcionaria tanto para o universo como para um possível multiverso. Ele se aplica até mesmo a Deus, se Ele for temporal. Então, isso significa que Deus não é eterno?
Alguns filósofos são a favor do modelo de que Deus é “onitemporal”, que quer dizer que ele passa por todo o tempo transcendendo-o. Eu não sou a favor desse modelo, não acho ele muito coerente, já que uma implicação desse argumento seria o inicio absoluto do tempo, logo, chegaria um ponto onde Deus não o teria para “transcende-lo”.
Outros adotam que Deus é apenas atemporal. Eu também não vejo essa como uma boa opção, já que, se Ele fosse atemporal, não poderia agir no tempo.
Uma possível solução a esse problema seria usar o modelo de que Deus é atemporal antes da criação e temporal após a criação. Esse me parece o modelo mais racional.

Considerações filosóficas

O sucesso de argumentos filosóficos vai depender de qual teoria do tempo você é a favor. Atualmente, existem duas teorias do tempo “em jogo”: A teoria dinâmica (ou Teoria-A) e a teoria estática (Teoria-B).
A Teoria-A nos diz que apenas o presente é real. O passado já deixou de existir e o futuro ainda não existe. Essa é a nossa percepção normal.
A Teoria-B diz que todos os momentos do tempo são igualmente reais e que nossa percepção de tempo passando é mera ilusão. Nessa teoria, o universo começando a existir é apenas como um rolo de filme que tem o primeiro quadro.
Al-Ghazali certamente via o tempo como na Teoria-A, então é de se esperar que esse só funcione se esta for a verdadeira teoria do tempo. (falarei mais disso em outro texto)

Objeção

“Podemos chegar ao presente a partir de qualquer momento!”

A objeção nos diz que podemos chegar ao presente, contando de qualquer momento no passado. Por exemplo -3, -2, -1, 0 chegou ao “presente” (0) contando a partir do momento -3. Poderíamos começar do -1000, mas uma hora chegaríamos ao 0. Então, a distancia finita de qualquer momento até o presente pode ser passada.
Essa objeção comete a “falácia da composição”. Ela confunde algo relacionado a uma parte com o todo. Por exemplo, cada parte de um elefante é leve, mas o elefante todo é pesado. Então, só porque podemos contar cada parte finita de uma seqüência de eventos, isso não significa que o tempo ao todo pode ser contado.

Conclusão

O argumento para a finitude do passado é algo a se pensar. Eu não diria que ele é “conclusivo”, mas tem certo poder. Ele, claro, também depende de qual teoria do tempo for verdade. (Vou falar sobre as teorias do tempo em outro post. Por hora, aviso que eu sou a favor da Teoria-A, mas também considero a Teoria-B).

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